Apesar da lei n.º 10.639 prever como obrigatório o ensino da história e da cultura da África e dos afrodescendentes no Brasil em todo o currículo da educação básica, essa temática fica restrita aos professores de história e a alguns períodos específicos apenas.
A proposta do curso de extensão é refletir sobre a construção da história do Brasil e o lugar que historiadores reservaram aos negros nessa abordagem, desde o período colonial até o republicano. Através dessa reflexão, a ideia é apontar outros caminhos para pensar a história do Brasil a partir da perspectiva do homem negro e da mulher negra, vistos como sujeitos e protagonistas.
Ao final do curso, cada aluno fará um plano de aula abordando algum ponto da história do Brasil (ou de outra disciplina). Os planos serão compartilhados entre os alunos do curso, tornando-se um novo recurso didático para sua atividade em sala de aula.
As aulas serão ministradas por Renata Moraes, professora da UERJ e pesquisadora do LEHMT-UFRJ, com início no dia 2 de julho, no horário das 18-20h, através da plataforma google meet. Inscrições pelo email curso.historia.extensao@gmail.com
Frederico de Castro Neves Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará
Originalmente, as edificações que formaram o que ficaria conhecido como Campo de Concentração da cidade de Senador Pompeu, no Ceará, faziam parte da estrutura criada por uma empresa inglesa que iria construir um açude. No entanto, em 1923, a obra foi interrompida e os prédios abandonados. Em 1932, com mais uma grande seca no estado, foram incorporados à estrutura administrativa do campo de concentração, como parte de uma ampla intervenção governamental para controlar as migrações dos trabalhadores sertanejos pobres.
O Campo de Senador Pompeu, que chegou a reunir mais de 18 mil pessoas em maio de 1932, foi inicialmente planejado para a retomada das obras de construção do açude Patu, de forma a incorporar a mão-de-obra “disponível” durante a seca, quando milhares de camponeses ficaram sem trabalho. No entanto, a direção da IFOCS (Inspetoria Federal de Obras contra as Secas) decidiu priorizar outros açudes e outras barragens de menor porte. Os trabalhadores alistados nas obras saíam do campo somente para o trabalho nas obras públicas; as famílias (idosos, crianças e mulheres) deveriam permanecer no interior da cerca de arame farpado, realizando tarefas relacionadas à alimentação e manutenção das moradias. Camponeses, portanto, eram concentrados em espaços reduzidos, em barracas improvisadas, compartilhando espaços de descanso, alimentação e trabalho com desconhecidos, submetidos a regras despóticas inexistentes na agricultura familiar que, em sua maioria, praticavam.
Únicas construções de alvenaria, os prédios sediavam atividades de controle de alistamento nas obras, distribuição e armazenamento de alimentos, constituindo-se, por isso mesmo, em locais de conflitos e reinvindicação dos trabalhadores. Em torno desses prédios, os trabalhadores dividiam seus sofrimentos, disputavam alimentos e remédios, exigiam vagas nas obras públicas, reclamavam da qualidade da comida ou do atendimento médico, experimentavam novas formas de luta coletiva e de enfrentamento com o poder do Estado.
Grupos de retirantes ameaçavam os mercados e as cidades vizinhas e manifestações de protesto reuniam centenas de trabalhadores, no interior e nos arredores do campo.
As condições de vida eram as piores possíveis e a mortalidade (especialmente entre as crianças) muito alta, principalmente com a eclosão de uma epidemia de cólera, que fez com que um cemitério fosse apressadamente construído ao lado da barragem, com os corpos amontoados em valas comuns, contrariando os preceitos religiosos praticados costumeiramente pelos camponeses.
O Campo de Senador Pompeu não foi o único. Foram criados outros seis por todo o estado: Urubu e Matadouro (em Fortaleza), Burity (em Crato), Cariús, Ipu e Quixeramobim. Destes, Matadouro e Quixeramobim foram fechados poucas semanas depois de abertos. Os outros funcionaram como centros de recepção, assistência, controle e trabalho dos retirantes entre março de 1932 e fevereiro de 1933, acolhendo milhares de camponeses deslocados de suas terras em função da destruição da produção local pela ausência de chuvas regulares e mecanismos de proteção social. O maior de todos os campos, o Burity, chegou a receber cerca de 60 mil retirantes.
A criação dos Campos, em 1932, obedecia a uma política oficial de controle dos pobres durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930-1934), que reunia o Ministério de Viação e Obras Públicas (MVOP), a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IFOCS) e a Interventoria Federal do Ceará, que chegou a criar uma secretaria especial (o Departamento das Secas) para administrar os campos e todas as iniciativas governamentais de assistência aos retirantes. Não era a primeira vez que a expressão “campo de concentração” era utilizada em documentos oficiais ou na imprensa para designar esses mecanismos de isolamento social dos retirantes. Em 1915, o Campo de Concentração do Alagadiço, em Fortaleza, reuniu cerca de 8 mil pessoas. Era uma iniciativa do governo estadual para evitar que multidões de retirantes famintos ocupassem o espaço público da cidade.
Com exceção do campo de Senador Pompeu, poucos vestígios materiais restaram dos campos de concentração cearenses e das experiências daquelas famílias de trabalhadores. Os prédios daquele campo permaneceram na memória dos camponeses retirantes como referência de um tempo de dor e sofrimento, de trabalho exaustivo e compulsório, de tarefas repetitivas e muitas vezes inócuas. Logo após o fechamento do campo foi se constituindo um ambiente em que uma crença popular nos milagres atribuídos às “almas da barragem” foi desenvolvida entre os camponeses pobres da região, que passaram a se dirigir em romaria aos pontos de referência dos eventos ligados à seca de 1932. Em 1982, sob influência do cristianismo de libertação, a paróquia local passou a organizar a Caminhada da Seca, que, uma vez por ano, refaz os caminhos da retirada dos camponeses pobres, entre os locais de moradia, a periferia da cidade, as estradas de terra, o cemitério e os prédios remanescentes do campo de concentração, levantando bandeiras de luta contra o latifúndio, a injustiça e a miséria.
