Lugares de Memória dos Trabalhadores #69: Fábrica de Fiação e Tecelagem Bernardo Mascarenhas, Juiz de Fora (MG) – Luís Eduardo de Oliveira

Luís Eduardo de Oliveira
Professor do IF Sudeste MG, Campus Juiz de Fora

O prédio original da Tecelagem Mascarenhas, na área central de Juiz de Fora, foi construído ao longo do ano de 1887 e sua inauguração festiva ocorreu justamente no primeiro “dia útil” seguinte à abolição da escravidão: 14 de maio de 1888, uma segunda-feira. Como denunciariam lideranças operárias nos anos seguintes, um “novo cativeiro” se iniciava. Polo mercantil e manufatureiro do complexo cafeeiro da Zona da Mata mineira, Juiz de Fora experimentava uma fase de ascenso e diversificação de suas atividades urbano-industriais que, no limiar do século XX, lhe renderia o epíteto de “Manchester Mineira”.

Inicialmente, a fábrica a vapor de Bernardo Mascarenhas (1847-1899), membro proeminente de uma das famílias mais ricas de Minas Gerais, possuía uma estrutura relativamente modesta: apenas 30 teares, operados não mais do que por 75 trabalhadores, que teciam zefires e brins de algodão e de linho, com fios importados da Inglaterra, para serem comercializados local e regionalmente. A intensa exploração de sua força de trabalho somada à uma demanda crescente por tecidos relativamente baratos propiciou a ampliação contínua da capacidade produtiva desse estabelecimento fabril nas primeiras décadas da República.

Em agosto de 1898, a Tecelagem Mascarenhas já contava com o dobro de teares e com uma força de trabalho de quase 150 pessoas, “a maior parte moças e meninas, umas brasileiras, outras espanholas e italianas”, como relatam O Pharol e o Jornal do Commercio. A área central de Juiz de Fora assumia funções de uma típica cidade-fábrica capitalista e nesse cenário a arquitetura inglesa do prédio original daquela unidade fabril se destacava em meio a outras edificações mais modestas, muitas delas convertidas em cortiços para abrigar famílias proletárias numerosas – cujos membros, para escaparem da miséria absoluta, e da não menos temida pecha de vadios, se submetiam a jornadas diárias de até 16 horas, pagas a preços baixíssimos, quer seja no comércio quer seja em obras, oficinas e fábricas.

É bem provável, nesse sentido, que fosse moradora de um desses cortiços a “moça de nacionalidade italiana” Albina Bartolosso, que de acordo com o Jornal do Commercio de 22 de dezembro de 1907 ficou cega de um dos olhos após ser atingida por uma peça que se desprendeu do tear em que trabalhava diariamente na Tecelagem Mascarenhas. Acidentes graves como esse se tornaram mais frequentes no decurso das décadas de 1900 e 1910, quando a fábrica praticamente dobrou sua área construída e passou a contar com a extraordinária força de 526 trabalhadoras e trabalhadores para produzir anualmente cerca de 1,6 milhões de metros de tecidos em 1914.

Nos cinco anos seguintes, quando a carestia atingiu um nível insuportável em Juiz de Fora e os serões não remunerados se tornaram ainda mais frequentes, o contraste entre a enorme prosperidade desfrutada pelos capitalistas locais e as terríveis condições em que subsistiam os seus empregados levou à deflagração da segunda greve geral da história da cidade. Assim como ocorreu em agosto de 1912, centenas de operárias e operários da Tecelagem Mascarenhas paralisaram completamente a produção e se incorporaram a outros cerca de seis mil assalariados (sobretudo dos setores de fiação e tecelagem, gráfico, mecânico-metalúrgico e da construção civil) num vigoroso movimento paredista.

Entre os dias 02 e 06 de janeiro de 1920, as trabalhadoras e trabalhadores juizforanos emergiram novamente na cena pública para denunciar o tratamento desumano que recebiam de seus patrões e reivindicar 8 horas de trabalho, aumento de 50% sobre os salários dos serões e de 25% do ordenado da jornada normal.

