Chão de Escola #04: Aprender História na Formação Profissional: a relação entre a disciplina de História e o Ensino Médio integrado ao Técnico

Autora:Denize Carolina Auricchio Alvarenga da Silva
(Etec prof Carmine biagio tundisi, centro paula souza)

Apresentação da atividade

Segmento: Ensino de História e Educação Profissional

Unidade temática: Mundo do trabalho

Objeto de conhecimento: Historicidade do trabalho e sua importância na construção da identidade e cultura

Objetivos gerais:

– Entender a complexidade da categoria trabalho para o ser humano.

– Compreender elementos cognitivos, afetivos, físicos, sociais e culturais que constituem a identidade própria e a dos outros.

Duração da atividade: 16 aulas de 50 min

Aulas Planejamento
01, 02 e 03 Explicar atividade aos alunos, etapas e recursos a serem usados.
Gravar vídeo sobre ideia inicial de trabalho.
Leitura e discussão em sala de trechos do livro “Memória e sociedade, lembranças de velhos” de Ecléa Bosi.
04 e 05 Entrevistas sobre histórias pessoais relacionadas ao trabalho.
Compartilhamento de imagens selecionadas pelos alunos sobre o tema e trechos das entrevistas.
Discussão sobre história do trabalho.
06, 07 e 08Registro de atividades.
Pesquisa de temas.
Exposição do trabalho.

Conhecimento prévio:

– Noções básicas de períodos históricos.

Atividade

Atividade e recursos:


Recursos para o professor: Lousa, canetão/giz, data show, impressões.

Recursos para alunos: Computador, celular, revistas, fotografias, impressões, data show, caderno universitário, material para exposição de resultado final – podem ser utilizados painéis de cortiça da escola ou papel cartão, linha de nylon, quadro de ímãs, canetas coloridas, folhas e mesa.

Etapa 1: Explicar atividades aos alunos, etapas e recursos a serem usados. Gravar vídeo sobre ideia inicial de trabalho: Cada grupo de até cinco alunos deve gravar um vídeo, de aproximadamente 2 minutos, falando o que entendem por “trabalho”. A partir desses dados, iniciar uma discussão da origem dessas ideias ou percepções de trabalho e recolher as imagens trazidas pelos alunos. Leitura e discussão em sala de trechos do livro “Memória e sociedade, lembranças de velhos” de Ecléa Bosi. Neste livro, a autora entrevista pessoas com mais de setenta anos, em que muitos desses foram dedicados ao trabalho. São lembranças de residentes da cidade de São Paulo, que mostram quão determinante é o trabalho na vida das pessoas e a cultura a qual está inserido, e, segundo a autora, uma forma de vencer a barreira do tempo no conhecimento humano ouvindo o outro e perpetuando a sua experiência.

Etapa 2: Entrevistas sobre histórias pessoais relacionadas ao trabalho: a partir de um roteiro de entrevista, aplicar a um membro da família ou conhecido com questões relacionadas a lembranças e percepções do trabalho. Compartilhamento de imagens selecionadas pelos alunos sobre o tema e trechos das entrevistas.

Etapa 3: Produção coletiva da pesquisa até o momento – os alunos irão montar um caderno da sala, com trechos selecionados de entrevistas, imagens, impressões, entendimento sobre a história do trabalho e a memória associada ao trabalho. Os alunos deverão trabalhar coletivamente e redigir um texto, baseados nas aulas anteriores, sobre a relação do homem com o trabalho como abertura desse caderno coletivo. Após essa introdução, devem fazer registros mesclados de trechos das entrevistas e imagens com pequenas legendas. Ao final, devem deixar a pergunta: “E para você, o que é o trabalho?”

Pesquisa em grupo com os temas para breve seminário:

I. Construção da ideia de trabalho;
II. Trabalho escravo e análogo;
III. Revolução Industrial;
IV. Trabalho infantil;
V. Trabalho como Patrimônio;
VI. Precarização do trabalho e a lógica do empreendedorismo;

Além dos itens básicos a serem pesquisados (contextos, sujeitos, processos…), ao final os educandos deverão fazer uma relação do assunto com a sua habilitação técnica.

Montagem de painéis que reflitam o conjunto de atividades realizadas:

Material a ser exposto: Caderno Coletivo produzido pelos alunos com uma caneta anexa para o visitante responder a pergunta (E para você, o que é o trabalho?) após folhear o trabalho; Caderno de presença de visitação; Painel com a apresentação da atividade (tema e introdução) e Painel de fotos com legendas e trechos das entrevistas não identificadas e da pesquisa, relacionando-os (por exemplo, relacionar dados do trabalho infantil com trechos das entrevistas, a precarização do trabalho com as condições relatadas pelos alunos que têm trabalhos informais).

Percurso para o observador: A exposição pode contar em alguns dias ou horários pontuais (como em uma feira de trabalhos) com alunos da sala para apresentar o trabalho, em um sistema de rodízio de estudantes. Assim, podem convidar outros alunos, funcionários ou membros da comunidade – a depender da disponibilidade da escola – para visitar o trabalho final. A atividade deve ter a presença de um aluno no início do percurso apresentando o projeto e orientando o visitante a escrever sua primeira ideia de trabalho no caderno coletivo e depois de ver a exposição participar de uma breve atividade educativa.

Atividade educativa: Ao final, o visitante é convidado pelos alunos para montar em um quadro de fotos a sua manifestação sobre trabalho: pode ter disponível um quadro com ímãs, caixas com frases soltas, gráficos impressos, além de canetas coloridas e fragmentos de papéis que o visitante pode se expressar, dispostos em uma mesa para ser montado/desmontado quantas vezes for necessário. Para o fechamento da atividade, ao final da ação expositiva, professor e alunos poderão conversar sobre as respostas do público registradas no caderno e o comportamento dos visitantes durante a montagem de sua “obra” (como as montagens na lousa feitas com o material disponível, perguntas, reações…) e as conclusões dos próprios educandos ao final do projeto

Bibliografia e material de apoio:

  • ALMEIDA, Wania Amanso de. A contribuição de Anísio Teixeira para se pensar o ensino profissional nos dias atuais. 2011 Disponível em:  http://www.revistas.udesc.br/index.php/EnsinoMedio/article/download/2327/1758. Acesso em 12 de março de 2019.
  • ANTUNES, Ricardo. ¿Adiós al Trabajo? Ensayo sobre las Metamorfosis y el Rol Central del Mundo del Trabajo. 2 edición. Venezuela: Piedra Azul, 1997.
  • ANTUNES, Ricardo. O Caracol e sua Concha; ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005.
  • ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
  • BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.
  • FONSECA, Selva G. Didática e a Pratica do Ensino de História. Campinas: Papirus, 2003.
  • NOSELLA, Paolo. Ensino Médio à Luz do Pensamento de Gramsci. Campinas: Alínea, 2016.
  • THOMPSON, Edward. Os Românticos. Tradução de Sérgio Moraes Rêgo Reis.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 .
  • Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Livro de Registro dos Saberes – Bens Culturais Imateriais. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/496 acesso em 25 de junho de 2019.
  • ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.  Principais Estatísticas Brasil. Disponível em: https://www.ilo.org/gateway/faces/home/ctryHome?locale=EN&countryCode=BRA&_adf.ctrl-state=1c4zvj2szb_4# Acesso em 23 de abril de 2019. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Trabalho escravo no Brasil do século XXI. 2006. Disponível em https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—americas/—ro-lima/—ilo-brasilia/documents/publication/wcms_227551.pdf Acesso em 24 de junho de 2019.

Credito da imagem de capa: A Revolução Industrial. Fonte: https://www.proenem.com.br/enem/historia/a-revolucao-industrial/

Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

LEHMT Day – 7 de outubro

O Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ (LEHMT-UFRJ) fará uma apresentação ao vivo de suas pesquisas e atividades, bem como de seus membros no próximo dia 7 de outubro (quarta-feira) entre 15h e 16h30. A atividade é destinada prioritariamente aos alunos/as de graduação do IH-UFRJ, mas será aberta para estudantes de outras instituições ou qualquer pessoa interessada em conhecer mais sobre o LEHMT e os estudos de história social do trabalho em geral. O LEHMT Day será mediado pelo coordenador do Laboratório e professor do Instituto de História, Paulo Fontes, e será transmitida pela plataforma Google Meet. Não há necessidade de inscrição prévia.

