LMT #75: Museu Estadual do Carvão do Rio Grande do Sul, Arroio dos Ratos (RS) – Clarice Speranza

Clarice Speranza
Professora do Departamento de História da UFRGS

À distância, as ruínas já parecem majestosas. Quanto mais nos aproximamos, os prédios que abrigaram a  primeira termoelétricas do país a usar carvão mineral revelam uma dimensão quase indecifrável. Estamos diante do Museu Estadual do Carvão, em Arroio dos Ratos, município riograndense próximo a Porto Alegre. Situado em meio a um parque de 11 hectares, o Museu tornou-se parte inseparável da vida desta comunidade orgulhosa de seu passado, na cidade que se intitula Berço da Indústria Carbonífera Nacional.

A história da exploração do carvão na região se iniciou em meados do século XIX. Em 1872, foi fundada a primeira empresa de exploração de carvão no Brasil, a Brazilian Collieries Company Limited, com capital inglês. A partir de então, uma série de empresas mineradoras atuaram na  região.

Em 1885, a princesa Isabel batizou com seu nome um poço da Companhia das Minas de Carvão de Pedra Arroio dos Ratos. A herdeira do trono imperial chegou a descer ao subsolo e assustou-se: “Perguntei-me se poderia suportar isso muito tempo”, confessou em carta aos pais, na qual lamentava “a sorte penosíssima dos mineiros obrigados a 8 horas de trabalho por dia, nessas profundezas apertadas”.

A princesa pode ter ficado impressionada, mas foi muito comedida em seu comentário. Se em meados dos anos 1940, havia relatos de mineiros trabalhando 16 horas por dia no subsolo, pode-se imaginar que uma jornada de apenas 8 horas em 1885 era uma ilusão. De fato, no dissídio coletivo apresentado em 1943 pelo Sindicato dos Mineiros era relatado que a prática do “doble”, ou seja, do turno dobrado, era cotidiana. À época boa parte dos operários recebiam por produção e deixavam parte de seus ganhos nos armazéns de propriedade das empresas.

Em plena II Guerra Mundial, o Cadem (Consórcio Administrador de Empresas de Mineração, que reunia as duas principais mineradoras: a Companhia Estrada de Ferro e Minas de São Jerônimo e a Companhia Carbonífera Minas de Butiá) liderava a produção nacional. Foi neste momento que a região alcançou o auge de sua produção, empregando cerca de 7 mil operários.

A vida nas profundezas marcou, de fato, a existência de milhares de trabalhadores mineiros que extraíram carvão da terra durante as oito décadas de funcionamento das minas subterrâneas em Ratos e também nos hoje municípios vizinhos de Butiá, Minas do Leão e Charqueadas. A eles coube suportar uma rotina de trabalho que incluía não apenas o medo da escuridão, mas também o adoecimento e a degradação física pela aspiração de pó de sílica, quando não a morte por desabamentos. Um “suicídio lento e inexorável”, definiu o mineiro Manoel Jover Telles em 1947, quando era deputado estadual eleito pelo PCB.

As minas também foram um centro importante de mobilização e organização dos trabalhadores. A primeira greve teria ocorrido já em 1895 e foi seguida por diversas paralisações. As mobilizações de 1933 e 1934 levaram à formação de um sindicato mineiro unificando os trabalhadores de todas as vilas. Nas paralisações de 1945 e 1946, as vilas foram alvo de intervenção militar. O movimento de 1946 durou 36 dias e estancou completamente a produção de carvão, deixando Porto Alegre às escuras. Entre as décadas de 1940 e 1960,  o PCB e o PTB disputavam a hegemonia do movimento operário local.

