Livros de Classe #13: A hidra de muitas cabeças, de Peter Linebaugh e Marcus Rediker, por Felipe Azevedo

Neste vídeo, Felipe Azevedo, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), apresenta a obra A hidra de muitas cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico Revolucionário, de Peter Linebaugh e Marcus Rediker. Lançado em 2000, e traduzido para o português em 2008, o livro desafiou o “nacionalismo metodológico” e contribuiu para a recente renovação da História Social do Trabalho.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Resenha: História social da ditadura civil-militar e o Ministério do Trabalho no governo Castelo Branco (1964-1967) – Samuel Oliveira

A resenha publicada na revista História (São Paulo) por Samuel Oliveira, professor e pesquisador do LEHMT-UFRJ, aborda o livro O Sindicato que a ditadura queria (2018), de Heliene Nagasava.

O texto ressalta a originalidade do livro no campo de estudo da ditadura ao propor uma reflexão sobre o Ministério do Trabalho no governo Castelo Branco (1964-1967) e o que seria o “novo trabalhismo”.

A resenha está disponível em https://www.scielo.br/j/his/a/yP4N8ZJDW7fppcpkp7S9d5k/?lang=pt

Chão de Escola #21: Rodrigo Patto (UFMG) fala sobre o golpe de 1964, ditadura militar e suas reflexões para professores da Educação Básica



Obrigado por aceitar o convite do CHÃO DE ESCOLA, para falar do seu novo livro “Passados presentes – o Golpe de 1964 e a ditadura militar” (2021). Gostaríamos de saber quando surgiu a ideia de escrever um livro voltado para o debate público sobre a ditadura militar?

A ideia surgiu durante a fase mais aguda da pandemia. O isolamento social significou o fim das frequentes viagens que eu fazia para o desempenho de atividades profissionais, gerando uma disponibilidade de tempo que resolvi aplicar na produção do livro. Mas a motivação principal foi mesmo contribuir para o debate público sobre a ditadura e enfrentar os discursos que defendem uma memória positiva sobre o período. Temos presenciado uma politização e manipulação ideologicamente orientada da história com objetivo de construir versões moldadas para justificar a ditadura, e que poderiam oferecer fundamento a novos projetos autoritários. Tais discursos negam o caráter golpista de 1964 e a construção de uma ditadura na sua sequência, além de minimizarem a violência e escamotearem outros aspectos da história que não interessam a seus projetos políticos, ao mesmo tempo em que demonizam os adversários de esquerda. Então, o propósito principal com o livro foi apontar os equívocos, a manipulação e o falseamento da história promovidos por esses defensores de 1964, mostrar porque foi um golpe e uma ditadura, e explicar por que ela não nos legou um país melhor, muito ao contrário. Mas o livro também representa um diálogo com a historiografia, pois alguns capítulos abordam temas quentes nas interpretações sobre a ditadura como as motivações dos golpistas, a máquina política daquele regime, as atitudes sociais frente à ditadura, a dinâmica da distensão e da abertura e o papel das forças de resistência no processo de democratização.

Você tem pesquisas concentradas na história do século XX e alguns livros paradidáticos sobre temas da história política. Como esse livro atual pode auxiliar o professor a refletir sobre a prática de ensino de História?

Um dos objetivos do livro é exatamente alcançar os professores de História do nosso sistema escolar. A expectativa é oferecer-lhes material útil à reflexão sobre a história recente do Brasil, mas também para a montagem de material didático. A situação que temos vivido nos últimos anos é muito preocupante, pois grupos da direita mais autoritária têm se esforçado para divulgar discursos conservadores sobre a História, especialmente sobre o período da ditadura, com vistas a formar a opinião política dos brasileiros. Essa ofensiva passa pela produção de mensagens de fácil divulgação, principalmente vídeos distribuídos pelas redes sociais, mas também pelo ataque às universidades e ao sistema escolar, com o objetivo de retirar do cenário (ou da luta) os/as profissionais que representam empecilho a tais projetos autoritários. Então cabe a nós resistir, e a resistência implica evitar que eles destruam ou ocupem o sistema escolar e universitário, e impedir que dominem o debate público sobre a história da ditadura. Nesse livro, ofereço alguns argumentos e análises de que os professores podem se apropriar para debater com seus alunos e comunidades, ajudando-os a compreender por que a ditadura militar foi nefasta e não pode ser elogiada e muito menos ainda restabelecida.

Os trabalhadores foram especialmente afetados pela ditadura. Na sua visão, quais foram as principais transformações que ocorreram nos mundos do trabalho durante o regime militar?