Acompanhem o LEHMT-UFRJ nas redes sociais e conheça nosso site: lehmt.org

#Live Labuta: Gênero e História do Trabalho – com Fabiane Popinigis e Glaucia Fraccaro


Fabiane Popinigis é professora Associada do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Atualmente, coordena do GT Mundos do Trabalho/ANPUH. Publicou Proletários de casaca pela Editora da Unicamp e diversos artigos que relacionam gênero, raça e trabalho.

Glaucia Fraccaro é professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Publicou O direito das mulheres, pela Editora da FGV, e diversos artigos que relacionam gênero e trabalho.

Paulo Fontes é professor do IH/UFRJ, coordenador do LEHMT-UFRJ e da Universidade da Cidadania/UFRJ.

Contribuição especial #10: 13 Japonês Parador: os trabalhadores e o transporte ferroviário no Rio de Janeiro – Álvaro Nascimento

Álvaro Pereira do Nascimento¹

A pandemia da COVID-19 em 2020 transformou a realidade do sistema ferroviário da Zona Metropolitana do Rio de Janeiro. Com as medidas de isolamento social tomadas por autoridades estaduais e municipais no combate à doença, ocorreu a queda brutal de transeuntes pelas ruas do centro comercial e financeiro do Rio de Janeiro e de boa parte dos bairros da Zona Sul e Oeste.

A frequência diária de passageiros nos trens despencou de 600 mil para aproximadamente 200 mil pessoas, segundo reportagem do jornal Extra (07/07/2020). No sistema de ônibus conhecido por BRT, essa quantidade passou de 300 mil pessoas diariamente para 50 mil. Estes serviços, que já apresentavam falhas, diminuíram a quantidade de veículos a níveis que favoreceram a ampliação do contágio entre as pessoas que tinham de permanecer trabalhando.

O cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras nos transportes urbanos revela diferentes rostos, sentimentos e expectativas, que se misturam nos vagões dos trens. Encontram vizinhos e vizinhas que “descem para a cidade”, já quando fecham silenciosamente as portas das suas residências. A sociabilidade deles e delas amplia-se a partir do ponto de ônibus, das plataformas das estações de trens, metrôs e barcas. Em cidades como o Rio de Janeiro predominam homens e mulheres negras, e o gradiente de cores torna-se mais diverso a cada estação rumo à Central do Brasil. É, ali, na condução, que começam as doze, quatorze até vinte horas de labuta pelo “ganha-pão”.

Desde há muito tempo, o transporte de passageiros na malha ferroviária viabilizou o trabalho dos moradores(as) dos subúrbios cariocas e da Baixada Fluminense no Centro e na Zona Sul do Rio de Janeiro. Contudo, trens avariados, descarrilamentos e choques de composições, acidentes ou mortes de usuários, além dos atrasos cotidianos também fazem parte dessa história. As raras tentativas de melhorias dos serviços ferroviários por parte de alguns governos estavam geralmente atrasadas frente às necessidades. Duas delas, no entanto, marcaram a história da ferrovia no século XX: a eletrificação dos ramais e a implementação dos trens de fabricação japonesa na linha 13 Deodoro Parador – carinhosamente alcunhados pelos cariocas de “13 Japonês Parador “, “13 Deodoro Japonês” ou simplesmente “Japonês”.

“O novo navio negreiro” . BRT lotado durante a pandemia do COVID 19 em 2020. Foto de Yan Carpenter, @yanzitx

A eletrificação da malha ferroviária, em 1937, tornou mais rápido o deslocamento da Baixada Fluminense e de distantes subúrbios cariocas ao centro do Rio, transformando-se num turning point na longa história da antiga Central do Brasil. Além das estações fornecedoras de energia elétrica, o governo de Getúlio Vargas adquiriu as composições fabricadas na Inglaterra, modelo Metropolitan Vickers, série 100, com 3 portas laterais por vagão, que agilizavam o embarque e o desembarque de passageiros(as). Construídos pela britânica Metropolitan Vickers Electrical Company, estes trens foram uma revolução para a população suburbana: eletrificados, velozes, menos poluentes, e sem a terrível fumaça e odor das locomotivas movidas por combustão a óleo ou a carvão.

A eletrificação trouxe ainda, de acordo com Maria Therezinha Segadas Soares,  “maior adensamento da população nas áreas mais próximas da capital e um avanço da área metropolitana do Rio de Janeiro para zonas cada vez mais distantes”.  Ao longo do século XX, boa parte destas pessoas não conseguia mais arcar com os custos de moradia no Rio de Janeiro e passou a comprar lotes e a construir suas casas nos distantes subúrbios cariocas, favelas e nas cidades da Baixada Fluminense. Morar em Nova Iguaçu e trabalhar no centro do Rio de Janeiro, por exemplo, tornou-se possível com a otimização do tempo gasto para efetuar tal deslocamento. Aproximadamente vinte anos depois foram adquiridas novas composições do mesmo modelo Metropolitan Vickers, mas da série 200, que passaram a circular a partir de 1956. O número de passageiros aumentava.

Na década de 1970, porém, os trens da linha Vickers já apresentavam diversos  e frequentes problemas. Ao quebrarem, lotados de passageiros e passageiras, eram resgatados nas estações por locomotivas de carga movidas a óleo, deslocadas emergencialmente para os socorrerem. Situações como estas irritavam passageiros e disseminavam revoltas nas estações e trilhos de trens.

Havia (e ainda há) muitos casos de passageiros que apedrejavam trens, queimavam estações e até saqueavam agências. Acumulavam-se a humilhação de pular mais de um metro e meio dos vagões aos trilhos e andar até a próxima estação; o medo de ser atropelada(o); a degradante obrigação de explicar-se pelo atraso e em resposta ouvir um sonoro “esporro” do supervisor ou da patroa; o descaso de políticos que não cumpriam sua parte no pacto social junto à massa de trabalhadores(as). Essas eram algumas das situações que entornavam o caldeirão explosivo da impaciência. A cotidiana resiliência era substituída pela revolta, iniciada pelas mãos das pessoas mais pacíficas quando arremessavam pedras de brita contra os trens. Seguidos “tumultos” ocorriam, e o noticiário da imprensa pressionava os generais que haviam tomado o poder durante a ditadura civil-militar. Afinal, a empresa era de responsabilidade do Governo Federal.

As lâmpadas eram incandescentes, amarelas, e muitas não funcionavam, contribuindo para uma escuridão desorientadora para quem desejava dar mais um passo, ou procurava uma alça (apelidada de “chupeta”) para se segurar. As possibilidades de “batedores de  carteira” e “tarados” furtarem ou importunarem sexualmente mulheres e homens aumentavam exponencialmente naquelas condições.

Da mesma forma estavam os tímidos ventiladores no teto, próprios para a fria Inglaterra mas inofensivos ao calor carioca, que castigava usuárias(os) imprensadas(os). As portas também não fechavam corretamente. Passageiros mais jovens e aventureiros desciam aos trilhos e selecionavam uma ou duas pedras de brita adequadas ao intento. Quando a porta se abria, eles punham a pedra entre a quina da porta deslizante e o piso do vagão, interrompendo seu completo fechamento. O maquinista seguia mesmo assim, e o vento refrescava a todos(as) com o deslocamento do ar. Quanto mais veloz, menos se transpirava naqueles vagões.

Pingentes e surfistas de trem. Acervo do Jornal O Dia

Uma das principais causas de mortes e mutilações no Rio de Janeiro era a queda de passageiros apelidados de “pingentes” nos trens da Central e dos trabalhadores da construção civil, como bem registrou Chico Buarque. A Rede Ferroviária Federal chegou a retirar postes contra os quais pessoas penduradas nas portas dos trens se chocavam em alta velocidade. Um dos mais fatais havia sido apelidado friamente de “Bellini”, em alusão ao capitão da seleção brasileira de futebol de 1958, o famoso zagueiro que deixava passar a bola mas não o adversário que a conduzia. Uma quantidade elevada mas não computada de passageiros encontrou a morte naquele poste, até ser retirado pela empresa após seguidas reclamações na imprensa, embora outros tenham permanecido.

Os trens dos ramais de Santa Cruz (linha 42) e Japeri (linha 33) tornavam-se expressos a partir da estação de Deodoro, parando somente em seis estações até o fim do percurso na Central do Brasil. Para quem necessitava descer numa das onze estações não atendidas pelos expressos, restava a linha 13DeodoroParador. Os vagões não diferiam dos que vinham de Japeri e Santa Cruz, porém eram um pouco mais vazios, circulavam sem muitos atrasos e tinham melhor manutenção que os demais.

Uma grande mudança impactou o sistema ferroviário e ampliou a diferença de tratamento oferecida a estes(as) trabalhadores(as) da linha Deodoro Parador. Chegava ao Rio de Janeiro, o Mitsui, série 550, fabricado no Japão,  rapidamente apelidado de 13 Deodoro Japonês. Os jornalistas estavam alvissareiros com o encurtamento da viagem de 45 para 35 minutos, no período de testes, e o entusiasmo se manteve no dia em que seus primeiros 4 carros entraram em funcionamento, em 11 de maio de 1977.

Efetuou-se uma série de mudanças nas estações. As plataformas começaram a ser lavadas diariamente e receberam “plantas ornamentais, bancos” e “cinzeiros”. Além disso, de início, “bilheterias exclusivas” foram incluídas e havia “muito policiamento”. O 13 Japonês Parador tinha uma impressionante couraça de aço como a do Trem de Prata, que ligava o Rio a São Paulo, e não mais de ferro como os ingleses Vickers. Seu motor parecia mais potente e forte. Tinha o formato mais cúbico e menos ovalado que o anterior, com 4 portas para embarque e desembarque, e lâmpadas compridas e fluorescentes que ampliavam a iluminação. E era mais seguro, não saía da estação enquanto as portas não se fechassem. Uma “campainha” (sinalização sonora) informava da abertura e do fechamento das portas.

O “13 Japonês Parador” ainda resiste. Fotografia de Gustavo de Azevedo. Fonte: 
https://trensfluminenses.files.wordpress.com/2012/11/image03786.jpg

Uma parte dos pingentes não gostou, e tentou inutilmente mantê-las abertas. Os usuários da linha Deodoro Parador sentiram-se ainda mais privilegiados, mesmo sem o frescor trazido pelas portas abertas. Como estes trens pouco quebravam, os intervalos entre as composições eram mais rigorosos, trazendo satisfação aos usuários regulares daquele ramal. O sucesso foi instantâneo e usuários dos ônibus passaram a frequentar os trens japoneses, por serem mais seguros, rápidos e baratos. Em 1978, somente os japoneses transportaram diariamente 38,4% do total de passageiros (217.000 pessoas) nos trens da Central do Brasil, como noticiava o Jornal do Commercio. O aumento na capacidade em um ano de uso na linha Deodoro Parador foi de aproximadamente 50% em relação aos Vickers.

O Japonês foi um marco, mas não resolveu os problemas. Com a falta de investimentos no transporte ferroviário urbano carioca ao longo dos anos 1980, logo os trens envelheceram e, com pouca manutenção, quebravam. Os atrasos, lotação e calor voltaram à cena, assim como a revolta e os apedrejamentos. Com a privatização, em 1998, os trens pararam de circular por toda a noite, obrigando trabalhadores e estudantes a utilizarem ônibus, vans e o que fosse mais necessário para chegar a casa. .A prioridade foi “cortar gastos” com pessoal, realizar reengenharia de investimentos e outros sinônimos de proteção ao capital e de geração de lucros.

Alguns Vickers ainda estão em uso, transformados, com nova iluminação e climatização, em alguns casos. O mesmo se diz do modelo Mitsui, o Japonês.  Estamos agora na fase dos trens chineses, ainda mais modernos, comprados durante as obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Como sabemos, os usuários dos trens participaram dos “preparativos” destas grandes festas: escavaram ruas, derrubaram prédios, reformaram e/ou construíram complexos esportivos. A festa, no entanto, não foi para os trabalhadores e trabalhadoras. Preços de megaeventos majorados em dólar não eram, definitivamente, compatíveis com os baixos salários recebidos, sem contar as dificuldades para adquirir os ingressos via internet e o alto custo do transporte.

Nos primeiros vinte anos do século XXI, o Rio de Janeiro passou por questionáveis intervenções urbanas, dramáticos problemas de violência urbana e frequentes escândalos de corrupção. Seu espaço no cenário nacional também foi enfraquecido pelas crises econômicas internacionais. Enquanto isso, trabalhadores e trabalhadoras permaneceram e permanecem fazendo história no cotidiano dos trens da Central do Brasil. Mas seus passos ainda carecem de  um  olhar mais atento por parte dos(as) historiadores(as), que resistem em acompanhá-los(as) pelos diversos trilhos da maltratada Cidade Maravilhosa.

¹ Professor do Departamento de História da UFRRJ

Referências

PIRES, Lênin. Esculhamba, mas não esculacha! Uma etnografia dos usos urbanos dos trens da Central do Brasil . Niterói: Editora da UFF, 2011.

RODRIGUES, Hélio Suevo. A formação das estradas de ferro do Rio de janeiro. Rio de Janeiro: Memória do Trem, 2004.

SOARES, Maria Therezinha Segadas. “Nova Iguaçu – Absorção de uma célula urbana pelo grande Rio de Janeiro”. Revista Brasileira de Geografia, abril-junho, 1962.

Crédito da foto de capa: detalhe da fotografia de Yan Carpenter, O avião do trabalhador, disponível em @yanzitx

Artigo “Crianças nas fábricas: o trabalho infantil na Indústria Têxtil carioca na Primeira República” – Isabelle Pires e Paulo Fontes

Recentemente, o tema da exploração do trabalho infantil voltou a tomar conta do debate público. A defesa de que o trabalho das crianças deve ser combatido relaciona-se com a a noção de que a infância deve ser uma fase de não trabalho, concepção que foi historicamente construída recentemente. Tal visão contrapõem-se á uma disseminada noção de cultura do trabalho que deveria ser despertada desde cedo nas crianças.

Nas primeiras décadas do século XX, o trabalho das crianças foi central para a expansão da indústria têxtil da Capital Federal, o maior ramo industrial daquele período. Esse é o tema do artigo “Crianças nas fábricas: o trabalho infantil na Indústria Têxtil carioca na Primeira República” de Isabelle Pires, doutoranda no PPGHIS da UFRJ e pesquisadora do LEHMT-UFRJ e Paulo Fontes, professor do IH-UFRJ e coordenador do LEHMT-UFRJ. O artigo foi publicado em um dossiê especial intitulado Dossiê “Estudos recentes sobre os mundos do trabalho têxtil no Brasil”, organizado por Murilo Leal Pereira Neto, Lucas Porto Marchesini Torres e Felipe Ribeiro na revista Tempo & Argumento, publicação do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.

O artigo fornece novos dados sobre a importância dos/as menores no processo de produção da indústria têxtil no Rio de Janeiro e também destaca o protagonismo das crianças em movimentos de reivindicação por melhores condições de trabalho e luta por direitos. Os autores ainda enfatizam como as tensões entre o poder público e os industriais, bem como as pressões da sociedade civil, em particular do movimento operário (com a participação dos próprios menores) e de regulações internacionais (como a OIT) impactaram e formataram uma legislação sobre os menores nas fábricas, em particular o Código de Menores de 1926.

http://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180312302020e0101

Crédito da imagem de capa:

Operários e operárias da seção de fiação da Fábrica Cruzeiro em 1910. WEID, Elisabeth von der; BASTOS, Ana Marta Rodrigues. O fio da meada: estratégia de expansão de uma indústria têxtil: Companhia América Fabril: 1878-1930. Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa; Confederação Nacional da Indústria, 1986. p. 228.

Chão de Escola #03: As reformas urbanas de Pereira Passos (1902-1906) e a formação dos subúrbios e da zona sul

Autor: Samuel Silva Rodrigues de Oliveira (Cefet-RJ)

Apresentação da atividade

Segmento: 2º Ano ou 3º Ano do Ensino Médio

Unidade temática: Reforma urbana de Pereira Passos

Objeto de conhecimento: Primeira República e história da cidade do Rio de Janeiro

Objetivos gerais:

– Caracterizar a reforma de Pereira Passos (1902-1906);

– Contextualizar as mudanças no cotidiano das classes populares na reforma urbana;

– Compreender a formação social dos “subúrbios” e da zona sul na cidade do Rio de Janeiro.

Duração da atividade: 03 aulas de 50 min

AulasPlanejamento
01Etapa 1 e 2
02Etapa 3, 4, e 5
03Etapa 6 e 7
04Etapa 8

Conhecimento prévio:

– A história da construção da cidadania no pós-abolição e na Constituição de 1891.

Atividade

Atividade e recursos:

Etapa 1: Leitura coletiva em sala de aula do texto 1 escrito por Marly Motta explicando o significado da expressão “bota-abaixo”. Procure identificar as palavras desconhecidas, construir um vocabulário de conceitos históricos e estabelecer os núcleos de sentido do texto.

