LMT #114: Clube 24 de Agosto, Jaguarão (RS) – Fernanda Oliveira e Caiuá  Cardoso Al-Alam


Fernanda Oliveira
Professora do Departamento de História da UFRGS
Caiuá Cardoso Al-Alam
Professor do curso de História-Licenciatura da UNIPAMPA


Em 1918, famílias negras da cidade de Jaguarão, fronteira com o Uruguai, fundaram o Clube 24 de Agosto. A cidade foi espaço importante no contexto de expansão da região de fronteira do antigo Império Marítimo Português e posteriormente, do estado nacional brasileiro, demarcada por uma forte presença de trabalhadores e trabalhadoras em situação de escravidão. Até meados do século XIX, era uma cidade negra e com marcante presença africana. Sua economia estava baseada principalmente na criação de gado, ao charque e produção agrícola, com destaque na prática comercial. O Rio Jaguarão estava conectado à Lagoa Mirim, que proporcionava conexão com a Lagoa dos Patos, e por sua vez, ao Oceano Atlântico. O que fez com que o território estivesse conectado com o mundo do trabalho e a diáspora atlântica africana.

A comunidade negra de Jaguarão tinha longa tradição de organização e percorria um circuito de instituições que tinham íntima relação com a Igreja Católica. No século XIX, destacou-se principalmente por meio da Irmandade Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1860, contando com pessoas escravizadas e libertas neste processo. A Irmandade, a partir das ações mutualistas, foi importante espaço de articulação de ações coletivas para a cidadania negra no contexto da escravidão. Posteriormente, a Sociedade Operária Jaguarense, fundada em 1911, vinculada à Igreja Católica com atuação no movimento operário, congregou a participação de famílias brancas, mas também de negras, sendo uma importante associação da cidade.

Em 1918, a partir da necessidade da criação de um espaço próprio de sociabilidade e afirmação cidadã das famílias negras de Jaguarão contra a segregação, era fundado o Clube 24 de Agosto, o primeiro clube negro da cidade. Sua primeira sede foi dividida com a Sociedade Operária localizada na antiga Rua da Praia, atual Avenida 20 de Setembro. Posteriormente ficou atrás da Igreja Matriz, na Rua General Marques, e por último, construída pelas próprias pessoas da comunidade entre as décadas de 1960 e 70 na Rua Augusto Leivas 217, onde se encontra até hoje. Na cidade, ainda tivemos dois outros clubes sociais negros: o Clube Recreativo Gaúcho, fundado em 1932, e o Clube Suburbanos, fundado em 1962. Os dois já extintos. 

A circulação dos diretores do Clube 24 e a consequente articulação desta coletividade com outros espaços associativos da cidade, tanto vinculados diretamente aos trabalhadores quanto aqueles de cunho religioso e ou esportivo evidencia a centralidade do Clube na organização negra em Jaguarão. Ao observarmos as atas de diretoria e, sobretudo os jornais que versavam sobre a cidade, identificamos aqueles diretores presentes em espaços diretivos na Sociedade Operária, na Irmandade Nossa Senhora do Rosário, e em outras entidades, como os clubes de futebol.

O 24 de Agosto contou com espaço para festividades, celebrações, mas também com biblioteca, atividades de letramento, palestras, oficinas de trabalho e teatro. A partir da mobilização em torno de uma identidade racial negra positiva, lutavam por melhores condições de vida, educação e denunciavam o racismo.


No próprio carnaval, o papel do 24 de Agosto foi fundamental como é percebido na fundação de seu cordão carnavalesco, o União da Classe em 1924. Tido como o principal Cordão da cidade, vinculava sua nomenclatura à classe trabalhadora da comunidade que o conduzia, mas que tinha cor: era negra.


Isso era exaltado nas manifestações públicas de seus componentes e oradores, mas também na condução da festa do carnaval, sempre muito bem organizada, onde se opunham a uma ideia de incapacidade racial, imposta pelas teorias raciais cientifizadas na época. O carnaval se colocava para o União da Classe, e demais cordões negros na cidade, como referencial na luta por cidadania. O Clube ainda teve importância na vida política da cidade, com conexões junto ao Partido Republicano Riograndense .  Em 1952 ajudou a fundar a União dos Homens de Cor na localidade.

O Clube tinha relações com comunidades fronteiriças, como as de Melo e Rio Branco, localizadas no Uruguai. Eram frequentes as menções à participação nas festas de comparsas, referência ao carnaval no Uruguai. Igualmente havia conexões com clubes em cidades vizinhas gaúchas. É importante lembrar que em Porto Alegre foi criado em 1872 o clube negro mais antigo do qual se tem notícia, o Floresta Aurora. Este formato ganhou as cidades da região, e nas décadas de 10 e 20 do século XX foram a marca da organização negra.  Sinalizam o tempo de um pós-abolição que trazia condições de vida em liberdade bastante precárias para sujeitos negros e negras. Afinal, a justificativa para a criação dos clubes, desde o mais antigo, até aqueles criados nas primeiras décadas, dentre os quais o clube de Jaguarão, era a impossibilidade de adentrar em outros espaços sociais, ditos espaços de brancos. Coube às pessoas negras, trabalhadoras em sua maioria, criar seus espaços de sociabilidade, e dentro de seus limites viabilizar acesso à cidadania para muito além dos bailes e festas, o que nos ajuda a compreender por que tantos esforços para manter bibliotecas, estimular os estudos formais, idealizar escolas e classes de alfabetização.

Recentemente, o Clube passou por uma luta vitoriosa contra o leilão de sua sede, mobilizando a comunidade, o que culminou com o título de Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul em 2012.  O Clube 24 de Agosto continua em atividade, contando como espaço para execução de bailes, atividades de educação antirracista e um acervo histórico, além de ser o espaço referencial para a organização da Semana da Consciência Negra em Jaguarão.

Cordão Carnavalesco União da Classe, provavelmente na década de 1930. Acervo do Clube 24 de Agosto.

Para saber mais:

  • AL-ALAM, Caiuá Cardoso. O Jaguarense no jornal A Alvorada (1932-1934): imprensa negra e política na fronteira Brasil-Uruguai. MÉTIS: história & cultura – v. 19, n. 37, p. 54-79, jan./jun. 2020.
  • AL-ALAM, Caiuá Cardoso; ESCOBAR, Giane Vargas; MUNARETTO, Sara Teixeira (orgs.). Clube 24 de Agosto (1918-2018): 100 anos de resistênciade um clubesocial negro nafronteira Brasil-Uruguai. Porto Alegre: ILU, 2018.
  • AL-ALAM, Caiuá Cardoso; OLIVEIRA, Fernanda. A comunidade negra na fronteira entre Brasil e Uruguai: uma análise sobre o Pós-Abolição por meio dos Clubes Negros de Jaguarão e Melo em meados do século XX. História Unisinos, v. 25, n. 3, p. 503-517, 2021.
  • BOM, Matheus Batalha. Porosas fronteiras: experiências de escravidão e liberdade nos limites do Império (Jaguarão – segunda metade do século XIX). Dissertação (mestrado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós-Graduação em História, São Leopoldo, 2017.
  • SILVA, Fernanda Oliveira da. As lutas políticas nos clubes negros: culturas negras, racialização e cidadania na fronteira Brasil-Uruguai no Pós-abolição (1870-1960). Porto Alegre: UFRGS, 2017. (Tese de Doutorado).

Crédito da imagem de capa: Famílias negras do Clube 24 de Agosto, provavelmente da década de 1920. Acervo do Clube 24 de Agosto.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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