Os trabalhadores rurais e urbanos foram profundamente afetados pela ditadura. De um lado, porque eram alvos das políticas de repressão e controle social, que tinham como objetivo impedir que a resistência proveniente desses setores desestabilizasse o Estado autoritário. Daí o expurgo dos líderes mais combativos e alinhados à esquerda, que foram presos, tiveram direitos políticos cassados e em alguns casos se exilaram ou passaram a viver na clandestinidade; a intervenção na direção dos sindicatos, para retirar do comando os líderes inclinados à resistência, ou impedir que fossem eleitos; e a constante vigilância nas fábricas (inclusive com auxílio das empresas) para anular novas lideranças que foram surgindo ao longo da ditadura. As políticas estatais de arrocho salarial e de cancelamento de direitos (como o fim da estabilidade no emprego) exerceram também importante impacto sobre a vida dos trabalhadores e suas famílias, lembrando que tais medidas correspondiam aos objetivos de atrair investimentos e aumentar os lucros das empresas. Com isso, a política econômica da ditadura gerou aumento da concentração de renda no Brasil, levando à ampliação da distância entre ricos e pobres. Mas há outro aspecto importante a considerar quando pensamos nos impactos da ditadura sobre o mundo do trabalho. Uma das principais estratégias dos líderes da ditadura para manter-se no comando, e para aumentar o poder da corporação militar, foi buscar a aceleração do crescimento econômico bruto e da industrialização. Disso não decorreu qualquer “milagre” econômico, até porque os custos sociais e políticos foram altos, mas alguns setores produtivos se expandiram e se modernizaram tecnologicamente (mas não socialmente), em especial a indústria. Uma modernização conservadora e autoritária, portanto. Essa política da ditadura, assim como outras, gerou resultados paradoxais, pois a razão de ser do regime autoritário era preservar a ordem social tradicional, porém, a urbanização e a industrialização aceleradas levaram à expansão da classe trabalhadora fabril, que se tornou uma das grandes protagonistas da luta contra a ditadura militar e pela democratização do país. Portanto, a expansão industrial promovida pela ditadura acabou contribuindo para sua crise, na medida em que o peso social e político do operariado foi sendo ampliado e surgiu uma forte liderança sindical que se tornou vanguarda e modelo para outros movimentos sociais democráticos.

No livro, você faz distinção entre comportamentos de adesão, resistência e acomodação na relação da sociedade com o regime militar. Como a relação dos trabalhadores com a ditadura pode ser compreendida através dessas noções?

R: Devo dizer, em primeiro lugar, que não fiz pesquisas especificamente voltadas para os trabalhadores, e sim para as atitudes de grupos de elite (as comunidades universitárias) diante da ditadura. De toda forma, acredito que essa tipologia pode ser aplicada também à classe trabalhadora. A mais evidente e significativa atitude dos trabalhadores foi a resistência, que já comentei na questão anterior. Os trabalhadores conduziram muitas ações de resistência, seja questionando as políticas que arrochavam salários ou cortavam direitos sociais, seja criticando as intervenções autoritárias no comando das entidades associativas. Mas as suas principais formas de luta foram as greves, que em contexto ditatorial eram em si atos de resistência. E os trabalhadores realizaram inúmeras greves, com destaque para os eventos de 1968 (em Contagem e Osasco), mas, principalmente, para o ciclo grevista iniciado pela greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em maio de 1978, que abriu caminho à eclosão de uma série de paralisações em diferentes setores da economia e do serviço público. Centenas de greves ocorreram nos anos seguintes, contribuindo para minar o poder da ditadura e abrir caminho à transição democrática. Mas a resistência não teve igual intensidade em todo o período, e nem todos resistiram, de outro modo, a ditadura não teria durado duas décadas. É desagradável constatar que o regime autoritário teve apoio, mas isso é necessário, inclusive para entendermos a situação política recente no Brasil, em que vivemos novamente um momento de ascensão de movimentos de direita (uma tendência que, felizmente, está sendo revertida). A adesão à ditadura foi um comportamento mais frequente em segmentos de elite, no empresariado, na mídia, no serviço público, nas classes médias, que foram os seus sustentáculos principais. Mas entre os trabalhadores também houve adesões, mesmo que tenham sido minoritárias no conjunto da classe. Por exemplo, aquelas lideranças que aceitaram o papel de interventores nos sindicatos anteriormente dirigidos por líderes de esquerda, comportaram-se como aderentes à ditadura, seja por convicção ideológica ou por oportunismo. Por outro lado, a atitude de certos líderes trabalhistas parece se aproximar mais da acomodação, ou seja, não aderiram, mas tampouco resistiram à ditadura, buscaram um caminho do meio, ambíguo e com menos riscos. Creio que essa foi a atitude de alguns líderes sindicais durante a ditadura, cuja ambiguidade evitou serem atingidos pela repressão na fase aguda do regime militar, e no processo de abertura e redemocratização permitiu que se reciclassem e adotassem posturas mais combativas e progressistas.
Sem dúvida, a questão da adesão e da acomodação de lideranças sindicais e de parte dos trabalhadores precisa ser ainda mais pesquisada. De qualquer forma, imagino que essas pesquisas irão revelar menor incidência desses comportamentos entre os trabalhadores. Essa conjectura é baseada nas pesquisas de opinião disponíveis (e citadas no livro), cujos dados mostram que o apoio ao golpe de 1964 foi menor entre os segmentos de baixa renda, assim como foi menor sua adesão a um dos valores predominantes entre os golpistas, o anticomunismo. Em suma, considerando os vinte anos de duração da ditadura, entre os trabalhadores foi mais frequente a indisposição e a resistência frente àquele regime político do que atitudes de simpatia e de adesão.


