As discussões historiográficas acerca do pós-abolição e a constituição dos mundos do trabalho fabril não são recentes no Brasil, bem como a compreensão da mão de obra escravizada, anteriormente, como trabalhadora. No entanto, novas pesquisas e abordagens visam reexaminar essas aproximações entre a classe trabalhadora oitocentista e classe trabalhadora fabril no século XX como o artigo “Ferreiros, ‘escravos operários’ e metalúrgicos: trabalhadores negros e a metalurgia na cidade do Rio de Janeiro e na microrregião Sul Fluminense (Século XIX e XX)” de Thompson Clímaco, graduando em história pela UFRJ e pesquisador do LEHMT-UFRJ e Antonio Bispo, mestre em História Comparada pela UFRJ.
Neste texto, a cidade do Rio de Janeiro e a microrregião Sul Fluminense são mobilizadas visando uma nova perspectiva em torno da construção dos espaços de trabalho e classe operária entre os séculos XIX e XX. Por meio da análise dos locais de trabalho, da construção dos lugares de memória, territórios e processos históricos. Clímaco e Bispo Neto analisam experiências de trabalhadores negros que deram sentidos diversos, àqueles espaços, criando e recriando memórias, costumes e práticas.
Ademais, os historiadores também buscam destacar possíveis permanências na divisão de trabalho interna das fábricas, dentre elas: insalubridade, remuneração e autonomia – num contexto de negociação e conflito – dos proletários negros. Assim como suas experiências migratórias em busca de trabalho nas fábricas e a construção de sociabilidade fora delas, nas primeiras décadas do século XX.
O artigo compõe o dossiê “Mundos do Trabalho”, organizado pelas doutorandas Clarisse Pereira (UFF) e Heliene Nagasava (CPDOC/FGV) na revista Cantareira da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Créditos da imagem de capa: Centro de Memória do Sul Fluminense (CEMEFS). Metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) na oficina. Volta Redonda, 1947.
Este ano comemoram-se 150 anos da Comuna de Paris, descrita como a primeira experiência do poder operário. Porém, afinal o que foi a Comuna de Paris?
A França vinha de sofrer contínuas derrotas na Guerra Franco-Prussiana, iniciada em julho de 1870, com a captura em setembro do Imperador Napoleão III, pela coligação de estados alemães sob liderança da Prússia, levando ao fim do Segundo Império e ao reestabelecimento da República com um governo provisório de defesa nacional. O novo governo tenta a qualquer preço obter um acordo de paz com os alemães, mas encontra resistência de alguns setores, particularmente em Paris do Comitê Central dos 20 arrondissements (circunscrições administrativas da cidade), que reúne forças paramilitares como a Guarda Nacional. Em janeiro de 1871, Paris, sitiada pelos alemães, começa a ser bombardeada. No mês seguinte o recém-nomeado chefe do novo governo Auguste Thiers obtém um armistício provisório com os alemães, que permanecem estacionados nos arredores da capital francesa.
No dia 18 de março de 1871, tropas do governo tentam tomar os canhões que a Guarda Nacional havia posicionado em pontos estratégicos da cidade. A tentativa fracassa e eclode um motim popular, que logo se transforma em revolta. O governo foge da cidade para instalar-se na próxima Versalhes, levando consigo a administração pública. Diante da ausência de governo, o Comitê Central da Guarda Nacional (formado algumas semanas antes) assume o controle e convoca a eleição da Comuna de Paris (retomada da denominação adotada durante a Revolução Francesa para o poder municipal informal resultante da insurreição de agosto de 1792). A Comuna eleita de 1871, que funcionaria como poder legislativo e executivo, reunia forças distintas composta por neojacobinos, republicanos, membros do CCGN, membros da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), blanquistas (seguidores do revolucionário Auguste Blanqui) e uma minoria que buscava um entendimento entre a Paris revoltada e o governo refugiado em Versalhes (que não chegou a tomar posse).
Ilustração da barricada da Praça Blanche defendida por trabalhadoras em maio de 1871. Fonte: Wikimedia Commons
A Comuna não foi planejada, é fruto de acontecimentos imprevistos e da necessidade diante do vazio de poder de garantir a defesa e a sobrevivência da população parisiense. As nove comissões colegiadas estabelecidas por ela para lidar com diferentes ramos da administração funcionaram quase como ministérios. Suas medidas em diversos campos buscaram colocar em prática propostas já defendidas por setores de esquerda, mas também projetos inovadores e inevitáveis improvisações. Entre as primeiras medidas tomadas a suspenção de pagamento dos aluguéis atrasados, o fim da conscrição (serviço militar obrigatório) e a proclamação da Guarda Nacional como única força militar na cidade, que deveria ser composta por todos os cidadãos. No campo da educação estabelece a separação entre Estado e religião, inaugura o ensino laico (em um quadro até então dominado pelo ensino confessional), público e gratuito. No trabalho, retoma medidas de 1848 como o controle dos trabalhadores sobre oficinas abandonadas por seus proprietários por meio de cooperativas de produção, a proibição do trabalho noturno de padeiros, a restituição de objetos penhorados de baixo valor. No campo militar – a despeito dos feitos de alguns comandantes e do valor de seus comandados – nunca logrou estabelecer uma organização e uma disciplina entre as tropas irregulares que reunia capazes de dar enfrentamento a um exército regular treinado, bem equipado e disciplinado como logo se formou sob as ordens do governo de Versalhes.
Cartaz com decretos da Comuna de Paris, 3 de abril de 1971. Fonte: Wikimedia Commons
O exemplo de Paris foi seguido por algumas outras cidades, particularmente no sul da França, mas essas outras comunas acabaram em pouco tempo suprimidas pelas forças governamentais. Assim Paris permaneceu isolada, cercada ao norte e ao leste pelos alemães e ao oeste e ao sul pelos versalheses. Padecendo de sérios problemas de abastecimento e sem condições para romper o cerco, surgiram crescentes dissensões internas sobre a condução da Comuna. Em 1º de maio por maioria de votos a Comuna decidiu estabelecer um Comitê de Salvação Pública (também retomando a denominação da Revolução Francesa), iniciativa apontada pela minoria como uma usurpação do poder popular e o caminho aberto para a ditadura. Duas semanas depois, a maioria decidiu que a minoria, composta sobretudo pelos membros da AIT, já não tinha direito de assento na Comuna.
No dia 21 de maio as tropas versalhesas rompem as defesas ao oeste de Paris, dando início à semana sangrenta, promovendo execuções sumárias dos defensores da cidade até o fuzilamento, no dia 28, de 147 dos últimos combatentes contra um muro no interior do Cemitério Père Lachaise no leste da capital francesa . Local que passou à posteridade como o Muro dos Federados. As vítimas entre mortos, presos e deportados chegam a 50 mil e a França permaneceu sob estado de sítio até 1876. Apenas em 1880 aqueles que conseguiram escapar da repressão e partir para o exílio puderam retornar por meio de uma anistia.
A Comuna, pelo ensaio de poder dos trabalhadores e pelo martirológio promovido pela sua supressão, tornou-se assim um evento celebrado pelo movimento operário internacional. A partir de 1880 o Muro dos Federados tornou-se um local para a rememoração anual dos mortos da Comuna. Seu exemplo, no entanto, serviu para alimentar a luta interna dentro da AIT. As duas principais facções, de um lado, o conselho geral de Londres, em que estavam Marx e Engels, e de outro lado Mikhail Bakunin, produziram belos textos de propaganda política sobre o acontecimento, buscando uma apropriação de sua memória. Em privado, ambos os lados tinham diversas reservas sobre os membros da seção parisiense da AIT, que em sua maioria não eram nem marxistas, nem bakuninistas. Os membros da seção parisiense eram majoritariamente jovens trabalhadores vindos do proudhonismo (de Pierre Joseph Proudhon), que retinham de seu inspirador o federalismo e a defesa da auto-organização dos trabalhadores (sustentada na obra póstuma do pensador), mas afastavam-se de suas posições contrárias às greves, aos direitos das mulheres e à participação política. A historiografia posterior sobre a Comuna de inspiração marxista ou anarquista, sustentou as posições públicas de seus mestres e ocultou o caráter plural e diversificado dos participantes da Comuna e o caráter original do socialismo da AIT parisiense.
A historiografia mais acadêmica, particularmente francesa, envolveu-se em uma longa controvérsia se a Comuna era a última das revoluções do século XIX ou a primeira do século XX, a Comuna como crepúsculo ou como aurora, quando talvez fosse mais apropriado buscar as duas dimensões no episódio. Uma parte da historiografia de língua inglesa buscou colocar em dúvida a dimensão operária da Comuna, enfatizando seu caráter comunitário e ligado a uma identidade de bairro, em detrimento de uma solidariedade classista, posição sustentada pelo sociólogo estadunidense Roger V. Gould. Contestado principalmente pelo geógrafo britânico David Harvey que argumenta não haver incompatibilidade entre uma identidade comunitária e uma identidade de classe e que a população parisiense era composta majoritariamente por trabalhadores. Neste ponto cabe uma explicação, que frequentemente contribui para confusões nesse debate (opondo a insurreição popular à insurreição operária), a classe operária parisiense não era composta majoritariamente por trabalhadores fabris, mas por artífices atuando em oficinas e manufaturas. A fábrica moderna ainda era um fenômeno reduzido ao leste da França no início da década de 1870. Ou seja, compreender a composição da classe operária parisiense nesse período é essencial para um entendimento da natureza da Comuna.
A Comuna hoje continua a nos desafiar por seu esforço de reorganizar o mundo mesmo sob as condições mais adversas, pelo legado de esperança e de utopia que perdura em sua história. Este ano a prefeitura de Paris prevê realizar celebrações bem mais amplas do que as habitualmente mantidas no aniversário da Comuna, ao mesmo tempo em que diversos movimentos sociais vêm buscando inspiração retórica e simbólica no acontecimento. Quem sabe a Comuna ainda tem lições a legar para as lutas sociais e para as bandeiras da esquerda do século XXI…
¹ Professor do Departamento de História da Unicamp
Referências: ARCHER, Julian P. W. The First International in France 1864-1872. Its Origins, Theories, and Impact. Lanham, MD/Oxford: University Press of America, 1997. BAKOUNINE, Michel. De la guerre à la Commune: textes de 1870-1871 établis sur les manuscrits originaux et présentés par Fernand Rude. Paris: Anthropos, 1972. BOITO, Armando (org.). A Comuna de Paris na história. São Paulo: Xamã/CEMARX, IFCH-UNICAMP, 2001. GOULD, Roger V. Insurgent Identities: Class, Community, and Protest. From 1848 to the Commune. Chicago: University of Chicago Press, 1995. HARVEY, David. Paris, capital da modernidade. São Paulo: Boitempo, 2015. LISSAGARAY, Prosper-Olivier. História da Comuna de 1871. São Paulo: Ensaio, 1991. MARX, Karl. A guerra civil na França. São Paulo: Boitempo, 2011. [há várias edições] MUSTO, Marcello (org.), Trabalhadores, uni-vos!: Antologia política da I Internacional. São Paulo: Boitempo/Fundação Perseu Abramo, 2014. ROUGERIE, Jacques. La Commune de 1871, 4ª ed,, Paris: Presses Universitaires de France, 2009. SAMIS, Alexandre. Negras tormentas: o federalismo e o internacionalismo na Comuna de Paris. São Paulo: Hedra, 2011. SCHAFER, David A. The Paris Commune: French Politics, Culture and Society at the Crossroads of the Revolutionary Tradition and Revolutionary Socialism. Basingstoke, Hampshire/Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2005.
Crédito da imagem de capa: A Comuna de Paris, 1871. Federados ao pé da coluna Vendôme, 1º arrondissement, Paris. (Museu Carnavalet, História de Paris)
Existe luta feminista fora do feminismo? Os últimos textos escritos pela socióloga Elisabeth Souza Lobo tiveram o propósito de reunir numa análise única o movimento de mulheres e o movimento feminista que, nos anos 1980, pareciam estar apartados. Movimento de mulheres era uma designação que caracterizava movimentos populares, com reivindicações “socioeconômicas” e a palavra “feminista” era usada para os movimentos com ações de caráter “socioculturais”, tidas como clássicas: sexualidade, aborto e violência. A experiência relatada por uma trabalhadora rural, de Bico do Papagaio, em Tocantins, que fez parte de uma das numerosas pesquisas de Elisabeth Souza Lobo, parecia sugerir uma síntese: “Se reivindicar terra e direito à saúde for feminista, então eu sou”. Para Lobo, o sentido da igualdade entre mulheres e homens poderia assumir um conteúdo capaz de questionar as relações de dominação na família ou a divisão sexual do trabalho.
No entanto, ela não teria chegado a essa síntese sem uma valiosa trajetória política e intelectual. Elisabeth Souza Lobo nasceu em 1943, em Porto Alegre. Assim como muitos outros militantes políticos na cidade, iniciou sua atuação no movimento estudantil no Colégio de Aplicação local. Com o golpe de 1964, aderiu à Dissidência do Partido Comunista no Rio Grande do Sul e na sequência participou da fundação do POC (Partido Operário Comunista). Em 1967, ela e Marco Aurélio Garcia, com quem era casada, partiram para a França. Chegaram a voltar para o Brasil e depois foram para o Chile durante o governo da Unidade Popular liderado por Salvador Allende. No começo da ditadura de Pinochet, exilaram-se definitivamente na França. Em diferentes momentos de exílio e estudos, contribuiu com centros de pesquisas feministas em países da América Latina e Europa. Em 1979, concluiu uma tese de doutorado em sociologia na Universidade Paris VIII, sobre a ditadura militar no Brasil.
Com a Anistia, voltou ao Brasil, e envolveu-se nos movimentos sociais e políticos que discutiam amplamente o futuro democrático do Brasil. Beth Lobo, como era carinhosamente chamada por suas companheiras, fez parte do grande movimento político que marcou o final da ditadura militar e resultou na fundação do Partido dos Trabalhadores (1980) e da Central Única dos Trabalhadores (1983). Ela atuava diretamente como militante do PT e como assessora das mulheres que integravam a central sindical. Em 1986, o grupo de mulheres da CUT, que reunia sindicalistas e estudiosas, criou a Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora. Para Didice Godinho Delgado, que foi a primeira coordenadora dessa comissão, Lobo conseguiu fazer da sociologia uma ferramenta para a prática militante, conjugando pesquisas sobre mulheres e sindicalismo com sua “vinculação cidadã”.
Grupo de mulheres reunidas durante o I Congresso da Trabalhadora Metalúrgica de São Bernardo do Campo e Diadema em 1978. Fonte: Diário do Grande ABC.
Formação política, assessoria sindical, produção de textos, campanhas políticas, pesquisas universitárias e aulas na USP e na Unicamp. Esse conjunto de tarefas fazia parte das atividades de Beth Lobo junto ao grupo de mulheres do PT e da CUT. Sua produção científica, que conjugava ciência e política foi publicada em revistas especializadas sobre estudos do trabalho e apresentada em congressos da área. Beth Lobo se debruçou, então, sobre os números e indicadores que forneciam o cenário da classe operária urbana no ABC paulista. Foi aí que ficou atenta à organização das trabalhadoras, recolheu relatos e produziu análises. Sobre as greves no ABC, no final dos anos 1970, afirmou: “As reivindicações gerais dos metalúrgicos não retomam as das operárias, a discriminação sexista permanece oculta num discurso unificador; todavia, o sindicato é seu ponto de apoio”. A partir desse texto, escrito em 1982, em parceria com Leda Gitahy, John Humphrey e Rosa Lúcia Moysés, Lobo decidiu por considerar essa contradição colocada em seus próprios termos e, ao invés de entender o mundo das mulheres como apartado do trabalho, passou a tratar do tema a partir do conceito de divisão sexual do trabalho.
A existência de uma opressão específica, na forma de uma grande massa de trabalho realizado quase que exclusivamente pelas mulheres, um trabalho invisível, feito para outros e sempre em nome da natureza, do amor e do dever maternal, se tornou evidente nos anos 1970, tanto para a sociologia quanto para os movimentos sociais. Elisabeth Souza Lobo estava na França e fazia parte do Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris (CMB) quando esse debate tomou os grupos feministas. Diferente de outros grupos políticos formados no exílio, as feministas procuravam manter uma perspectiva mais internacional sobre a experiência das mulheres, deixando de lado as percepções confinadas nas fronteiras do Estado-nação. Por esse motivo, algumas brasileiras do CMB tomaram contato com diversas correntes de esquerda, incluindo, a Liga Comunista Revolucionária (LCR). Tratava-se de uma organização política que atuou com esse nome entre os anos 1969 e 1973, ligada a Quarta Internacional. Nessa articulação transnacional, elas procuravam compreender a experiência das trabalhadoras e duvidavam que as mulheres compunham o “exército de reserva”, diminuindo o valor da força de trabalho. O resultado desses debates apareceu em artigos de várias autoras brasileiras e francesas, em 1984, no livro francês Le Sexe du Travail. Ele foi traduzido e publicado no Brasil como O Sexo do Trabalho, em 1986, e contava com a contribuição de autoras como Danièle Kergoat e Helena Hirata.
Todas essas discussões do feminismo somadas aos fortes debates do período sobre autonomia dos movimentos sociais influenciaram profundamente as reflexões de Beth Lobo. Na conjuntura dos anos 1980, a divisão sexual do trabalho entrava de vez nas pesquisas sociológicas e no debate feminista no Brasil, tendo as mulheres da CUT como algumas de suas protagonistas. Esse campo político, integrado por Elisabeth Lobo, alterou em definitivo as leituras sobre as relações de trabalho. Ao trazer a divisão sexual para o centro da análise das relações sociais, inseriram as mulheres nos debates sobre economia e luta por direitos. Ainda assim, a história desse grupo de mulheres e de sua contribuição andam em separado quando o assunto é a história do feminismo no Brasil.
Elas demonstraram e enfatizaram a existência da luta pela emancipação das mulheres em organizações que envolvem, de forma geral, a luta por direitos. Desta forma, tornaram possível perceber a participação de mulheres comuns, trabalhadoras do campo ou da cidade, na conformação de direitos e nos sentidos de justiça social. Para Elisabeth Souza Lobo, a dominação não implicava passividade, mas também violência, ação, conflito e relações antagônicas. Ao tentar entender a resposta que as trabalhadoras forneciam, ela conseguiu compor uma trajetória que conjugou o feminismo com a classe trabalhadora. Não raro, Lobo retomava E. P. Thompson nas suas análises conduzindo a experiência das trabalhadoras como parte da história do trabalho. Reunir o que parecia estar em lugares distintos resultou numa abordagem “vista de baixo”: a consciência da ação não estava fora dela, e assim, encontrou a luta feminista mesmo quando o feminismo parecia não ser reivindicado.
Elizabeth Lobo no 1° Seminário de Formação sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, organizado pela Comissão Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT em conjunto com a Comissão Regional da CUT ABC, Mogi e Baixada Santista. O Seminário foi realizado na cidade de Santo André, em maio de 1989. Fotografia de Cibele Aragão.