Entre as décadas de 1930 e 1960, reafirmando reivindicações sociais históricas e lutando para que a legislação trabalhista fosse cumprida e ampliada, os operários e operárias da Tecelagem Mascarenhas tiveram ainda um papel destacado nas lutas sociais e políticas daquele período e no processo de formação e consolidação do Sindicato dos Operários Têxteis e Classes Anexas. Em  agosto de 1954, por exemplo, estiveram na linha de frente da greve geral que paralisou a cidade e conquistou um aumento de cerca de 150% no valor do salário-mínimo local.

Por mais três décadas o trabalho operário continuaria intenso nos amplos salões da Tecelagem Mascarenhas, que desligou definitivamente o seu maquinário em janeiro de 1984. Foi uma das últimas grandes fábricas de fiação e tecelagem formadas em Juiz de Fora entre os séculos XIX e XX a parar de produzir.

Durante anos a antiga fábrica esteve sob ameaça de demolição. Em grande medida, sua preservação pode ser atribuída ao movimento “Mascarenhas, meu amor”, que reuniu no início dos anos 1980 diversos setores sociais em torno de uma campanha pelo tombamento do conjunto arquitetônico da centenária fábrica de tecidos, o que acabou ocorrendo em 1987. Desde então, funcionam naquele espaço, sob a gestão da prefeitura, o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, onde são desenvolvidas atividades artísticas e culturais, a Biblioteca Municipal Murilo Mendes e a Secretaria Municipal de Educação, além de um movimentado mercado de produtos naturais e artesanais.

A praça pública que integra o sítio histórico em que se localiza o antigo prédio da Tecelagem Mascarenhas, é hoje um dos principais espaços de concentração política da cidade. É um local de história e memória fundamental, cujo simbolismo maior parece ser a sua capacidade de conectar as reivindicações e movimentos sociais do presente às inúmeras e hercúleas lutas operárias travadas em Juiz de Fora ao longo de todo o século XX.

Fac-símile da notícia publicada pelo periódico A Razão acerca do início de uma greve geral em Juiz de Fora – MG em 1920 A imagem destaca a fachada principal da Tecelagem Mascarenhas. Fonte / crédito: “As 8 horas de Trabalho. 6.000 operários em greve”. A Razão, Rio de Janeiro, 03 de Janeiro de 1920, p. 05. Hemeroteca Digital Brasileira / Biblioteca Nacional.

Fachada do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas atualmente. Fonte: Site da Prefeitura de Juiz de Fora.


PAra saber mais
  • ANDRADE, Sílvia Maria B. Vilela de. Classe Operária em Juiz de Fora: uma história de lutas (1912-1924). Juiz de Fora: UFJF, 1987.
  • DUTRA, Eliana de Freitas. Caminhos Operários nas Minas Gerais. Um estudo das práticas operárias em Juiz de Fora e Belo Horizonte na Primeira República. São Paulo / Belo Horizonte, Hucitec / UFMG, 1988.
  • OLIVEIRA, Luís Eduardo de. Os trabalhadores e a cidade: a formação do proletariado de Juiz de Fora e sua lutas por direitos (1877-1920). Juiz de Fora / Rio de Janeiro, Funalfa / Editora da FGV, 2010.
  • PREFEITURA DE JUIZ DE FORA. “Centro Cultural Bernardo Mascarenhas: Histórico”. Disponível em: https://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/ccbm/historico.php

Crédito da imagem de capa: Vista parcial da área central de Juiz de Fora no final da década de 1890, destacando-se num dos extremos da antiga rua XV de Novembro (atual Avenida Getúlio Vargas) o prédio original da Tecelagem Mascarenhas (canto inferior direito). Fonte / Crédito: OLIVEIRA, Luís Eduardo de. Os trabalhadores e a cidade – a formação do proletariado de Juiz de Fora e suas lutas por direitos (1877-1920). Tese (Doutorado), Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2008, p. 113.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

Paulo Fontes

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