Texto 1: O “BOTA-ABAIXO” Por Marly Motta

Expressão criada para designar, ao mesmo tempo, o processo de reformas urbanas operado a partir de 1903 no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, e o prefeito da cidade à época, Francisco Pereira Passos (1902-1906). Com a expressão “o Bota-Abaixo”, buscou-se destacar a maneira radical pela qual foi implementado um conjunto de obras públicas que então redefiniram a estrutura urbana da capital federal.
No início do século XX, o Rio de Janeiro era a principal e maior cidade do país. Os constantes fluxos migratórios e imigratórios favoreceram um intenso processo de urbanização, que demandava uma reestruturação espacial daquele que era considerado o cartão postal do país. Na base desse debate sobre a necessidade de um planejamento urbano – tanto no Rio quanto em Paris –, esteve presente o conceito de política higienista, relacionada com as precárias condições sanitárias das habitações urbanas, especialmente as coletivas. Uma das figuras preeminentes desse debate foi Pereira Passos, que entre 1857 e 1860 frequentou vários cursos na École de Ponts et Chaussées em Paris, onde acompanhou as obras empreendidas por Georges Haussmann com o intuito de transformar a capital francesa em uma cidade “civilizada”, de acordo com os padrões da época. À frente da prefeitura do departamento do Sena, Haussmann desbastou o emaranhado de ruas estreitas, pôs abaixo habitações populares, e construiu em seu lugar um conjunto monumental de largas e extensas avenidas.
Sanear, higienizar, ordenar, demolir, civilizar, foram também as palavras de ordem do prefeito Pereira Passos. Por isso mesmo, cortiços, casas de cômodos, estalagens, velhos casarões, passaram a ser os alvos preferenciais da reforma urbanística que empreendeu ao longo de seu mandato. Um dos objetivos principais dessa reforma era livrar a capital federal da pecha de cidade insalubre, assolada por constantes epidemias de febre amarela, varíola e malária, com sérios prejuízos para a atividade comercial do país.
À custa da derrubada de velhos imóveis, foram alargadas e prolongadas diversas vias urbanas, como a rua do Sacramento (futura avenida Passos), a rua da Prainha (atual rua do Acre) e a rua Uruguaiana, entre outras. Avenidas radiais e diagonais, cortando o centro em várias direções – as avenidas Mem de Sá, Salvador de Sá, Marechal Floriano – exigiram o arrasamento de morros, como o do Senado, e a demolição de moradias e casas de comércio que se encontravam no trajeto das “vias do progresso”.
A avenida Central (atual Rio Branco), que uniu o Rio de Janeiro de mar a mar, isto é, do porto, na Prainha, até a avenida Beira-Mar, é o marco principal da reforma urbana então realizada. Apesar de debitada ao prefeito, a obra foi iniciativa do governo federal, que ainda realizou obras de ampliação do porto do Rio de Janeiro, além de abrir as avenidas Rodrigues Alves e Francisco Bicalho.
São conflitantes as informações sobre o número de construções demolidas para dar passagem à nova avenida, variando entre setecentas e três mil. Ao atuar sobre velhas freguesias e distritos centrais, esse conjunto de intervenções urbanísticas resultou na destruição de quarteirões inteiros de hospedagens, cortiços, casas de cômodos e estalagens, além de armazéns e trapiches de áreas junto ao mar, forçando boa parte da população que aí vivia e trabalhava a se deslocar para os subúrbios ou a subir os morros próximos – Providência, São Carlos, Santo Antônio, entre outros –, até então pouco habitados.
Reconhecida como indispensável para o processo de remodelação urbana da capital federal, em especial pelos efeitos que teve sobre a circulação pelo Centro e sua ligação com outras zonas da cidade, a operação “bota-abaixo” ficou marcada pela maneira autoritária com que lidou com as milhares de pessoas prejudicadas pela perda de suas moradias e negócios.
Fonte: MOTTA, Marly. O “bota-abaixo”. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BOTA-ABAIXO,%20O.pdf

Etapa 2: Analise a tabela sobre a população do Rio de Janeiro, a distribuição no espaço urbano e faça o questionário relacionando-a com o texto 1 de Marly Motta.

Fonte: População do Rio de Janeiro apud OLIVEIRA, Samuel S.R., RENILDA, Maria. Cidade, assistência e saúde: maternidades entre o privado e o público no subúrbio do Rio de Janeiro. Delaware Review of Latin American Studies. Vol. 17, n.2, 2016.

Atividade

  1. Faça um gráfico em linha ou barra que mostre o crescimento da população total do Rio de Janeiro entre 1890 e 1950.
    1. Crie uma legenda para o gráfico que explique o crescimento populacional carioca.
  2. Identifique na tabela:
    1. A região da cidade mais densamente ocupada em 1890, e a menos ocupada;
    2. A região que mais cresceu entre 1890 e 1950;
  3. A reforma urbana de Pereira Passos realizou várias obras públicas no espaço da cidade do Rio de Janeiro. Cite as principais obras públicas realizadas no início do século XX.
  4. Explique o discurso que justificou a realização das obras públicas pelo prefeito Pereira Passos e os grupos que tiveram as condições de vida afetadas pelas transformações urbanas – caracterize os grupos em termos de classe e raça.
    1. Por que a reforma urbana de Pereira Passos ficou conhecida como “bota-abaixo”?
  5. Relacione distribuição da população nos espaços da cidade com a reforma urbana de Pereira Passos.

Etapa 3: Recupere as informações debatidas na etapa 1 sobre a reforma urbana de Pereira Passos e apresente os textos abaixo lendo-os coletivamente.

Texto 2

Outrora, nos tempos da velha cidade, o subúrbio era uma espécie de remanso feliz do proletário honesto, procurado em geral pelos pacíficos amantes do sossego e da tranquilidade.
Pobre, abandonado, pouco populoso, desprezado como sempre, possuindo apenas construções antigas, ruínas e pardieiros, vestígios de senzalas de extintas fazendas, mas dentro desses muros arruinados, esburacados, reinava a paz honesta e a pobreza sã.
E hoje?
Depois que o prefeito Passos os lançou por terra a velha cidade abrindo novas ruas e levantando novos edifícios, toda aquela pobre gente emigrou para o subúrbio e ahi (sic), foram vistas da justiça e da repressão, um grande mal que desenvolveu e progrediu. […]
E o mal progride, progride sempre horroroso e ameaçador sem que uma providência tenha sido tomada no sentido de evitá-lo ou melhorá-lo”
Fonte: FILHO, Affonso Cardoso. A perdição do subúrbio. Echo Suburbano. 1911. Adaptado.

Texto 3

A tendência aristocrática dos arrabaldes do Rio não fez senão aumentar no correr de meados do século XIX (…) a burguesia carioca, seguindo o exemplo de seus congêneres europeus que aqui residiam, começou a buscar novos espaços nos quais pudessem residir segundo os novos padrões europeus. Os arrabaldes do Rio de Janeiro, inclusive Niterói, devido à relativa proximidade às condições climáticas e à beleza natural, aos poucos perderam seu caráter bucólico de lazer, onde os mais ricos podiam construir belas residências secundárias e os menos abastados apenas desfrutar de um feriado ou um fim de semana. Os sítios e as chácaras eram loteados, ruas abertas, e a área se tornava assim, residencial e aristocrática por excelência.
Fonte: EL-KAREH, Almir Chaiban. Quando os subúrbios eram arrabaldes: um passeio pelo Rio de Janeiro e seus arredores no século XIX. In: 150 de subúrbio carioca. RJ:Editora UFF, 2009.p.31-32

Etapa 4: Faça uma roda de debates e solicite que os alunos discutam as questões abaixo, consultando e voltando ao texto e à tabela das etapas 1 e 2.

a) O texto 3 apresenta uma relação entre a “burguesia” e “aristocracia” do Rio de Janeiro com os espaços dos arrabaldes. Explique as motivações em meados do século XIX para se afastar do centro do Rio de Janeiro.
b) Identifique a autoria, data de publicação e meio de comunicação em que circulou o texto 2. Qual grupo social está sendo representado no texto?
c) O texto 2 aborda a reforma do prefeito Pereira Passos num viés crítico. Apresente as críticas apresentadas à reforma urbana. Por que o autor do texto apresenta críticas à reforma urbana?
d) Ambos os textos abordam a ocupação do espaço urbano dos arrabaldes/subúrbios do Rio de Janeiro. Aponte as diferenças e semelhanças entre os dois textos e faça um quadro comparativo.

Etapa 5: As duas fotografias abaixo mostram o cotidiano do bairro de Madureira. Solicite que o aluno escreva uma reportagem para o jornal Echo Suburbano e que tenha as duas imagens como referência e ilustração. A reportagem deverá fazer referência às reformas de Pereira Passos, usar dados estatísticos e informações históricas do início do século XX para interpretar as imagens.

Imagem 1

Fonte: Fotografia atribuída à Augusto Malta, representando o Mercado de Madureira. apud SANTOS, Myrian S (org.). Nos quintais do samba da Grande Madureira. RJ: Olhares, 2016.

Imagem 2

Fonte: Foto de Augusto Malta de bondes tracionados por animais em Madureira apud SANTOS, Myrian S (org.). Nos quintais do samba da Grande Madureira. RJ: Olhares, 2016.

Etapa 6: Leitura individual do texto do Lugares de Memória “Fábrica de Tecidos Aliança, Rio de Janeiro (RJ)” de Isabelle Pires, disponível no site do LEHTM: https://lehmt.org/2019/08/29/lugares-de-memoria-dos-trabalhadores-fabrica-de-tecidos-alianca-rio-de-janeiro-rj-isabelle-pires/.

Dialogue com a turma sobre os seguintes pontos:
– Como se caracteriza a “zona sul” no Rio de Janeiro na atualidade? Identifica-se o bairro de Laranjeiras e a zona sul como área industrial e operária?
– Qual a importância da Fábrica Aliança no final do século XIX e XX?
– Como o espaço urbano da região de Laranjeiras era ocupado por operários no início do século XX?
– Quais as transformações na densidade de ocupação dos bairros da orla, “zona sul” e “Botafo-Flamengo” após a reforma urbana de Pereira Passos? É possível abordar a elitização da “zona sul” a partir da reforma urbana do início do século XX?

Etapa 7: Analise a propaganda abaixo a partir do texto de Isabelle Pires e responda as questões abaixo.

Fonte: Anúncio publicitário do empreendimento imobiliário que foi edificado no local da Fábrica de Tecidos Aliança, após sua demolição. O Globo, 15/01/1945. Disponível em: https://lehmt.org/2019/08/29/lugares-de-memoria-dos-trabalhadores-fabrica-de-tecidos-alianca-rio-de-janeiro-rj-isabelle-pires/. Acesso em 18/06/2020.

Atividade

  1. O anúncio de venda de lotes apresenta em destaque a ideia de uma “cidade moderna”. Descreva o que é a modernidade na visão da propaganda.
  2. Identifique as práticas sociais e os grupos que foram silenciados na imagem, tendo em vista a ocupação da região de Laranjeiras no início do século XX.
    1. Pode-se afirmar que a elitização do bairro significou um “embranquecimento” da população local? Escreva um pequeno texto debatendo essa questão.
  3. Explique a posição da Companhia Textil Aliança Industrial na formação do espaço urbano de Laranjeiras.

Etapa 8: Atividade síntese e avaliativa. Divida a sala em grupos de quatro a seis estudantes, solicite a pesquisa e impressão duas fotos de cada região (centro, zona sul e subúrbio) na atualidade e oriente a construção de um mural coletivo. Para cada imagem, os grupos deverão escrever uma legenda explicando a relação da localidade/região retratada com a reforma urbana do Rio de Janeiro no início do século XX.

Bibliografia e material de apoio:


Crédito da imagem de capa: Fotografia atribuída à Augusto Malta, representando o Mercado de Madureira. apud SANTOS, Myrian S. (org.). Nos quintais do samba da Grande Madureira. RJ: Olhares, 2016.


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Livro: História Oral e Historiografia: Questões Sensíveis.

Acaba de ser publicado o livro História Oral e Historiografia: Questões Sensíveis, organizado por Angela de Castro Gomes e publicado pela editora Letra e Voz. O livro reúne artigos de vários/as especialistas que refletem sobre o papel metodológico e teórico da história oral na análise de temas como a história da ditadura militar, do movimento negro, do movimento estudantil, das relações de gênero, entre outros.  

Paulo Fontes, professor de História do IH e coordenador do LEHMT-UFRJ, colaborou para a coletânea com o artigo “História Oral e história social do trabalho. Os migrantes nordestinos em São Paulo entre os anos 1940 e 1960”. Em uma primeira parte, o artigo faz um rápido balanço sobre como, a história social do trabalho teve um papel fundamental na disseminação e reconhecimento da história oral como fundamental ferramenta metodológica. Em seguida, o autor analisa os desafios e as questões sensíveis do uso de fontes orais, a partir de sua própria pesquisa com trabalhadores migrantes em São Paulo.

Link para compra no site da Editora Letra e Voz.

https://www.letraevoz.com.br/produtos/historia-oral-e-historiografia-angela-de-castro-gomes/

Vale Mais #08 – Racismo e história do trabalho – com Ynaê Lopes Santos (UFF) e Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (USP).


Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ. O objetivo é discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #08 do Vale Mais é sobre racismo e história do trabalho.

Este episódio do Vale Mais é especial. Foi gravado durante uma live transmitida pelo canal do LEHMT no Youtube. Desde que, em maio de 2020, protestos antirracistas iniciados nos Estados Unidos espalharam-se pelo mundo, o tema tem sido ainda mais discutido no Brasil, onde o racismo estrutural é, infelizmente, muito presente. Um olhar sobre os mundos do trabalho permite fazer reflexões sobre racismo e exclusão social na sociedade brasileira e, para refletir sobre a questão, convidamos a historiadora Ynaê Lopes Santos (UFF) e o sociólogo Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (USP). O debate foi mediado por Paulo Fontes (UFRJ), coordenador do LEHMT-UFRJ.

Produção: Deivison Amaral, Julia Chequer, Heliene Nagasava, Paulo Fontes e Yasmin Getirana.
Roteiro: Julia Chequer, Heliene Nagasava, Deivison Amaral e Paulo Fontes.
Apresentação: Paulo Fontes.



Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz Vale Mais

Está no ar o quarto episódio da nova temporada do podcast Vale Mais, do LEHMT-UFRJ! Nesta temporada, convidamos pesquisadoras e pesquisadores para discutir projetos, livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. Neste quarto episódio, conversamos com Itan Cruz, doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre sua tese Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil (1880-1889). Ao longo da conversa, Itan mostra como investigou de que maneira políticos baianos, como Saraiva, Dantas e Cotegipe, influenciaram os últimos anos do cativeiro no Brasil. Entre jogos de poder, alianças improváveis e disputas internas, revelamos como o baianismo atravessou gabinetes, salões, senzalas e até as relações íntimas do Império. Para saber mais, ouça o episódio. E não deixe de acompanhar a nova temporada do Vale Mais! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz
  2. Vale Mais #30: A cultura de luta antirracista e o movimento negro do século 21, por Thayara Lima
  3. Vale Mais #29: The Second World War and the Rise of Mass Nationalism in Brazil, por Alexandre Fortes
  4. Vale Mais #28: O poder e a escravidão, por Bruna Portella e Felipe Azevedo
  5. Vale a Dica #14: Orgulho e Esperança, de Matthew Warchus

Chão de Escola #02: As lutas dos trabalhadores em conjunturas pandêmicas (1358, 1918 e 2020)

Autora: luciana wollmann (SME-RJ/ seeduc – rj)

Apresentação da atividade

Segmento: Ensino Fundamental (9º ano)/ Ensino Médio (1º ano)/ Educação de Jovens e Adultos (EJA)

Unidades temáticas:

– Trabalho e formas de organização social e cultural

– O nascimento da República no Brasil e os processos históricos até a metade do século XX

– Política e Trabalho

– O Brasil recente

Objetos de conhecimento:

– Senhores e servos no mundo antigo e no medieval

– Primeira República e suas características

– Experiências republicanas e práticas autoritárias: as tensões e disputas do mundo contemporâneo

Objetivos gerais:

– Analisar os principais aspectos das pandemias da “Peste Negra”, da Gripe Espanhola e do Coronavírus.

– Relacionar as crises pandêmicas apresentadas com as revoltas e protestos dos trabalhadores.

– Correlacionar as três conjunturas apresentadas, apontando semelhanças e diferenças entre elas.

Duração da atividade: 05 aulas de 50 min.