Para tornar possível o contínuo crescimento da produção, as mineradoras investiram na criação de uma infraestrutura de bem estar que incluía postos de saúde e um grande hospital, escolas, igrejas, lojas de comércio, clubes de futebol e cinemas, além de moradias com aluguel subsidiados.  Por outro lado, não havia abastecimento de água nas casas nos anos 1940, e os trabalhadores padeciam de péssimas condições de trabalho, o que levava a altos índices de abandono do emprego. A estrutura de proteção e controle das vilas-fábricas tinha como contraponto uma estrita vigilância, a partir de uma estreita colaboração entre as empresas e a polícia, e o acionamento do Exército quando necessário.

Toda a geografia de Ratos e das demais vilas mineiras, nascida das planilhas das empresas mineradoras, foi apropriada pela luta política. Os nomes das ruas homenageiam os executivos da mineração, mas também líderes trabalhistas como Alberto Pasqualini. Também trazem as marcas dos grupos étnicos e raciais que formaram a classe mineira, como a Avenida Espanha, em Arroio dos Ratos, ou a Praça Paraíba, em Butiá, cujo nome cultua o apelido de um líder religioso negro.

As minas de Ratos foram fechadas nos anos 1950. A produção foi transferida integralmente para Butiá e Charqueadas. Atualmente ainda há mineração de carvão na região, mas somente em minas de superfície. As cidades, de toda forma, são tomadas por campos de rejeitos de carvão e por ruínas dos locais de produção. Em Butiá, o mais conhecido é o “Esqueleto”, um conjunto de vigas com dois andares onde funcionava o lavador do poço 2, onde o carvão era “lavado” e escolhido. Hoje o “Esqueleto” é patrimônio histórico do município.

Em meio a esta geografia de lutas e trabalho, o Museu Estadual do Carvão, criado em 1986 (no governo do trabalhista Alceu Collares), parece ser uma síntese. Administrado em conjunto pelos governos estadual e municipal, é um símbolo da exploração subterrânea do carvão, mas também dos embates de classe lá travados. Além de uma exposição de objetos e máquinas da mineração, abriga também o Arquivo Histórico da Mineração, um mais importantes centros de documentação operária da América Latina. É, assim, um fundamental lugar de memória dos mineiros gaúchos e um espaço de reflexão sobre a história do trabalho no Brasil.

No parque onde está localizado o museu ficam as ruínas dos prédios onde o carvão era processado depois de extraído do subsolo. Foto de Felipe Klovan.


Agradeço aos comentários de Tassiane Melo Freitas e Alexsandro Witkowski.


PAra saber mais
  • CIOCCARI, Marta. Do gosto da mina, do jogo e da revolta: um estudo antropológico sobre a construção da honra numa comunidade de mineiros de carvão. Tese de doutorado em Antropologia – PPGAS Museu Nacional, Rio de Janeiro, 2010.
  • FREITAS, Tassiane M. De complexo carbonífero a museu: o processo de patrimonialização dos remanescentes do antigo complexo carbonífero de Arroio dos Ratos, RS, Brasil (1983-1994). Dissertação de mestrado – PPG em Memória Social e Patrimônio Cultural, UFPel, 2015.
  • SILVA, Cristina Ennes da. Nas profundezas da terra: um estudo sobre a região carbonífera do Rio Grande do Sul. Tese de Doutorado – PPG em História, PUCRS, Porto Alegre, 2007.
  • SPERANZA, Clarice G. Cavando direitos: As leis trabalhistas e os conflitos entre os mineiros de carvão e seus patrões no Rio Grande do Sul (1940-1954). São Leopoldo/Porto Alegre: Oikos/ANPUHRS, 2014
  • WITKOWSKI, Alexsandro. Da luz no fim do túnel ao Arquivo Histórico do Museu Estadual do Carvão: o acervo documental da mineração na região carbonífera do baixo Jacuí, RS (2009-2016). Dissertação de mestrado – PPG em Museologia e Patrimônio, UFRGS, 2019.

Crédito da imagem de capa: No subsolo das minas, operários de diversas origens trabalhavam lado a lado extraindo e transportando carvão, década de 1940. Crédito: Acervo Documental Museu Estadual do Carvão.


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Paulo Fontes

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