LMT #74: Vila Operária Maria Zélia, São Paulo (SP) – Simone Scifoni



Simone Scifoni
Professora do Departamento de Geografia da USP



A Vila Maria Zélia é testemunho dos modos de morar do operariado e das relações de trabalho do início do século XX, na cidade de São Paulo. Ela guarda, ainda, memórias ligadas à violação dos direitos humanos dos trabalhadores em momentos políticos do país marcados pelo autoritarismo, nos anos 1930 e nos anos 1970.

Contando com 198 casas de 6 diferentes tipos e tamanhos e equipamentos de uso coletivo, tais como 2 escolas (uma para meninos e outra para meninas), creche, jardim de infância, farmácia, capela, campo de futebol, salão para bailes, sapataria, armazém e restaurante, a Vila Maria Zélia é um exemplar único de habitação operária, existente ainda hoje naquele lugar que era chamado de “outra cidade”, os bairros a leste do embrião central da capital, como o Belenzinho.

A vila foi construída entre 1912 e 1916 compondo o espaço fabril da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, do empresário Jorge Street. O nome da vila foi uma homenagem à filha de Jorge Street, falecida no começo do século XX. Crises econômicas e endividamento levaram a empresa a mudar de proprietários em 1924, mantendo-se a produção até 1934, quando veio a falência. A partir daí a fábrica e a Vila Maria Zélia passaram para o controle do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), sucedido pelo atual INSS. Em 1969, as casas da vila começaram a ser vendidas aos seus inquilinos, por meio de financiamento do BNH (Banco Nacional de Habitação).

As formas de morar dos operários em São Paulo, nessas primeiras décadas do século XX, tinham no pagamento do aluguel uma característica em comum. As casas de vila eram construídas por investidores privados ou por industriais e contavam com incentivos do poder público, como a isenção de impostos para construção. A habitação tinha um papel no que se entendia ser a moralização da vida do trabalhador. Jorge Street destacava que as casas da vila garantiam a moradia sã, com sol, luz e cômodos de acordo com o tamanho da família. Além disso, exercia a função de impor a disciplina e controlar a vida do trabalhador; na Vila Maria Zélia uma série de normas e regulamentos regulavam a vida do operariado, como a proibição de dormir na sala, fixação de horários para circulação e acesso de visitantes e proibição de permanência de pessoas que não eram da família moradora na casa.


Além de negócio lucrativo pela obtenção da renda de aluguel, a produção de casas para operários funcionava como mecanismo de manutenção de baixos salários e como estratégia de enfraquecimento da organização operária e da luta de classes. Isso se constata no discurso do empresário Jorge Street que colocava em evidência o papel da vila e de seus equipamentos coletivos como capazes de “tocar o coração do operário vencendo-o do instinto de revolta”.


Por esses motivos, a Vila Maria Zélia aparecia, no começo do século XX, no centro da crítica do movimento operário, justamente pelo seu caráter de empreendimento modelo, que isolava o trabalhador em uma espécie de cidadela fechada, um feudo, como chamou o jornal anarquista “A Plebe”. No entanto, para além do controle, a moradia na vila também gerava formas específicas de sociabilidade e solidariedade que frequentemente significavam burlas aos mecanismos de dominação empresarial. Uma cultura e identidade própria aos trabalhadores tinha nas vilas operárias um espaço privilegiado de desenvolvimento, a despeito da vontade e intenções dos patrões.

Por sua vinculação à história dos trabalhadores e à temática da habitação operária, a Vila Maria Zélia e a fábrica foram declaradas patrimônio cultural do município de São Paulo, em 1992, no governo de Luiza Erundina. Mas é preciso, ainda, somar a esse patrimônio as memórias de violação de direitos humanos dos trabalhadores.

Após a Revolta Comunista de 1935 e a decretação do Estado de Sítio por Getulio Vargas, a fábrica fechada no Belenzinho foi adaptada para funcionar como presídio político. Cerca de 700 sindicalistas, trabalhadores, professores e intelectuais considerados como comunistas foram encarcerados no presídio Maria Zélia. Durante os dois anos em que ficaram ali, os presos e presas organizaram como forma de resistência a Universidade Popular Maria Zélia, com aulas de alfabetização, línguas, anatomia e higiene. Produziram revistas e jornais e realizavam peças teatrais encenadas pelo Teatro Popular Maria Zélia.

Outra memória da vila, vinculada à repressão e perda de direitos dos trabalhadores, foi a da prisão do operário Olavo Hansen. Treze sindicatos e oposições sindicais convocaram uma manifestação no dia 1o de maio de 1970, no campo de futebol da Vila Maria Zélia. Olavo, conhecido militante sindical, foi preso enquanto distribuía panfletos. Levado para o DOPS, sofreu constantes sessões de tortura, falecendo dez dias após sua prisão. Para a Comissão Nacional da Verdade o episódio configura-se como caso comprovado de morte decorrente de tortura durante a ditadura militar.

A Vila Maria Zélia ainda hoje se destaca como lugar de moradia do trabalhador, muito embora não sejam mais eles operários de indústrias, como no passado. Entretanto, ainda estão presentes os conteúdos sociais que conferem significado a esse bem cultural tombado. Nos últimos anos, instituições culturais como o grupo XIX de Teatro e a Associação Cultural Vila Maria Zélia também têm se empenhado na valorização e divulgação da história da vila. A Vila Maria Zélia não seria patrimônio cultural sem seus moradores e suas memórias, sem as vivências e experiências humanas que dão sentido àqueles edifícios do passado.

Vila Maria Zélia com fábrica ao fundo, em 1918.
Fonte: periódico A Vida Moderna.

Para saber mais:

  • ALAMINO, Carolina A.M. Presídio Maria Zélia: repressão política no governo constitucional de Getúlio Vargas. Tese (Doutorado) – Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.
  • BLAY, Eva A. Eu não tenho onde morar. Vilas operárias na cidade de São Paulo. São Paulo: Nobel, 1985.
  • BRASIL. COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório. Vol. 1. Brasília: CNV, 2014.
  • JUCÁ, Ana Lúcia Almeida de Oliveira; LOPES, Arzelinda Maria. A vida numa vila operária. Informativo Arquivo Histórico Municipal, 4 (19): jul/ago.2008 <http://www.arquivohistorico.sp.gov.br>
  • TEIXEIRA, Palmira Petratti. A fábrica do sonho. Trajetória do industrial Jorge Street. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

Crédito da imagem de capa: Aspecto geral da Vila Maria Zélia em 1918. Fonte: Periódico A Vida Moderna.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.

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