O artigo em que Beth Lobo analisa o feminismo no Brasil se chama “Questões a partir de estudos sobre o movimento de mulheres no Brasil” e foi apresentado num seminário da Faculdade de Educação da USP, em 1989. Quase todos os seus textos foram reunidos no livro A Classe Operária tem Dois Sexos, publicado pela primeira vez em 1991, pela Editora Brasiliense. Embora fossem ainda reflexões iniciais, o artigo trazia uma análise fundamental sobre a atuação das “vistas de baixo” na história do trabalho e do feminismo no Brasil. O livro foi uma iniciativa de companheiras e de Marco Aurélio Garcia. Ele traduziu os textos de Lobo publicados fora do país. A edição contou com a participação de Ana Maria Goldani, Helena Hirata, Leila Blass, Maria Berenice Godinho Delgado, Maria Célia Paoli e Vera Soares. Elas selecionaram os ensaios e agruparam os textos de Lobo segundo unidades temáticas.
Elizabeth Souza Lobo morreu em um acidente automobilístico na Paraíba no dia 15 de março de 1991, aos 47 anos, junto com Maria da Penha Nascimento Silva, então com 42 anos, fundadora do Movimento de Mulheres do Brejo (MMB) e da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora da CUT. O livro já ganhou novas edições em 2011 pela Fundação Perseu Abramo e outra em 2021, fruto da parceria da mesma fundação com a Editora Expressão Popular, e pode ser adquirido gratuitamente no site da editora. O título da publicação exprime a síntese entre mundos que parecem estar separados e foi usada por Lobo quando ela escreveu a orelha da edição brasileira de O Sexo do Trabalho. A classe operária tem dois sexos, soa até hoje como uma palavra de ordem.
¹ Professora do Departamento de História da UFSC
Referências: ABREU, Maíra. Feminismo no Exílio: o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris e o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris. São Paulo: Alameda, 2014. DELGADO, Didice G. “O legado de Beth Lobo”. Teoria e Debate, n. 92, 2011. HIRATA, Helena (e outras). Dicionário Crítico do Feminismo. São Paulo: Editora da Unesp, 2009. HIRATA. Helena. “Elisabeth Souza-Lobo, 1943-1991”. Revista BIB, n. 31, 1991. KARTCHEVSKY, Andrée (e outras). O Sexo do Trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. SOUZA-LOBO, Elisabeth. Crise de domination et dictature militaire au Bresil. Tese de Doutorado apresentada à Universidade de Paris VIII, 1979. SOUZA-LOBO, Elisabeth. Domination et résistance: travail et quotidienneté. Paris: IRESCO, 1995. SOUZA-LOBO, Elisabeth. Emma Goldman. São Paulo: Brasiliense, 1983. SOUZA-LOBO. Elisabeth. A Classe Operária tem Dois Sexos. São Paulo: Brasiliense, 1991. Para baixar o livro na íntegra e gratuitamente: https://fpabramo.org.br/publicacoes/estante/a-classe-operaria-tem-dois-sexos-trabalho-dominacao-e-resistencia/
Crédito da imagem de capa: Capa do livro A Classe Operária tem Dois Sexos. São Paulo: Brasiliense, 1991.
Contribuição especial de Paulo Fontes e Francisco Macedo
No dia em que Michael Hall completa 80 anos, o LEHMT-UFRJ presta uma homenagem republicando na íntegra a entrevista concedida por ele em São Paulo no dia 20 de julho de 2016 ao coordenador do LEHMT, Paulo Fontes (orientado por Michael Hall no mestrado e doutorado em História Social na Unicamp) e Francisco Macedo. A entrevista foi publicada originalmente na revista Estudos Históricos número 59, de setembro-novembro de 2016.
Michael Hall tem sido, nas últimas quatro décadas, um dos principais protagonistas da historiografia sobre o trabalho no Brasil. Nascido nos Estados Unidos em 1941, estudou nas Universidades de Stanford e Columbia, onde se especializou em história brasileira. Sua tese de doutorado, defendida no final dos anos 1960, tornou-se um dos textos fundamentais sobre a imigração italiana em São Paulo.
Em 1975 transferiu-se definitivamente para o Brasil e passou a lecionar na recém-criada Universidade Estadual de Campinas. Na Unicamp, foi uma das figuras centrais na construção do Departamento de História. Foi um dos fundadores do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), o maior arquivo especializado em história do trabalho na América Latina, e até hoje é um dos mais profundos conhecedores do acervo dessa instituição. Teve ainda importância fundamental na montagem da Biblioteca do Instituto e Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e na sua constituição como uma das principais bibliotecas de referência para pesquisa na área de ciências sociais e humanidades no país.
Especialista no estudo do anarquismo e do movimento operário na Primeira República, Michael Hall é um dos responsáveis pela difusão no Brasil da influente obra de E. P. Thompson e da historiografia social anglo-saxã. Desde os anos 1980, tornou-se uma espécie de “embaixador” da história social do trabalho brasileira, atuando como correspondente local de algumas das mais importantes revistas internacionais neste campo e sendo uma referência obrigatória para muitos pesquisadores estrangeiros em visita ao Brasil.
Orientador de diferentes gerações de historiadores, Michael sempre foi uma referência para seus alunos e colegas. O humor e ironia ferina, mas também as generosas e eruditas sugestões bibliográficas e dicas de fontes e acervos, invariavelmente redigidas em seu indefectível bloco de anotações de folhas amarelas, estão entre as melhores e carinhosas lembranças de todos(as) aqueles(as) que tiveram o privilégio de compartilhar sua convivência ao longo desses anos.
Aposentado desde 2012, Michael Hall continua ativo na pesquisa, orientação e participação em bancas de defesa de mestrado e doutorado. No momento prepara um livro reunindo ensaios e artigos antigos e suas pesquisas mais recentes.
Michael Hall na Unicamp. Fonte: Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas
Para começar, gostaríamos que nos falasse sobre suas origens, seus pais, onde você nasceu. Que nos contasse um pouco sobre o ambiente familiar no qual foi criado.
Fui criado numa família de classe média em Houston, Texas, nos anos 1940 e 50. Meu pai era dentista. A única excentricidade era o fato de minha mãe ser assistente social, o que era um pouco progressista para o ambiente do bairro. Ela sempre alegava que era a única pessoa branca na nossa zona eleitoral que havia votado em Henry Wallace em 1948.¹ Mas ela não era tão militante assim. Acho que realmente vim a conhecer uma outra realidade quando comecei a graduação em Stanford, que é uma universidade relativamente conservadora, ou certamente era, no começo dos anos 60. Mas os movimentos de direitos civis, pelo desarmamento nuclear etc. também atuavam lá, embora menos intensamente do que em algumas outras universidades, creio.
Você foi fazer graduação em História em Stanford?
Não. Ciência Política. Ninguém é perfeito. [risos] Mas acho que acabei fazendo quase o mesmo número de matérias de História e de Ciência Política.
E por que um garoto veio do Texas para Stanford cursar Ciência Política?
Primeiro, eu queria sair do Texas. Alguns colegas da turma anterior da high school que tinham ido para universidades da Ivy League – Yale, Princeton etc. – não estavam muito entusiasmados com a experiência, sentiam-se um pouco marginalizados. Já outros, que tinham ido para Stanford, ficaram um pouco mais animados.
Em Stanford, então, você teve o interesse por História despertado. Lá também começou seu interesse pela América Latina?
Sim, havia todo um ambiente, um clima em relação à Revolução Cubana, que desper- tava simpatias. As políticas da Aliança para o Progresso² eram bastante criticadas por alguns alunos da pós-graduação, e havia um professor, Ronald Hilton, um inglês meio excêntrico, que defendia até certo ponto a Revolução Cubana. Não tive muito contato com Hilton, mas na época ele atraía alunos de pós, de esquerda, do país inteiro. E isso também dava um foco. Mesmo sendo aluno de graduação, eu também ouvia essas pessoas.
E por que você foi fazer a pós-graduação em Columbia?
Porque nos anos 60, nos Estados Unidos, Columbia era o lugar, se você estivesse interessado na América Latina. Cheguei em Columbia em 1963, no comecinho das agitações contra a Guerra do Vietnã, e comecei a conviver com um mundo realmente bem diferente daquele a que eu estava acostumado. Vários dos meus colegas e amigos eram os chamados crianças de fraldas vermelhas, filhos de ex-comunistas. E eu comecei a ficar cada vez mais horrorizado com a Guerra do Vietnã e interessado na América Latina. Na época, Columbia era um ótimo lugar para isso. O meu orientador, Lewis Hanke, nem era um cara muito político, e na verdade trabalhava com o período colonial. Era um bom sujeito, uma pessoa muito simpática e um bom historiador. Suas obras mais importantes são sobre Bartolomeu de Las Casas, mas ao redor dele havia um grupo grande de alunos interessados no Brasil: Joseph Love,3 Ralph Della Cava,4 Stuart Schwartz,5 que estavam um pouco à minha frente. E Peter Eisenberg, que me incentivava. E também havia várias outros professores em Columbia que trabalhavam com o Brasil, por exemplo, os antropólogos Charles Wagley6 e Marvin Harris.7 E havia vários alunos deles interessantes. Era um ambiente muito aberto. Acho que peguei um pouco desse ambiente.
Em toda essa discussão sobre América Latina, como você começou a se interessar pelo Brasil? Sempre há a questão da língua.
Sim, havia a questão da língua, e acho que na época também parecia um pouco exótico. Fiquei impressionado com o filme do [Jean-Paul] Belmondo, O homem do Rio,8 e também com o Orfeu Negro.9 E era uma época em que havia facilidade de obter recursos, bolsas de estudo para quem queria estudar a América Latina ou outros países do Terceiro Mundo. Então eu, que já havia passado um semestre na Itália e estudado italiano ainda na graduação, pensei que talvez fosse interessante estudar a imigração italiana no Brasil. Wagley estava muito entusiasmado com a ideia de italianos no Brasil, eu certamente sabia italiano melhor do que português na época, e então fiz o mestrado sobre isso.10 Fiz o pouco que dava para fazer nas bibliotecas americanas, e em 1966 vim para cá.
As fontes do seu mestrado estavam todas nos Estados Unidos?
Sim, estavam. Foram vários panfletos sobre a imigração que localizei na Biblioteca Pública de Nova York, por exemplo. Materiais do século XIX. Propaganda, em parte, do governo imperial para incentivar e enganar imigrantes. Mas era um problema, porque de fato não havia tanto material desse tipo nas bibliotecas americanas.
Em 1966, quando veio para o Brasil, você foi para São Paulo?
Não. Para o Rio, primeiro. E passei seis meses, basicamente, na Biblioteca Nacional e um pouco no Arquivo Nacional. Também travei alguns contatos com acadêmicos. O pessoal da Cândido Mendes, Amaury de Souza, entre outros. Eu havia conhecido o Octávio Ianni em Nova York, procurei-o em São Paulo, e ele me disse: “Ah, procure os meus amigos Sérgio Buarque e a Alice Canabrava, eles vão encaminhar você para as pessoas certas”. E de fato. Todo mundo dizia que eu tinha que falar com a Emília Viotti da Costa, que conheci naquela época.
Você sentiu alguma hostilidade por ser um pesquisador estadunidense, um “brasilianista”? Ou ao contrário, alguma facilidade?
Hostilidade, nunca. Facilidade, não sei. Também não especialmente, acho. Na época havia sempre algumas pessoas fazendo denúncias. Lembro de um artigo do José Honório Rodrigues.11 E lembro de um episódio curioso. Havia uma mulher simpática, não vou lembrar o nome dela, na USIS, United States Information Service,12 que queria se aproximar de vários estudantes e pesquisadores americanos, e nós recusamos. E ela, acho, não entendeu muito. Mas 1966 já era o período da Guerra do Vietnã em que todo mundo, ou pelo menos a maioria de nós, queria se distanciar das políticas dos Estados Unidos no exterior.
Havia uma certa comunidade de “brasilianistas” nessa época?
Sim, vários. No Rio eu dividia com o Kenneth Erickson,13 cientista político, um apartamento no Posto Seis que era da embaixada da Suécia. As embaixadas ainda não tinham mudado para Brasília em 1966. Eles tinham esse apartamento simpático vazio, e o Ken, de família sueca, negociou o aluguel – tentando parecer o mais sueco possível, como ele dizia. E tinha muita gente no Rio, de fato. Peter Eisenberg,14 por exemplo, também estava pesquisando e veio com a Rosa, mulher dele. Era um ambiente muito simpático. Mas logo voltei para os Estados Unidos. Terminei a tese de doutorado. E perdi 1968 no Brasil. Mas voltei novamente em 1969, quando fiquei três meses. E então já era um ambiente bem mais sombrio.
E o que você fez logo que terminou a tese?
Fui dar aula na University of North Carolina, que era uma “festa caipira” na época, pelo menos o Departamento de História. Eu sempre lembro que assinei uma declaração inócua da American Civil Liberties Union,15 e depois descobri que eu não só era a única pessoa dentro do departamento, mas praticamente o único professor na universidade a ter assinado a petição. Um dos professores de História veio conversar comigo fantasiado como fazendeiro pré-guerra civil, com terno de linho branco (isso certamente é imaginação minha), e disse: “A diferença entre você e nós, meu filho, é que nós defendemos a nossa pátria. Quando eu estava no Pacífico matando japas, eu nunca pensei em questionar meu comandante em chefe”… Foi nessa época que eu inventei a “Lei de Hall”, que não vale mais, pois a tecnologia mudou, com e-mail, Skype, Facebook, etc. Mas a lei concluía que quando a sua conta de telefone era maior do que o seu aluguel, você provavelmente estava morando no lugar errado. De qualquer forma, passei dois anos por lá. E depois fui para a Universidade de Tulane, em Nova Orleans. Achei que pelo menos eu estaria numa cidade interessante. Mas era um departamento bastante conservador também. E a cidade era boa para visitar, mas nem tanto para morar. Eu sempre imaginava que dentro daqueles prédios tão interessantes moravam pessoas igualmente interessantes, [risos] e não era o caso, pelo menos na minha experiência.
E quanto ao Brasil? Depois você voltou novamente para cá.
Sim. Eu tinha estado no Brasil em 1966, 67, fazendo a pesquisa de doutorado, depois voltei em 1969 e, de novo, em 1970. Depois fui pesquisar na Itália e voltei mais uma vez no começo de 1971, porque Carlos Guilherme Motta, que estava dando aula na Unicamp, havia me convidado para dar aula por lá, o que eu fiz entre março e junho daquele ano. Bem, em 1971, a barra estava mais pesada. Todo mundo precisava ser um pouco mais discreto. Ainda assim, a Unicamp, sendo uma universidade muito nova, provavelmente não era tão vigiada como a USP. Certamente, falando com pessoas da USP, a situação lá era bem mais grave, e várias pessoas estavam presas.
Nesse contexto, você teve um certo papel no auxílio para o exílio da Emília Viotti da Costa, não foi?
Emília me ajudou bastante em 1967, mas ela foi afastada da USP depois do AI-5 e sujeita a um processo absurdo graças a colegas do Departamento de História. Em 1970, deixei a minha vaga em Tulane aberta para Emília, o que era um pouco complicado. Joe Love tinha um amigo no consulado que deu o visto americano para ela, o que não era inteiramente tranquilo, porque ela estava sendo processada e tinha um passaporte brasileiro que iria vencer logo. Mas ela conseguiu entrar nos Estados Unidos e foi condenada à revelia. Posteriormente ela acabaria inocentada. Acho que em fins de 1971 ou começo de 1972, Joe Love convidou-a para dar aula em Illinois. Depois ela foi para o Smith College e, finalmente, para Yale, onde formou toda uma geração de especialistas em Brasil nos Estados Unidos.
E quanto à Unicamp?
Depois da experiência em 1971, voltei para os Estados Unidos. Tempos depois, Paulo Sérgio Pinheiro,16 que eu tinha conhecido então, insistiu muito para eu voltar para a Unicamp. Disse: “Faça um teste. Vamos arranjar uma bolsa Fulbright de professor visitante para você”. Nessa época, 1975, a Unicamp era um lugar realmente atraente. O único problema inicial na Unicamp é que não tinha começado o Curso de História, então era História para cientistas sociais. Deve ter sido em 1977 ou 1978 que começou a graduação de História. E eu, normalmente, oferecia uma disciplina de História Moderna ou de História dos Estados Unidos. Lembro que os alunos eram bastante politizados em comparação com os alunos americanos, ou pelo menos os da universidade sulista de Tulane. Logo depois da minha chegada, contratamos Peter Eisenberg. Ele estava dando aula em algum lugar do Caribe. A Unicamp era um lugar muito estimulante.
E o clima político naquele contexto?
Era 1975, 76, já no governo Geisel, mas prenderam pessoas da Unicamp. Lembro do Ademir Gebara, que era nosso colega do departamento. Isso era bem grave. E, claro, vários dos os professores da Unicamp estavam voltando do exílio. Havia os que tinham participado da luta armada ou os que tinham passado muitos anos na França. E a piada, minha e do Peter Eisenberg, é que eram esses caras que esperavam herdar o país, ex-líderes estudantis dos anos 60, que acabaram em Campinas, herdando um modesto Instituto de Ciências Sociais. Alguns tinham dificuldade em fazer os ajustes. Assim, muitas vezes as reuniões do Instituto se confundiam um pouco com as crises de ministérios em Paris ou Brasília. [risos] E havia algumas pessoas que, de fato, estavam na vida acadêmica um pouco por falta de outras opções, que teriam preferido carreiras políticas ou jornalísticas etc. Mas como essas não eram possibilidades realistas no período, elas acabaram na universidade, o que certamente tornou o ambiente político mais estimulante.
Foi nesse contexto que foi criado o Arquivo Edgard Leuenroth, o AEL?
Desde a minha rápida passagem de um semestre pela Unicamp em 1971, Paulo Sérgio Pinheiro e eu estávamos tentando estabelecer condições para a pesquisa em história do trabalho. Tínhamos alguns contatos com Germinal, filho do antigo líder anarquista Edgard Leuenroth. Ele estava ameaçando vender o arquivo do pai para a University of Texas, onde o filho do John Foster Dulles, John W. F. Dulles,17 era professor. Dulles tinha arrumado uma bolsa na Escola de Administração da University of Texas para o filho do Germinal. Eu fiz o contato para o Paulo Sérgio negociar com o Germinal, o que levou um certo tempo, porque ele queria receber mais ou menos o que ganharia da University of Texas. Mas o Paulo Sérgio estava preocupado e foi falar com o Zeferino Vaz, primeiro reitor da Unicamp. Ele acabou convencendo o Zeferino, que gostava de frases de efeito e disse: “Ah, vai ser minha obrigação, não só como reitor, mas como brasileiro, manter esse material no país”. O resgate da documentação e as negociações para trazer o material para a Unicamp foram basicamente uma iniciativa do Paulo Sérgio. Eu não estava no país nesse período. Só cheguei em 75, quando o arquivo já estava assegurado. Criar um arquivo para a História Social, e especialmente para o movimento operário, era uma grande aspiração do Paulo Sérgio. Algo em bastante sintonia com o espírito dos anos 60, começo dos anos 70.
Michael Hall (de camisa branca) conversa com Paulo Sérgio Pinheiro e Marco Aurélio Garcia durante a inauguração do novo prédio do Arquivo Edgard Leuenroth em novembro de 2009. Fonte: Jornal da Unicamp.
