LMT #71: Igreja do Glorioso Patriarca São José, Rio de Janeiro (RJ) – Beatriz Catão Cruz Santos



Beatriz Catão Cruz Santos
Professora do Instituto de História da UFRJ



Quem hoje passa na Rua 1º de março em direção à Avenida Presidente Antônio Carlos pode observar à direita a Igreja de São José, um dos mais antigos templos da cidade do Rio de Janeiro. A antiga capela é de 1608, reconstruída em 1633 e o edifício atual foi concluído em 1842. A história do templo é também a da Irmandade de São José, que reunia carpinteiros, marceneiros, pedreiros e canteiros no século XVIII e inícios do século XIX. Esses ofícios, mais acessíveis a homens livres, eram também praticados por escravos e libertos.

É possível dizer que a instituição católica e leiga era uma irmandade de ofícios e não somente de devoção ao santo. A irmandade regulava a aprendizagem, a produção e o comércio de seus produtos. Com isso, garantia uma certa honra e privilégios dos irmãos, mas só dos ofícios vinculados a ela. Ela tinha apoio das autoridades, um reconhecimento que se expressava nas festas religiosas.

Em 1752, D. Antônio do Desterro, bispo do Rio de Janeiro, num relatório enviado à Santa Sé descrevia em detalhes o estado da diocese. Nele, mencionava a Freguesia de São José, onde se situava a igreja e a irmandade. A freguesia fora criada pelo mesmo em 1749, quando então a cidade passou a ter quatro paróquias: Sé, Nossa Senhora da Candelária, Santa Rita e São José.

A história dessa irmandade se confunde com a de sua congênere homônima de Lisboa. Em 1744, os artífices que administravam a irmandade do Rio de Janeiro enviaram ao reino um requerimento para fazer uso de mesmo compromisso dos carpinteiros e pedreiros de Lisboa. Solicitavam o direito de eleger seus próprios juízes.


Os juízes eram um dos principais cargos da irmandade, com poder de auto-regulação do ofício e na sociedade, de avalizar as obras e peticionar a Câmara, por exemplo.


A demanda foi parcialmente atendida e o compromisso lisboeta de 1709 foi adotado no Rio. Algumas normas sobre o trabalho dos carpinteiros, pedreiros e ofícios anexos foram questionadas pelas autoridades judiciais como, a proibição de tomar ofício alheio, a obrigatoriedade de exame do ofício e um número máximo de 2 aprendizes por mestre. Alguns pontos ainda seriam alvo de disputa entre a Irmandade de São José e a Câmara Municipal, responsável por controlar o trabalho e o comércio dos ofícios na cidade. Além disso, a irmandade não conquistou o direito de eleger seus juízes, prerrogativa pela qual continuariam a lutar nos anos seguintes.

O culto de São José se difundiu na Europa a partir de fins do século XV. Durante esse período, sua imagem foi reabilitada: de santo secundário, por vezes, o cornudo ou aquele dedicado a tarefas domésticas, tornou-se central, modelo de pai protetor e membro da Sagrada Família. Nos países ibéricos, seu culto foi difundido pela Igreja e pela monarquia, passando a nomear pessoas e instituições de caridade. Isso ocorreu com a confraria de carpinteiros e pedreiros que o adotou como patrono. A partir do século XVIII, a ideia de trabalho honesto e honroso também passaria a ser associada ao santo.

A irmandade de São José gozava de grande prestígio no Rio de Janeiro, assim como em Portugal. Em Lisboa, por sua antiguidade, tinha precedência na ordenação de Corpus Christi. Na procissão ocorrida no Rio de Janeiro em 1772 participavam 28 irmandades, organizadas em “alas” de cada freguesia, com seus estandartes e símbolos. Entre elas, com destaque, a irmandade de São José, a dos pedreiros, carpinteiros, marceneiros e canteiros, o que não excluía a presença da elite colonial na associação. A procissão de Corpus Christi era um rito político religioso obrigatório, sancionado pela própria irmandade. O rito previa a participação das autoridades leigas e religiosas, das comunidades religiosas e das irmandades, ordenando-se do menos ao mais importante socialmente.