AulasPlanejamento
01Execução da etapa 1
02Jogo da etapa 2
03 e 04Atividade em grupo da etapa 3
05Roda de debates da etapa 4


Conhecimentos prévios:

– A crise do século XIV na Europa e as revoltas camponesas.

– Principais características da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

– Aspectos políticos e sociais da Primeira República no Brasil (1889-1930).

– Os impactos causados pela pandemia do coronavírus na população mundial.  

Atividade

Atividade e recursos:
A partir das características políticas e sociais de três conjunturas pandêmicas: a “Peste Negra” ocorrida no século XIV, a Gripe Espanhola ocorrida durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a atual pandemia do Coronavírus, a proposta desta atividade é fazer uma análise comparativa entre essas diferentes conjunturas, atentando particularmente para as mobilizações dos trabalhadores e trabalhadoras nesses contextos. Utilização de cópias, papel color set ou cartolina e projetor com som.

Etapa 1: Apresentação
Usando imagens projetadas em slides no data-show, o (a) professor (a) irá apresentar os principais aspectos das três conjunturas pandêmicas trabalhadas nessa atividade. Para auxiliá-lo (a), sugerimos aqui alguns sites, vídeos e podcasts que podem servir de suporte nesse momento mais expositivo da aula.

– Site com textos, imagens e documentos sobre a “Peste Negra” e as jacqueries: https://www.ricardocosta.com
– Vídeo: Gripe espanhola: médico fala sobre remédios que prometiam cura da doença
– Vídeo: A Greve de 1917: TV Fepesp entrevista José L. Del Roio
– Podcast: A pandemia de 1918 e os mundos do trabalho
– Vídeo: Conheça Paulo Lima, o entregador de aplicativo antifascista que organiza a categoria
– Podcast: Entrevista com Paulo Lima, o Galo, líder do movimento entregadores antifascistas feita por Dulce Pandolfi e Paulo Fontes na Rádio Cidadania da UFRJ. Disponível em: https://bit.ly/2ZWN8Rt e https://spoti.fi/2WSniMm
– Vídeo: “Vidas negras importam”: ato leva centenas às ruas do Rio de Janeiro

Etapa 2: Sensibilização
– Jogo: “Quem sou eu”? Organizados em grupos de aproximadamente 4 estudantes, cada equipe receberá um cartão (elaborados previamente pelo (a) professor (a)) com uma frase dita por algum camponês, trabalhador, redator, cronista ou governante extraída das fontes históricas produzidas nos contextos históricos abordados nessa atividade. No quadro (ou no data-show), o (a) professor (a) irá colocar os nomes dos autores das frases, bem como uma breve descrição dos mesmos. O desafio das equipes é tentar acertar o (a) autor (a) da frase. Se a equipe errar o nome do autor, só poderá tentar novamente na próxima rodada. A cada descoberta, sugerimos que o professor (a) estimule aos alunos (as) a explicar os indícios que os levaram a concluir que aquele era (ou seria) o autor da frase, bem como auxilie aos alunos a interpretar as frases de acordo com cada contexto e posição social de seus emissores. Abaixo, listamos algumas sugestões de frases para a elaboração do jogo.

Professor(a), em caso de estar trabalhando de forma remota, você pode adaptar esse jogo fazendo uma espécie de quiz usando o programa PowerPoint.


Etapa 3: Problematização
Reunidos em grupos (que podem ser os mesmos da atividade anterior), os estudantes farão uma leitura coletiva e responderão às perguntas listadas ao final do texto, registrando-as em seu caderno. Cada grupo deverá ficar com um texto (que são três no total). Se forem formados mais de três grupos na turma, os textos deverão ser repetidos. Os textos podem ser escolhidos pelos próprios estudantes, de acordo com o seu interesse ou definidos por sorteio.

Etapa 4: Debate
Finalizada a atividade da etapa anterior, uma grande roda pode ser formada para que os estudantes possam apresentar as suas reflexões coletivamente. Sugerimos que além de debater as questões apresentadas nas atividades que fizeram, os estudantes sejam encorajados a pensar comparativamente as três conjunturas pandêmicas apresentadas nessa atividade.

ETAPA 2

Jogo: “Quem sou eu”?


1º) Frase: “(…) mataram o cavaleiro, a dama e os filhos, grandes e pequenos, e incendiaram tudo. Logo foram a um castelo e ali fizeram pior, pois prenderam o cavaleiro e o ataram a uma estaca muito fortemente, e muitos violaram a mulher e a filha diante do cavaleiro. Depois mataram a mulher, que estava grávida, e a sua filha e todos os filhos, e o marido, depois de torturá-lo, queimaram-no e destruíram o castelo”.
Autor (a): Jean Froissart (1337-1410) foi um poeta e cronista da Idade Média. As Crônicas de Froissart são consideradas uma das principais fontes de pesquisa das jacqueries.

2º) Frase: “Regulam o consumo do álcool gel disponível em pouca quantidade pelas dependências do prédio. Dia desses presenciei uma cena lastimável. Uma senhora, de cabeça branca, provavelmente com idade para ser minha mãe, recolheu álcool num pequeno frasco. Foi tratada pelo segurança como uma criminosa. Constrangida, ela explicou que era para limpar sua área se trabalho, coisa mais que necessária em tempos de covid-19”.
Autor (a): Atendente de uma empresa de call center localizada no Rio de Janeiro.

3º) Frase: “Era um rapagão de membros fortes, largo de braços, de rins e de ombros, com olhos afastados um do outro de uma mão-travessa; não se poderia encontrar em sessenta países um rosto mais rude e mais desagradável. Tinha cabelos eriçados e faces negras e curtidas ; havia seis meses que não lavava a cara e a única água que lhe molhara tinha sido a chuva do céu”.
Autor: Poema épico Garin le Lorrain (França, século XII), descrevendo o filho do camponês Hervis.

4º) Frase: “(…) a greve atual não tem pé nem cabeça. É o resultado da ação perniciosa de elementos estranhos ao nosso meio social que aqui pretendem lançar o gérmen maligno das ideias anárquicas, rivalidades e luta de classes que não tem razão de ser no Brasil e tendem a desaparecer da própria Europa, onde surgiram”.
Autor (a): Jornal A Federação (29/7/1918). Esse jornal era alinhado aos interesses da classe patronal porto-alegrense.

5º) Frase: “A maioria dos meus companheiros, para ser sincero, me mandam para Cuba. Mas tenho sentido que menos companheiros estão me mandando pra Cuba. Acho que estou mobilizando um grupo legal e vamos ficar no Brasil. Quero formar entregadores pensadores. Quem gosta de gado é o rei do gado. Nós sabe [sic] quem é o rei do gado hoje”.
Autor (a): Paulo Lima, entregador de apps e principal articulador do Movimento de Entregadores Antifascistas.

6º) Frase: “Porque nos deixamos maltratar? Livremo-nos da sua maldade! Nós somos homens como eles. Temos membros como os seus e corpo de igual tamanho. E do mesmo modo sofremos. Só nos falta a coragem. Unamo-nos por um juramento”.
Autor (a): Um camponês (personagem da crônica literária Romance de Rollon, de Robert Wace), escrita 150 anos depois das revoltas camponesas que ocorreram na Normandia (França) no ano de 996. No romance, a frase é atribuída a um camponês.

7º) Frase: “(…) a todas as classes de trabalhadores terrestres e marítimos, ferroviários, metalúrgicos, foguistas, marinheiros (…) o mundo trabalhador já não pode suportar a opressão dos sugadores e detentores do bem-estar da humanidade”.
Autor (a): Panfleto do Sindicato dos Pedreiros e Carpinteiros de Salvador na greve de 1919.

8º) Frase: “Camaradas! A burguesia ainda não perdeu a velha mania de se julhar com interesses absolutos sobre os nossos braços e a nossa vida como se fossemos sua propriedade particular. Supõe ela que ainda são os operários objetos dos tempos idos e não os operários homens, operários conscientes de hoje, que vimos em cada burguês um explorador, um consumidor, um tirano, enfim”.
Autor (a): Boletim do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre. 16/08/1919.

9º) Frase: “A condição de bestas é mais feliz que a nossa, pois não são obrigadas a trabalhar mais do que a sua força lhes permite. E nós, pobres asnos, carregamos fardos e mais fardos (…) Força então meus bons amigos; despertemos e mostremos que somos homens e não bestas”.
Autor (a): Frase atribuída a um dos líderes da jacquerie, Jacques Bonnhome de Clermont em Beauvaisis.  