É curioso. Na mesma época em que o CPDOC da FGV estava sendo criado como um arquivo, digamos, dedicado à elite política brasileira, a Unicamp estava criando um arquivo do movimento operário, de História Social.
Sim. Mas nunca consegui convencer nenhum diretor do AEL a fazer para o movimento operário o que o CPDOC fez para a elite política, um grande projeto de História Oral, de entrevistas com trabalhadores e líderes sindicais. Porque em 1975 havia muitos sobreviventes dos anos 30, 40. No início, houve certa dificuldade para institucionalizar o arquivo, por inércia burocrática. Não havia professores com tempo exclusivo para dirigir o arquivo, nem muitos recursos. Dando aula, não dava para investir tanto tempo. E até a chegada do Marco Aurélio Garcia,18 no início dos anos 1980, não havia, de fato, um diretor do arquivo.
Há um certo “mito”, digamos assim, do período inicial da Unicamp como um espaço da dissidência, da diferença em relação à tradição acadêmica brasileira, em particular em relação à USP. Você poderia comentar um pouco esse momento da década de 1970?
Havia várias pessoas da USP no início da Unicamp: Carlos Guilherme Mota, Fer- nando Novais, sobretudo. Mas é verdade. A Unicamp aparecia como algo relativamente diferente e, talvez, menos vigiado. Eu acho que, em parte, isso se deve ao fato de que Zeferino19 contratou pessoas jovens. Muitos com formação no exterior, e não apenas na Europa. Evelina Dagnino20 e alguns outros, por exemplo, formados nos Estados Unidos. Um pouco depois dela, veio Bela Feldman-Bianco, que havia estudado Antropologia em Columbia. E claro, a USP havia sofrido as cassações, as aposentadorias obrigatórias do AI-5. A Unicamp tinha uma abertura para o mundo, por causa da formação dos professores e de um número razoável de estrangeiros, o que não era muito comum nas outras universidades brasileiras na época.
Mas havia uma rivalidade com a USP?
Ah. Não, não era uma rivalidade, exatamente. O Departamento de História da USP era sempre um pouco mais problemático do que os outros departamentos da Faculdade de Filosofia. Por motivos que nunca entendi, aliás. Mas, na verdade, acho que havia um pouco de deferência à USP. Muitos professores da Unicamp haviam estudado na USP, pelo menos na graduação. E a repressão das outras universidades no resto do país tinha sido terrível. Então, realmente, mal existiam Ciências Humanas fora da USP e da Unicamp, ou do IUPERJ no Rio. Um momento interessante foi um congresso internacional organizado pelo Paulo Sérgio Pinheiro na Unicamp em 1975.21 O congresso contou com a presença de Eric Hobsbawm, Arno Mayer, Juan Linz, Guillermo O’Donnel, Rudolf de Jong, do Instituto de História Social de Amsterdã, e várias outras pessoas. Arno Mayer estava espantado com a realização do evento e comentou: “Mas é muito curioso, no meio dessa ditadura. É um pouco como a França da Restauração. Dentro do salão, se pode dizer qualquer coisa, sem muito medo”. E a Unicamp era um pouco isso, também. Não havia grandes inibições sobre o que se usava como leitura, o que se falava em sala de aula. E tudo era muito interdisciplinar. E muito autogestionário também. Nos tomava um tempo incrível em reuniões, mas havia um espírito simpático, que não parecia muito comum no Brasil na época.
Você acha que acabou havendo uma associação da “novidade” que a Unicamp representava com o processo de redemocratização, com o “novo sindicalismo”, com todo aquele contexto do final dos anos 70?
Acho que sim. Tinha um pouco disso, certamente. No mínimo, tinha uma abertura para isso.
Em contraste com a USP, que teria um certo peso da “tradição”.
Sim. Embora eu ache que seja importante distinguir os departamentos de Ciências Sociais e de Letras do Departamento de História, na USP. Fora do Departamento de História, me parece que havia bastante engajamento e agitação.
É interessante, porque boa parte dos contatos dos historiadores da Unicamp que estudavam o movimento operário com a USP se dava com as Ciências Sociais: Eder Sader,22 Maria Célia Paoli,23 Vera Silva Telles,24 entre outros. Como se dava esse contato? Por exemplo, como você conheceu Maria Célia Paoli?
Ao que me lembre, foi no Cedec,25 que era um espaço estimulante, inicialmente com sede num prédio ao lado da PUC, e tinha pessoas interessantíssimas. Maria Vitória Benevides,26 Francisco Weffort27 e vários professores visitantes passaram por lá. Eu acho que foi lá que eu conheci grande parte das pessoas da USP.
Sendo um historiador que estava estudando a classe operária, como você vivenciou as greves do ABC paulista no final dos anos 70 e toda a efervescência sindical e política daquele período?
Muito indireta e distantemente, de fato. Só lendo jornal e falando com as pessoas. Em parte, pela nacionalidade, eu não queria me intrometer muito. Mas era uma satisfação ver que as ortodoxias da sociologia brasileira sobre o assunto estavam visivelmente erradas. [risos]. De toda forma, foi um período de enorme entusiasmo entre professores e alunos na Unicamp.
E isso se refletia no interesse dos alunos pela história do trabalho?
É muito curioso. Na época, vários alunos estavam interessados no material do Arquivo Edgard Leuenroth. Por uma série de motivos. Alguns, para comprovar a superioridade de partidos leninistas e como os anarquistas estavam errados. E de fato, um pouco nesse espírito, saiu pelo menos um bom livro, que é o da Silvia Magnani.28 Mas era um período político em que os alunos de fato fizeram algumas passagens bruscas de Petrogrado para São Paulo. [risos] Eu me lembro de uma grande discussão, em que eu estava tentando argumentar que as adversidades e rivalidades até regionais entre os italianos, além das hostilidades em relação a outros grupos nacionais, tinham criado obstáculos sérios para o movimento operário e fui duramente criticado, porque a “ciência científica do marxismo-leninismo” tinha, cientificamente, comprovado que as relações com os meios de produção haviam determinado as práticas dos trabalhadores, e que esses outros elementos eram, portanto, só mistificações. Então, publiquei um artigo em inglês sobre o assunto – acho que foi a primeira coisa que escrevi sobre movimento operário – em uma revista alemã,29 o que garantia total desconhecimento desse artigo no Brasil [risos].
Alguns anos depois você publicou um artigo em parceria com Paulo Sérgio Pinheiro, “Alargando a história da classe operária”,30 que já era claramente inspirado na História Social britânica. Como foi sua aproximação pessoal com a História Social britânica?
De fato, nos anos 60 era um pouco frustrante, porque a história do movimento operário em geral era, nos Estados Unidos pelo menos, uma história política sindical, narrativa, sem muito interesse. Eu me lembro apenas dos artigos de Gutman,31 que achei muito interessantes na época, mas não havia muito mais que isso facilmente disponível. Minha lembrança é que li pela primeira vez A Formação da classe operária inglesa de E. P. Thompson em 1969. Achei muito interessante e muito difícil, porque, para quem não está muito por dentro da história inglesa, não é um livro fácil de entender em detalhes. Mas achei fascinante, intrigante. Paulo Sérgio chegou a Thompson via autores franceses, Michelle Perrot e George Haupt, alguns dos quais tinham sido seus professores em Paris. Mas só bastante depois, nos anos 70, eu fui ler outros historiadores ingleses. Lembro que na Unicamp assumi uma disciplina sobre História Moderna para me obrigar a ler Christopher Hill.32 Mas na Unicamp, Verena Stolcke33 e o marido, Juan Martinez-Alier, estavam muito por dentro da esquerda inglesa do período e tinham muita simpatia. Verena, certamente, estava sempre bastante dedicada a mostrar os trabalhadores como agentes da sua própria história. Porque a tendência na Unicamp em geral era derivar tudo de certas noções de modos de produção ou do movimento do capital, o que deixava uma impressão bastante mecânica do que deveria ser a história dos trabalhadores. Paulo Sérgio e eu publicamos aqueles livros de documentos,34 um pouco no espírito de contestar essa visão. Aliás, a primeira versão de algumas dessas ideias do artigo que você mencionou está na introdução do primeiro volume de documentos. Mas a preocupação também era darmos certa legitimidade acadêmica a esse tipo de História Social. O que havia sobre a história do movimento operário no Brasil, até o final dos anos 70, eram livros de militantes, o do Everardo Dias sendo o mais interessante.35 E também alguns trabalhos de sociólogos – o melhor, certamente, é o de Azis Simão.36 E os sociólogos geralmente não estavam tão interessados no movimento sindical pré-1930. O que eles queriam era criticar o populismo. Então o espírito do que eles escreviam sobre o movimento operário anterior a 1930, para simplificar um pouco, era “olha essa beleza que o populismo estragou”. E fora o Azis Simão, a familiaridade dos sociólogos com o movimento operário da Primeira República não era grande. Acho que Paulo e eu queríamos, de um lado, tentar fazer uma reconstituição do movimento operário naquele período e, de outro, tentar levantar questões thompsonianas de agência. E tinha um grupo na Unicamp aberto a isso. Acho que o papel da Verena Stolcke foi muito importante. Porque aquele artigo que eu escrevi com Verena37 sobre o colonato era em parte aplicando algumas ideias dela sobre a capacidade e atuação dos colonos para resistir à exploração que sofriam. E escrevemos esse artigo no fim dos anos 70, que era um momento em que eu tinha muito mais clareza sobre o que queria fazer. E sempre havia alguns alunos abertos a isso. Além do mais, a conjuntura política e sindical daquele período ajudava a dar legitimidade a esse tipo de abordagem.
E Eric Hobsbawm? Você leu Hobsbawm nessa época?
Eu tinha lido os primeiros livros dele, o Rebeldes primitivos e o A era das revoluções, relativamente cedo, no começo dos anos 60, e fiquei muito impressionado. Anos depois, conversando com Verena, que o conheceu bem na Inglaterra, comecei a compartilhar a crítica bastante convincente que ela tinha em relação ao Rebeldes primitivos. E que também era uma crítica em termos disciplinares. Sendo antropóloga, ela tinha reservas explícitas.
Ele era mais conhecido nos Estados Unidos?
Não, de fato. E tenho aquela história com um professor que tive na Universidade – isso seria 1963 – quando mencionei Hobsbawm, e ele me respondeu: “Ah, Hobsbawm. Muito interessante. Mas muito perigoso”. Certamente deve ter sido ironia. Mas, de fato, Hobsbawm era um pouco marginal entre os historiadores profissionais nos Estados Unidos, pelo menos no começo dos anos 60.
Como foram suas primeiras tentativas de introduzir os textos de E. P. Thompson entre os alunos da Unicamp?
Em meados dos anos 1970, antes de existir a pós em História na Unicamp, eu e o Paulo Sérgio oferecemos um curso na Ciência Política e usamos um capítulo de A Formação pela primeira vez. Esse momento era o auge do althusserianismo, especialmente entre o pessoal da Ciência Política e da Sociologia. Até o Paulo Sérgio tinha sido aluno do Nicos Poulantzas em Paris, e Décio Saes e vários outros estavam lá na Unicamp, muito influenciados pelos escritos de Althusser. Portanto, o nosso curso era um mini escândalo. Não sei quantos alunos vinham do Partido Comunista, mas alguns davam pequenas aulas de ortodoxia leninista para nós. Era muito estranho, porque a reação ao Thompson era uma mistura de incompreensão e indignação dos alunos. Parte do problema era que eles não eram historiadores. Então, estavam também muito preocupados com o perigo da “contaminação pela empiria”. Eu me lembro de uma aluna que me disse, com toda a indignação: “Professor, eu fiz o curso de História da Universidade de São Paulo e esse negócio de empiria… francamente, é uma fase que eu já ultrapassei”. [risos]. E indignação do tipo, “mas onde está o capítulo onde ele explicita seus pressupostos teóricos e metodológicos?” Depois, quando voltei da Alemanha, no começo dos anos 1980, eu me lembro de usar Thompson na pós em História, e a receptividade foi muito maior.
E essa experiência na Alemanha? Como é que você foi parar em Berlim Ocidental no início dos anos 80?
Eu fui porque Robert Conrad,38 que tinha sido meu colega em Columbia, era professor por lá. Ele falava alemão e era casado com uma alemã. Mas se envolveu numa briga feia dentro do Instituto da América Latina e pediu demissão. Com isso, Manfred Nitsch, que era diretor do Instituto, me convidou para ficar um semestre como professor visitante, já que era possível dar aulas em inglês. Depois surgiu uma vaga, e me convidaram para ficar mais um semestre. Então fiquei um ano letivo inteiro por lá. Nos primeiros meses em Berlim, eu me envolvi muito na elaboração do capítulo sobre história do movimento operário na América Latina da Cambridge History.39 Eu tive que estudar bastante, pois não sabia tanto sobre o movimento operário em outras partes da América Latina. Mas havia um grupo ótimo no Instituto da América Latina. O espírito de 1968 estava presente entre uma parte dos professores mais jovens. Foi uma boa experiência, porque eu não tinha envolvimento burocrático nenhum, então tinha tempo para estudar; e dei aulas sobre assuntos que me interessavam. Berlim Ocidental era uma cidade muito curiosa, na época, ainda com o muro. E havia um monte de exilados, chilenos, argentinos e alguns brasileiros, o que também dava um toque estimulante.
Você chegou a ir a Berlim Oriental?
Várias vezes. Uma vez fui ver a peça O Sr. Puntila e seu criado Matti, de Brecht, no Berliner Ensemble e entendi cinco por cento, mas eu tinha lido a peça em inglês antes. E lembro de um brasileiro ex-comunista, que eu não vou dedar aqui [risos], com quem fui passear em Berlim Oriental. Ele me disse: “Próspero demais para país comunista” [risos]. Mas eu lamento não ter ido com um grupo que foi até a Polônia, que ficava a cem quilômetros de Berlim, no auge do Solidariedade. Os brasileiros e argentinos do grupo que foi voltaram com observações curiosas, do tipo: “É um movimento nacionalista polonês, antissemita, extremamente católico…” Um dos argentinos disse: “Eu nunca tinha visto tantos homens adultos numa igreja, na minha vida”. [risos] Mas logo depois veio o fechamento do Solidariedade.
A impressão que temos é de que, a partir dos anos 1980, você passou a ser uma espécie de “embaixador da História Social do Brasil”. Muitosamericanos e europeus interessados no tema vinham à Unicamp conversar com você, e alguns, com a sua ajuda ou influência, ficaram para daraula. Você virou correspondente no Brasil de revistas internacionais importantes no campo da história do trabalho, como a International Labor and Working Class History, dos Estados Unidos, e a International Review of Social History, do International Institute of Social History de Amsterdam. Como você vê isso?
Não sei. Não acho que era exatamente assim. Eu não tinha nenhuma consciência objetiva nisso, simplesmente aconteceu. Acho que não tinha isso claro.
Por outro lado, você sempre estimulou fortemente seus alunos a estabelecer contatos e conexões internacionais, e seu próprio trabalho tem esse viés…
Isso é verdade. Mas não sei exatamente por que eu tendo a pensar questões históricas em termos de comparação. Mas é verdade, eu faço isso muito.
De toda forma, as pessoas o procuravam, e a Unicamp passou a receber professores visitantes, como David Montgomery,40 Barbara Weinstein,41 Daniel James,42 entre outros.
Sim, mas é curioso. Montgomery, por exemplo, veio graças à iniciativa da antropóloga Bela Bianco, que o havia conhecido em Yale e incentivou muito a vinda dele. Fizemos os trâmites burocráticos, mas quem estava por trás disso era a Bela. E Montgomery se deu muito bem aqui. Chegou num momento perfeito, também, em que havia muita abertura e interesse pelo tipo de trabalho que ele estava fazendo. O ambiente na Unicamp tinha mudado, especial- mente entre os alunos de História, com uma maior abertura para o tipo de História Social feita pelo Montgomery, por exemplo. Nesse sentido, a chegada dos professores que estudavam a escravidão colaborou bastante. Bob Slenes,43 Silvia Lara,44 Sidney Chalhoub,45 Clementina46 também. E a vinda do Claudio Batalha,47 que deve ter sido em 1986, reforçou enormemente a área de história do movimento operário, porque ele tinha acabado de fazer uma tese sobre o sindicalismo reformista no Rio e tinha imensa familiaridade com as fontes.
Em que sentido?
Nós compartilhávamos as mesmas preocupações metodológicas e mesmo muitas questões de pesquisa. Apesar da tradição de colocar a escravidão e o movimento operário em campos de estudos diferentes – e a Silvia Lara logo começou a demolir essa tradição. As leituras do Thompson eram um campo comum, em particular os artigos mais acessíveis para quem não era especialista em história inglesa, sobretudo “A economia moral da multidão”.48 Thompson não explicita muito, talvez por motivo de solidariedade, mas o artigo era uma críti- ca devastadora ao Rebeldes primitivos de Hobsbawm e até aos trabalhos do George Rudé.49 O pessoal aqui entendeu o recado, talvez com mais precisão do que nos Estados Unidos, porque cabia muito bem nas discussões que fazíamos na Unicamp na época. Outro artigo do Thompson que usávamos e que provocou muita discussão é o “Class struggle without class”.50
Por outro lado, na Unicamp, nessa época, também estava crescendo a influência de Foucault. Alguns chegam a dizer que houve uma certa mistura eclética entre Thompson e Foucault.
Verdade. Estranhíssimo. Acho Foucault um homem muito interessante, mas nunca entendi politicamente o que as pessoas que se diziam, por exemplo, simpatizantes do anarquismo, viam num homem que não dava espaço para alguma atuação política consequente. Eu levantei essa questão numa defesa de tese na Unicamp, mas acho que o aluno ficou mais com Foucault. [risos] Foucault anarquista só no Brasil!
Gostaria de saber um pouco da sua experiência “pública”. No gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (1989-1992), muitos professores da Unicamp, da USP, da PUC-SP, acabaram tendo uma atuação importante na Secretariade Cultura, então comandada por Marilena Chauí. Você também colaborou um pouco, não?
Sim. Perseguindo bibliotecários. A minha especialidade… [risos] Marilena Chauí havia arrumado com o Paul Singer, então secretário de Planejamento da Prefeitura, uma enormidade de dinheiro, algo como cinco milhões de dólares, para as bibliotecas públicas, e as bibliotecárias, sem experiência de compras em grande escala, simplesmente iam devolver o dinheiro. E eu já havia começado essa missão na biblioteca da Unicamp e entendia um pouco os meandros das compras internacionais. Então, organizei um grupo de especialistas para tentar escolher livros para as bibliotecas municipais, e passei muito tempo tentando mobilizar as bibliotecárias etc. O grosso das compras era de livros nacionais, para as na época 80 bibliotecas públicas. E depois compramos de Portugal, Espanha, Argentina, e posteriormente da França, e obras de língua inglesa. Mas, de fato, essa última compra dos livros em língua inglesa foi via Fapesp, porque Marilena conseguiu convencer a Fapesp a permitir que a Biblioteca Mario de Andrade entrasse na competição do programa Faplivros. Ela argumentou que a Mario de Andrade, sem ser um departamento universitário, era inquestionavelmente uma instituição de pesquisa no estado de São Paulo. E eles aprovaram. Não me lembro quanto, exatamente. Mas foi uma quantidade significativa. Em geral, era muito complicado fazer as compras da Secretaria de Cultura num período de inflação alta e com pessoas sem muita experiência. Mas foi muito gratificante também. E, de fato, deu certo. Acho que foi a coisa mais útil que eu fiz no Brasil.
