Lugares de Memória dos Trabalhadores #67: Fábrica Chapéus Mangueira, Rio de Janeiro (RJ) – Lyndon de Araújo Santos



Lyndon de Araújo Santos
Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão



O chapéu foi parte essencial da vestimenta dos brasileiros durante décadas. Dentre as marcas mais conhecidas, os Chapéus Mangueira disputaram o mercado consumidor da moda e do vestuário no Brasil até fins da década de 1960. A sua fábrica, localizada na região do morro da Mangueira, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, marcou as vidas de gerações de trabalhadores e de trabalhadoras além de integrar a paisagem da cidade e a memória da população carioca.

Fundada em 1857 por imigrantes portugueses naturais da freguesia de Sampaio de Merelim, em Braga, Portugal, a fábrica teve sua primeira sede no largo de Santa Rita e na Rua de São Pedro, no centro da capital do Império. Depois de um incêndio ocorrido em 1896, a fábrica foi reconstruída dois anos depois, à beira da Rua 8 de dezembro, ao lado da frondosa mangueira e da estação de trem que deram nome à região. Em 1910, a fábrica adotou o nome fantasia Chapéus Mangueira, àquela altura já bastante popular na cidade.

Os trens que partiam da estação Central do Brasil rumo aos subúrbios faziam a sua primeira parada na estação da Mangueira, futuro nome da famosa escola fundada em 1928. A região era bastante procurada por uma numerosa população pobre, majoritariamente negra, que buscava moradia barata, em particular após as reformas urbanas do prefeito Pereira Passos no início do século XX. Considerada um lugar aprazível, a localidade era também chamada ironicamente  de “a Petrópolis dos pobres”.

Muita gente foi ocupando o conjunto de morros próximos daquele entroncamento da linha férrea. O conjunto de morros dos Telégrafos, do Pendura Saia, da Matriz, e do Faria ficariam conhecidos como Morro da Mangueira. Os conflitos e as ameaças de desocupações eram constantes e a luta pelo direito à moradia seria uma das marcas daquela população, composta por ex-escravos e seus descendentes, além de migrantes do interior do Rio e outras regiões. Rapidamente, a Mangueira tornou-se um dos espaços mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira no Rio de Janeiro. Era também um lugar marcado pelo trabalho árduo e duro.

Os moradores da Mangueira encontravam serviço nas diversas fábricas que, ao longo das primeiras décadas do século XX, se fixaram no entorno da estação de trem, na continuidade da Quinta da Boa Vista e no bairro de São Cristóvão. Por ali também se espalharam pequenas oficinas e manufaturas de sapatos, de chapéus, olarias e cerâmicas. Além disso, os pequenos serviços informais de baixa remuneração, os “bicos”, sempre foram uma importante alternativa de rendimentos para os trabalhadores locais.


Até a década de 1950, a Fábrica Chapéus Mangueira foi uma referência simbólica e uma relevante empregadora naquela região. Em seu ápice, chegou a ter mais de 400 trabalhadores. Embora contasse com operários estrangeiros, a maioria dos(as) trabalhadores(as) era de brasileiros(as), majoritariamente negros e negras, moradores(as) das imediações.  


A fabricação de um chapéu obedecia a uma complexa linha de montagem, seguindo várias etapas, desde o processamento das peles importadas (de lebre e de castor) até ao seu armazenamento e comercialização. Mesmo outras modalidades como os chapéus de palha, mais simples, baratos e populares, exigiam igual rigor de procedimentos. Isto exigia um fluxo constante de operários(as) exercendo muitas funções. Embora sendo em boa parte mecanizado, o processo produtivo dependia do trabalho manual em suas fases finais, principalmente de operárias que chegaram a ser, em dados momentos, mais da metade dos trabalhadores, embora tivessem os ganhos menores que os homens. Junto com as costureiras e as chapeleiras que faziam o acabamento refinado dos chapéus, menores aprendizes também integravam uma pequena parte da força de trabalho como auxiliares e ajudantes. Os homens, por sua vez, exerciam tarefas pesadas como o manuseio e a manutenção das máquinas a vapor e elétricas, a produção e o tingimento dos tecidos feitos de peles de animais, o empacotamento das unidades prontas e a distribuição pelas vendas.

As duras condições de trabalho, os baixos salários e o controle de importante áreas do processo produtivo por parte dos(as) trabalhadores(as) resultaram em mobilizações operárias, que seriam recorrentes na Chapéus Mangueira. Em 1903 e 1906, sob a liderança da Associação de Chapeleiros, greves generalizadas paralisaram a fábrica. Décadas mais tarde, nos anos 1940 e 50, o Partido Comunista do Brasil (PCB) teria uma presença significativa entre os(as) operários(as) da Chapéus Mangueira e o partido chegou a liderar o sindicato da categoria. Em 1947, a fábrica foi novamente paralisada com protestos dos trabalhadores por aumento salarial, melhores condições de trabalho e instalação de creches.

Com o declínio do uso de chapéus, mudanças do mercado da moda e o envelhecimento dos antigos chapeleiros e chapeleiras, a Chapéus Mangueira entrou em declínio e a acabou por encerrar sua produção no final da década de 1960. No entanto, ficaria marcada na memória dos moradores da Mangueira, da história das lutas sociais do Rio de Janeiro e mesmo na paisagem da cidade, já que a comunidade do Morro do Chapéu Mangueira, no Leme, deve seu nome a uma propaganda feita pela empresa naquele local no final dos anos 1940.

Operários e operárias da Chapéus Mangueira. s/d.
Acervo da família Fernandes Braga.


Para saber mais:

  • LIMA, Sérgio Prates. 2016. Uma Ética Protestante Tropical: José Luiz Fernandes Braga e a Fábrica de Chapéus Mangueira (1858 a 1920). Tese (Doutorado em Ciências Sociais), Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2016.
  • SANTOS, Lyndon de A. “Os Brácaros Chapeleiros Mundos e representações dos chapéus no Rio de Janeiro (1825-1898)”. Vária História. (Belo Horizonte). n. 57, 2015.
  • SANTOS, Lyndon de A. “O mundo do trabalho carioca: chapeleiras e chapeleiros na Fábrica de Chapéus Mangueira (1920-1940)”. Revista Mundos do Trabalho (Florianópolis). v. 12, 2020.
  • SANTOS, Lyndon de A. “Essa fina gente do morro: ocupação, conflitos e representações da Mangueira (1910-1930)”. In: ABREU, Martha; XAVIER, Giovana; MONTEIRO, Lívia & BRASIL, Eric. Cultura negra: festas, carnavais e patrimônios negros. Niterói: Eduff, 2018.
  • Filme-Documentário: O samba que mora em mim (Longa-metragem). Direção de Georgia Guerra-Peixe, Bossanovafilms, 2002. Ver: https://vimeo.com/315237430

Crédito da imagem de capa: Fachada da Fábrica de Chapéus Mangueira. s/d. Acervo Privado da família Fernandes Braga.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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