LMT#106: Rua Visconde do Rio Branco 651, Niterói (RJ) – Luciana Pucu Wollmann e Lucas Corrêa



Luciana Pucu Wollmann
Professora na rede pública de ensino de Niterói e do Rio de Janeiro e Doutora em História pela FGV

Lucas Corrêa
Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense


Eles eram poucos.
E nem puderam cantar muito alto a Internacional.
Naquela casa de Niterói em 1922.
Mas cantaram e fundaram o partido.
Eles eram apenas nove, o jornalista Astrojildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermogênio.
E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois.
Em todo o país eles eram mais de setenta.
Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.
Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do ocidente, nem mesmo do Brasil.
Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele.
Ou estará mentindo

Ferreira Gullar, “Eles eram poucos”, 1972.



Foi no caminho onde hoje se localiza o Diretório Central dos Estudantes e o campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), que o Partido Comunista do Brasil (PCB) nasceu. Era 27 de março de 1922 e os nove delegados que participavam do Congresso de fundação do partido, se reuniram ali, precisamente na Rua Visconde do Rio Branco 651, para o último dia do encontro que deu origem ao Partido. Esse endereço  era a casa da família do jornalista, crítico literário e militante Astrojildo Pereira. Depois de lerem as resoluções e aprovarem as moções, os delegados – entre eles dois alfaiates, dois funcionários públicos, um barbeiro, um eletricista, um operário gráfico, um vassoureiro e um jornalista – deram por encerrado o Congresso, mas não sem antes cantar de pé e sussurrando (para não alarmar os vizinhos e tampouco as duas tias idosas de Astrojildo que residiam naquela casa), trechos da Internacional. O momento seria eternizado pelo poeta Ferreira Gullar, no poema “Eles eram poucos” (escrito no auge da ditadura militar) em homenagem aos sessenta anos do PCB.

O Congresso que deu origem ao PCB iniciou-se dois dias antes na sede do Sindicato dos Alfaiates e Metalúrgicos do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Informados sobre uma possível batida policial, os congressistas atravessaram a Baía de Guanabara e imortalizaram Niterói como a cidade onde nasceu o partido. Localizada no centro da cidade, a casa da família de Astrojildo estava em uma região movimentada da então capital fluminense. Não muito distante dali, a Praça Martim Afonso, hoje mais conhecida como Praça Arariboia, era local de muitos comícios políticos e agitações operárias e também onde estava localizada a estação das barcas.

A fundação do PCB se deu em um contexto de ascenso nacional e internacional da classe trabalhadora. Trabalhadoras e trabalhadores sofriam com a carestia e os efeitos da Primeira Guerra Mundial. Os anos entre 1917 e 1921 seriam marcados por importantes movimentos grevistas em todo o país. Em Niterói, destacou-se a greve da Cantareira em 1918, ocorrida há poucos metros de distância da casa em que seria fundado o PCB. Iniciada por demandas salariais, o movimento se ampliou e ganhou forte apoio popular, organizando grandes manifestações de rua. Até mesmo militares do exército se juntaram aos trabalhadores em greve. A parede, ainda que vitoriosa, deixou um saldo de mortos e feridos, além de muitas prisões, entre as quais a de dois futuros fundadores do PCB, Astrojildo Pereira e João Costa Pimenta.


Como em todo o mundo, as lideranças operárias acompanhavam com entusiasmo, curiosidade e expectativa as notícias sobre a Revolução Russa de 1917 e seus desdobramentos. A criação em Moscou, em 1919, da III Internacional (ou Comintern) estimulou os simpatizantes da revolução a criarem Partidos Comunistas em todo o globo.


Esses partidos, na maioria dos casos, surgiram de divisões de partidos socialistas e socialdemocratas. No Brasil, entretanto, a fragilidade desses partidos e a maior presença anarquista no movimento operário, fez com que o impacto da revolução russa se apresentasse como uma “crise do anarquismo”, como a descreveria Astrojildo Pereira. Assim, muitos antigos militantes anarquistas, como o próprio Astrogildo, participaram do processo de fundação e construção do PCB nos anos 1920.