Você falou em missão. Transformar a biblioteca do IFCH da Unicamp em uma grande biblioteca de pesquisa foi uma das características da sua carreira. Por que você, particularmente, se dedicou a isso?
Eu entrei nisso, em parte, forçado. Eu me lembro de uma conversa com Peter Eisenberg, em 1976 ou 77, em que fazíamos uma avaliação do trabalho na Unicamp. Lembro de comentarmos que poderíamos gostar de alguns dos colegas mais que de outros, mas que todos os professores trabalhavam num nível internacional. As instalações físicas poderiam ser um pouco melhores, mas não atrapalhavam o funcionamento do Instituto. O grande choque era a falta de biblioteca decente. Porque havia dinheiro, nos anos 70, mas as bibliotecárias e a burocracia da Unicamp em geral não conseguiam gastar. E as bibliotecárias não sabiam muito o que pedir. Mas, de fato, eu só entendi bem o processo todo no início dos anos 1980: era necessário acompanhar todos os detalhes da compra para conseguir comprar livros de forma adequada. Então, comecei a me dedicar a motivar os colegas para ajudar na seleção de livros e tentar lidar com os problemas administrativos, identificando as bibliotecárias competentes e motivadas, e acabei me especializado nesses processos de compra de livros e montagem de biblioteca. Mas é sempre um choque, eu acho, nas universidades brasileiras, ver que as bibliotecas estão entre as deficiências mais gritantes. E, falando francamente, também, me dediquei a isso para não ter que ser chefe do departamento ou coordenador de pós, etc. Eu podia sempre alegar que o meu tempo disponível estava dedicado à perseguição de bibliotecárias. [risos]
Gostaríamos de explorar agora o seu próprio trabalho, sua obra e suas opiniões sobre alguns aspectos da história do trabalho e da historiografia em geral.Identificamos três eixos, digamos, “clássicos” do seu trabalho: a imigração, o movimento operário na Primeira República e a cidade de São Paulo como o local prioritário de interesse para essas análises. Você poderia dar um panorama da sua obra, articulando seus trabalhos e interesses com sua própria trajetória?
Bem, no início da carreira minha ideia era fazer algo sobre os italianos no movimento operário no Brasil, mas como na época da tese de doutorado eu não tinha conseguido acesso a muitas fontes, acabei escrevendo sobre o colonato, basicamente com fontes italianas. O grande argumento, eu suponho, era mostrar como, de fato, a imigração subsidiada foi usada para manter os colonos desorganizados e facilmente explorados. Mesmo sem ter uma intenção muito explícita por parte dos fazendeiros, esse foi certamente o efeito. Nesse sentido, a tese era uma reação contra algumas afirmações celebratórias do liberalismo da Primeira República. Quando você pensa que o preço do café foi manipulado via valorização, os salários dos colonos via imigração subsidiada, e que a polícia também foi usada brutalmente em grande escala para impedir a organização operária, isso não é o liberalismo que se lê nos manuais, para dizer o mínimo. Há também um aspecto do trabalho, que ainda não publiquei muito, referente a greves de colonos. Em parte é fruto do meu trabalho conjunto com Verena Stolcke. Tentamos contestar vários historiadores que insistem na inexistência da capacidade política dos colonos. Boris Fausto tem um parágrafo no fim do livro dele sobre a Revolução de 30,51 falando da ausência de casos significativos de mobilização e organização no campo durante a Primeira República, com a exceção de alguns movimentos messiânicos. E Verena e eu mostramos dez mil colonos em greve na região de Ribeirão Preto em 1913. Há vários outros movimentos desse tipo. Mas o pior argumento é o de um americano cubano, Mauricio Font,52 que menosprezou as greves dos colonos afirmando que afinal eles eram menos organizados e militantes que os camponeses no meio da Revolução Mexicana, ou os trabalhadores chilenos nas minas de salitre. Isso é claramente – como se diz? – estabelecer a barra um pouco alta demais… [risos] De toda forma, acho que estávamos tentando também desmitificar a noção de que os imigrantes estavam escolhendo livremente o Brasil. Eles vieram porque estavam desesperados e o Brasil era o único país que pagava passagem integralmente em grande escala. Como estava interessado no movimento operário, eu queria ver como a imigração parece ter, e de uma maneira complexa, incentivado e atrapalhado práticas consequentes dos trabalhadores. Claro, havia inúmeros obstáculos, em São Paulo, ao movimento operário organizado; não só a repressão, mas um mercado de trabalho inundado de imigrantes, o que tornava o uso da greve muito difícil como arma. Além disso, os imigrantes formavam grupos bastante divididos, de diferentes origens geográficas; havia hostilidades não só entre portugueses, espanhóis e italianos, mas entre italianos do sul e italianos do Veneto e de outras regiões.
A historiografia mais contemporânea tem destacado muito a questão do pós- abolição, do papel dos negros, da relação dos “nacionais” com os imigrantes. Você não chegou a explorar isso nos seus trabalhos, mas como você vê essa questão?
Pois é. Achei coisas interessantes a esse respeito, mas apenas entrei um pouco nessa questão em dois artigos mais gerais ao abordar os movimentos anti-italianos em São Paulo no começo dos anos 1890.53 A primeira constatação foi que a população negra da cidade de São Paulo não cresceu muito depois da abolição. Se você analisa os recenseamentos de 1886, 1890 e 1893, nos quais a raça era registrada, de fato a população negra não aumentou muito, chegando a 11% em 1893. Mas no grande movimento contra os italianos, dos chamados “jacobinos”, há uma grande presença negra. É possível perceber a continuidade do abolicionismo mais militante em São Paulo, que desembocou no jacobinismo. Há, obviamente, ressentimentos da parte dos ex-escravos e seus descendentes em relação aos italianos que estavam ocupando lugares de trabalho que eles consideravam seus. Ao mesmo tempo, sempre tento me perguntar: que diferença fez essa imigração maciça em São Paulo? Um dos efeitos, certamente, foi que ela prejudicou seriamente os ex-escravos e seus descendentes. Mas é difícil saber se ela empurrou São Paulo e o Brasil em outras direções que não teriam sido tomadas sem a imigração em grande escala. O artigo famoso do Bresser Pereira54 sobre as origens nacionais dos donos de grandes empresas, supostamente mostrando a importância dos valores “empresariais” de imigrantes no crescimento econômico de São Paulo, é muito discutível. De fato, a composição da população da cidade de São Paulo, em termos de pais ou avós imigrantes, não é muito diferente da amostra dele de empresários de origem estrangeira. Os “brasileiros de duas gerações”, que Bresser argumenta não mostraram as mesmas qualidades de inovação e iniciativa dos imigrantes e seus descendentes, precisam de investigação. Na época da pesquisa de Bresser, esse grupo teria incluído muitos migrantes nordestinos recentes, que, mesmo incorporando as melhores qualidades empresariais, não teriam tido condições de entrar numa amostra da elite empresarial em 1962. E nenhum observador que conheço achava a Itália, Portugal e Espanha, países de origem da imensa maioria dos imigrantes em São Paulo, exatamente paraísos do espírito do capitalismo no fim do século XIX. E há observadores que mencionam, ao menos em relação aos portugueses, que estes seriam muito pouco empresariais, hostis à inovação e um obstáculo ao desenvolvimento. Então, esse tipo de pergunta sobre o efeito de longo prazo da imigração é difícil de responder.
Durante muito tempo as pesquisas sobre história do trabalho diziam estar abordando o Brasil, mas na verdade estavam falando de São Paulo e do Rio. Mais recentemente, com o desenvolvimento da historiografia em outras regiões, podemos ter uma perspectiva mais nacional de fato. Considerando toda a sua pesquisa sobre imigração e movimento operário na Primeira República, você diria que caso de São Paulo é peculiar, no conjunto do país?
Eu diria primeiro que, apesar dessa generalização feita a partir da experiência paulista, acho que São Paulo é, de fato, a grande exceção. Porque em São Paulo havia uma burguesia relativamente consolidada e uma luta de classe clara e explícita, o que não era o caso no grosso do resto do país. Em vários outros lugares, por exemplo, você encontra, nas greves, o governo local e a polícia frequentemente negociando com os grevistas, algo que teria sido quase inconcebível em São Paulo. Não sei até que ponto isso se deveu à imigração, especial- mente. Ninguém conseguiu relacionar esses aspectos muito claramente. Há dois argumentos contraditórios sobre a imigração e a industrialização. Há a ideia de que os imigrantes serviram como um exército de reserva propiciando a acumulação, o que não combina muito bem com o argumento dos imigrantes como consumidores fornecendo o estímulo necessário para o crescimento industrial. Os escravos são notoriamente maus consumidores, é verdade; mas duvido que os colonos dos anos 1890 e começo do século XX tenham estimulado o mercado interno tanto assim. É difícil avaliar isso. A outra questão, que alguém tem de estudar com mais pre- cisão – embora haja um bom artigo do José de Souza Martins55 a respeito – está relacionada à existência de uma grande burguesia italiana em São Paulo, o que nos Estados Unidos, por exemplo, teria sido inconcebível no mesmo período. Martins argumenta que, com uma ou outra exceção, esses empreendedores vieram com algum dinheiro ou conexões com interesses estrangeiros (como Matarazzo, por exemplo), o que permitiu investimentos rápidos, especialmente na indústria têxtil. Mas, sem dúvida, é necessário mais pesquisas sobre esse aspecto…
Se a sua hipótese é de que, de uma maneira complexa, a imigração ajudou e dificultou a organização, você consegue ver que tipo de organização poderia estar sendo atrapalhada pela imigração?
Acho que a primeira coisa a constatar é que você não vai encontrar muita experiência industrial ou experiência política anterior em uma imigração incentivada de pessoas desesperadas saindo de regiões rurais. Havia alguns militantes com experiência política na Itália, mas eles eram algumas dúzias numa imigração italiana de quase um milhão de pessoas. Esta é realmente uma questão contrafactual muito difícil. Porque, para os militantes políticos, os ex-escravos e seus descendentes não pareciam um terreno mais promissor politicamente do que os camponeses desesperados vindos do Vêneto.
Sua pesquisa sobre greves de colonos e organização dos trabalhadores rurais na Primeira República, feita em conjunto com Verena Stolcke56 e que você já mencionou, possui um certo pioneirismo, pelo menos em termos dehistoriografia brasileira. Na historiografia internacional há toda uma discussão sobre os coolies, levantada em especial pelos historiadores indianos; ou seja, há uma ênfase na análise de formas de relação de trabalho que geram forte dependência, que não são exatamente assalariadas, mas também não são escravas.57 O que você acha desse debate? Há autores que chegam a sugerir que os colonos poderiam ser uma espécie de coolies. Como você vê isso?
De fato, meu artigo com Verena tinha dois objetivos. O primeiro era o de criticar as interpretações do colonato como algo pré-capitalista ou não capitalista. As relações eram um pouco específicas de São Paulo no período, é verdade. Sobretudo por causa da presença nas fazendas de terras que não eram propícias para o café, mas podiam ser cedidas para os colonos cultivarem feijão, milho, etc. Assim, os fazendeiros pagavam um salário mais baixo ao disponibilizar para os colonos um terreno sem muito valor econômico para eles próprios. Isso pode soar estranho, mas é totalmente compatível com o capitalismo, assim como outros aspectos, os contratos de um ano, por exemplo. Nada disso era desconhecido para os capitalistas. E a minha impressão é que é difícil negar que os colonos estavam vendendo sua mão de obra no mercado para os fazendeiros. Os termos desse tipo de relação variavam mundialmente. E em São Paulo as condições eram muito desfavoráveis aos trabalhadores. Então os fazendeiros conseguiram impor algumas condições que parecem anomalias no capitalismo. Mas acho que isso é, simplesmente, a consequência da posição de barganha dos dois lados.
O segundo objetivo do artigo era demonstrar a capacidade de resistência dos trabalhadores rurais. Por exemplo, o fracasso dos esquemas de parceria mais cedo, no século XIX, aconteceu por causa da resistência dos parceiros, e não porque os colonos eram a “escória da Europa”, recrutados por agentes pouco escrupulosos etc… Por incrível que pareça, esse era um argumento muito comum na historiografia. Procuramos mostrar que, de fato, apesar de toda uma série de elementos desfavoráveis, os colonos conseguiram impor alguns limites à sua exploração. Claro, isso tem uma certa semelhança com os estudos mais recentes da escravidão, que mostram mecanismos parecidos.
Mas a primeira parte do argumento, de que esses tipos de relações de trabalho são possíveis no capitalismo, é similar ao argumento dos indianos sobre os coolies.
Isso é verdade. Mas nós não entramos nisso, por ignorância, na época. Hoje talvez fosse um tema de diálogo, embora minha impressão seja de que os colonos eram bem mais livres que os coolies, tanto na teoria como, sobretudo, na prática.
Você acha que a questão do “branqueamento” era central nesse processo?
Minha impressão é que os fazendeiros paulistas teriam contratado trabalhadores azuis ou verdes, de qualquer cor, contanto que fosse factível obrigá-los a recolher o café pelo menor preço possível. Ao mesmo tempo, você tem afirmações, em toda a intelectualidade brasileira do período, de um racismo brutal, e imagino que os fazendeiros compartilhavam muitos desses preconceitos. Entretanto, quando ficou difícil importar espanhóis e italianos, os fazendeiros simplesmente ignoraram 20 anos ou mais de histeria antiasiática e começaram a importar japoneses em 1908, aparentemente sem muita ginástica mental.
Barbara Weinstein, em seu novo livro, The color of modernity,58 analisa a construção da identidade regional paulista. Em que medida você achapossível relacionar esse grande processo de imigração europeia e asiática com essa concepção de uma identidade paulista peculiar? Você chegou a pensar um pouco nisso?
Não sei. Peter Eisenberg e eu fizemos um trabalho para um congresso anos atrás, que nunca publicamos, em que queríamos identificar a diferença que a imigração fez em Pernambuco e São Paulo. E chegamos um pouco à conclusão de que é difícil ver a imigração, especificamente, influenciando a história posterior. Esse tipo de questão é complicado porque havia alguns intelectuais, jornalistas, entre outros, na época, expondo argumentos muito explícitos sobre as peculiaridades históricas de São Paulo. Mas o difícil é saber até que ponto essas ideias penetraram no grosso da população de descendentes de italianos e espanhóis em São Paulo. Alguns observadores viam a emergência de uma identidade ítalo-paulista específica nos anos 1920, algo distante da ideologia dominante. Na década posterior, a julgar por Ângelo Trento59 e Fábio Bertonha,60 o fascismo conseguiu mobilizar uma certa identificação italiana difusa, em São Paulo, mas sem grandes consequências políticas. O Brasil entrou na guerra contra o Eixo sem dificuldades significativas em São Paulo, por exemplo. Uma certa corrente da historiografia sempre insistia na rapidez da assimilação em São Paulo. Há um estudo de José Arthur Rios sobre isso.61 O que aconteceu em três gerações em outros lugares teria acontecido em duas em São Paulo, segundo Rios. É complicada essa questão. Um dado que se usa muito é o pouco emprego de línguas estrangeiras relatado no recenseamento de 1940. Nesse ano, depois de uma longa campanha contra os “quistos” étnicos não assimilados, podemos imaginar de fato uma certa relutância dos recenseados em se identificar como não assimilados ao agente do governo. Temos, portanto, uma imagem de quase todo mundo falando português. Mas estudos posteriores mostram que o uso de dialetos italianos era bastante comum em grupos específicos de imigrantes, mesmo nos anos 50. É a conclusão, por exemplo, do trabalho do antropólogo italiano Carlo Castaldi.62 Por outro lado, supõe-se que haveria menos dificuldade entre os três maiores grupos de imigrantes (isto é, italianos, espanhóis e portugueses), todos falantes de línguas neolatinas mais ou menos inteligíveis entre si. De qualquer forma, a distância entre o dialeto vêneto e o português não é muito maior do que a distância entre o dialeto vêneto e o italiano oficial, toscano, que relativiza um pouco o significado do rápido desaparecimento do italiano entre os descendentes dos imigrantes. Os três grupos também compartilhavam de uma difusa cultura católica, mediterrânea. Essa situação de São Paulo era, provavelmente, mais fácil para uma certa integração/assimilação do que a situação norte-americana com grupos extrema- mente distantes em termos culturais, ou mesmo da Argentina, onde havia um número bem maior de imigrantes da Europa Oriental. Tento deixar essa questão um pouco em aberto, esperando que alguém venha a estudá-la com mais precisão. Seria possível pesquisar, creio (sempre pensei em fazer isso, mas nunca me mobilizei de fato), as certidões de casamento, que indicam a nacionalidade dos pais. Uma estatística sempre citada é a do grande número de italianos casando com brasileiras. Mas desconfio que uma grande parte dessas brasileiras fossem filhas de italianos, o que diminuiria o impacto desse tipo de estatística. Seria útil estudar isso com mais precisão. De qualquer forma, acho que todos esses argumentos sobre o regionalismo, inclusive naquelas pesquisas clássicas de Joe Love, John Wirth e Robert Levine,63 que enfatizam as identidades regionais ao custo de identidades de classe, são bastante problemáticos. Penso que essas abordagens não são incompatíveis. Identificações regionais existem, sem dúvida, e contam na vida de muitas pessoas. Mas a exclusão de outras determinações, como as de classe ou de etnia, me parece um erro.
Uma pergunta que você sempre faz para as pessoas é: por que não houve, de fato, um partido socialista significativo no Brasil na Primeira República?
Olha, eu penso nisso há 30, 40 anos, e nunca cheguei a nenhuma conclusão satisfatória. Acho importante, entretanto, notar que essa não é uma questão normalmente colocada pela historiografia brasileira, mas ela surge em função da história comparada. A comparação óbvia é com a Argentina, onde o Partido Socialista exercia uma influência importante. Sim, a repressão no Brasil foi grande… mas, em comparação com a Argentina, o Brasil não leva nenhum prêmio nessa área. Não se trata de experiência prévia, penso, porque poucos argentinos imigrantes parecem ter chegado com um passado socialista significativo. Dá para formular hipóteses sobre a composição da burguesia, a estrutura da indústria e sobretudo a natureza da classe dominante brasileira na época, mas nunca consegui formular uma interpretação que me convencesse. Estou ainda à procura de uma resposta a essa questão…
Mais recentemente você começou a abordar questões como corporativismo, leis do trabalho, não apenas na Primeira República, mas entrando pelo período Vargas e todo o ambiente intelectual em torno disso. Você foi um dos primeiros historiadores a questionar o senso comum da inspiração fundamental da CLT na Carta del Lavoro fascista italiana e procurou entender a lei brasileira numa perspectiva internacional mais ampla. Como você chegou nesse tema?
