LMT #127: Garagem de Bondes da Companhia Light, Brás, São Paulo (SP) – Manoela Rossinetti Rufinoni e Valter dos Santos Lameirinha


Manoela Rossinetti Rufinoni
Professora do Departamento de História da Arte da Unifesp
Valter dos Santos Lameirinha
Mestre em História da Arte pela Unifesp


A história dos transportes coletivos e de seus trabalhadores na cidade de São Paulo está intimamente relacionada ao processo de expansão urbana. O transporte coletivo urbano, inicialmente movido à tração animal, foi concedido à iniciativa privada por volta de 1870. Ainda que fiscalizada pelo estado, a concessão se baseava na chamada “zona de privilégio”, uma espécie de reserva de mercado que garantia às concessionárias a exploração do serviço e a expansão das linhas para determinadas regiões.

Várias companhias operavam o serviço entre o final do século XIX e início do século XX. A partir de 1890, o estado passou a intervir de modo mais incisivo na operação do transporte coletivo, concedendo o monopólio do serviço à Companhia Viação Paulista (CVP), em 1899. A CVP  encampou as empresas preexistentes e operou os bondes a burro até o início do século XX. Apresentando dificuldades para atender à demanda, a CVP foi liquidada e arrematada em leilão pela São Paulo Tramway Light and Power em 1901, empresa de capital majoritário canadense que implementou os bondes movidos a energia elétrica e promoveu adaptações nas antigas instalações da CVP, de modo a atender ao novo sistema.

Em 1911, a Companhia Light, como ficou conhecida, adquiriu um grande terreno na Avenida Celso Garcia e iniciou a construção da atual garagem do Brás, que começou a ser utilizada em 1913. Outras estações da mesma natureza, como a Estação de Bondes da Alameda Glete, construída em 1909, e a da Vila Mariana, construída em 1912, foram demolidas na década de 1970. A garagem de bondes do Brás, portanto, é o último remanescente desta tipologia na cidade de São Paulo.

Como concessionária de serviços públicos, a Light foi protagonista no fornecimento de energia elétrica na primeira metade do século XX. Nesse período, a companhia edificou o principal sistema de indústria elétrica na cidade de São Paulo, com retificação de rios, construção de represas hidrelétricas, usinas de transformação e instalação de linhas de transmissão de energia. Juntamente com essa infraestrutura, a empresa alocou subestações em diferentes bairros para distribuição de energia, com o propósito de atender à demanda de iluminação pública e privada, bem como de eletrificação do sistema de transporte coletivo por meio de bondes.


Para cada área de atuação, a empresa empregou mão de obra brasileira e estrangeira. No ano de 1928, a Light já empregava 6750 trabalhadores no município, chegando a 8421 no início dos anos 1940. No departamento de tráfego, em 1900 a Light possuía 15 bondes movidos à energia elétrica com 40 condutores e 32 motorneiros. Em 1939, já eram 567 carros, 1.333 condutores e 1045 motorneiros.


Com o intuito de controlar os vínculos dos trabalhadores com a empresa, reduzir custos e impedir aumentos salariais, a Light utilizava a rotatividade da força de trabalho, contratando os empregados por cerca de um ano e realizando o desligamento após esse período. Esta e outras medidas arbitrárias e humilhantes, a exemplo de punições e multas, foram motivos de protestos e greves de funcionários da companhia. Tais manifestações de insatisfação foram controladas com a influência política e de polícia que a Cia. Light mantinha com o poder público, por meio de intimidação, prisão e dispersão de qualquer movimento grevista. Essa situação de enfrentamento ficou ainda mais acirrada quando, em meados de 1910, os operários fundaram a União Defensora dos Empregados da Light and Power.

Em outra frente, a companhia mantinha uma posição paternalista para controlar e atrair a simpatia de seus operários, com a construção de casas para locação, criação de fundo de pensão por meio de desconto de um dia de trabalho na folha de pagamento, escola para seus filhos e clube atlético, equipamentos alocados próximos às garagens. Apesar dessas medidas, a insatisfação com as condições de trabalho aumentava a cada ano, desencadeando ações coletivas e abrindo caminho para o fortalecimento do movimento operário.Na década de 1930, com a criação da União dos Trabalhadores da Light (UTL)ena esteira das novas legislações que garantiram direitos aos trabalhadores, o movimento sindical se organizou como entidade legal para defesa dos direitos dos empregados da Light.

O contrato de concessão da Light para prestação de serviços de transportes urbanos perdurou até meados da década de 1940; a partir de então, a empresa se desinteressou pela continuidade do serviço frente à acirrada competição com os ônibus. Nesse contexto, foi criada a empresa pública Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), que encampou o acervo da Light e operou os bondes até 1968, quando as linhas foram totalmente extintas. Em 1949, a CMTC colocou em circulação os primeiros ônibus elétricos, os trólebus, que também utilizavam a antiga estação de bondes do Brás para serviços de manutenção e garagem.

Dessas garagens, os carros partiam no início do dia e retornavam no final do expediente, reunindo cotidianamente diversos motorneiros e condutores, além de profissionais encarregados de tarefas diversas de manutenção e limpeza. Em um contexto de lutas e conquistas trabalhistas, as antigas estações de bondes desempenharam papel significativo como local de reunião de trabalhadores, ponto de piquetes e palco de reivindicações por melhores condições de trabalho, testemunhando também ações de repressão por parte de agentes policiais. Durante décadas, esses espaços abrigaram tanto as tarefas laborais cotidianas quanto as relações sociais e as lutas trabalhistas. Desse modo, a estação de bondes do Brás, tombada como patrimônio cultural pelo CONDEPHAAT em 2008 e pelo CONPRESP em 2014, configura hoje um relevante lugar de memória dos trabalhadores em São Paulo.

Vista dos antigos edifícios da garagem de bondes, a partir da rua Dr. João Alves de Lima, 2022. Foto de Valter dos Santos Lameirinha.


Para saber mais:

  • LAMEIRINHA, Valter dos Santos. Subestações de Energia da Light na Cidade de São Paulo (1899-1956): um estudo no campo do patrimônio arquitetônico industrial. Dissertação de Mestrado em História da Arte. Guarulhos: Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, UNIFESP, 2022.
  • LOPES, Miriam B. P. Oelsner. Pequena história dos transportes públicos de São Paulo. São Paulo: Museu CMTC, 1985.
  • SANTOS, João Marcelo Pereira dos. Os trabalhadores da Light São Paulo, 1900-1935. Tese de Doutorado em História. Campinas, SP: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, 2009.
  • SÃO PAULO (Estado). CONDEPHAAT. Processo nº. 28682/91. Estação de Bondes do Brás (São Paulo). Parecer técnico de Marly Rodrigues, p. 45-68.
  • TORRES, Maria Celestina Teixeira Mendes. O bairro do Brás. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico, Divisão do Arquivo Histórico, 1985.

Crédito da imagem de capa: Trabalhador executando a limpeza de um carro na garagem do Brás, 1928. Fonte: Acervo Fundação Energia e Saneamento.


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As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.

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