Nas décadas subsequentes, apesar da intensa repressão e da propagação de um forte anticomunismo, a influência do PCB foi crescendo, em particular nos meios operários e intelectuais. Em Niterói, a popularidade do partido entre os trabalhadores acabou garantindo a vitória do ferroviário Claudino José da Silva como deputado constituinte mais votado na cidade em 1945, em um dos breves períodos de legalidade do PCB. Entre os anos 1940 e 1960, mesmo impedido de funcionar legalmente, o partido exerceu forte influência junto ao movimento sindical, estudantil e popular da cidade, tomando parte de greves, manifestações e diferentes mobilizações nos bairros periféricos da cidade.

Com o golpe militar de 1964, a capital fluminense, considerada como parte do “Cinturão Vermelho” do Rio de Janeiro, sofreu dura repressão. Ali, como em outras lugares do país, lideranças comunistas foram mortas, torturadas, exiladas, separadas das suas famílias e impedidas de lutar pelo o que acreditavam. O Partidão (alcunha pela qual o PCB ficou conhecido) sofreu diversas dissidências, mas resistiu e foi uma organização importante da oposição democrática. Em 1985, após 21 anos de ditadura militar, recuperou a sua existência legal. Mas nunca mais teve o mesmo peso e influência que usufruiu nas décadas anteriores. O fim da União Soviética e a crise do movimento comunista internacional abateu-se fortemente sobre o partido que, nos anos 90 diluiu-se em diferentes organizações políticas.

No caminho onde fica o burburinho estudantil dos bares próximos à UFF, onde estudantes e trabalhadores/as vêm e vão em direção à estação das barcas, existia uma casa onde foi fundado o PCB. Há anos demolida, a casa deu lugar a um estacionamento, mas mesmo assim ainda hoje, o local permanece vivo na memória de muitos militantes. Naquele mesmo caminho, onde se centralizam as manifestações estudantis e populares da cidade e onde as pichações e grafites dos muros, não raro, fazem alusão à revolução, os novos usos do espaço lhes prestam homenagem – ainda que silenciosa – e mantém vivo o espírito revolucionário de todos aqueles que lutaram (e ainda lutam) por um Brasil com mais igualdade de classe e justiça social.

Fundadores do PCB: de pé, Manoel Cendón, Joaquim Barbosa, Astrojildo Pereira, João da Costa Pimenta, Luis Peres, José Elias da Silva. Sentados: Hermôgeno Silva, Abílio de Nequete e Cristiano Cordeiro.  
Fonte Site: https://pcb.org.br/portal2/10702 e Livro: SEGATTO, J. A. et al. PCB: memória fotográfica, 1922-1982. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 13.


Para saber mais:

  • A Casa de Astrojildo. Fundação Astrojildo Pereira. 6/10/2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=n8EUPZenNdo.
  • FEIJÓ, MARTINS CEZAR. O Revolucionário Cordial : Astrojildo Pereira e as origens de uma política cultural. Boitempo Editorial, São Paulo, 2001.
  • MACHADO, Antonio Felipe da Costa Monteiro. Forjas da Liberdade: Educação Operária, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário na Niterói da Primeira República. UNIRIO: Rio de Janeiro, 2017. Dissertação de mestrado.
  • PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. in. Problemas – Revista Mensal de Cultura Política nº 39 – Mar-Abr de 1952.
  • WOLLMANN, Luciana Pucu. Da eleição à cassação: a atuação dos parlamentares comunistas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (1947-1948). Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. nº 16, 2019.

Crédito da imagem de capa:  “Casa da Rua Visconde do Rio Branco nº 651, em Niterói, onde se reuniu a 3º sessão do I Congresso do PCB, em 27 de março de 1922”. Referência da imagem: PEREIRA, Astrojildo. A formação do PCB, 1922-1928: notas e documentos. São Paulo: Anita Garibaldi: Fundação Mauricio Grabois, 2012. p. 36.12:25


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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