Eu queria entrar nessa discussão, e nunca o fiz como gostaria. Mas sempre vejo as origens italianas e fascistas da legislação brasileira, o que levanta a questão da persistência aqui desse sistema. No resto do mundo, essas medidas raramente sobrevivem ao fim do ditador que as instalou. Uma investigação mais detalhada deixou evidente que a verdadeira inspiração era mais difusa que a Carta del Lavoro. Agora, eu nunca achei a pistola com fumaça saindo – the smoking gun – para demonstrar a origem do sistema brasileiro no fascismo italiano, porque nunca consegui descobrir detalhadamente como Evaristo de Morais e Joaquim Pimenta, as pessoas que aparentemente redigiram e inventaram as primeiras medidas corporativistas, agiram dentro do governo Vargas. Evaristo era muito atento a essas questões, mas comentários específicos dele sobre a legislação italiana, eu nunca vi. Outro aspecto incômodo é a existência de um corporativismo de esquerda na época, cujos defensores achavam o corporativismo uma solução para eliminar o que consideravam o desperdício das greves e o caos da luta de classes. Isso parecia fazer um certo sentido numa época em que noções de planejamento econômico e a organização racional do trabalho estavam em voga. Há vários pensadores, especialmente franceses, mas também de outras nacionalidades, que eram ou ainda se consideravam de esquerda e pregavam soluções corporativistas. Mas, realmente, nunca avancei como queria nisso. Há algumas pesquisas mais recentes que vão um pouco nessa direção. Mas acho que ainda resta bastante a fazer. Entretanto, até alguém descobrir a documentação do gabinete de Lindolfo Collor e de outros setores relevantes do Ministério do Trabalho da época, não sei como, no nível muito específico, vamos conseguir responder à questão das origens do corporativismo brasileiro.
Você também tem trabalhado com o tema do “Queremismo” numa perspectiva comparativa…
Ao que me lembre, entrei nisso por uma sugestão de Leslie Bethell.64 Ele me falou uma vez da questão que incluía em suas provas de História da América Latina para alunos na Inglaterra, sobre por que as manifestações de 17 de outubro de 1945 na Argentina tiraram Perón da prisão e efetivamente o colocaram no poder, quando exatamente na mesma época o “queremismo” varguista fracassou no Brasil. A resposta curta para explicar esses dois resultados diferentes é: “porque o movimento sindical argentino tinha muito mais consistência, autonomia e força do que o sindicalismo brasileiro do fim do governo Vargas”. Claro que há outros fatores, como, por exemplo, o desgaste do governo Vargas depois de 15 anos no poder. Ainda estou trabalhando com essa temática, inclusive com considerações sobre os efeitos a médio e longo prazo desses eventos que pretendo incluir em um livro de ensaios que estou preparando.
É visível seu interesse pelos debates metodológicos. Você levanta questões que poderíamos dizer que frequentemente apontam para uma perspectiva de história comparada. Esse seu interesse pela história comparada vem da sua formação inicial? Ou você o desenvolveu posteriormente?
Acho que um pouco as duas coisas. Primeiro, nos Estados Unidos, se trata a América Latina, incluindo o Brasil, como um tipo de bloco, o que acaba levantando questões interessantes da perspectiva comparada, ao mesmo tempo que cria confusões significativas. Por outro lado, a própria profissão, com sua organização disciplinar por áreas geográficas, não incentiva muito as comparações internacionais. Acho que todas as historiografias nacionais tendem a considerar a experiência do seu país como única e peculiar, embora haja uma insatisfação crescente entre os historiadores com esse tipo de abordagem. Há um longo debate nos Estados Unidos sobre sua suposta excepcionalidade. Um debate, aliás, que se dá também em relação à história do movimento operário. Mas por lá a discussão historiográfica caminhou em duas ou três direções. Primeiro, a história do movimento operário americano não é tão distante assim da dos movimentos operários europeus no começo do século XX. Acho que, na verdade, a Alemanha é a grande exceção nesse período, com um forte partido socialista ligado a um poderoso movimento sindical. Há semelhanças, por exemplo, das taxas relativamente baixas de sindicalização no começo do século XX entre a Inglaterra, a França e os Estados Unidos. Uma complicação é que num país muito grande, como os Estados Unidos, as estatísticas nacionais às vezes são um pouco enganadoras. Mas essa convicção de que a experiência nacional é incomparável é quase universal, a meu ver. Examinar isso criticamente me parece uma boa tarefa para os historiadores.
Você entende que existe algum tipo de reflexão mais sistemática sobre como realizar uma história comparada?
Às vezes eu acho que a única coisa interessante que li sobre isso foi um artigo que Marc Bloch publicou no fim dos anos 1920.65 O que existe de observações não muito úteis, nessa área, é considerável. Ultimamente foram publicados estudos mais rigorosos. Nas Ciências Sociais há toda uma série de protocolos, e é muito comum esse tipo de pesquisa. Mas as críticas recentes às comparações que naturalizam o Estado nacional ao tomá-lo como a unida- de de comparação quase automática também me parecem muito pertinentes e convincentes. Mas a história comparada é um campo que oferece, pelo menos, sugestões interessantes. Não sei se dá para comprovar muita coisa com comparações, mas elas frequentemente nos ajudam a impedir generalizações insustentáveis. E o que acho mais interessante é que a comparação muitas vezes levanta questões que a historiografia nacional ignora. Essa utilidade das comparações me parece inquestionável.
No mundo todo, os anos 90 assistiram a um forte questionamento da História Social e, em particular, da Histórica Social do Trabalho. Há centenas de debates nesse período, especialmente no mundo anglo-saxão. No entanto, no Brasil, o linguistic turn não foi tão influente na área do trabalho. Por quê?
É interessante. Sempre achei que o pós-modernismo não pegou muito no Brasil porque as contradições sociais são tão óbvias – na forma de mendigos infantis batendo na janela do seu carro nos cruzamentos, por exemplo – que era muito difícil interpretar isso como apenas uma construção linguística. [risos] Mas ao mesmo tempo não me parece que a experiência do linguistic turn fosse totalmente negativa. Certamente os historiadores, hoje em dia, têm muito mais sensibilidade para questões da linguagem do que tinham 30 ou 40 anos atrás.
No nosso campo há toda essa discussão contemporânea sobre Global Labour History, História Global do Trabalho, toda uma crítica ao nacionalismo metodológico. Você já mencionou rapidamente que considera essa crítica algo interessante, mas como você avalia especificamente todo esse debate? Particularmente, como você vê o Brasil dentro desse debate?
Penso que a primeira questão é a dificuldade de fazer Global Labour History segundo os cânones da historiografia. Se os historiadores valorizam o contato com fontes primárias e uma certa sensibilidade para a mudança no tempo, muitos estudos nessa perspectiva me parecem ser bastante atemporais. Além disso, dominar a historiografia de um país é complicado – imaginem de três ou quatro, mesmo com línguas que o historiador consegue ler. Então mantenho uma atitude agnóstica em relação a certas formulações da história global. Acho extremamente interessante, estimulante, mesmo chegando às vezes a conclusões bastante esperadas, com afirmações que não inovam enormemente. E os estudos mais convincentes me parecem ser os mais específicos. Talvez seja mais útil em algumas áreas, como nos estudos da escravidão, embora eu seja muito cético quanto à existência de uma entidade chamada a escravidão brasileira, que começaria muito antes da existência do Estado brasileiro, duraria séculos, sobre um território imenso, e ao mesmo tempo teria qualidades suficientemente diferentes da experiência em outros lugares para justificar o uso do objeto “a escravidão brasileira”. O mesmo se poderia dizer de um objeto chamado “o movimento operário brasileiro na Primeira República”, com características homogêneas apesar das imensas variações. De toda forma, confesso, estou menos entusiasmado do que algumas pessoas com a História Global do Trabalho. Ao mesmo tempo, a perspectiva comparada sempre me parece útil, sobretudo como uma maneira de criticar o provincianismo das historiografias nacionais. Penso que a utilidade desse tipo de perspectiva vai variar um pou- co, dependendo do tipo de questão que você quer estudar. Um problema para as pesquisas de história global no Brasil é o fato de que o número de brasileiros que trabalha com tópicos não brasileiros, na historiografia pelo menos, é muito pequeno. Eu tive três bons orientandos argenti- nos. Mas isso foi muito mais em função do desastre das universidades argentinas nos anos 70 e 80 do que qualquer outra coisa. Mas acho que conhecer Norberto Ferreras,66 Dora Barrancos67 e Andreas Doeswijk68 foi útil para os nossos alunos. Sempre acho que deveríamos ter incentivado um maior intercâmbio com a América Latina. Por outro lado, certamente, a historiografia brasileira, mesmo se restringindo a uma história muito especificamente brasileira, agora está sendo escrita com perspectivas internacionais muito mais amplas e profundas do que 20 anos atrás, o que é um avanço inquestionável.
Uma questão mais específica sobre o mundo da academia, já que você viveu as mudanças do mundo universitário brasileiro desde os anos 70, e, pelasua própria trajetória, você tem condição de colocá-las numa perspectiva mais global. Na sua trajetória, percebemos uma forte ênfase na importância de uma certa infraestrutura para a pesquisa na universidade: bibliotecas, arquivos, etc. Como você avalia os últimos anos da academia brasileira e uma certa tendência ao que poderíamos chamar de produtivismo, o que muitos chamam ironicamente de “geração Lattes”, em comparação com um período anterior em que o tempo da produção era mais longo? Como você avalia isso, pensando na sua experiência no Brasil?
O que mais me impressiona, obviamente, é a enorme expansão das universidades e, certamente, a profissionalização entre os historiadores. Isso é inquestionável. Agora, acho lamentável a incorporação de padrões de mensuração acadêmica que vêm basicamente das ciências exatas. Meu exemplo predileto é a Fapesp, exigindo, no caso de subsídio para o livro de um ex-orientando (portanto uma pessoa com quem o orientador não tem mais relação institucional), que o dinheiro viesse para a conta do orientador. Minha teoria é que isso tem a ver com o catolicismo, que nunca incentivou exatamente contatos diretos entre fiéis e Deus e, assim, usa uma série de categorias intermediárias – sacerdotes, santos, anjos etc. Os ex-orientandos e o orientador (agora canonizado) estariam, portanto, nessa situação ao lidar com o Deus, no caso, a Fapesp… [risos] Mas, de fato, o problema está na aplicação do modelo das ciências exatas, onde as relações são significativamente diferentes. O orientador, nas exatas, muitas vezes define o tema de pesquisa do aluno e até publica os resultados com o nome dele no artigo [risos]. Esse mesmo sistema também valoriza uma série de exigências. Por exemplo, acho estranhíssimo valorizar tanto, especialmente para historiadores no Brasil, a publicação em inglês. Pelo contrário, os historiadores estrangeiros especialistas em Brasil fazem questão de tentar conseguir publicar seus livros em português, porque o público, para obras sobre a História do Brasil, está aqui. De certa forma, o Brasil está incorporando os piores elementos do sistema norte-americano.
Uma última questão. Um balanço da historiografia social do trabalho no Brasil – da qual você foi um dos protagonistas – nas últimas quatro décadas indica uma mudança na visão do papel dos trabalhadores e dos grupos subalternos em geral na história do país. Poderíamos dizer talvez que, de uma visão profundamente pessimista sobre o papel dos trabalhadores na história, passamos a ter uma visão mais “otimista”, que valorizou a participação e a ação desses setores sociais.E essa visão “otimista” estava implicitamente vinculada a determinadas visões e posições políticas, que parecem estar em crise profunda neste momento.Como você vê o futuro da história social do trabalho no Brasil e quais os principais desafios que teremos de enfrentar numa conjuntura que parece ser a mais adversa dos últimos 30 anos?
Acho isso relativo. Ao que vejo, por exemplo, a guinada à direita nos Estados Unidos nas últimas décadas não teve consequências fatais, nem necessariamente muito graves, para a historiografia social desse tipo naquele país. Talvez haja uma distância maior entre o momento político e o trabalho dos historiadores do que a pergunta sugere. Mas historiadores são péssimos profetas. É fácil, em junho de 2016, exagerar um pouco as consequências perniciosas da conjuntura para o nosso trabalho. De qualquer forma, a legitimação da história do trabalho e dos trabalhadores como um campo autêntico e significativo dentro da historiografia brasileira é um grande avanço. Os trabalhos produzidos nos últimos anos, rigorosos, com forte base empírica, me parecem impressionantes por qualquer padrão. O uso de novas fontes – História Oral, arquivos patronais e policiais, por exemplo – permitiu um aprofundamento dos trabalhos que teria sido difícil de imaginar algumas décadas atrás. Em termos de desafios, minhas sugestões sobre pesquisas futuras tendem a ser bastante específicas. Por exemplo, o alargamento da atenção dos historiadores para categorias geralmente ignoradas – as lutas de trabalhadores rurais, para citar um caso bastante óbvio, seria importante. E qualquer esforço para derrubar divisões arbitrárias na historiografia seria bem vindo: trabalho escravo/trabalho livre, história do trabalho/história da imigração seriam duas das mais evidentes separações desse tipo. No meu campo de estudos específico, é curiosa a falta de informação sobre o movimento operário de São Paulo nos anos 1920. Às vezes parece que os historiadores que começam seus trabalhos com o fim do século XIX acabam cansando e parando por volta de 1917 ou 1920, enquanto outros historiadores começam rigorosamente em 1930. Uma lista bastante arbitrária de outros estudos que eu gostaria de ler vai incluir uma história interna das medidas trabalhistas dos anos 1930 e uma avaliação do significado da imigração subsidiada para os próprios imigrantes. É apenas coincidência que grupos que se saíram notoriamente bem em São Paulo – sírios e libaneses, judeus, armênios não vieram com a passagem paga e não passaram pelas fazendas? Outros tópicos poderiam ser os efeitos nos países europeus do retorno do Brasil de uma parte significativa dos seus imigrantes, ou a construção em São Paulo, entre grupos claramente divididos por classe e origem regional, de noções de “comunidades” ou “colônias”, supostamente homogêneas e externamente delimitadas, que viraram, nessas interpretações, atores coletivos com objetivos comuns. Neste caso, há uma visão ideal sustentada por certos membros da categoria confundida com o que efetivamente se passou entre os imigrantes, e tudo isso merece mais atenção dos historiadores. E, por último, eu gostaria de ver mais estudos das vidas transnacionais de imigrantes. É verdade que agora temos bons livros tratando de alguns líderes militantes de origem estrangeira que atuaram em vários países, mas precisamos de mais. Por exemplo, seria ótimo poder ler um estudo sobre a carreira brasileira de Antun Saadeh, que praticamente inventou o estado da Síria durante os anos que passou em São Paulo nas décadas de 1920 e 1930 (quando a França governava os ex-territórios otomanos do Líbano e Síria). Existe uma certa literatura disponível em inglês e francês que trata de Saadeh (um personagem altamente controvertido por vários motivos), embora os autores estejam preocupados com os escritos de Saadeh sobre o Oriente Médio e não com suas experiências na emigração.69 Há uma edição das obras de Saadeh publicada em Beirute em 16 volumes (e mais quatro de correspondência), obviamente em árabe. Tanto Antun quanto o pai dele participaram intensamente dos debates animados conduzidos na imprensa de língua árabe de São Paulo e de Buenos Aires. O que sobreviveu desses jornais e revistas é uma incógnita, mas nunca vi nada desse tipo em nenhuma coleção pública em São Paulo. Há referências, por exemplo, a um artigo publicado por Saadeh numa revista de Beirute sobre a Revolução de 1930 no Brasil, que deveria ser, no mínimo, uma curiosidade. A capa de uma biografia recente70 mostra Saadeh por volta de 1926 no Belvedere do Parque Trianon na Avenida Paulista, demolido para a construção do MASP. Na foto ele está olhando a cidade com um ar pensativo. O que será que passava pela sua cabeça?
NOTAS
Notas
Henry Wallace (1888-1965) foi vice-presidente dos EUA entre 1941 e 1945, no governo de Franklin Roose- velt. Favorável ao New Deal, ao fim da segregação e a relações mais amenas com a URSS, foi preterido pelo Partido Democrata nas eleições de 1944 em favor de Harry Truman. Em 1948 disputou as eleições presiden- ciais pelo Partido Progressista, mas não teve êxito.
Iniciada no governo Kennedy no começo dos anos 1960, logo após a Revolução Cubana, e estendendo-se por cerca de uma década, a Aliança para o Progresso foi um programa dos EUA destinado a fomentar o desenvolvimento dos países latino-americanos, visto pelos estadunidenses como fundamental para conter o avanço do comunismo na região.
Ex-diretor do Center for Latin American and Caribbean Studies (University of Illinois) e autor de diversos livros sobre o Brasil, entre eles A locomotiva: São Paulo na Federação Brasileira (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982).
Historiador especialista em história do Brasil, conhecido por suas pesquisas sobre o catolicismo, destacan- do-se Milagre em Joaseiro (3a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014).
Autor de Burocracia e sociedade no Brasil colonial (São Paulo: Perspectiva, 1979) e de vários outros livros.
Autor de diversos estudos sobre a América Latina e o Brasil, entre outros An introduction to Brazil (New York: Columbia University Press, 1963).
Autor de Padrões raciais nas Américas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967) e outros estudos.
Dirigido por Philippe de Broca e lançado em 1964, O homem do Rio (L’Homme de Rio) tinha diversas cenas filmadas no Rio de Janeiro, Brasília e Amazônia.
Dirigido por Marcel Camus e lançado em 1959, Orfeu Negro (Orphée Noir) tinha como cenário uma favela carioca. A trilha sonora era de Tom Jobim e Luis Bonfá.
Ver Michael Hall, Attitudes toward immigration in the Brazilian Empire, 1822-1889 (Master of Arts Thesis. New York: Columbia University, 1965).
Ver José Honório Rodrigues, Os estudos brasileiros e os brazilianists, Revista de História, vol. 54, n. 107, 1976.
Agência dos EUA dedicada à diplomacia pública.
Autor de The Brazilian corporative state and working-class politics (Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1977).
Além de suas muitas publicações sobre a História brasileira, entre as quais Modernização sem mudança: a indústria açucareira de Pernambuco, 1840-1910 (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977), originalmente apresenta- da como tese de doutorado na Columbia University, Eisenberg teve importante papel, nos anos 1970 e 1980, na implantação do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp.
Fundada em 1920 e sediada em Nova York, trata-se de uma organização não partidária e sem fins lucrativos cuja atuação se concentra na defesa de direitos e liberdades individuais.
Professor de Ciência Política na Unicamp e posteriormente na USP (onde atuou na fundação do Núcleo de Estudos da Violência) e em outras universidades no exterior. Atualmente é membro do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU.
Autor de Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935 (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1973);
Professor do Departamento de História da Unicamp do começo dos anos 1980 até 2002, quando assumiu o cargo de assessor especial da Presidência da República. Autor de textos sobre, entre outros temas, a história da esquerda, intelectuais e o movimento operário brasileiro.
Zeferino Vaz foi reitor da Unicamp entre 1966 e 1978.
Professora de Ciência Política com doutorado pela Stanford University.
As atas do congresso saíram em dois volumes, organizados por Paulo Sérgio Pinheiro: O Estado autoritário e os movimentos populares (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980) e Trabalho escravo, economia, e sociedade (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983).
Nos anos 1980, foi professor de Sociologia na USP. Autor de Quando novos personagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo (1970-1980) (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988). Faleceu em 1988.
Docente do Departamento de Sociologia da USP. Escreveu, especialmente nos anos 1980 e 1990, diversos textos sobre os trabalhadores brasileiros.