Em 2019, a prefeitura local tombou, como patrimônio municipal, os prédios do Campo de Concentração de Senador Pompeu. O lançamento do filme Currais sobre a seca de 1932 e os campos, além de uma série de matérias na mídia deram, enfim, alguma visibilidade nacional para esse fundamental lugar de memória dos trabalhadores e trabalhadoras cearenses.
Casarão que foi utilizado como parte da administração do Campo de Concentração de Senador Pompeu em 1932. Fotografia: Ted Calango Cinematográfica Ltda.
Para saber mais:
MARTINS, Aterlane. Das Santas Almas da Barragem à Caminhada da Seca: Projetos de Patrimonialização da Memória no Sertão Central Cearense (1982-2008). Fortaleza: Museu do Ceará, 2018.
NEVES, Frederico de C. Currais dos Bárbaros: os campos de concentração no Ceará (1915 e 1932). Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH, v. 15, n.29, 1995.
RIOS, Kênia Sousa. Isolamento e Poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932. Fortaleza: Imprensa Universitária UFC/Museu do Ceará, 2014.
SILVA, Karoline Queiroz e. “Viva as almas da barragem!”: a construção da Caminhada da Seca, Senador Pompeu-CE. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Ceará, 2017.
Crédito da imagem de capa: Canteiro de obras de construção do Açude Lima Campos, em 1932. Fotografia: Amílcar Pellon (acervo da família).
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Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ. O objetivo é discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
O episódio #06 é sobre Epidemias e trabalhadores do Norte e do Nordeste.
A história da região Amazônica foi marcada por surtos epidêmicos de doenças tropicais. Esses episódios foram agravados pela pobreza, por condições sanitárias precárias e sobretudo pela demora de uma resposta de assistência por parte do Estado. Na caatinga nordestina as epidemias e doenças assolaram as obras emergenciais para combater as secas, especialmente na década 1950. Dando continuidade à nossa série que traz os temas da saúde pública e das epidemias sob a ótica dos mundos do trabalho, o foco de hoje são os trabalhadores das regiões norte e nordeste do país.
Conversamos com a historiadora Lara de Castro, professora da Universidade Federal do Amapá e presidenta da Seção Amapá da Associação Nacional de História (Anpuh).
Produção: Deivison Amaral, Julia Chequer, Heliene Nagasava e Paulo Fontes. Roteiro: Julia Chequer, Heliene Nagasava e Paulo Fontes. Apresentação: Julia Chequer e Yasmin Getirana.
André Cicalo Doutor em Antropologia pela Universidade de Manchester
No dia 20 de Abril de 1931, na rua Santo Cristo dos Milagres 309, região portuária do Rio de Janeiro, aconteceu uma importante reunião de trabalhadores avulsos em café, que buscavam organizar um sindicato próprio. De fato, a lei de sindicalização n. 19.779, instituída no mês anterior, oferecia novas oportunidades aos trabalhadores, até então pouco protegidos. Nascia assim o Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café do Rio de Janeiro (SCECRJ), popularmente conhecido como Sindicato do Café.
Ao organizar os trabalhadores especializados no armazenamento e transporte de café no cais do porto do Rio, o Sindicato do Café visava a profissionalização da categoria e procurava tirar vantagens das leis trabalhistas prometidas pelo novo governo de Getulio Vargas. Apenas entre abril de 1931 e janeiro de 1936 foram cadastrados 1.832 sócios (todos homens), sendo aproximadamente 83% deles brasileiros, 15% portugueses e 2% de outras nacionalidades.
A maioria desses trabalhadores, como era tradicional no transporte de café no Rio de Janeiro, era composta por negros que provinham de áreas rurais do estado mas também de outros lugares do país, como Minas Gerais, Espírito Santo e Pernambuco. Essa presença negra pode ser notada de forma imediata nas fotografias tiradas em vários momentos da história do sindicato. Além disso, é possível perceber uma identidade e conexões étnicas que muitos desses trabalhadores desenvolveram a partir da memória relativamente recente da escravidão e de suas relações com o mundo do carnaval carioca.
Em 1940, o Sindicato aprovou seu primeiro estatuto. Ele previa a prestação de assistência jurídica e financeira para os trabalhadores, a criação e manutenção de cursos de alfabetização, escolas, hospitais e ajuda para funerais, entre outros serviços. Também estabelecia regras rigorosas em relação à ética do trabalho, especialmente contra a conduta não-profissional, a falta de cumprimento das diretivas sindicais e as ausências injustificadas ao trabalho. Em 1947, a organização pôde finalmente adquirir uma sede própria no bairro de Gamboa, na Rua Silvino Montenegro 104. Composto de quatro andares o local foi solenemente inaugurado no dia Primeiro de Maio de 1950 pelo Presidente da República Eurico Gaspar Dutra.
Entre os anos 1950 e 1960, o Sindicato do Café incrementou seu poder político e econômico na região portuária, assim como no âmbito estadual e federal. A sede sindical era palco de grandes comemorações para celebrar os aniversários do Sindicato e as posses das novas diretorias. Nessas ocasiões era frequente a presença de personalidades do calibre do Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de representantes do Ministério do Trabalho e de políticos próximos ao Sindicato, como os deputados José Gomes Talarico e Tenório Cavalcanti. Os eventos eram geralmente acompanhados de missas celebradas nas Igrejas de Santo Antônio dos Pobres, de São Jorge (patrono do Sindicato) e da Candelária.
Em 1960, além da sede própria, o Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café possuía um considerável patrimônio. Nessa época, eram notáveis as ligações do Sindicato com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), especialmente com Luthero Vargas e José Gomes Talarico. Um testemunho da simpatia pela tradição varguista, pode ser visto na Revista do Sindicato que, em 1961, lembrava que Getúlio Vargas “possibilitou que o Trabalhador [do Café] ocupasse, positivamente lugares de destaque nos cenários econômico, jurídico e político [do país]”.
No início dos anos 1960, em um momento de efervescência política, crise do setor cafeeiro e aumento vertiginoso do custo de vida no Brasil, o Sindicato se tornou um centro importante de organização de greves e paralisações. É possível supor que as redes formais e informais de resistência negra cumpriram um importante papel na organização e manutenção das mobilizações dos ensacadores e carregadores de café do Rio de Janeiro naquele período.
Com o golpe militar de 1964, as manifestações operárias foram reprimidas violentamente, enquanto a vida cotidiana do proletariado portuário era intensamente vigiada pela policia política. Com a ditadura militar e a perda progressiva da importância do café na economia nacional, o Sindicato entrou numa lenta e irreversível crise, da qual nunca mais se recuperaria.
Em meados dos anos 1980, a associação tentou ampliar sua base de representação, convertendo-se no Sindicato de Movimentadores de Carga do Rio de Janeiro (SINTRAMAERJ). Essa nova organização chegou a incorporar em sua esfera o extinto Sindicato do Sal e a categoria dos ajudantes de caminhão. Apesar dessas mudanças, sua decadência foi inexorável. Hoje, longe das glórias do passado, encontra-se à beira da extinção. No entanto, a sede do antigo Sindicato dos Ensacadores e Carregadores de Café e suas memórias continuam resistindo, tanto ao esquecimento histórico, quanto à especulação imobiliária e expropriações alimentadas pelo processo de reconversão urbanística no porto do Rio de Janeiro.
Fachada do sede do Sindicato do Café durante a comemoração dos seus 29 anos de existência. Acervo fotográfico histórico SCECRJ.
Para saber mais:
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CICALO, André. “Campos do pós-abolição: identidades laborais e experiência “negra” entre os trabalhadores do café no Rio de Janeiro (1931-1964)”. Revista Brasileira de História, vol. 35, n. 69, 2015.
CRUZ, Maria Cecília Velasco. “Da tutela ao contrato: “homens de cor” brasileiros e o movimento operário carioca no pós-abolição”. Topoi, v.11, 2010.
GOMES, Angela de Castro. A invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2005.
GOMES, Flávio dos Santos. “Quilombos do Rio de Janeiro no século XIX.” In REIS, João José e GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras 1996.
Crédito da imagem de capa: Comemoração religiosa da posse de diretoria do sindicato em 1961 na Igreja de Santo Antonio dos Pobres no centro do Rio de Janeiro. Acervo fotográfico histórico SCECRJ.
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Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Maria Célia Paoli nos deixou há pouco mais de um ano. Professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da USP, Maria Célia foi uma figura importante em vários sentidos: 1) como professora e formadora de gerações de pesquisadores em Ciências Sociais; 2) como intelectual pública, entre outras razões, por sua presença na equipe da Secretaria Municipal de Cultura da gestão de Luiza Erundina na cidade de São Paulo; 3) como fundadora e organizadora do Cenedic – Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania, na USP, e 4) como incansável acadêmica preocupada em abrir – mas não de caso pensado – um campo de reflexão plural e criativo sobre as classes populares e o mundo do trabalho no Brasil.
Para esse último intento, mobilizou referências múltiplas na historiografia, na literatura, na filosofia política, mas também por entre as diversas “especialidades” da sociologia. Um caleidoscópico campo de interesses, espalhados por suas publicações e por suas reflexões, partilhadas e cultivadas por todos aqueles que tinham o privilégio de privar de sua proximidade pessoal, espécie de “círculo interno” composto por alunos, colegas, intelectuais, militantes e amigos. Como arendtiana de alma que era, Maria Célia certamente não estranharia tal caracterização, nem tal termo, no fundo a consequência mais fiel do preceito célebre daquela filósofa de que a riqueza do espaço privado depende de um espaço público pujante e diverso. Por todas essas razões, estamos diante de uma interlocutora – uma “pessoa extraordinária”, parafraseando seu mestre e orientador, Eric Hobsbawm – que fala por meio de sua obra e de sua memória.
O arco de suas reflexões é vasto, cobrindo diferentes tópicos. O primeiro deles é o enquadramento das lutas sociais na passagem para um Brasil moderno. Sua tese de doutorado, “Labour Law and the State in Brazil 1930-1950”, é um diálogo crítico com a literatura sobre a formação da classe trabalhadora na sociologia brasileira, seja a uspiana, seja a isebiana-pecebista. O vasto emprego de depoimentos de trabalhadores, para o período investigado, confirma, em termos metodológicos, a inclinação para – se fosse o caso de encaixar o tipo de sociologia praticada por Maria Célia em algum ajuste disciplinar – uma sociologia histórica; adicionalmente, denuncia a preferência axiológica pelo ponto de vista dos “de baixo”. Temos aqui a presença da sugestão marcante contida na obra do historiador Edward Palmer Thompson, de quem Maria Célia era leitora apaixonada.
Não por acaso, sua participação nas bancas de pós-graduação e como referência bibliográfica obrigatória nos trabalhos acadêmicos de uma coorte de historiadores sociais da Unicamp, conhecidos por sua reavaliação crítica do populismo, é digna de nota. Teses e dissertações saídas entre a primeira metade dos anos 1990 e a primeira metade dos anos 2000 – sobretudo aquelas orientadas por Michael Hall – confirmam aquela influência. Nomes hoje reconhecidos no campo da história social do trabalho – Alexandre Fortes, Antonio Luigi Negro, Fernando Teixeira da Silva, Hélio da Costa e Paulo Fontes, membros autonomeados de uma imaginária e irônica Central Única de Historiadores (CUH) – discutiram ativamente com seu esforço de reinterpretação sociológica sobre o significado dos direitos sociais, da Justiça do Trabalho, do Estado Corporativo, e da experiência de classe. Maria Célia surgia como uma espécie de “mãe de todos” no que concerne à recepção de Thompson, contemporânea que era da apropriação criativa do historiador inglês da classe operária por estudiosos brasileiros de sua geração, muitos deles seus amigos e parceiros intelectuais, como Michael Hall, Paulo Sérgio Pinheiro, Marco Aurélio Garcia, Elizabeth Lobo, Eder Sader, Vera da Silva Telles, José Ricardo Ramalho e José Sérgio Leite Lopes, entre outros.
Seminário do Instituto Cajamar, promovido no Sindicato dos Químicos de São Paulo, 1992. Primeira fila (da direita para esquerda): Marco Aurélio Garcia, Antonio Luigi Negro, Eric Hobsbawm, Maria Celia Paoli e Alexandre Fortes. Segunda fila (da direita para a esquerda): Fernando Teixeira da Silva, Paulo Fontes, Hélio da Costa e José Sérgio Leite Lopes. Acervo Alexandre Fortes.
A cidade (veja-se o belo artigo escrito em parceria com Adriano Duarte sobre o bairro da Mooca) e a cultura, outros tópicos do interesse intelectual de Maria Célia, eram lidos principalmente a partir do motivo principal de sua obra, os mundos do trabalho. Os exemplos de lutas sociais remetem em boa medida às condições de vida do operariado urbano, as quais ensejavam reivindicações por justiça que, hoje, seriam lidas pela ótica da “luta por reconhecimento” (mas não era essa a noção empregada na época).
Uma luta eminentemente moderna em seu conteúdo – luta por justiça -, e por uma confirmação da igualdade de condições – cidadania – que estava na base do discurso formal das elites. O papel do operariado na República foi justamente o de tematizar praticamente os motivos da cidadania. As lutas saídas daquelas reivindicações falam em quebra-quebra, saques, depredações, assaltos a presídios, apedrejamentos ou empastelamento de jornais, mas também de greves e revoltas que querem comunicar algo: não apenas a persistência de uma enorme carência material, mas sobretudo a existência de um déficit de reciprocidade no suposto “contrato social” que abarca igualmente as condições econômicas de vida e de sobrevivência. Maria Célia vai coletando aqui e ali os exemplares da revolta e da inquietação popular e seus motivos, suas razões, para então interpretá-los como indícios de uma atividade política com toda a sua legitimidade.
Argumentos econômicos e argumentos políticos se misturam em um amálgama que procura entender os conflitos e as reivindicações populares. Um direito – outro termo da gramática da modernidade – existente até então apenas no papel (pensado pelas elites para o povo) é apropriado, vivido e experimentado pelas classes populares, seu destinatário ideal. A justiça do papel encontra o seu ator na prática. Aqui, um outro tema caro à autora: a desproteção e o sentimento de abandono e desamparo, coletivamente vividos. Nesse sentido, a Justiça do Trabalho encerra ao mesmo tempo um pilar estrutural da desmobilização da auto-organização operária, por um lado, e simultaneamente um horizonte de proteção contra o arbítrio patronal e estatal, por outro lado, para quem acorrem aqueles que vão “buscar os seus direitos”, como ela gostava de lembrar. Um papel, portanto, dúbio, ambíguo dessa instituição. Tal ideia perseguiu muitas das formulações da autora, afastando-a de um tratamento esquemático em termos de oposição entre Estado versus Sociedade Civil, com uma abordagem sociológica centrada no conflito de classes que se faz e refaz nos próprios termos do conflito.
Estreitamente ligados aos tópicos acima pincelados estão os famosos balanços bibliográficos da produção acadêmica sobre a classe operária brasileira (escritos em parceria com Eder Sader e Vera Telles), datados dos meados dos anos 1980, passagem obrigatória por todos aqueles que iniciavam seus estudos sobre o tema. Essas resenhas, assim como outros artigos da mesma época, são o resultado da maturação da tese doutoral, cuja intuição de base persiste como uma linha diretriz. Essa última pode ser sintetizada na questão seguinte: como é possível, diante de tanta violência acumulada das classes dominantes e do Estado, a constituição, no Brasil, de uma esfera pública verdadeiramente moderna? Daí o fascínio das lutas sociais da Primeira República, quando os anarquistas, socialistas e comunistas de primeira hora se comportavam como os pedagogos da diferenciação moderna que os “de cima” eram incapazes de oferecer. Esse papel pedagógico do operariado teria continuado mesmo depois de 1930, com a existência do aparato controlador do Estado. Afinal, a história da classe trabalhadora (dos “de baixo”) não coincide necessariamente com a história das classes dominantes sobre a classe trabalhadora (a “fala dos outros”). Eram indicações de uma história muito mais mitigada e rica do que as versões oriundas de documentos ou resoluções das lideranças. Mas havia também, do outro lado, ação, que é a base, a seiva vital da política – e por aí encontramos o fio que ata a inspiração da filosofia política de Hannah Arendt com a versão das classes sociais de Edward Thompson (a classe é aquilo que ela faz, e essa é a sua única definição).
Anos mais tarde, quando da fundação do Núcleo (depois Centro) de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) em 1995, deu-se o momento do confronto com a produção de Francisco de Oliveira. Ali está a chave de como se complementam a reflexão sobre a classe trabalhadora na formação do espaço público democrático e o papel do assalariamento na constituição de uma contratualidade de tipo “socialdemocrata”, tal como concebida, à época, por aquele autor. A terminologia, polêmica, é menos importante do que o significado que ele queria designar na ocasião: o sentido da contratação coletiva como índice da tendência estrutural do capitalismo avançado em socializar a riqueza na forma do chamado “fundo público”. Por conseguinte, ficava claro que os direitos de cidadania no Brasil, então perseguidos pelos movimentos sociais e pelo movimento operário em particular (a referência histórica era o “novo sindicalismo”), correspondiam ao que Chico de Oliveira chamava de “direitos do anti-valor”. Ora, uns e outros (os direitos de cidadania e os direitos do anti-valor) tinham de fazer a prova dos nove, isto é, de como se processariam em um contexto não mais posto pela teoria da modernização, mas pelo desenvolvimento desigual que a globalização e o neoliberalismo só pareciam agudizar. Esse episódio vai nutrir a trajetória intelectual do Cenedic a partir de então, com a problemática do “desmanche” do ideal de desenvolvimento nacional e de uma “completude” do “incompleto”.
Essa nova agenda incluía, por exemplo, as questões da reestruturação produtiva, do mercado de trabalho (a terceirização, por exemplo), da violência familiar como produto de uma vida precarizada, dos bairros e da sociabilidade comunitária num ambiente de desemprego, dos sentidos de justiça e reciprocidade nos movimentos sociais, até chegar, por fim, na temática da responsabilidade social do empresariado, um assunto de que ela não chegou a tratar de forma sistemática.
Juízos como esses só são possíveis por aqueles que leram – e admiraram – os escritos de Maria Célia; aqueles que aprenderam que sua forma de pensar, sendo mais difícil, tinha também um acabamento menos óbvio e mais duradouro.
Já no final, na última vez em que nos encontramos, suas palavras e sentidos ziguezagueavam bem livres em piruetas no ar. Sabe o que foi que ela me disse antes de nos despedirmos? Ela cantarolou um sambinha de Noel.
Maria Célia Paoli, pessoa extraordinária.
Maria Célia Paoli. Acervo Folha de São Paulo.
¹ Professor do Departamento de Sociologia da USP.
Artigos e livros selecionados de Maria Célia Paoli Desenvolvimento e Marginalidade: um Estudo de caso. São Paulo: Pioneira, 1974. “Labour Law and the State in Brazil 1930-1950”. PhD University of London, 1988. (com Eder Sader e Vera da Silva Telles) “Pensando a Classe Operária: os Trabalhadores Sujeitos ao Imaginário Acadêmico (Notas de uma Pesquisa)”. Revista Brasileira de História 6, 1984, p. 129-149. (com Eder Sader) “Sobre as Classes Populares no Pensamento Sociológico Brasileiro” in Ruth Cardoso, A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. “Os Trabalhadores Urbanos na Fala dos Outros. Tempo, Espaço e Classe na História Operária Brasileira” in José S. Leite Lopes (coord.) Cultura & Identidade Operária. Aspectos da Cultura da Classe Trabalhadora. Rio de Janeiro: Marco Zero/Editora UFRJ, 1987. “Trabalhadores e Cidadania: a Experiência do Mundo Público na História do Brasil Moderno”. Estudos Avançados 3 (7), 1989, p. 40-66. “São Paulo Operária e suas Imagens (1900-1940)”. Espaço & Debates 33: Temporalidade: Memória e Cotidiano da Cidade. São Paulo, 1991, p. 27-41. “Citizenship, Inequalities, Democracy and Rights: The Making of a Public Space in Brazil”. Social and Legal Studies 1 (2), June 1992, p. 131-142. “Os Direitos do Trabalho e sua Justiça: em busca das referências democráticas”, São Paulo: Revista da USP, 1994, p. 100-115. (com Vera da Silva Telles) “Social Rights: Conflicts and Negotiations in Contemporary Brazil” in Sonia E. Alvarez, Evelina Danigno and Arturo Escobar (eds.) Cultures of Politics, Politics of Cultures: Re‑visioning Latin American Social Movements. Boulder, CO.: Westview Press, 1998. (com Adriano Duarte) “São Paulo no Plural: Espaço Público e Redes de Sociabilidade” in Paula Porta (ed.) História da Cidade de São Paulo. A Cidade na Primeira Metade do Século XX (1890-1954). Volume 3, São Paulo: Paz e Terra, 2004. “O Mundo do Indistinto: Sobre Gestão, Violência e Política” in Francisco de Oliveira e Cibele Rizek (orgs.) A Era da Indeterminação. São Paulo: Boitempo, 2007.
Crédito da imagem de capa: Maria Célia Paoli (entre Vera da Silva Telles e Marilena Chauí) no seminário A Construção Democrática em Questão na USP, final dos anos 1990.
Adelle Sant’Anna, mestranda no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ e pesquisadora do LEHMT, publicou o artigo “História social do trabalho: Thompson, Sader, Fontes e Silva” na edição mais recente da revista Outrora, periódico discente dos alunos da graduação do Instituto de História da UFRJ. O artigo apresenta trajetórias teóricas e políticas de quatro intelectuais que contribuíram para o campo da história social do trabalho: Edward Palmer Thompson, Éder Sader, Paulo Fontes e Leonardo da Silva.
Anderson Pereira Corrêa Professor da Universidade Federal do Pampa
A União Operária foi fundada em 25 de abril de 1925 no Teatro Rio Branco, Praça XV de Novembro (atualmente Centro Administrativo Integrado Renato Mendes Jacques, na praça Getúlio Vargas). Em 1927, a União adquiriu seu espaço próprio à Rua Vinte de Setembro, 241. O prédio da sede, que existe até hoje, começou a ser construído em 1955. Em seus primeiros anos, a União Operária foi uma entidade pluriclassista, sindical, de mútuo socorro (mutualista) e de assistência. A entidade foi fundada por trabalhadores de variados ofícios, incluindo artesãos (sapateiros, ferreiros, marceneiros), servidores públicos, comerciantes, vendedores de lenha, aguadeiros, lavadeiras e empregadas domésticas. Após a década de 1950, adotou o complemento “Primeiro de Maio”.
Alegrete foi uma das primeiras cidades a desenvolver uma economia urbana no Rio Grande do Sul, na virada do século XIX para o XX. Embora sua base econômica fosse alicerçada na produção primária, principalmente a pecuária, na cidade havia muitas oficinas, manufaturas, algumas indústrias e um comércio bem estruturado. Além disso, possuía uma importante estação da Viação Férrea e, a partir da década de 1920, iniciou um processo de ampliação dos serviços públicos. Esse relativo desenvolvimento econômico atraiu imigrantes, em particular italianos e alemães. Em 1921, o município possuía 30.905 habitantes, dos quais 7,8% eram imigrantes. A proporção de imigrantes na população de todo o Rio Grande do Sul naquele período era de 6,9%.
Assim como em outros lugares do país, desde o final do século XIX, associações operárias de categorias específicas e pluriprofissionais surgiram em Alegrete. A presença de imigrantes na economia urbana e na organização das primeiras associações operárias foi bem significativa. Em 1882, por exemplo, foi fundada na cidade uma associação mutualista italiana. A Mútua Proteção Operária da cidade foi criada em 1897 e registros indicam a existência de uma Associação dos Empregados no Comércio em 1905 e de um Centro Operário em 1915. O Primeiro Congresso Operário do Rio Grande do Sul, realizado em Porto Alegre em 1898, foi presidido pelo marceneiro Eduardo Mallmann, então presidente da Mútua Proteção Operária de Alegrete.
A União Operária organizava conferências, assembleias e participou ativamente dos congressos da FORGS (Federação Operária do Rio Grande do Sul) em 1927 e 1928. Possuía, inclusive, uma escola e realizava atividades de confraternização e protesto no dia 1º de maio. Na União também foram discutidas a implantação das novas regulamentações do trabalho, de assistência, previdência e organização sindical a partir da década de 1930. No entanto, a nova legislação trabalhista, com seu caráter corporativo e de organização dos trabalhadores em categorias profissionais, acabou por enfraquecer o papel de entidades como a União Operária, que reunia várias categorias e prestava socorro através do mutualismo (pecúlio com fins de ajuda mútua em caso de doença). Com as novas leis, seu caráter mutual e sindical foi se esvaziando. A partir da década de 1950, a União Operária foi assumindo cada vez mais características de um clube recreativo, com a realização de bailes e carnavais.
Embora em seus primeiros anos, a presença de imigrantes tenha sido predominante entre seus sócios e dirigentes, a União Operária rapidamente caracterizou-se como um espaço de união de trabalhadores de diversas nacionalidades e etnias. Em particular, os trabalhadores afrodescendentes, rejeitados em outras associações da cidade, assumiram um lugar de destaque na União.
A partir do final da década de 1930 trabalhadores negros passaram a ocupar os cargos na direção, inclusive a presidência da entidade. Tal processo atingiu seu ápice na década de 1970, quando a União Operária Primeiro de Maio passou a ser conhecida como “Clube dos Negros”, por reunir a comunidade afrodescendente do bairro e da cidade como um todo.
Após um período de decadência e inatividade, a União Operária Primeiro de Maio foi reativada por um grupo de ativistas sindicais e culturais com o objetivo de preservar a memória das lutas sociais da cidade e promover discussões políticas e culturais sobre questões relacionadas à classe, gênero e etnias. O prédio-sede da União é atualmente compartilhado com a União das Associações de Bairros de Alegrete (UABA) e encontra-se em condições precárias, necessitando de uma reforma e “restauração” de suas características arquitetônicas. Como um lugar de memória fundamental para a história dos trabalhadores e trabalhadoras de Alegrete, há uma campanha em curso para que seja tombado e reconhecido como Patrimônio Histórico do município.
João Máximo dos Santos, o primeiro presidente negro da União Operária, entre 1937 e 1938. Acervo da União Operária Primeiro de Maio de Alegrete (RS).
Para saber mais:
CORRÊA, Anderson R. Pereira. Movimento operário em Alegrete: a presença de imigrantes e estrangeiros (1897 – 1929). Porto Alegre, dissertação (História-PUCRS), 2010. http://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/2325
CORRÊA, Anderson R. Pereira. “A Formação da Classe Operária em Alegrete: a participação de imigrantes (República Velha)”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, v. 01, p. 13-35, 2015. https://seer.ufrgs.br/revistaihgrgs/article/view/60828
PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz; LUCAS, Maria Elizabeth. Antologia do movimento operário gaúcho (1870-1937). Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS/Tchê!, 1992.
PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz. Que a União Operária seja a Nossa Pátria – História das lutas dos gaúchos para construir suas organizações. Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS, 2001.
Crédito da imagem de capa: Prédio da União Operária 1º de Maio, de Alegrete, construído em 1955. A casa, em primeiro plano, pertence à família Castilhos, os doadores do terreno pra construção da sede. Foto de Anderson Pereira Corrêa, 2012.
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Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Vitor Wagner Neto de Oliveira Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, a exploração da erva-mate foi uma das primeiras atividades econômicas de características capitalistas que “abriu” a região ao mercado regional e internacional. Área até então de domínio indígena, essa região que inclui o atual estado de Mato Grosso do Sul passou por profundas transformações entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Empreendimentos dedicados à exploração da erva proliferaram pela tríplice fronteira. Em sua maioria eram espécies de enclaves industriais semi-autônomos, frequentemente transnacionais, com leis, códigos e moedas próprios.
No sul de Mato Grosso, uma empresa em especial se tornou o maior empreendimento deste tipo. A Cia. Matte Larangeira teve sua origem em 1874, quando Thomaz Larangeira, funcionário da comissão de demarcação de fronteiras após a Guerra da Tríplice Aliança com o Paraguai, começou a explorar a erva-mate do lado paraguaio. Em 1882, o governo do Império do Brasil concedeu-lhe autorização para exploração de grande extensão de terras no sul de Mato Grosso. A renovação e ampliação constante das concessões de terras continuou durante o período republicano, graças às relações estabelecidas com famílias que dominavam a política do Mato Grosso, como os Murtinho, acionistas da empresa desde 1891. Em 1902, o controle da empresa passou para o grupo Francisco Mendes & Cia e a matriz estabeleceu-se definitivamente em Buenos Aires. No Brasil, a vila de Campanário, inaugurada em 1921 no município de Ponta Porã, tornou-se o principal centro administrativo e de oficinas da Matte Larangeira.
Assim como em outros empreendimentos ligados à exploração da erva-mate, muitos dos trabalhadores que extraiam, beneficiavam (cancheavam) e transportavam o produto nos ervais da Matte Larangeira eram arregimentados entre os indígenas guarani e kaiowa que dominavam tradicionalmente o uso da planta. Grande parte trabalhava em família, recebendo por produção. O porto de Posadas, na província argentina de Misiones, era o principal centro de contratação de trabalhadores não indígenas, em particular paraguaios. Esses trabalhadores eram contratados por intermediários, os conchavadores, que além de antecipar uma parte do salário, eram responsáveis pelo transporte e vigilância dos trabalhadores até seu embarque para os ervais.
Nos ervais da empresa, o dialeto corrente era o guarani. A “moeda” em que se pagavam os vales e se consumia nos bolichos (pequeno comércio de secos e molhados e pontos de encontro para jogar e beber) era o giro, um tipo de “papel” emitido pela empresa que circulava por toda a região. Existia ainda o sistema do barracão, em que o trabalhador era pago em mercadoria fornecida pela própria empresa, endividando-se, quase sempre. Estimativas indicam que, em seu auge, até 10 mil trabalhadores foram empregados na Matte Larangeira.
Ao longo dos anos, as fugas tornaram-se uma das principais formas de resistência dos trabalhadores diante das opressivas condições impostas pela empresa. Era um grande risco diante das violentas forças de vigilância da Matte Larangeira e da Força Pública do Estado, sempre dispostas a “caçar” e prender os “infratores”. A União dos Trabalhadores de Campo Grande chegou a denunciar ao recém criado Ministério do Trabalho nos anos 1930 as condições de trabalho que levavam à fuga dos trabalhadores. Sabotagens na produção e lutas pelo controle do tempo também foram comuns, em particular entre os trabalhadores da extração. Muitas vezes essas ações provocaram alterações importantes nas relações de trabalho na empresa
Os conflitos, frequentemente violentos, entre a Matte Larangeira e pequenos produtores pela posse da terra na região também foram recorrentes. A tensão se intensificou a partir de 1916, quando o Estado deu garantias legais para a permanência de posseiros já estabelecidos. Em 1932, posseiros e pequenos produtores chegaram a organizar a Liga dos Combatentes em Ponta Porã, que promovia campanha contra o monopólio de arrendamentos por parte da empresa
Além disso, os processos migratórios para a região também enfraqueceram o monopólio da empresa sobre a terra. Em 1943, no contexto da campanha da “Marcha para o Oeste” do Estado Novo, o governo de Getulio Vargas criou a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, cedendo glebas para migrantes nordestinos, e cancelou a concessão de terras para a Matte Larangeira. No final da década de 1940 a empresa deixou de explorar os ervais na região, mantendo, contudo, ervais na Argentina e a sede em Buenos Aires. No Mato Grosso permaneceu com extração de madeira até o ano de 1957.
Para operação no imenso território que compunha seus domínios, a Matte Larangeira implantou diversos portos e vilas, sendo que algumas se tornaram cidades. Os prédios, residências e armazéns da antiga Vila Campanário são hoje patrimônio da Fazenda Campanário na rodovia MS-156, no município sul-mato-grossense de Laguna Carapã. A fazenda, de 37 mil hectares, é um típico latifúndio moderno do agronegócio em uma região de alta concentração fundiária. Mas os vestígios arquitetônicos da Vila Campanário também são lugares de memória do trabalho e da resistência dos povos locais. Resistência atualizada pela luta contemporânea de novos sujeitos como os sem-terra e os indígenas expulsos dos seus territórios.
Tariferos transportando o raído, fardo de erva-mate (década de 1930). Acervo do jornal Amambai Notícias.
Para saber mais:
ARRUDA, Gilmar. Frutos da terra: os trabalhadores da Matte-Larangeira. Londrina: Editora UEL, 1997.
GUILLEN, Isabel Cristina Martins. O imaginário do sertão: lutas e resistências ao domínio da Companhia Matte Larangeira (Mato Grosso: 1890). Tese (Doutorado em História). Campinas: IFCH/UNICAMP, 1991.
OLIVEIRA, Vitor Wagner Neto de. “Sin él, en el Chaco no hay ingenio, ni obraje, ni algodonal”: o mundo do trabalho nas fronteiras do Cone Sul. In: ESSELIN, Paulo Marcos e FONSECA, Vinicius Rajão da (Orgs.). O expansionismo brasileiro sobre a Bacia Platina e a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Porto Alegre: PPGH; FCM, 2019.
QUEIROZ, Paulo Roberto Cimó. “A Companhia Mate Laranjeira, 1891-1902: contribuição à história da empresa concessionária dos ervais do antigo sul de Mato Grosso”. Territórios e Fronteiras. 8 (1), 2015.
Crédito da imagem de capa: Trabalhadores e moradores de Campanário (década de 1920). Arquivo Público Estadual de Mato Grosso do Sul.
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Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
“Aqui, da trincheira da produção, da nossa trincheira sindical, tudo faremos, a fim de apressar o dia da vitória final”.
Foi com esse entusiasmo que dirigentes sindicais do Rio Grande do Norte se dirigiram às tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em 22 de janeiro de 1945. A expressão “trincheira da produção”, também utilizada em outras regiões do país, não se referia apenas ao apoio dos trabalhadores à luta contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial, mas também às suas privações cotidianas durante o conflito. Enquanto a FEB lutava na Itália, os “soldados da produção” trabalhavam intensamente nas fábricas, convocados ao sacrifício em prol da pátria. Esse discurso nacionalista adquiriu enorme força, mexeu com o país e potencializou uma dinâmica incontrolável de mobilização popular, com evidente protagonismo da classe trabalhadora.
Quando submarinos alemães abateram navios brasileiros, em agosto de 1942, no litoral nordestino, causando a morte de centenas de pessoas, houve manifestações em diversos pontos do país exigindo que o governo declarasse guerra ao Eixo. Desde então, inúmeras campanhas foram iniciadas, com apoio de trabalhadores, sindicatos, clubes esportivos e jornais, buscando angariar fundos para o Brasil frente ao conflito. Operários das cinco fábricas da Companhia América Fabril, por exemplo, ofereceram uma boa quantia em dinheiro para a Campanha Nacional de Aviação, que pretendia doar aviões ao Território do Acre. O Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, em parceria com o Sindicato dos Ferroviários e a Rádio Farroupilha, promoveu a campanha “Asas para o Brasil”, com doação de recursos para ofertar um avião à Força Aérea. Uma campanha semelhante foi organizada pelo clube de futebol Vasco da Gama. Em Belo Horizonte, uma campanha previa doar navios à Marinha. Todas essas mobilizações tinham como propósito “vigiar e patrulhar as costas do Brasil” contra os “corsários do mal”.
Com a repercussão do afundamento dos navios brasileiros, o governo Getúlio Vargas declarou guerra aos países do Eixo. Além de organizar a FEB e enviar tropas para o front, com o reforço de muitos “pracinhas operários”, foi estabelecido no país o “esforço de guerra”, que combinava incremento da produção nacional com suspensão de direitos trabalhistas. Em certos casos, operários eram tratados como reservistas militares, passíveis de punições equivalentes à falta ou deserção ao serviço. Convém ainda lembrar que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), promulgada em 1º de maio de 1943, não pôde ser aplicada plenamente nas empresas incluídas no esforço de guerra. O desabastecimento também foi um grave problema enfrentado pelo Brasil durante a guerra, sobretudo em relação aos alimentos de primeira necessidade. A falta de trigo, por exemplo, levou a busca de outros ingredientes para a preparação de pães. Os que eram feitos de milho, foram batizados como “pão da guerra”. Já a escassez de açúcar levava famílias pobres a preparar seu café com caldo de cana para adoçar a bebida.