10º) Frase: “Ficar em casa pra quem pode, legal, mas quem não tem condições, isso é desumano. O cara tem que trabalhar”.
Autor (a): Jair Bolsonaro, presidente da República em 13/5/2020, em plena pandemia da Covid-19.

ETAPA 3

Atividade do Grupo 1

  1. Faça uma leitura do texto e debata as questões propostas, registrando-as em seu caderno.

A “PESTE NEGRA” E AS REVOLTAS CAMPONESAS

França, 1358. Durante cerca de um mês, milhares de camponeses travaram uma sangrenta revolta contra os nobres. Armados de facões, bastões e tudo mais que pudesse servir como arma, os jacqueries – ou “homens simples” como eram chamados – insurgiram-se contra a exploração da nobreza senhorial que aumentara sobremaneira na última década, marcada pela peste, fome e pela guerra.
Aproximadamente entre 1347 e 1353, a “Peste Negra” – nome pelo qual ficou conhecida a peste bubônica, septicêmica ou pneumônica no século XIV – se alastrou pela Europa, chegando a alcançar a Ásia, causando a morte de 75 a 200 milhões de pessoas. No caso da França, que também se envolveu na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra a Inglaterra, a escalada mortal foi ainda maior, trazendo fome, morte e miséria principalmente entre as camadas mais pobres da população. Oprimidos pela alta dos impostos, pelo confisco dos seus bens e pelo aumento da exploração sob o seu trabalho, os camponeses iniciaram uma revolta sangrenta. Menos de três décadas depois, em 1381, uma revolta camponesa de grandes proporções também varreu a Inglaterra, chegando a alcançar Londres. Em ambos os casos, a repressão da nobreza contra os revoltosos foi violenta e os seus principais líderes foram perseguidos em executados. O temor causado pelas Revoltas Camponesas, fez com que os nobres se articulassem e começassem a desenhar o Estado Absolutista, que dominou o cenário político europeu entre os séculos XVI e XVIII.

Os jacques são massacrados em Meaux, 1358.
Fonte da imagem: https://www.ricardocosta.com/artigo/revoltas-camponesas-na-idade-media-1358-violencia-da-jacquerie-na-visao-de-jean-froissart

Questões:

  • Vocês consideram que “Peste Negra” tem alguma relação com as revoltas camponesas ocorridas no século XIV? Justifique.
  • Vocês consideraram que as Revoltas Camponesas do século XIV foram vitoriosas? Justifique. 
  • No período medieval, era comum associar à escuridão à morte e às trevas e a luz à bondade e à salvação. O termo “Peste Negra”, no entanto, passou a ser usado apenas no século XVIII, para se referir à pandemia que assolou a Europa no século XIV. Hoje, a utilização desse termo é questionada. Por que afirmamos isso?  

  1. Trabalhando com fontes históricas.
    Com base no que você leu, faça uma breve descrição das suas imagens e crie uma legenda para as mesmas.

Fontes das imagens: https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/j/jacquerie.htm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacquerie


Bibliografia:

COSTA, Ricardo da. Revoltas camponesas na Idade Média. 1350: a violência da Jacquerie na visão de Jean Froissart. Disponível em: https://www.ricardocosta.com/artigo/revoltas-camponesas-na-idade-media-1358-violencia-da-jacquerie-na-visao-de-jean-froissart
Revolta camponesa de 1381: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_camponesa_de_1381

ETAPA 3

Atividade do Grupo 2

  1. Faça uma leitura do texto e debata as questões propostas, registrando-as em seu caderno.

A Gripe Espanhola e as greves de 1918 e 1919

Entre 1918 e 1920, foi a vez da pandemia de Gripe Espanhola atingir a humanidade em escala global. Iniciada nos Estados Unidos, a gripe ganhou o nome de “espanhola” porque esse país declarou-se neutro na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e por esse motivo, divulgava sem censura notícias da pandemia através da imprensa. Transmitida pelo vírus Influenza (H1N1), a Gripe Espanhola deixou um rastro de cerca de 50 milhões de mortos, um saldo cinco vezes maior do que os mortos pelo conflito mundial em curso.
E foi justamente nos anos de 1918 e 1919, com a pandemia em curso, que uma onda de greves tomou conta dos Estados Unidos. Em setembro de 1918, cerca de 300.000 trabalhadores do aço paralisaram o seu trabalho, na primeira greve nacional da categoria no país. No início do ano seguinte, 35.000 trabalhadores costureiros – (90% do sexo feminino) declararam greve para exigir uma jornada de trabalho de quarenta e quatro horas e um aumento de 15% nos salários (FREEMANN, 2020). Segundo o pesquisador Joshua Freemann, ainda que não possamos fazer correlações diretas entre a epidemia de gripe e a onda de greves no EUA, a conjuntura de guerra e de crise conectam os dois. Nesses mesmos anos, eclodiram greves no Canadá, na Argentina, na Inglaterra, Portugal, França, Itália, África do Sul, entre outros. Não podemos perder de vista que esses acontecimentos ocorrem sobre o rastro de destruição deixado pela Primeira Guerra Mundial e sobre o eco de esperança trazida pela Revolução Socialista ocorrida na Rússia em outubro de 1917.
No Brasil, um novo ciclo de greves também se iniciou em 1918 e 1919. No ano anterior, o país fora sacudido pela Greve Geral de 1917, que articulara diferentes categorias de trabalhadores de vários estados e contou com a participação direta de trabalhadores anarquistas e socialistas. Nos dois anos seguintes, ocorreram greves em várias cidades que haviam se mobilizado em 1917, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife, entre outras. Entre as reivindicações, podemos citar: aumento salarial, jornada de trabalho de 8 horas diárias, direito à associação, proibição do trabalho para menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno para mulheres e melhores condições de trabalho.
Ainda que não seja possível associar diretamente o aumento do número de greves com a Gripe Espanhola, a carestia e a alta do custo de vida daquele período, que agravavam ainda mais as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras do país,  somado à precariedade do sistema de saúde pública para assistir os acometidos pela gripe – muitos deles trabalhadores – desnudavam ainda mais as desigualdades já existentes. Segundo a pesquisadora Christiane Maria Cruz de Souza, o número de trabalhadores adoecidos pela Gripe Espanhola em Salvador variou entre 100% a 80%  nas fábricas onde a produção exigia uma maior proximidade entre os operários, tais como as de roupas, vestuário, de acessórios, cigarros e embalagens (SOUZA, 2009). Ainda que aquela fosse apontada como uma doença “democrática”, pois atingia a todos aqueles que tivessem contato com o vírus Influenza, as condições de trabalho, moradia, alimentação e acesso à saúde dos mais pobres, deixava-os mais à deriva naquela conjuntura de crise, doença e morte. 
Ainda que reprimidas pelos patrões, pelo governo e pela polícia, as greves dos anos 1910 tiveram um impacto político significativo. Travadas meio às mortes causadas pela guerra e pela pandemia, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo naqueles anos foram fundamentais para a conquista de seus direitos obtidos pelos mesmos nas duas décadas subsequentes.

Trabalhadores da capital baiana reunidos durante a greve de 1919.
Fonte: http://sintracom.org.br/2016/2016/04/01/os-trabalhadores-da-construcao-civil-na-greve-geral-de-1919/

Questões:

  • De acordo com o que vocês leram e com a opinião de vocês, as greves de 1918 e 1919 tem alguma relação com a pandemia de Gripe Espanhola? Justifique a sua resposta.
  • Ocorreram várias greves de trabalhadores em diferentes países do mundo nesse período. Quais acontecimentos de impacto mundial tiveram interferência direta nessas greves?
  • Por que os trabalhadores pararam no Brasil? Nos dias de hoje, as reivindicações do passado são direitos assegurados? Sim ou não? Explique.

  1. Trabalhando com fontes históricas.

Observe as imagens abaixo extraídas do jornal O Malho e identifique o que elas nos fornecem de informações sobre as greves dos anos 1910 no Brasil.