Docente do Departamento de Sociologia da USP. Assim como Eder Sader e Maria Célia Paoli, produziu influentes estudos sobre os movimentos sociais brasileiros dos anos 1970 e 1980.
Fundado em 1976, o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) reunia pesquisadores de dife- rentes disciplinas e em seus primeiros anos produziu inúmeros trabalhos sobre os novos movimentos sociais.
Socióloga, docente da Faculdade de Educação da USP.
Cientista político, ex-docente da USP e autor de diversos livros, destacando-se sua produção sobre o populismo. Foi ministro da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso.
Ver Silvia Magnani, O movimento anarquista em São Paulo (São Paulo: Brasiliense, 1982).
Ver Michael Hall, Immigration and the early São Paulo working class, Jahrbuch fuer Geschichte von Staat, Wirtschaft und Gesellschaft Lateinamerikas, v. 12, 1975.
Michael Hall e Paulo Sérgio Pinheiro, Alargando a história da classe operária: organização, lutas e controle, Remate de Males, n. 5, 1985.
O historiador estadunidense Herbert Gutman escreveu o clássico The black family in slavery and freedom: 1750-1925 (New York: Pantheon, 1975), obra importante na renovação da História Social do Trabalho nos EUA. Especialmente sobre a História do Trabalho, Gutman publicou Work, culture and society in industrializing America: essays in American working-class and social history (New York: Knopf, 1978) e Power and culture: essays on the American working class (New York: New Press, 1987).
Hill foi um dos membros do Grupo de Historiadores do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Algumas de suas obras, como O mundo de ponta-cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640 (São Paulo: Com- panhia das Letras, 1987), tornaram-se referências obrigatórias para os praticantes da “história vista de baixo”.
Antropóloga, é professora emérita do Departamento de Antropologia Cultural e Social da Universidade Autônoma de Barcelona. Foi professora na Unicamp nos anos 1970. É autora de Cafeicultura: homens, mu- lheres e capital, 1850-1980 (São Paulo: Brasiliense, 1986).
Michael Hall e Paulo Sérgio Pinheiro, A classe operária no Brasil: 1889-1930, v. 1, O movimento operário (São Paulo: Alfa-Ômega, 1979) e v. 2, Condições de vida e de trabalho, relações com os empresários e o Estado (São Paulo: Brasiliense/Campinas: Funcamp, 1981).
História das lutas sociais no Brasil (São Paulo: Edaglit, 1962)
Sindicato e Estado (São Paulo: Dominus, 1966).
Verena Stolcke e Michael Hall, Introdução do trabalho livre nas fazendas de café de São Paulo, Revista Brasileira de História, n. 6, 1983.
Autor, entre outros livros, de Os últimos anos da escravatura no Brasil, 1850-1888 (Rio de Janeiro: Civili- zação Brasileira, 1975).
Michael Hall and H. Spalding, The urban working class and early Latin American labour movements, 1880–1930, in Cambridge History of Latin America, v. 4 (Cambridge: Cambridge University Press, 1986).
Historiador estadunidense falecido em 2011, considerado um dos fundadores da nova história do trabalho em seu país. Autor de Workers’ control in America: studies in the history of work, technology, and labor strggles (New York: Cambridge University Press, 1979). Foi professor da Universidade de Yale.
Historiadora estadunidense especialista em América Latina. Publicou diversos textos sobre o Brasil, entre eles (Re)formação da classe trabalhadora no Brasil (1920-1964) (São Paulo: Cortez, 2000). Atualmente é professora da Universidade de Nova York.
Historiador britânico especialista em América Latina, sobretudo em peronismo, escreveu entre outros livros Resistance and integration: peronism and the Argentine working class, 1946-1979 (Cambridge: Cambridge University Press, 1988). Atualmente é professor da Universidade de Indiana.
Robert Slenes, professor do Departamento de História da Unicamp, autor de Na senzala, uma flor: es- peranças e recordações na formação da família escrava (Brasil Sudeste, século XIX) (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999).
Silvia Hunold Lara, professora do Departamento História da Unicamp. Um de seus livros recentes é Fragmen- tos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa (São Paulo: Companhia das Letras, 2007).
Sidney Chalhoub é, desde 2015, professor da Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Foi professor do Departamento de História da Unicamp, e é autor, entre vários outros livros, de Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte (São Paulo: Companhia das Letras,1990).
Maria Clementina Pereira Cunha, professora do Departamento de História da Unicamp e autora, entre outros livros, de Carnavais e outras f(r)estas (Campinas: Editora da Unicamp, 2002).
Professor do Departamento de História da Unicamp e autor de diversos textos sobre o movimento operário brasileiro, especialmente o da Primeira República, incluindo sua tese de doutoramento Le sindicalisme “ama- relo” à Rio de Janeiro (1906-1930) (Paris: Université Paris 1, 1986).
E. P. Thompson, A economia moral da multidão inglesa no século XVIII, in Costumes em comum (trad. Ro- saura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1998). Nos anos 1980, a versão mais utilizada no Brasil era La economia ‘moral’ de la multitud en la Inglaterra del siglo XVIII, in Tradición, revuelta y consciencia de clase (Barcelona: Crítica, 1979).
A multidão na história (Rio de Janeiro: Campus, 1991), que circulava no Brasil desde os anos 1970 em espanhol: La multitud en la historia (Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 1971).
Eighteenth-century English society: class struggle without cass?, Social History, v. 3, n. 2, 1978. Nos anos 1980, a versão mais utilizada no Brasil era La sociedad inglesa del siglo XVIII: ¿Lucha de clases sin clases?, in Tradición, revuelta y consciencia de clase (Barcelona: Crítica, 1979).
Boris Fausto, A Revolução de 1930 (São Paulo: Brasiliense, 1970).
Mauricio Font, Coffee and transformation in São Paulo, Brazil (Lanham, Maryland: Lexington Books, 2010), p. 142-144.
Michael Hall, Imigrantes na cidade de São Paulo in Paula Porta (org.), História da cidade de São Paulo, vol. III (São Paulo: Paz e Terra, 2004) e Entre a etnicidade e a classe em São Paulo, in Maria Luiza Tucci Carneiro, Frederico Croci e Emilio Franzina (orgs), História do trabalho e histórias da imigração (São Paulo: Edusp, 2010).
Luiz Carlos Bresser Pereira, Origens étnicas e sociais do empresário paulista, Revista de Administração de Empresas, vol. 4, 1964.
José de Souza Martins, Empresários e trabalhadores de origem italiana no desenvolvimento industrial brasileiro entre 1880 e 1914: o caso de S. Paulo, Dados, vol. 24, no 2, 1981.
Verena Stolcke e Michael Hall, A introdução do trabalho livre nas fazendas de São Paulo, Revista Brasileira de História, n. 6, 1983.
Ver, entres outros, o influente e controverso artigo de Gopalan Balachandran, Making coolies, (un)making workers: “globalizing” labour in the late-19th and early-20th centuries, Journal of Historical Sociology, 24: 3 (2011)
Barbara Weinstein, The color of modernity: São Paulo and the making of race and nation in Brazil (Durham: Duke University Press, 2015).
Angelo Trento, ‘Donde haya un italiano, allí estará la bandera tricolor’: la penetración del fascismo entre los emigrantes en el Brasil, in Eugenia Scarzanella (org.), Fascistas en América del Sur (Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007).
João Fabio Bertonha, O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil (Porto Alegre: Edipucrs, 2001).
Jose Arthur Rios, Aspectos políticos da assimilação do italiano no Brasil (São Paulo: Fesp, 1959).
Carlo Castaldi, O ajustamento do imigrante à comunidade paulistana: estudo de um grupo de imigrantes italianos e de seus descendentes, in Bertram Hutchinson (org.), Mobilidade e trabalho (Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, 1960).
Joseph Love, A locomotiva: São Paulo na federação brasileira: 1889-1937 (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982); John Wirth, O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira (1889-1937) (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982); e Robert Levine, A velha usina: Pernambuco na federação brasileira (1889-1937) (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980).
Historiador inglês, organizador da Cambridge History of Latin America.
Marc Bloch, Pour une histoire comparée des sociétés européennes, Revue de Synthèse Historique, 46, 1928.
Norberto Ferreras, O cotidiano dos trabalhadores de Buenos Aires (1990-1920) (Niterói: EdUff, 2005).
Dora Barrancos, La escena iluminada: ciências para trabajadores, 1890-1930 (Buenos Aires: Plus Ultra, 1996).
Andreas Doeswijk, Los anarco-bolcheviques rioplatenses, 1917-1930 (Buenos Aires: CEDINCL, 2013).
Fouzieh Alchehazeh Alfrihat, La conception de l’état et les fondements du pouvoir selon Antun Saadeh, Thèse de Doctorat (Paris: Université Paris X, 1995).
Salim Mlujais, Antun Saadeh: a biography (Beirute: Kutub, 2004).
Crédito da imagem de capa: Professor Michael McDonald Hall, coordenador do projeto, e Regiane Alcântara Eliel, diretora da Biblioteca do IFCH: um dos maiores projetos de aquisição de livros na história da unidade. 2012. Foto: Isaías Teixeira. Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/533/grande-compra-de-livros-pelo-ifch
Patrícia Gonçalves de Oliveira Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ)1
Apresentação da atividade:
Segmento: 9º ano do Ensino Fundamental
Unidade temática: Segunda Guerra Mundial e divisão sexual do trabalho.
Objetivos gerais:
– Identificar, analisar e reconhecer o protagonismo das mulheres junto aos desdobramentos que se deram ao longo da Segunda Guerra,
– Estimular a percepção discente ao que concerne a força de trabalho feminina nesse período, assim como no pós-guerra.
– Discutir as questões que envolvem a divisão sexual do trabalho.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC)
– (EF09HI08) Identificar as transformações ocorridas no debate sobre as questões da diversidade no Brasil durante o século XX e compreender o significado das mudanças de abordagem em relação ao tema.
– (EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.
– (EF09HI10) Identificar e relacionar as dinâmicas do capitalismo e suas crises, os grandes conflitos mundiais e os conflitos vivenciados na Europa.
Duração da atividade: 3 tempos de 50 minutos.
Aulas
Planejamento
1° tempo
Exposição do desenvolvimento e desdobramentos políticos, sociais e econômicos que envolveram o conflito.
2º tempo
Apresentação, exibição e análise dos vídeos.
3° tempo
Debate e exposição das reflexões promovidas.
Atividade
Recursos: Datashow e/ou smartphones; computador com acesso à internet
Etapa 1:
Aula temática expositiva: abordagens acerca dos desdobramentos gerais da Segunda Guerra Mundial e, de forma mais específica, atuação das mulheres no conflito (ex: trabalho nas indústrias, produção agrícola, participação no front de batalha). Após a abordagem temática o(a) docente deve sugerir à turma que pense acerca de quais atividades acreditam que eram realizadas pelas mulheres daquela época e porque a realizavam, anotando suas reflexões no caderno. Em seguida serão apresentadas imagens das mulheres trabalhadoras, atuando tanto na indústria quanto nos movimentos de resistência. Após a análise dessas imagens algumas questões serão introduzidas pelo professor ou professora que deverão ser respondidas pelos alunos e alunas também no caderno:
Você imaginava que mulheres haviam atuado nas indústrias e movimentos de resistência durante a Segunda Guerra?
Você imagina que tais atuações foram importantes para a sociedade?
Você acreditava que as mulheres daquele tempo fossem capazes de realizar essas atividades?
Apresentação e exibição dos vídeos sobre a força de trabalho feminina durante o conflito. Utilizar Datashow para exibição síncrona e coletiva ou smartphones (dos próprios alunos, se for o caso) para exibição individual ou compartilhada. Para isso, é necessário fornecer o link aos discentes.
O(a) docente deverá propor uma roda de conversas para a exposição das reflexões dos alunos, acerca da atuação das mulheres, assim como a exploração da força de trabalho feminina durante o conflito. Também deverá introduzir questionamentos que possibilitem a discussão sobre a divisão sexual do trabalho. Ao propor o debate em roda de conversas aberta, é importante que o(a) docente estimule a participação de todos os discentes, a fim de que todos tenham a oportunidade de contribuir com seus próprios questionamentos e reflexões. Para isso, a introdução de questões que fomentem e promovam a exposição dessas ideias por parte do(a) docente é um dos recursos estratégicos da atividade. Exemplo de questões levantadas pelo(a) docente no momento do debate: “Vocês acreditam que existem trabalhos específicos para homens e mulheres?” “As pessoas devem exercer atividades pré-determinadas segundo o sexo?” “Vocês acreditam que as pessoas possuem capacidade intelectual diferente de acordo com o sexo?”
Bibliografia
BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha; COSTA, Albertina de Oliveira; HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle; SORJ, Bila. et al (orgs). Mercado de trabalho e gênero: comparações internacionais. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2008.
LESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
QUÉTEL, Claude. As mulheres na guerra/volume1/1939-1945. São Paulo: Ed. Larousse, 2009.
1 Mestra em Ensino de História pelo PROFHISTÓRIA/PUC-RJ
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Claudiane Torres, Luciana Pucu e Samuel Oliveira entrevistam Cristina Meneguello
Desde a sua primeira edição, no ano 2009, a ONHB reúne milhares de estudantes e professores da Educação Básica de todo o país, interessados em debater e aprofundar os seus conhecimentos em História do Brasil. Nessa entrevista, a professora Cristina Meneguello nos conta um pouco da sua experiência como uma das coordenadoras dessa Olimpíada e explica como surgiu a ideia coletiva de criar Dicionário Biográfico Excluídos da História, lançado na ONHB de 2019. Reunindo um total de 2.251 verbetes de personagens que raramente são estudados pela historiografia tradicional – incluindo trabalhadores, trabalhadoras, líderes sindicais, lideranças de movimentos sociais, entre outros, esse dicionário é uma produção feita por estudantes e professores de História da Educação Básica de todo o país. Junto à entrevista, propomos umjogo didático usando como ferramenta principal o próprio dicionário. Confira! E atenção! Asinscrições para a 13ª ONHB estão abertas. Inscreva-se!
Em 2021, Olimpíada Nacional de História do Brasil chegou à sua 13º edição. Você poderia nos contar um pouco da trajetória da ONHB, particularmente edição a realizada no ano passado que deu origem ao Dicionário Biográfico Excluídos da História?
O projeto foi concebido no ano de 2008 e a primeira prova ocorreu, já no modo online, em 2009. Foi a primeira olimpíada científica da área de ciências humanas e atendeu a uma demanda represada dos colégios e professores, sendo que cresceu rapidamente no número de participantes. Professores que, numa primeira participação, orientaram uma ou duas equipes de alunos, progressivamente passaram a orientar 10, 20 ou mais equipes. Os estados no nordeste, em especial o Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia, mas também estados do sudeste como São Paulo e Minas Gerais sempre tiveram uma expressiva participação. Aos poucos, a comunidade escolar viu-se envolvida e a ONHB acabou por entrar no calendário de atividades escolares. Hoje, há professores orientadores que iniciaram a caminhada como alunos, formaram-se em História, e voltaram como orientadores; ou seja, a ONHB, em mais de uma década, já é um programa estabelecido junto às escolas. Muitos trabalhos de pesquisa (monografias, mestrados e doutorados) têm sido defendidos analisando os impactos da ONHB, e todo esse conhecimento adquirido está presente quando criamos uma nova prova. Em todas as edições, as equipes realizam provas de múltipla escolha, tarefas e uma grande tarefa, de maior fôlego, tal como um jornal, uma entrevistas, um panfletos, entre outras. Na edição de 2019 não foi diferente: os alunos realizaram uma reflexão sobre como seria “acrescentar” páginas ausentes de um livro didático mais inclusivo e heterogêneo da História do Brasil. Essa foi a origem do Dicionário Biográfico.
A Unicamp destaca-se como um dos centros de ensino e pesquisa em História Social. Como o debate e as discussões sobre o mundo do trabalho se refletem na experiência da Olimpíada de História?
Em parte, a relevância da história social da Unicamp está refletida na formação de muitas pessoas que atuam na Olimpíada, como elaboradores de questões, revisores de prova, e até mesmo na minha própria formação. Um olhar atento perceberá que, em todas as edições da prova, há perguntas que lidam com temas da história social do trabalho. Mas, do mesmo modo, há em todas as edições perguntas sobre racismo, história das mulheres, história indígena, patrimônio cultural, literatura, cultura visual e até mesmo história do tempo presente. Isso deriva da composição heterogênea da equipe elaboradora de questões e da contínua renovação de nomes dentre os que fazem esse trabalho, para que a prova se mostre sempre arejada e inovadora.
Navegando pelos verbetes do Dicionário Biográfico Excluídos da História, identificamos grande parte (talvez a maioria) das biografias investigadas são de mulheres e negros. Por que essa predominância na escolha que as equipes fizeram? O que a iniciativa coletiva de tirar essas personagens da invisibilidade histórica pode nos revelar sobre o momento atual?
É importante lembrar que esse trabalho não nasceu como um Dicionário, mas como uma tarefa de uma das fases da Olimpíada, em que criamos um template a ser preenchido com 4 possíveis páginas de um livro didático. Nessas páginas, os participantes tinham que escolher um personagem “que não estava no livro didático tradicional”; trazer uma imagem desse personagem, uma linha do tempo, narrar aspectos biográficos, por que razão o consideravam relevante e até mesmo porque acreditavam que ele não era estudado. Note que generalizar “livros didáticos” não deixa de ser uma injustiça, pois há materiais de qualidade disponíveis para a Educação Básica; mas nos interessava o exercício historiográfico de estar “além do livro”. Assim, nas instruções para os grupos participantes olímpicos realizarem a tarefa, não lhes foi dito quem deviam escolher. A presença de tantos negros, indígenas, mulheres, mulheres negras e indígenas, e de tantos personagens de relevância local são, para mim, indicativo das lacunas nas narrativas da história que os “olímpicos” trouxeram à baila e, por consequência, um retrato de ausências nas narrativas históricas com as quais devemos lidar. Posteriormente, com o material pronto, nos demos conta de que tínhamos mais de dois mil trabalhos que poderiam ser entendidos como verbetes de um dicionário, que facilitariam assim a consulta e a navegação de outros interessados em conhecer esse trabalho.
Em um mesmo estado, ocorreu de equipes escolherem o mesmo personagem como excluído da História. Por que isso ocorre uma vez que temos tantos personagens que são excluídos e não são lembrados na História do Brasil ensinada nas escolas? A repetição das escolhas sugere que alguns excluídos estão em processo de heroicização por alguns grupos sociais?
As equipes escolheram seus personagens, sem saberem quais eram os personagens estudados pelas outras equipes. Nessa fase, ainda são milhares de participantes de todos os estados do país, que não estão em contato entre si para além das possíveis interações nas redes sociais. Assim, acredito que as repetições indicam que há figuras (como Abdias do Nascimento para São Paulo, por exemplo) que estão numa “zona turva”, nem de invisibilidade nem de total visibilidade. Isso é interessante e positivo, pois nos revela o que os professores já estão estudando em sala de aula. Optamos por deixar todos os verbetes, pois consideramos que, ao poderem ler como outros grupos narraram um mesmo personagem enfatizando diferentes aspectos, de os participantes poderiam compreender melhor como são feitas as escolhas e como é feita a própria escrita da história, que em algumas vezes coincidem, por outras entram em contradição. Também essa é uma forma de olhar criticamente para uma suposta “verdade pétrea” narrada pelo material didático.