As disputas em torno do controle do ofício eram recorrentes. Em 1758, por exemplo, a Câmara Municipal, criou uma série de normas que esvaziava o poder da irmandade e de seus juízes. A certidão do mestre para o aprendiz deixou de ser exigida; os juízes deixaram de realizar vistorias e desmanchar as obras, prerrogativas que garantiriam a qualidade das obras e excluíam os não membros da irmandade de concorrerem com produtos similares. Além disso, foi criada a possibilidade de que os aprendizes pudessem trocar de mestres, sob o argumento de ampliar a “liberdade” dos artífices.

Conflitos ocorriam entre os próprios artífices e por várias razões. No início do XIX, há petições de marceneiros e pedreiros para ingressarem na irmandade, que recupera norma de 1730 proibindo o ingresso de mulatos, mouros e judeus na irmandade e abertura de lojas. O acesso é facultado a pardos, mediante o exame de ofício, ficando impedidos de ocupar cargos administrativos. Os irmãos também reclamam dos produtos de má qualidade vendidos por ambulantes, indicando a concorrência com artífices, auxiliados por seus escravos na produção e venda pela cidade.

Os artífices da cidade do Rio de Janeiro tinham origens, status e até religiões diversas. Algumas pesquisas em curso informam que eles lutavam e circulavam na Monarquia portuguesa, em busca de melhores condições de trabalho e saúde. Mas, ainda há muito a saber sobre sua história. Atualmente, a Igreja de São José, localizada ao lado da Assembleia Legislativa, está próxima a um dos palcos das disputas políticas contemporâneas. Mas nem todos sabem que a Igreja e sua irmandade, ainda ativa, é também um lugar de memória dos pedreiros e marceneiros da cidade.

Igreja do Glorioso Patriarca São José em 2020.
Acervo de Beatriz Catão Cruz Santos.


Para saber mais:

  • MARTINS, João Furtado. Os carpinteiros na Inquisição de Lisboa no século XVIII: trabalho, sociabilidades e cultura material. Librosdelacorte.Es, n. 6, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.15366/ldc2017.9.m6.013
  • MARTINS, Monica de Souza Nunes. Entre a cruz e o capital: as corporações de ofícios no Rio de Janeiro após a chegada da família real (1808-1824). Rio de Janeiro: Garamond, 2008.
  • SANTOS, Beatriz Catão Cruz. Catolicismo, cor e governança da terra no Rio de Janeiro no século XVIII. In: João Fragoso; Antonio Carlos Jucá de Sampaio. (Org.). Monarquia Pluricontinental e a governança da terra no ultramar atlântico luso: séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012
  • SANTOS, Beatriz Catão Cruz. As irmandades de ofícios e os ritos político-religiosos (Rio de Janeiro, século XVIII). In: OLIVEIRA, Anderson José Machado de; MARTINS, William de Souza. (Org.). Dimensões do catolicismo no império português (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: Garamond, 2014.
  • BARROS, Miguel Sérgio da Costa Ferreira Monteiro de. São José, Bairro Tridentino. Universidade Nova, (Tese de Doutoramento, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), Lisboa, 2017.

Crédito da imagem de capa: Planta topográfica da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tirada e executada pelo Capitão André Vaz Figueira, Acadêmico da Aula Militar, Anno d’ 1750”. A antiga Igreja de São José está assinalada em vermelho. “Seção de Mapoteca e Iconografia do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro, sob a notação: “BR_BSBMRERJ_CAR_Map116.


MAPA INTERATIVO

Navegue pela geolocalização dos Lugares de Memória dos Trabalhadores e leia os outros artigos:


Lugares de Memória dos Trabalhadores

As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.

Paulo Fontes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Next Post

Artigo "Ferreiros, ‘escravos operários’ e metalúrgicos: trabalhadores negros e a metalurgia na cidade do Rio de Janeiro e na microrregião Sul Fluminense (Século XIX e XX)" - Thompson Clímaco e Antonio Bispo

seg mar 22 , 2021
As discussões historiográficas acerca do pós-abolição e a constituição dos mundos do trabalho fabril não são recentes no Brasil, bem como a compreensão da mão de obra escravizada, anteriormente, como trabalhadora. No entanto, novas pesquisas e abordagens visam reexaminar essas aproximações entre a classe trabalhadora oitocentista e classe trabalhadora fabril […]
%d blogueiros gostam disto: