LMT#105: Vila C de Itaipu, Foz do Iguaçu (PR) – Endrica Geraldo



Endrica Geraldo
Professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana




A Vila C, em Foz do Iguaçu, é um lugar de memória de muitos dos trabalhadores que participaram da construção da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu. Foi planejada para abrigar temporariamente famílias operárias: ao final das obras, essas pessoas seriam dispensadas e as casas seriam demolidas. Com muita luta, várias famílias transformaram essa realidade e garantiram a permanência da vila, consolidando suas vidas nessa região de Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai, Argentina).

A Usina Hidrelétrica de Itaipu está localizada no Rio Paraná, na divisa entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e o distrito de Hernandarias, nas proximidades de Ciudad del Este, no Paraguai. Em 1974, a Itaipu Binacional foi formalmente constituída como empresa, e a construção da então maior hidrelétrica do planeta teve início em 1975. As obras da barragem seguiram até 1982 e a primeira unidade geradora entrou em operação em 1984. Até 1991, ocorreu a construção da casa de força e a instalação de 18 das atuais 20 unidades geradoras. Para as obras foram contratados consórcios brasileiros e paraguaios de construtoras e de montagem eletromecânica. Durante boa parte desse período, o Paraguai esteve sob a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), e o Brasil, sob a ditadura Civil-Militar (1964-1985). Um complexo sistema de vigilância, controle e repressão de ambos os países atuava na empresa. Espionagem, agentes infiltrados e presença de delatores permearam o cotidiano dos trabalhadores e seus esforços de organização.

A construção tornou necessário o deslocamento de dezenas de milhares de trabalhadores vindos de diferentes regiões nos dois países (e mesmo de outros países). No Brasil, naquele período, grandes obras do setor elétrico estavam em fase de conclusão e muitos “barrageiros” vieram para trabalhar na Itaipu. Mas as propagandas atraíram também muita gente com pouca ou nenhuma experiência na construção civil, inclusive trabalhadores rurais. Os homens foram a grande maioria dos contratados, mas diversas mulheres trabalharam em funções como professoras, assistentes sociais e enfermeiras.

Para atrair e acomodar tanta gente, foram erguidas, entre 1975 e 1979, 11 vilas habitacionais nos dois países, além do alojamento localizado no canteiro de obras. O número de residências aumentou ao longo do tempo, totalizando cerca de 9.500 casas: no lado brasileiro (Vilas A, B e C), foram mais de cinco mil; no lado paraguaio (Áreas 1 a 8), mais de quatro mil. Os alojamentos construídos no canteiro de obras possuíam a capacidade de hospedar cerca de doze mil trabalhadores.

No lado brasileiro, administradores e engenheiros, assim como técnicos e funcionários administrativos, tinham acesso aos melhores refeitórios, serviços e as duas vilas (Vilas A e B) que foram planejadas para permanecerem após o término da construção como moradia dos responsáveis pela operação e manutenção da usina. Por sua vez, a Vila C abrigou os trabalhadores considerados de menor qualificação (carpinteiros, pedreiros, mestres de obra, eletricistas, etc), contratados pelos consórcios brasileiros.


A Vila C foi planejada como temporária, com 2.900 casas: deveria abrigar “os peões” e seus familiares durante a construção, mantidos próximos à usina e distantes da malha urbana do município. A expectativa era de que, finalizada a obra, esses operários seriam demitidos e partiriam em busca de trabalho em outras barragens. Por essa razão, os materiais de construção das casas eram precários e com condições que intensificavam o calor e a pouca privacidade.


Construída em etapas, ela terminou dividida entre a chamada Vila C Nova e a Velha. Distante do restante da cidade, a Vila C contava com escola, ambulatório, igreja, espaços de lazer, campo de futebol, Centro Comunitário e um centro comercial. Por um lado, os operários percebiam a vila e os serviços como uma melhoria nas suas condições de vida. Por outro, reconheciam a desigualdade com relação ao que era oferecido aos outros trabalhadores da empresa e dos consórcios e, especialmente, sofriam a angústia de saber que seria passageiro e que, em pouco tempo, perderiam o emprego e os “benefícios”. Nestes espaços, cresceu o companheirismo com vizinhos e moradores, marcado por relações de solidariedade, identidade de classe e pela luta por direitos. Durante o período da redemocratização política do país, a região viu surgir os primeiros sindicatos, entre eles o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil de Foz do Iguaçu, fundado em 1986. A Vila abrigou assembleias de operários e, nas mobilizações e greves promovidas entre 1986 e 1987 chegou a ser cercada por tropas militares.

A construção da Itaipu contribuiu para que a população de Foz do Iguaçu quadruplicasse em 10 anos. Assim, por problemas habitacionais e por pressão dos operários (inclusive com a prática de invasões e ocupações), na metade da década de 1980 já se anunciava que a Vila C não seria mais demolida. As casas começaram a ser vendidas em 1992, com preferência para os moradores, trabalhadores ou ex-trabalhadores da Itaipu e das empreiteiras. Para muitos, foi a primeira oportunidade de ter uma casa própria.

A Vila C atualmente abriga famílias de homens e mulheres que trabalharam arduamente na construção da usina e que conquistaram o direito de permanecer. Ela marcou a vida de muitos/as trabalhadores/as que hoje criam e participam de coletivos dedicados ao compartilhamento de memórias e divulgação da história da Vila.

Time de futebol da Vila C.
Fonte: Informativo UNICON, 29 Janeiro de 1982.


Para saber mais:

  • GONÇALVES UEDA, Eduardo; GERALDO, Endrica. A Farda e o Fardo: Memórias sobre o mundo do trabalho na construção da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu (1975-1991). Revista Latinoamericana de Trabajo y Trabajadores, v. 1, 2020.
  • JESUS, Rodrigo Paulo de. De “Vila Operária” a bairro dos trabalhadores: processo de constituição do bairro Vila “C” – 1977 a 2008. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Marechal Cândido Rondon, 2009.
  • MARARIN, Odirlei. Peões da barragem: memórias e relações de trabalho dos operários da construção da hidrelétrica de Itaipu – 1975 a 1991. 2008. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Marechal Cândido Rondon, 2008.
  • SESSI, Valdir. “O povo do abismo”: trabalhadores e o aparato repressivo durante a construção da hidrelétrica de Itaipu (1974-1987). 2015. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Marechal Rondon, 2015.
  • Site: https://partilhandomemorias.foz.br/ – site do projeto de extensão “Memórias Subterrâneas – produção de acervo e espaços de diálogo sobre cotidiano, violência e resistência dos trabalhadores de Foz do Iguaçu” (UNILA, PR)

Crédito da imagem de capa:   Foto aérea da Vila C”, (Fonte: Itaipu Binacional, 1975/1979 apud RAMMÉ, 2020, p. 155)
RAMMÉ, Juliana. A compreensão da urbanidade pela morfologia urbana: as vilas de Itaipu. 2020. Tese (Doutorado em Arquitetura, Tecnologia e Cidade) – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2020


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.

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