Nair Jane de Castro Lima, Clodesmidt Riani, Francisco Guilherme de Souza, são algumas das lideranças sindicais pesquisadas pelo Dicionário. Apesar de serem líderes sindicais importantíssimos não apenas para a história das suas categorias, mas para a própria história do país, as suas trajetórias seguem invisibilizadas. Você considera que estudar a biografia dessas lideranças na escola, pode ser um caminho interessante para tentarmos superar esse esquecimento?
Sem dúvida alguma. Vejo que essas trajetórias podem não estar nos cânones ou nos materiais didáticos amplamente utilizados, mas não são desconhecidas, ou não teriam sido sugeridos como “personagens” pelos estudantes e professores da Educação Básica. Por outro lado, não acredito que a solução está meramente na substituição de biografias por novas biografias, mas na problematização do conceito de herói ou de personagem histórico. O que é importante, em sala de aula, é que eles compreendam esses processos de escolhas (e apagamentos) como um modo de operação da história. O Dicionário Excluídos da História, na minha opinião, é fascinante porque revela a produção de conhecimento na Educação Básica e na sala de aula – da qual muito se fala, inclusive em textos sobre educação, mas em falas que muitas vezes são meras traduções, nas quais o especialista da academia vocaliza o que os professores parecem estar fazendo em sala de aula. O Dicionário fez o que deve ser a extensão a partir da universidade: criou a oportunidade para que esse conhecimento seja visto e conhecido, sem tutelas, sem traduzi-lo ou intermediá-lo.
Cristina Meneguello é doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tendo realizado doutorado-sanduíche na Universidade de Manchester (Reino Unido) e estágios de pós-doutoramento na Universidade de Veneza (IUAV), Itália, e na Universidade de Coimbra, Portugal. É docente em regime de dedicação exclusiva do departamento de História da Universidade Estadual de Campinas desde 1999. Especialista em estudos sobre cultura visual, memória e patrimônio, foi fundadora e é atual vice-presidente do Comitê Brasileiro de Conservação do Patrimônio Industrial (TICCIH-Brasil). Atua na área de Divulgação Científica em Ciências Humanas e coordena desde o início a Olimpíada Nacional em História do Brasil para escolas públicas e particulares, que está em sua 13ª edição (2021).
A tradição da temática do trabalho na historiografia não impediu que apenas após 18 anos da sua primeira edição, a Revista Cantareira trouxesse entre suas publicações o seu primeiro dossiê inteiramente dedicado ao tema da História do Trabalho. Esta ausência se torna ainda mais surpreendente quando nos deparamos com a grande procura de pesquisadoras e pesquisadores não só de todo o Brasil, como também de outras partes do globo. De fato, as pesquisas de História do Trabalho e dos Trabalhadores e Trabalhadoras nas últimas décadas vem cada vez mais ampliando seu escopo e seus debates, mostrando que a experiência do homem branco, adulto e operário, que por muito tempo figurou na historiografia como o trabalhador ideal, não é a experiência universal dos mundos do trabalho.
Organizado pelas doutorandas Clarisse Pereira (UFF) e Heliene Nagasava (CPDOC/FGV e pesquisadora do LEHMT-UFRJ), com um número recorde de artigos submetidos e aprovados, os trabalhos deste Dossiê mostram uma História do Trabalho dinâmica, plural, e que extrapola os grandes centros urbanos e as fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo que os temas clássicos da História do Trabalho são revistos com novos olhares, abordagem e fontes, demonstrando a riqueza das pesquisas produzidas e a sua diversidade.
O Dossiê Mundos do Trabalho apresenta também a entrevista concedida pelos professores Paulo Fontes (PPGH/UFRJ) e Victoria Basualdo (COCINET/FLACSO) para as organizadoras, Clarisse Pereira e Heliene Nagasava. Na conversa, os professores discutem suas formações acadêmicas, trajetórias de pesquisa, transformações no campo da história do trabalho e a importância do pensamento e da atuação dos historiadores, em especial os historiadores do trabalho e trabalhadores, fora dos muros da Universidade
Contribuição especial de Vera Telles¹, Daniel Hirata² e Gabriel Feltran³
Lucio Kowarick, professor aposentado do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, faleceu aos 82 anos, em 25 de agosto deste ano. Deixou um imenso legado aos estudos urbanos e do trabalho. Como professor e pesquisador, formou várias gerações de intelectuais, mas também de ativistas e de figuras políticas empenhadas na construção de agendas democráticas e igualitárias para a sociedade brasileira. Sua obra ultrapassou fronteiras ganhando enorme repercussão na América Latina. Suas pesquisas de campo, sua capacidade de síntese teórica e, sobretudo, seu modo inovador, polêmico e sempre politicamente engajado de pensar ofereceu a pauta para todos que, nas últimas décadas, dedicaram-se aos nexos entre cidade, trabalho e política.
Nas décadas de 1960 e 70, os pesquisadores que então conformavam a sociologia latino-americana testemunhavam um crescimento urbano acelerado sob o impacto das migrações rurais e mudanças de uma estrutura ocupacional que mobilizava massas crescentes de trabalhadores pobres, oscilando entre as ocupações assalariadas e formais com as instáveis, o desemprego e as alternativas precárias dos então expansivos mercados informais. Nos termos da época, evidencias que pareciam dar razão à uma grade analítica permeada de dualismos: na contraposição entre a urbanização dos países centrais e os países ditos periféricos, em desenvolvimento, essas dinâmicas eram descritas e assim tematizadas como contraposição entre um setor moderno que se espelhava nos países centrais e um dito setor atrasado, resquícios do “arcaico” ou do “pré-moderno” que haveriam de ser superados pela modernização da economia e sociedade.
Os debates na época foram acalorados, para dizer o mínimo. O que então era visto como dualismo o foi equacionado como relação, e se percebeu que a singularidade latino-americana não era uma “deformação”, “anomalia” ou “disfunção” em relação a um padrão normativo associado aos países centrais. Ao invés de uma dicotomia entre centro e periferia, entre modernidade e atraso, um conjunto de relações sociais concretas que articulam riqueza e pobreza, formalidade e informalidade. As raízes históricas dessas relações foram apontadas por Lucio Kowarick no livro Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil, no qual o legado escravista e suas complicações na transição ao trabalho livre foram apontadas de forma bastante contundente.
A natureza dessas relações de trabalho foi tratada em diferentes escalas analíticas, com níveis variáveis de articulação, partindo de processos de grande amplitude histórica e geográfica e chegando às trajetórias de vida dos habitantes das cidades latino-americanas. Em um nível macrossociológico, essas relações seriam a expressão do subdesenvolvimento ou de um capitalismo dependente, termos que pautaram o debate em boa parte daqueles anos. Neste vasto campo de debates e controvérsias, Lucio Kowarick foi dos poucos que trataram dessa relação entre pobreza e riqueza na escala das cidades, sobretudo das metrópoles.
Em 1975, junto com Vinicius Caldeira Brandt, Lucio organizou um livro que teve imensa repercussão e impacto na época. Eram os anos de chumbo da ditadura militar e a obra questionava diretamente os apologistas do chamado “milagre econômico” brasileiro. Sob o título São Paulo, crescimento e pobreza, com capítulos escritos por pesquisadores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), contando com o apoio da Pontifícia Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, o livro trazia ao debate público o engendramento expansivo da pobreza urbana sob a lógica de um padrão de “modernização” (leia-se: acumulação econômica e urbanização) que só fazia aumentar as desigualdades e segregações urbanas, precariedade nas condições de vida, trabalho e moradia.
“A lógica da desordem” é o título do artigo de Lucio neste livro, formulação sintética e expressiva de questão que ele irá desdobrar em suas pesquisas e escritos posteriores, fio condutor de uma investigação empírica e reflexão teórica que busca deslindar os nexos entre superexploração da força de trabalho e precariedade das condições urbanas de vida. Em 1979, Lucio cunhou a expressão “espoliação urbana” em livro com este título, que até hoje é referência para quem queira entender e pesquisar as desigualdades e segregações plasmadas nos espaços de nossas cidades. Se no “chão de fábrica” a dinâmica da exploração do trabalho há muito havia sido caracterizada como produtora das desigualdades sociais e da dominação no mundo do trabalho, a “espoliação” seria o seu par analítico para entender a reprodução dessas desigualdades por meio da questão urbana. Ali, nosso mestre demonstra que não há crescimento desordenado, nem caótico, nas cidades brasileiras. Se esse crescimento fosse desordenado, nossas urbes não cresceriam em um mesmo padrão em todo o território nacional: padrão concêntrico e por expansão das periferias pobres. A aparente desordem tinha, de fato, uma lógica evidente: crescimento e pobreza retroalimentavam-se em nosso modelo de crescimento econômico e urbano. Crescimento, nesse modelo, era sinônimo de produção de pobreza e, portanto, máquina de produção de desigualdades.
Lucio Kowarick foi quem primeiro demonstrou esse mecanismo, sua lógica interna coerente. Seu trabalho foi fundamental para gerações de estudiosos da cidade e das desigualdades urbanas, em toda a América Latina. E, deveria ser lido por políticos e homens públicos. A ideia de crescimento econômico como solução para a pobreza nunca esteve tão em voga hoje: estima-se que quanto mais dinheiro circular, por cima ou por baixo na economia, menor será nossa desigualdade e nosso conflito urbano. Mas o Brasil se torna mais rico e mais violento, sem falar das nossas desigualdades persistentes, desde os anos 1970.
Os patamares contemporâneos de violência criminal e de Estado jamais foram vistos no Brasil. Setores criminalizados se estruturam na regulação de mercados ilegais altamente rentáveis – o tráfico de drogas, os veículos roubados e os grandes assaltos – e transferem boa parte dos lucros ali gerados à economia formal, por meio de consumo e lavagem de dinheiro. Enquanto esse mesmo dinheiro gera postos de trabalho legais, formais, informais, ilegais, ilícitos, uma parte relevante dos descendentes das famílias dos trabalhadores migrantes analisadas por Lucio Kowarick, sobretudo os negros, lotam as cadeias e povoam com seu perfil estatístico as taxas de homicídio nas mesmas periferias. Relação, portanto, entre mundos aparentemente distantes que alimenta a produção da violência urbana. A violência criminal e a revanche policial violenta, já previstas e depois estudadas empiricamente por Lucio Kowarick, mudaram a face de nossas cidades. É por elas que se ergueram grades e depois muros de condomínios, aumentando ainda mais nossa segregação.
Essas duas linhas do conflito urbano contemporâneo são mais nítidas quando a equação teórica de A Espoliação Urbana nos oferece um diagrama de fundo para a compreensão conjunta das relações entre economia, política e produção do espaço urbano. A centralidade teórica do conflito nessa equação, substrato do livro de Lucio Kowarick, facilita nossa tarefa. Esse conflito, pensado sob influência da historiografia inglesa, sobretudo da obra de E.P. Thompson, abria as fendas da indeterminação histórica através da rica noção de experiência, que foi fundamental para a coletânea de textos As lutas sociais e a cidade: São Paulo passado e presente, parte de uma renovação dos estudos dos chamados movimentos sociais.
Capa do livro A Espoliação Urbana, 1979.
Mas há uma outra dimensão no trabalho de Kowarick que inspira ainda mais a bibliografia contemporânea. Já nos anos 1970, o autor assinalava a necessidade de autoritarismo político (expresso então na ditadura) para manter essa máquina de crescimento econômico e produção de desigualdades funcionando. Só a repressão a permitiria se reproduzir, dada a potencialidade de revolta advinda da transferência dos custos de reprodução social às próprias famílias trabalhadoras (a começar pela moradia autoconstruída), mas também pelo acoplamento até mesmo da infraestrutura de mobilidade urbana à lógica de acúmulo de desvantagens entre os mais pobres.
A violência estatal se tornaria moeda corrente justamente por ser preciso conter assim, agressivamente, o conflito gerado pelas desigualdades. A noção de violência para Lucio Kowarick compunha o quadro conceitual da espoliação urbana, e, portanto, integrava o (e não se opunha ao) problema político-econômico para a compreensão da cidade. Nos tempos que correm, seguramente de menos esperança na superação das desigualdades do que havia na virada para os anos 1980 em São Paulo, quando Lucio surgiu como uma voz intelectual e militante contra as desigualdades urbanas, essa cobrança é ainda mais necessária. O brilhantismo inovador de suas pesquisas sempre foi exercitado sob a perspectiva engajada e politicamente comprometida com o “direito à cidade”.
É esse um legado que será preciso reativar agora sob novos termos, termos afinados com os desafios imensos postos pelos tempos sombrios em que estamos mergulhados, sob uma constelação política de governo que faz da destruição de direitos, garantias e serviços públicos um programa, mas também se empenha no apagamento dos rastros e memória dessa história. Por isso mesmo, esse legado é chave para as novas gerações de pesquisadores, que neste momento se empenham em compreender a urgência do momento em que vivemos na economia política das cidades e na lógica dos mundos do trabalho: o brilho da inteligência de Lucio, a radicalidade de sua generosidade e, sobretudo, seu saber comprometido com os desafios políticos (e incertezas, imensas) de cada época, segue iluminando o cenário do pensamento sobre as nossas cidades, cada vez mais desiguais.
Lucio Kowarick nos anos 1980. Acervo da família.
¹ Professora do Departamento de Sociologia da USP ² Professor do Departamento de Sociologia da UFF ³ Professor do Departamento de Sociologia da UFSCar
Referências:
Kowarick, Lucio (1975). Capitalismo e marginalidade na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Kowarick, Lucio et alii (1976). São Paulo 1975: crescimento e pobreza. São Paulo: Edições Loyola. Kowarick, Lucio (1979). A espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Kowarick, Lucio (1987). Trabalho e vadiagem. A origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense. Kowarick, Lucio (org) (1994) As lutas sociais e a cidade. São Paulo passado e presente. São Paulo: Paz e Terra. 2a. Edição. Kowarick, Lucio (2000). Escritos Urbanos. São Paulo: Editora 34.
Crédito da imagem de capa: Lucio Kowarick em evento no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 2012. Fotografia: Cecília Bastos/USP Imagens.
Autores: Profª Luciana Pucu Wollmann1 e Prof. Felipe Ribeiro2
Apresentação da atividade
Segmento: 9º Ano do Ensino Fundamental (regular e EJA)
Objetivos gerais:
– Refletir sobre a criação do Décimo Terceiro Salário no Brasil e as lutas de trabalhadores e trabalhadoras em prol deste direito.
– Problematizar certo imaginário político da conquista dos direitos trabalhistas compreendidos enquanto dádiva, e não como um processo de lutas.
– Enfatizar a importância do protagonismo político de trabalhadores e trabalhadoras durante a República, conquistando direitos e promovendo alterações na sociedade por meio de mobilizações coletivas.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC):
– (EF09HI06) Identificar e discutir o papel do trabalhismo como força política, social e cultural no Brasil, em diferentes escalas (nacional, regional, cidade, comunidade).
– (EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.
– (EF09HI23) Identificar direitos civis, políticos e sociais expressos na Constituição de 1988 e relacioná-los à noção de cidadania e ao pacto da sociedade brasileira de combate a diversas formas de preconceito, como o racismo.
Duração da atividade: 05 aulas de 50 min.
Aulas
Planejamento
01
Etapa 1
02e 03
Etapa 2
03e 04
Etapa 3
05
Etapa 4
Conhecimentos prévios (conforme a BNCC):
– Unidade Temática: O nascimento da República no Brasil e os processos históricos até a metade do século XX
– Objetos de conhecimento: O período varguista e suas contradições – A emergência da vida urbana e a segregação espacial – O trabalhismo e seu protagonismo político
Atividade
Recursos: Projetor com som, Livro didático e Cópias
Etapa 1: Apresentação da temática
A turma será convidada a participar de uma roda de conversa. A proposta é estimular que cada estudante apresente suas reflexões coletivamente de forma oral, a partir das seguintes questões sugeridas: 1. Já ouviram falar em Décimo Terceiro Salário? Sabem o que é? 2. Seus pais e/ou responsáveis recebem o Décimo Terceiro Salário? 3. Caso recebam, qual o principal uso do Décimo Terceiro Salário? 4. O Décimo Terceiro Salário é importante na vida das pessoas? Porquê? 5. Como podemos definir o Décimo Terceiro Salário: um direito, uma doação, uma conquista, uma farsa…? A partir das falas da turma, é recomendado que o professor ou professora organize as principais respostas das questões em um quadro, de forma compartilhada. Depois desse debate introdutório, sugerimos que o docente exiba o vídeo “A luta pelo Abono de Natal”, elaborado pela equipe do “Chão de Escola”.
Após a exibição do vídeo e leitura do texto, a turma será dividida em grupos de quatro ou cinco integrantes. Cada grupo receberá duas fichas para análise do material apresentado.
Finalizada a atividade, sugerimos que o docente ouça as respostas dos estudantes e procure fazê-los refletir sobre a relação entre a autoria das fontes e o seu conteúdo, as diferentes opiniões a respeito do tema e sobre o período em que foram produzidas. Como tarefa de casa, a turma será estimulada a consultar seus pais, responsáveis e familiares sobre o que é o Décimo Terceiro Salário, podendo seguir parte do questionário inicial, para compartilhamento na próxima aula.
Etapa 3:Desconstruindo a lógica da dádiva
A turma será convidada a compartilhar sobre as respostas à consulta realizada com seus pais, responsáveis e familiares acerca do Décimo Terceiro Salário. Após este período introdutório, cada estudante deverá assinalar no livro didático utilizado pela disciplina as imagens e frases que indicam o papel exercido pelo presidente Getúlio Vargas no processo de construção da legislação trabalhista no Brasil. Em seguida, a turma será dividida em grupos de quatro ou cinco integrantes para analisar um conjunto de fontes, totalizando quatro coletâneas de fontes no total. Se for o caso da turma ser mais numerosa, o professor ou professora poderá repetir o conjunto de de fontes.
GRUPO 1:
Fonte: Imprensa Popular. 05/11/1953. p.1. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
“Os primeiros registros de que temos notícia falam de greves e demandas pelo abono natalino em 1921 na Cia Paulista de Aniagem e na indústria Mariângela. Em 1944 ocorreu uma greve geral pelo seu pagamento em Santo André, uma vez que fora concedido aos operários da Pirelli em 1943. Na onda de greves que se alastrou de dezembro de 1945 a março de 1946, a luta pelo prêmio de final de ano era a principal reivindicação na maioria delas, envolvendo categorias como ferroviários da Sorocabana, trabalhadores da Light, tecelões, metalúrgicos, gráficos e químicos em São Paulo. (…) O 13° salário é um desses casos de reivindicação surgida no chão de fábrica, legitimada nas relações costumeiras entre patrões e empregados em algumas firmas, transformada em lei. As custas de greves, demissões, abaixo assinados, prisões e cuja memória é depois ofuscada pelo brilho da lei que, supõe-se, como toda lei, deve ter sido iniciativa de algum presidente, deputado ou senador”.