O Malho, outubro de 1917. Biblioteca Nacional (hemeroteca)

O Malho, abril de 1918. Biblioteca Nacional (hemeroteca)


Bibliografia:

ABREU, Alzira Alves de et al. (coords). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB). Rio de Janeiro: FGV, 2001. Greve (verbete).
CASTELLUCCI, Aldrin Armstrong Silva. Salvador dos Operários: uma história da Greve Geral de 1919 na Bahia. UFBA: Salvador, 2001. Dissertação de mestrado.
CAVALCANTE, Luciane do Nascimento. Movimento operário e as peculiaridades da luta armada no Recife a partir da atuação de José Elias e Joaquim Pimenta (1919-1920). Anais do IV Colóquio de História. UNICAP: Recife, 2010.
FREEMANN, Joshua. Pandemias podem gerar ondas de greves. 16/05/2020. Disponível em: http://www.dmtemdebate.com.br/pandemias-podem-gerar-ondas-de-greve/
SOUZA, Christiane Maria Cruz. A espanhola em Salvador – o cotidiano da cidade doente. Varia hist. vol.25 nº.42 Belo Horizonte Julho/Dezembro 2009.
QUEIRÓS, Cézar Augusto Bubolz. Estratégias e identidades: relações entre governo estadual, patrões e trabalhadores nas grandes greves da Primeira República em Porto Alegre (1917/1919). UFRGS, Porto Alegre, 2012.
Anarquia ou Barbarie: https://anarquiabarbarie.wordpress.com/category/historia/greve-de-1918/

ETAPA 3

Atividades do Grupo 3

1) Faça uma leitura do texto e debata as questões propostas, registrando-as em seu caderno.

A pandemia do Coronavírus: um novo ciclo de luta por direitos?

O novo agente do coronavírus, chamado de novo Coronavírus, foi descoberto no fim de dezembro de 2019 após ter casos registrados na China. Em poucos meses, a pandemia do COVID 19 se espalhou pelo globo, o que obrigou a grande parte dos países mais atingidos a adotar medidas de isolamento social.
A maior vulnerabilidade dos mais pobres à doença vem sendo apontado pelas estatísticas: de acordo com um levantamento feito pelo programa Cidades Sustentáveis, as taxas de mortalidade são maiores entre a população que está abaixo da linha da pobreza. Fatores como a falta de acesso á saúde e ao saneamento básico e a alta densidade populacional existente em favelas e bairros periféricos (ESTADO DE MINAS, 3/6/2020), colaboram para as altas estatísticas de mortandade entre os mais pobres. Poderíamos acrescentar que a insegurança alimentar gerada pelos altos índices de desemprego e informalidade entre a população de baixa renda, também são fatores determinantes para essa vulnerabilidade.
Cabe acrescentar, que muitas dessas pessoas por questões de sobrevivência, vêm-se impelidas a continuar trabalhando, mesmo diante das orientações de isolamento social. Alguns desses trabalhadores, inclusive, estão sendo apontados como “essenciais” nesse cenário pandêmico. Além dos profissionais de saúde, entregadores, motoristas, balconistas, caixas de supermercado, lixeiros, porteiros, trabalhadores das indústrias alimentícia e farmacêutica, entre outros, seguem em uma jornada de trabalho ininterrupta o que, inevitavelmente, coloca a sua vida em risco. Neste sentido, algumas questões relativas aos direitos e segurança desses trabalhadores vêm sendo colocadas. Isso é bastante visível em alguns movimentos, como os protestos de entregadores de  apps exigindo que as empresas de aplicativos ofereçam mais segurança como álcool em gel e máscaras para o exercício de sua atividade diária e a greve dos trabalhadores de call center para que o seu trabalho fosse realizado em regime de home office. Esses movimentos ocorridos em escala nacional, também são verificados em diversos países do globo, principalmente naqueles em que a pandemia atingiu altos índices de mortalidade, tais como Espanha, Itália e Estados Unidos.
Assim como em outras conjunturas pandêmicas, tais como a Peste Negra do século XIV e a Gripe Espanhola (1918-1920), a pandemia do Coronavírus desnuda a situação de extrema vulnerabilidade em que os mais pobres – muitos deles trabalhadores chamados “braçais” – se encontram. Ainda que não possamos ignorar as suas profundas diferenças entre essas três conjunturas, a situação desses trabalhadores e trabalhadoras meio à pandemia evidencia as desigualdades já existentes e acabam colocando em xeque à estrutura vigente. Nos dois primeiros casos, elas também geraram momentos de inflexão que só foram percebidos em longo prazo. No caso das recentes manifestações dos trabalhadores em virtude da Covid-19, ainda é cedo para fazermos um prognóstico (FONTES, 2020), mas já assistimos algumas reações que podem desencadear mudanças mais profundas. Isso é patente quando assistimos as manifestações dos trabalhadores e protestos de massa como o “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”) que vem ocorrendo em escala global meio à pandemia. Será o prenúncio de um novo ciclo de lutas por direitos? As respostas virão quando o relógio da História girar…

O movimento “Black Lives Matter” surgiu em 2013, nos Estados Unidos. Após o assassinato de um homem negro, George Floyd, por um policial branco, Derek Chauvin, em maio de 2020, os protestos contra o genocídio negro se alastraram pelo mundo.
Fonte da imagem: https://rj.casadosaber.com.br/cursos/blacklivesmatter/mais-informacoes

Questões para o debate:

  • O Coronavírus é uma doença “democrática”, ou seja, que atinge a todos igualmente independente da cor, gênero ou classe social? Justifique a sua resposta.
  • Discuta com os seus colegas os direitos que deveriam ser assegurados aos trabalhadores “essenciais” nessa conjuntura de pandemia?
  • “(…) a situação desses trabalhadores e trabalhadoras meio à pandemia evidencia as desigualdades já existentes e acabam colocando em xeque à estrutura vigente”. Debata com o seu grupo essa frase presente no texto e registre as suas considerações em seu caderno.

2) Trabalhando com imagens.
Explique o conteúdo da charge abaixo: 

Fonte da imagem: http://www.dmtemdebate.com.br/o-mosaico-da-exploracao-do-trabalho/


Bibliografia:

COVID: Desigualdade no país afeta taxa de mortalidade, diz pesquisa. Estado de Minas, 3/6/2020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/06/03/interna_gerais,1153504/covid-desigualdade-no-pais-afeta-taxa-de-mortalidade-diz-pesquisa.shtml
FONTES, Paulo. Entrevista ao Jornal da ADUFRJ. 30/4/2020. Disponível em: https://lehmt.org/2020/05/16/nao-existe-sociedade-sem-trabalhadores-entrevista-de-paulo-fontes-para-o-jornal-da-adufrj/
Entregadores antifascistas: “Não quero gado. Quero formar entregadores pensadores”. 7/6/2020. Entrevista disponível em: https://apublica.org/2020/06/entregadores-antifascistas-nao-quero-gado-quero-formar-entregadores-pensadores/
O movimento ”Black Lives Matter” organiza-se e procura definir-se politicamente. 31/5/2020. Disponível em:: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/O-movimento-Black-Lives-Matter-organiza-se-e-procura-definir-se-politicamente/47/47651
Pandemia evidencia condições inadequadas de trabalho em call centers no Rio. 30/5/2020. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/03/30/pandemia-evidencia-condicoes-inadequadas-de-trabalho-em-call-centers-no-rio


Crédito da imagem de capa: Trabalhadores em greve deixam um estaleiro em Seattle, 1919. Fotografia: Webster & Stevens/Museum of History and Industry. Fonte: http://www.dmtemdebate.com.br/pandemias-podem-gerar-ondas-de-greve/


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Artigo “Entre biografias e trajetórias de pesquisa(dores): memória operária e reflexões de um historiador nativo” – Felipe Ribeiro

O pesquisador do LEHMT, Felipe Ribeiro, Professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), acabou de publicar seu artigo “Entre biografias e trajetórias de pesquisa(dores): memória operária e reflexões de um historiador nativo” na revista Escritas do Tempo, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA).

Neste texto, o autor compartilha experiências enquanto historiador descendente de trabalhadores têxteis, buscando pontuar dilemas, inseguranças, aprendizados e desafios ao escolher como objeto de pesquisa a cidade industrial em que nasceu. Partindo da noção de historiador nativo, Felipe Ribeiro ressalta o surgimento de uma geração de pesquisadora(e)s nas universidades brasileiras com este perfil – oriundo de famílias operárias ou cidades com forte tradição fabril, tendo estas experiências como foco de pesquisa – e propõe reflexões sobre novas formas narrativas para a história do trabalho.     

O artigo compõe o dossiê “Biografias e Trajetórias: vidas por escrito”, organizado pelos professores Geovanni Gomes Cabral (UNIFESSPA), Benito Bisso Schimdt (UFRGS) e Wilton Carlos Lima da Silva (UNESP-ASSIS). 

Para conferir o texto, basta acessar o link: https://periodicos.unifesspa.edu.br/index.php/escritasdotempo/article/view/1233

Crédito da imagem: Acervo de Ademir Calixto e Loemir Nascimento.