Os cinquenta anos do Golpe de 1964, ao lado das investigações da Comissão Nacional da Verdade e das comissões e comitês regionais e locais, impulsionaram uma série de estudos e reflexões sobre a ditadura civil-militar brasileira e sua relação com outros regimes autoritários estabelecidos no Cone Sul durante a década de 1970. Apesar do boom da produção sobre ditadura no Brasil, observa-se, contudo, um silenciamento de estudos que se dediquem à análise do papel dos trabalhadores, suas organizações e dos mundos do trabalho em geral neste período. Vale lembrar que, no início dos anos 1960, os trabalhadores assumiram um significativo protagonismo na esfera pública, mobilizando sindicatos, partidos políticos, associações de moradores, movimentos religiosos progressistas e outras formas de associação, como clubes de bairros e grêmios culturais. No campo e na cidade os trabalhadores estiveram no centro dos principais debates políticos nacionais, engajados na luta por direitos.

Do ponto de vista da produção historiográfica, de um lado, a classe trabalhadora tem recebido uma atenção aquém de sua importância histórica no interior do campo de estudos sobre a ditadura civil-militar brasileira. De outra parte, a História Social do Trabalho apenas mais recentemente parece estar se voltando para o exame das experiências no mundo do trabalho no período entre 1964 e 1978, rompendo com certa tradição interessada unicamente nas experiências do chamado “novo sindicalismo”.

Diversos estudos vêm comprovar que, imediatamente após a instalação dos regimes autoritários no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, as classes trabalhadoras destes países tiveram inúmeros direitos violados, pela ação de agentes do Estado e das classes empresariais. São abundantes os exemplos de perseguição e repressão impostas aos trabalhadores(as), que vão desde a invasão das sedes de seus sindicatos, a depredação de seu patrimônio físico, a destruição da documentação da entidade sindical, no imediato pós-Golpe, até a cassação, prisão, tortura, morte e desaparecimento de todos aqueles considerados subversivos, que atravessaram todos os regimes. No campo, um número ainda não calculado de trabalhadores rurais foi expulso de suas terras e muitos foram mortos. Uma política econômica antitrabalhista proibiu greves, comprimiu salários, acabou com a estabilidade no emprego, facilitando demissões e a rotatividade da mão de obra. O deliberado enfraquecimento dos sindicatos facilitou em muito a superexploração dos trabalhadores, uma das marcas dos regimes autoritários, elevando o número de acidentes e mortes nos locais de trabalho. Os governos militares, aliados aos empresários, violaram sistematicamente direitos fundamentais garantidos a todo cidadão, como o direito de expressão, de manifestação, de ir e vir, bem como o direito à integridade física e à vida.

Países como Argentina e Chile vêm enfrentando há mais tempo estas e outras questões que afetaram diretamente os mundos do trabalho. Diante desta trajetória um pouco mais longa, sua produção acadêmica pode indicar caminhos a serem seguidos no desenvolvimento dos estudos que visam abrir um diálogo entre trabalho e ditaduras. Guardadas as peculiaridades dos processos autoritários e as estratégias da classe trabalhadora em cada um desses países, observam-se experiências e ideologias em comum, bem como ações integradas no controle e repressão das Forças Armadas e das classes empresariais no Cone Sul, cujo maior exemplo foi a Operação Condor, atuante nos anos 1970 e 1980. Sendo assim, as experiências bastante próximas das ditaduras do Cone Sul devem ser compreendidas no seu conjunto, enquanto um projeto autoritário para toda a região, que teve no Paraguai e no Brasil seus laboratórios iniciais.

Por isso, visando incentivar o desenvolvimento desta linha de investigação – as experiências no mundo do trabalho e suas relações com os regimes ditatoriais – surgiu a ideia de realização do I Seminário Internacional Mundos do Trabalho e Ditaduras no Cone Sul, numa iniciativa conjunta entre o Laboratório de Estudos dos Mundos do Trabalho e Movimentos Sociais da Escola de Ciências Sociais da FGV(CPDOC/FGV), o Departamento de História da PUC-Rio e o Instituto Multisciplinar da UFRRJ. Nesse sentido, o evento tem por objetivo fundamental analisar as ações, o protagonismo e a importância da classe trabalhadora durante as ditaduras civis-militares do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, em perspectivas comparadas e transnacionais.

Desta forma, o seminário articula-se com uma série de iniciativas de trocas e intercâmbios no campo historiográfico latino-americano, o que tem resultado na formação de redes acadêmicas e em uma crescente produção conjunta expressa em seminários, conferências, coletâneas, revistas, etc. No caso específico, os debates sobre história global do trabalho em variadas instituições internacionais e, particularmente as atividades do GT Mundos do Trabalho da ANPUH e seus seminários têm sido um campo fértil de intercâmbios e construção de debates intelectuais que estão na base desta proposta. De uma forma geral, o I Seminário Internacional Mundos do Trabalho e Ditaduras no Cone Sul pretende iluminar os processos de resistência e construção de alternativas políticas, bem como avaliar os mecanismos de controle, monitoramento, perseguição e violência voltados contra os trabalhadores(as). As formas de criação de consensos e incorporação dos trabalhadores por parte dos regimes autoritários também merecerão especial atenção. Interessa igualmente analisar as transformações sociais, econômicas e cultuarias daqueles anos e seus impactos na vida cotidiana dos trabalhadores e trabalhadoras.