Murilo Leal Pereira Neto Historiador e autor do livro “A reivenção da classe trabalhadora” (Editora da UNICAMP, 2011)
O Radical, 19/12/1948, p. 1. Arquivo Público do Estado do Rio do Janeiro/APERJ. Divisão de Polícia Política (1944-1960). Movimento Grevista no Rio de Janeiro.
“É em fins de dezembro de 1945 que o dique se abre com a greve do abono de Natal do pessoal da energia elétrica que, alcançando imediatamente uma escala nacional, deverá atuar como um detonador para o movimento operário em todo país. É assim que, se no ano de 1945 registra apenas doze greves, os dois primeiros meses de 1946 somarão mais de sessenta, indicando um nível de ascenso do movimento operário que, embora momentâneo, só será ultrapassado nos anos 60”.
Francisco Weffort Cientista Político e autor do artigo “Origens do sindicalismo populista no Brasil”(Estudos CEBRAP. v.4. 1973)
Grupo 2:
“Nesta época, o funcionalismo público e privado de um modo geral espera ansiosamente pelo 13° salário. Esta conquista não foi fácil de conseguir e veio coroar velhas reivindicações. O momento é a hora de pagar contas ou de consumir e, neste caso, está o presente de Natal a familiares e amigos, uma vez que a quantia é depositada na primeira quinzena de dezembro (o Governo Federal, atualmente, divide em duas parcelas, a primeira paga em junho). Este pagamento extra é uma gratificação equivalente a um mês de salário, daí a alusão a ser 13°. É o equivalente ao bônus de Natal, em países como Alemanha, Argentina e Portugal. Mas será que uma lei dessas veio decima para baixo?”
Luzia Álvares Cientista Política e autora do artigo “Abono de Natal” (O Liberal. 14/12/2012. p.2)
Fonte: Diário do Congresso Nacional. 11/06/1959. p.2021. Portal da Câmara dos Deputados.
“Nos anos 40, houve muita greve, surgindo inclusive um movimento dominante pelo Abono de Natal. Fazia-se muita greve nas proximidades do Natal para se conseguir o abono. Todo o ano aquilo se repetia e não se conseguia nada. Até que o Aarão Steinbruch se elege deputado federal, pega o Abono de Natal e chama de décimo terceiro, virou o décimo terceiro que está aí”.
Irun Sant’Anna Médico e fundador da União Nacional dos Estudantes (UNE) (Entrevista concedida em 06/04/2006. Acervo: Felipe Ribeiro)
Fonte: O Momento. 01/01/1948. p.1. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Grupo 3:
Fonte: O Globo. 26/04/1962. p.1. Acervo O Globo.
“Para os trabalhadores, um beneficio concedido pelos patrões anualmente. Para os patrões, um pequeno agrado ou gorjeta ofertado aos trabalhadores às vésperas do Natal. (…) A lei 4090, que garante o pagamento do abono de Natal aos trabalhadores, assinada no dia 13 de julho de 1962, esconde uma série de batalhas travadas entre patrões e operários ainda na década de 1950”.
Larissa Rosa Corrêa Historiadora e autora do artigo “Abono de Natal: gorjeta, prêmio ou direito?” (Revista Esboços. Nº 16)
“Surge o chamado de greve geral, para 13 de dezembro de 1961. Um panfleto reclama: ‘nas gavetas da Câmara Federal, desde 1959, dorme um projeto de lei’: o da consagração do abono de Natal em 13º salário. (…) Na véspera da greve, circulam rumores sobre alvoroços na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP): os patrões haviam resolvido se manifestar contra o crédito natalino. (…) Ao mesmo tempo em que o operariado brasileiro se notabilizava por dar vida a uma extraordinária máquina de trabalho – o que mudou a cara do país –, havia expressivas experiências de independência e maturidade e de ampliação da cidadania, nos fazendo ver que os trabalhadores lutavam por seus direitos”
Antonio LuigiNegro, Historiador e autor do artigo “Desfazendo preconceitos sobre a história do Brasil” (Revista Histórica. nº 05. 2005)
Fonte: Tribuna do Povo. Setembro de 1949. p.3. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Grupo 4:
Fonte: Texto integral da Lei nº 4.090/1962. Portal da Câmara dos Deputados.
“Há alguns anos tive uma pequena indústria e, durante muito tempo, lutei para conseguir ganhar alguma coisa com ela. Anos seguidos tive prejuízos, embora os operários que nela trabalhavam sempre recebessem seus ordenados. (…) Este salário, este abono de Natal, não é justo, porque para o aumento do custo de vida, segundo o que se alega, existe o salário mínimo e os reajustes. Se não está certo, reajuste-se, mas esse salário, não previsto para uma indústria que não tenha capacidade de concede-lo, é uma forma de levar-nos a um desastre e talvez a uma situação grave”.
Eduardo de Souza Queiroz Vereador pela UDN na cidade de São Paulo (Diário Oficial do Estado. 13/12/1961. p. 50)
“O abono de Natal dependia do humor da chefia. Alguns chefes não davam nada. Outros até davam alguma coisa, por livre e espontânea vontade, mas costumava ser muito pouco. Os patrões entendiam que o abono de Natal era uma gorjeta — não era obrigatória e era no valor que mais lhes fosse conveniente (…)”.
Fonte: Momento Feminino. 19/12/1947. p.1. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Com base na análise dos materiais distribuídos, cada grupo deverá elaborar uma cronologia histórica do Décimo Terceiro Salário, relacionando as datas, os episódios, personagens envolvidos e o respectivo Presidente de República que governava o país. Ao final, as cronologias elaboradas pelos grupos serão compartilhadas com toda a turma e unificada. A partir desse quadro geral, a turma deverá responder as seguintes perguntas:
1. Antes de se tornar lei, como era conhecido o Décimo Terceiro Salário? 2. Quanto tempo levou entre o registro da primeira mobilização em prol deste direito e a promulgação da lei? 3. Quais os principais personagens envolvidos nesse processo histórico?
Etapa 4: Construindo uma nova narrativa sobre o Décimo Terceiro Salário
Como avaliação da atividade, a turma será convidada a elaborar uma nova narrativa histórica sobre o Décimo Terceiro Salário, a partir do que foi trabalhado na disciplina (livro didático, materiais compartilhados, bem como a turma poderá ser estimulada a pesquisar mais materiais sobre as campanhas pelo Abono de Natal em sua região e/ou os impactos do Décimo Terceiro Salário na cidade em que reside). Esta nova narrativa poderá ser elaborada em diversos formatos, por grupos ou toda turma conjuntamente: uma exposição de cartazes, um pequeno jornal estudantil, um minidocumentário, um estudo de caso, um vídeo no Youtube, enfim… O importante é que esta produção seja posteriormente compartilhada com toda a comunidade escolar.
Bibliografia
CORRÊA, Larissa Rosa. Abono de Natal: Gorjeta, prêmio ou direito? Trabalhadores têxteis e a Justiça do Trabalho. Esboços, vol. 13, nº 16, 2006.
LEAL, Murilo. A Reivenção da Classe Trabalhadora, São Paulo: Ed. Unicamp, 2011.
NEGRO, Antonio Luigi. Desfazendo preconceitos sobre a história do Brasil. Revista Histórica. nº 05. 2005.
1 Pesquisadora do LEHMT-UFRJ e Professora de História nas redes estadual e municipal de ensino no Rio de Janeiro 2 Pesquisador do LEHMT-UFRJ, Professor Adjunto de História da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e Coordenador Acadêmico Local do Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHISTÓRIA
Crédito da imagem de capa: Festa de Natal do Grupo Votorantim (23/12/1944). Crédito: Memória Votorantim
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Diego Armando Maradona nasceu em 30 de outubro de 1960 na Policlínica Evita em Lanús, província de Buenos Aires. Foi o quinto dos oito filhos de Diego Maradona (1927-2015) e de Dalma Salvadora “Tota” Franco (1930-2011). Sua família vivia num casebre de um cômodo em Fiorito, uma favela da zona sul da região metropolitana de Buenos Aires. Seu pai se levantava às 4 horas da madrugada para ir ao trabalho na Moenda Tritumol e frequentemente sua mãe fingia estar doente para ceder a seus filhos e filhas a comida que não dava para todos. Trabalhadores pobres e mestiços, os Maradona eram uma típica família das quais as classes mais altas costumavam, de forma racista e classista, chamar de “cabecitas negras”.
O garoto Diego desenvolveu suas habilidades futebolísticas na várzea de Fiorito e em 1969 ingressou nas divisões inferiores do clube Argentino Juniors na equipe dos “Cebollitas”. Seu enorme talento logo foi notado e Maradona tornou-se jogador do clube aos 14 anos. Depois de ganhar a Copa do Mundo juvenil em 1979 com a seleção argentina, o já jogador campeão nacional pelo Boca Juniors, transferiu-se para a Europa onde jogou no Barcelona (1982-1984), no Napoli (1984-1991) e no Sevilha (1992-93). De volta a Argentina, jogou ainda no Newell’s Old Boys e no Boca Juniors antes de aposentar-se do futebol profissional em 1997. Com a seleção argentina participou de quatro Copas do Mundo e foi o capitão da equipe que venceu o Mundial em 1986, no México, quando se consagrou com uma excepcional e inesquecível atuação. Depois de aposentar-se como jogador, foi técnico de diversos times e inclusive, da seleção argentina.
No entanto, esses fatos por si só não dão conta de entender porque a morte de Maradona no dia 25 de novembro de 2020 teve tamanha repercussão mundial e é sentida com particular intensidade e importância na Argentina. Um primeiro fator para compreender um pouco do que “el Diego”, “Pelusa”, “Maradona”, “Dieguito”, “el Pibe de Oro”, “el 10”, “D10S” gera na Argentina e ao redor do planeta tem relação com sua capacidade aliar um talento futebolístico fora de série e uma habilidade excepcional com a percepção de processos históricos e sociais que ocorriam fora do futebol e que Maradona procurou de alguma forma dar respostas dentro e fora das quatro linhas.
O primeiro dos dois exemplos mais notáveis foi sua atuação no Napoli desde 1984. O time era, então, uma equipe desvalorizada e humilhada pelos clubes do norte italiano, cujas torcidas frequentemente utilizavam expressões racistas e classistas para insultar os torcedores e jogadores napolitanos. Sob a liderança de Maradona, o Napoli conquistou o primeiro scudetto de sua história em 1987, ganhando em seguida a Copa da Itália. Até então, tais conquistas estavam restritas aos grandes clubes do rico norte do país. Durante as temporadas em que esteve em Nápoles, a equipe obteve grandes resultados. Em 1988/89 conseguiram seu primeiro título internacional, a Copa da UEFA e, em 1989/90, seu segundo scudetto, vencendo em dezembro de 1990, a Supercopa da Itália, batendo nada menos que a Juventus de Turim na final. O que, a primeira vista, poderiam parecer apenas conquistas esportivas, se converteram para o povo napolitano em motivo de profundo orgulho. Como diversas pessoas em Nápoles afirmaram nas homenagens ao jogador logo após sua morte, a presença de Maradona na equipe foi o momento a partir do qual “começamos a acreditar que o Sul poderia ganhar do Norte, e acreditar em nós mesmos” e “na possibilidade de inverter a ordem que parecia natural, inamovível e indiscutível”.
No entanto, sem dúvida, o ápice deste entrelaçamento entre futebol, história e comoção profunda aconteceu na Copa do Mundo de 1986 e, particularmente, na partida de quartas de final entre Argentina e Inglaterra. Possivelmente o gol mais famoso da história do futebol que selou a vitória argentina, na sequência do não menos lendário primeiro gol batizado como “a mão de Deus”, maravilharam o mundo e geraram admiração pela incrível habilidade futebolística de Maradona. O que ocorreu nos campos de futebol da terra Asteca (por sua vez, traumatizada pela catástrofe do terremoto de 1985) trouxe uma alegria incomparável ao povo argentino, que se encontrava no difícil momento de saída da ditadura mais feroz de sua história, que havia deixado um legado de violações extremas dos direitos humanos e um retrocesso brutal nas condições econômicas e trabalhistas, em plena crise da dívida externa na América Latina. Um país que chorava seus “garotos da guerra”, mortos no enfrentamento bélico com a potência imperial da Grã Bretanha, liderada pela neoconservadora Margaret Thatcher, que conseguiu legitimar um processo selvagem e regressivo de reconfiguração social e econômica em seu país, utilizando a guerra para reafirmar a usurpação britânica sobre as Ilhas Malvinas argentinas.
Esse pequeno gigante surgido das entranhas populares, seus gols e toda a inesquecível vitória na Copa do Mundo trouxeram uma onda de euforia, um sentimento de solidariedade e esperança para o povo argentino que gritou, aclamou e considerou “heróis” a esses jogadores de futebol e, especialmente, a Diego. Como muitos explicaram no luto após sua morte, “Maradona nos fez acreditar que podíamos ser felizes, que tudo era possível”, estendendo esse fervor a muitos outros países, particularmente aqueles cuja história havia sido marcada pelo colonialismo britânico e que também viram em Maradona um símbolo de resistência.
A esta conexão entre o que acontecia dentro e fora de campo é necessário acrescentar o interesse pouco usual e o envolvimento de uma estrela do esporte com posicionamentos políticos que levaram Maradona a expressar seu apoio a numerosas causas vinculadas aos direitos humanos, sua admiração e carinho pelas Mães e Avós da Plaza de Mayo, a quem abraçou publicamente, ampliando o alcance da campanha por Memória, Verdade e Justiça na Argentina. Diego também cultivou relações próximas com importantes figuras da política internacional, como Fidel Castro e Hugo Chávez, com lideranças do PT como Lula (a quem manifestou apoio e cuja libertação exigiu) e Dilma, entre muitos outros. Expressou suas posições anti-imperialistas em muitos momentos decisivos, como nos protestos contra a proposta norte-americana de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) durante a Cúpulas das Américas em Mar de Plata no ano de 2005. Na Argentina, foi próximo de diversos setores do peronismo e, particularmente, de Néstor e Cristina Kirchner.
Maradona apoiando Lula durante a prisão do ex-presidente. Reprodução Facebook.
A reivindicação de sua própria história pessoal, de sua origem favelada e de sua procedência popular o levou também a apoiar uma imensa quantidade de causas trabalhistas e sindicais, não apenas expressando apoio aos trabalhadores em diversos conflitos em tempos muito complexos, como no governo Macri, a quem confrontou de maneira aberta, mas também questionando o papel dos grandes meios de comunicação e incentivando a organização sindical no mundo do futebol. Como um dos seus obituários destacou, Maradona “foi um reivindicador dos direitos dos jogadores, crítico das autoridades, um sindicalista convicto e antipatronal”, o que o levou a criar em 1995 a Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (AIFP). A Associação conquistou algumas melhorias nas condições de trabalho dos jogadores e confrontou as lideranças da FIFA, como Havelange e Blatter, além de cartolas locais como Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina.
Todas essas posições lhe custaram também a ofensiva de diversos setores do establishment, que o viam como alguém incômodo e com posições inaceitáveis, e que o atacaram fortemente por toda sua vida. Mas, ao mesmo tempo, criou vínculos de irmandade e solidariedade com jogadores de futebol de todo o globo e com personalidades de outros esportes, tornando Maradona uma referência central de todo o mundo desportivo. Mesmo em países com quem sempre teve uma acirrada rivalidade esportiva, como o Brasil, Maradona era admirado e mantinha vínculos próximos com muitos futebolistas. O grande Pelé, por exemplo, despediu-se de Diego com uma comovente mensagem: “Muitas pessoas adoravam nos comparar durante toda a vida. Você foi um gênio que encantou o mundo. Um mágico com a bola nos pés. Uma verdadeira lenda. Mas acima disso tudo, para mim, você sempre será um grande amigo, com um coração maior ainda.”
No entanto, é necessário ter cuidado para não delinear uma trajetória límpida e sem tensões, quando a vida de Diego foi tudo menos isso. Não apenas por conta de seu temperamento alegre e brincalhão, de suas paixões e humores indomáveis, de seu peito inflado e sua língua ácida e brilhante que nos presenteou com uma série interminável de frases geniais, rapidamente incorporadas ao jargão popular. Mas também, no contexto do brutal assédio moral que implica o papel de ídolo, por conta de sua dependência de drogas, com quedas e ressurreições públicas, assim como sua turbulenta e complexa vida familiar e íntima com Claudia Villafañe e suas filhas Dalma e Giannina, e com outras companheiras e filhos(as), com sucessivos capítulos de conflitos e confrontações, algumas vezes violentas e atravessadas por dinâmicas patriarcais e machistas. A frase “não importa o que fez com sua vida, mas o que fizestes com as nossas”, muito citada nesses dias, coexiste com valiosas interpretações e múltiplos debates promovidos pelo movimento feminista. Colocando na mesa a posição de que “o pessoal também é político”, muitas feministas, na chave de uma análise de gênero, têm aberto uma porta interessante para, por um lado, reivindicar o direito de chorar e amar a um figura tão especial em tantos aspectos, apesar de suas contradições, e, por outro, romper com a tendência de blindar os ídolos, dando lugar para a análise e crítica de comportamentos atravessados por dinâmicas sociais que, felizmente, estão em pleno processo de transformação e discussão.
A profunda dor com sua morte também traz consigo a incrível experiência de experimentar como a vida desse garoto de Fiorito, que apesar de ter chegado ao topo do mundo, nunca esqueceu sua origem de fome e pobreza e que fez de sua relação com a bola um espetáculo emocionante, conseguindo despertar sentimentos e paixões que deixou memórias que marcaram milhões de pessoas de todas as idades. Não apenas na Argentina, onde seu corpo foi velado na Casa Rosada em um dia marcado pela tensão e pela dor popular, que segue manifestando-se de diversas formas, e em outros lugares onde jogou e que o consideram como um nativo, mas também em países como Cuba, Irlanda, Bangladesh, Síria e em campos de futebol, ruas e lares de todos os pontos do planeta. O amor tão próximo e familiar e o agradecimento de milhões, manifestado em cartazes dos “catadores de papel com Diego”, o choro desconsolado de vendedores(as) ambulantes, de trabalhadores(as) informais, aposentados(as), crianças pequenas, e nas fábricas multinacionais, onde os operários o recordaram cantando seu nome ao som de bumbos e agitando bandeiras, é uma demonstração do lugar sem igual que, para sempre, ganhou no coração de milhões, em especial dos(as) trabalhadores(as), de los de abajo, de uma forma geral, que continuaram a vê-lo como “um dos seus”. Agradecemos a Diego Maradona, que nesse mundo tão duro e complexo, nos acompanhou por décadas e nos presenteou com alegrias inigualáveis, que nos irmanaram, nos devolveram a esperança e a vontade de transformar o mundo. E nos fizeram sentir por um momento que tudo é possível.
1 Professora e pesquisadora da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) e do CONICET – Argentina
Referências:
1) Livros: Arcucci, Daniel (2001), Conocer al Diego: relatos de la fascinación maradoniana, Editorial Planeta. Burgo, Andres (2016), El partido, Editorial Planeta. Maradona, Diego, (2000), Yo soy el Diego de la gente, Editorial Planeta, Buenos Aires. Maradona, Diego y Arcucci, Daniel (2016), México 86: Así ganamos la copa del mundo, Penguin Random House. Maradona, Dalma (2013), Hija de Dios, No es el Diego, es mi papá, Sudamericana.