Todo este cenário de sacrifício à classe trabalhadora também se estabeleceu em escala global. Porém, os efeitos colaterais desse engajamento só seriam sentidos ao final da guerra. No Brasil, com a rendição das tropas alemãs, em 8 de maio de 1945, houve um carnaval fora de época. Foi até decretado feriado nacional em comemoração ao Dia da Vitória ou “Dia V”, como divulgou a imprensa. Ruas e praças pelo país afora eram tomadas de gente, sambas, frevos e marchinhas. Havia muita sátira aos nazistas, fascistas e integralistas, além de alegorias exaltando os expedicionários brasileiros. Com grande adesão popular, trabalhadora e sindical, muitos ostentavam nesses festejos estandartes em forma de “V” ou posavam para fotografias fazendo com as mãos o sinal de vitória. Também eram frequentes a exposição de bandeiras de países aliados, bem como cartazes e jornais com fotos de lideranças políticas mundiais que se uniram contra o nazifascismo, como Churchill, Roosevelt e Stalin. Algumas vezes, os festejos extravasaram para revanches. Foi o que ocorreu, por exemplo, no bairro industrial de São Miguel Paulista, em São Paulo, onde os trabalhadores da Nitro Química chegaram a subir e amassar carros de alguns chefes integralistas e partidários do Eixo.
Celebração pela vitória na guerra na Rua São Bento em São Paulo.Celebração em São Paulo pela vitória na Guerra.Fotografias de Thomas Farkas. Acervo do Instituto Moreira Salles
Passada a euforia do final da guerra, uma nova era parecia se abrir aos trabalhadores em todo o mundo. No caso brasileiro, especialmente, o “Dia V” já concorria com os preparativos da primeira eleição presidencial após anos de ditadura do Estado Novo, com maior participação eleitoral de trabalhadora(e)s. Ela foi realizada junto à eleição de senadores e deputados federais para a Assembleia Nacional Constituinte, em dezembro de 1945. Além da formação de novas legendas partidárias, como a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD), uma antiga sigla, fundada em 1922, reconquistava sua legalidade: o Partido Comunista do Brasil (PCB). Seu principal líder, Luís Carlos Prestes, após 9 anos como preso político, foi libertado do cárcere logo após o “Dia V”. A popularidade do “Cavaleiro da Esperança” e a ação decisiva da União Soviética na derrota do nazifascismo empolgavam multidões, em particular os trabalhadores de cidades industriais e portuárias. Para a Constituinte, os comunistas elegeram Prestes como senador e catorze deputados federais.
As demandas represadas pelos trabalhadores por maior protagonismo político e social, bem como pelas não atendidas compensações pelos sacrifícios do período da guerra, eclodiram com força entre os anos de 1945 e 1946, quando a derrota do nazi-fascismo foi entendida como a vitória da classe trabalhadora. Elas podem ser resumidas na expressão “descontar o cheque patriótico”, utilizada pelo historiador britânico Geoff Eley.
Este cenário acabou desencadeando uma série de manifestações e greves de trabalhadora(e)s, lutando por reajuste salarial, abono de natal (atual décimo terceiro), aplicação e fiscalização das leis trabalhistas, além de melhores condições de trabalho. Assustados, setores conservadores do mundo político, empresarial e religioso reagiriam com força, buscando disputar corações e mentes da classe trabalhadora nos sindicatos, locais de trabalho, bairros periféricos e favelas. A emergência da Guerra Fria e a ascensão do anticomunismo como uma linguagem compartilhada por diversos setores dominantes no Brasil marcariam decisivamente os embates políticos e a visão sobre as lutas dos trabalhadores nos anos seguintes.
Desta forma, o contexto decisivo do final da Segunda Guerra Mundial provocou uma reconfiguração das relações de trabalho no Brasil ou a “prática de relações de classe de novo tipo”, como definiu um operário têxtil de Magé (RJ) em discurso no sindicato. Desde então, trabalhadoras e trabalhadores do Brasil se consolidaram como protagonistas da política brasileira, exigindo ações do Estado, dos partidos e das diversas instituições do país em atendimento às suas demandas, pois tinham a exata noção de sua importância para a sociedade, principalmente nos momentos mais difíceis. Ao mesmo tempo, essa classe trabalhadora, ao enfrentar uma reação hostil de setores do Estado e das classes dominantes, também experimentava novas formas de organização, com ações mais autônomas, se apropriando e ressignificando a legislação trabalhista, visando “apressar o dia da vitória final” que prometia chegar ao fim da guerra.
¹ Professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e pesquisador do LEHMT.
Referências
ALCÂNTARA, Patrícia Costa de. Os Conflitos de um Conflito: processos trabalhistas ajuizados nas Juntas de Conciliação e Julgamento de Belo Horizonte durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Seropédica: Dissertação em História, Relações de Poder, Trabalho e Práticas Culturais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2018. COSTA, Hélio da. Em busca da memória. Comissão de fábrica, partido e sindicato no pós-guerra. São Paulo: Scritta, 1995. CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: A mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial/Editora da Universidade de São Paulo, 2000. ELEY, Geoff. War and the Twentieth-Century State. In: Daedalus. v.124. n.2. 1995. Disponível em <https://www.jstor.org/stable/20027301?seq=1>. FÁVERI, Marlene de. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina. Florianópolis: UFSC; Itajaí: UNIVALI, 2004. FERRAZ, Francisco César Alves. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. FONTES, Paulo. Um Nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista (1945-1966). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008. GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. 3 ed. PEDREIRA, Flávia de Sá (Org.). Nordeste do Brasil na II Guerra Mundial. São Paulo: LCTE, 2019. RIBEIRO, Felipe; FORTES, Alexandre. Trabalhadores e Segunda Guerra Mundial: debates introdutórios para um dossiê. In: Revista Mundos do Trabalho. v.11. 2019. Disponível em <https://doi.org/10.5007/1984-9222.2019.e70508>.
Crédito da imagem de capa: Comemoração de Trabalhadores em São Paulo sobre a Vitória na Guerra. Fonte: https://tokdehistoria.com.br/
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