Rodrigo Patto Sá Motta é professor adjunto de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e autor dos livros livro Em Guarda contra o Perigo Vermelho: o anticomunismo no Brasil (2002), Jango e o Golpe de 1964 (2006), As Universidades e o regime militar (2014). Publicou os seguintes livros paradidáticos A Segunda Grande Guerra – do nazi-fascismo à Guerra Fria (1994) e Introdução à história dos partidos políticos brasileiros (1999).


Crédito da imagem de capa: Capa do livro Passados Presentes: o golpe de 1964 e a ditadura militar (2021). Disponível em: https://ftp.zahar.com.br/detalhe.php?codigo=4103101


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Vozes Comunistas #01: Gregório Bezerra





Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

“Vozes comunistas” é uma série especial do Vale Mais, podcast do LEHMT/UFRJ, em que homenageamos o centenário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e divulgamos áudios que permitem uma reflexão sobre as fortes e complexas relações entre o partido e os mundos do trabalho ao longo da história do país. A cada quinze dias, um trecho de uma entrevista de antigos sindicalistas, lideranças operárias e camponesas ou mesmo trabalhadores/as de base conta um pouco da história do PCB e sua importância para a história do trabalho no Brasil. Pesquisamos áudios em acervos públicos e particulares de todo o país, que serão apresentados por pesquisadores e historiadores especialistas na trajetória do partido. Em nosso episódio de estreia, lançado na semana do centésimo aniversário do PCB, apresentamos trechos de uma entrevista realizada em 1983 (cuja íntegra encontra-se no arquivo do CPDOC/FGV) com o icônico líder camponês pernambucano Gregório Bezerra. Essa voz comunista é apresentada pela historiadora Dulce Pandolfi.

Projeto e execução: Ana Clara Tavares, Felipe Ribeiro, Larissa Farias e Paulo Fontes
Apoio: Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Agradecemos às instituições e pesquisadores que gentilmente colaboraram com nosso projeto.

Referência da entrevista: Entrevista Gregório Bezerra. Fita 2. 01.02.1983. Entrevistadora: Dulce Pandolfi. Acervo CPDOC/FGV.

Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci Vale Mais

Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ. Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro. Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  2. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  3. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  4. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga
  5. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz

20º Encontro de História da ANPUH-Rio – História social do trabalho hoje: desafios e perspectivas

Entre os dias 18 e 22 de julho será realizado o 20º Encontro de História da ANPUH-Rio, de forma presencial na UERJ/FFP. As coordenadoras do GT Mundos do Trabalho e pesquisadoras do LEHMT, Claudiane Torres e Renata Moraes, irão coordenar o Simpósio Temático 12 – História social do trabalho hoje: desafios e perspectivas. Esse simpósio repete a estrutura do realizado em 2020, consolidando nos encontros regionais da ANPUH-Rio um ambiente profícuo de debate a respeito da história do trabalho. A proposta desse simpósio é reunir historiadores da história social do trabalho nas suas diversas perspectivas e possibilidades de abordar o trabalho a partir de diferentes enfoques, tais como organizações de trabalhadores, cotidianos, relações de gênero, interétnicas, processos e tecnologias de trabalho, relações entre trabalho livre e trabalho compulsório, identidades, correntes políticas, perspectivas globais, entre outros. As inscrições para apresentação de trabalho vão até o dia 31 de março.

Para mais informações e inscrição: https://encontro2022.rj.anpuh.org/

Livros de Classe #12: O problema do sindicato único no Brasil, de Evaristo Moraes Filho, por Ângela de Castro Gomes

Na estreia do seu segundo ano, a série Livros de Classe traz um episódio especial em homenagem aos 70 anos da primeira edição do livro O problema do sindicato único no Brasil: seus fundamentos sociológicos, de Evaristo Moraes Filho. Apresentada pela professora Ângela de Castro Gomes (UERJ), a obra é considerada um dos primeiros clássicos da História Social do Trabalho.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Chão de Escola #20: Introdução ao tema trabalho no currículo de História, por Claudiane Torres



Claudiane Torres da Silva (Professora de História SME-RJ)



Apresentação da atividade

Segmento: 1º ano do Ensino Médio

Unidade temática: Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades.

Objetivos gerais:

– Caracterizar o conceito histórico e sociológico de trabalho
– Relacionar o trabalho com a organização política e social em sociedades distintas
– Apresentar as diversas formas de trabalho ao longo da história

Objeto de conhecimento: Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em especial, os jovens e as gerações futuras, levando em consideração, na atualidade, as transformações técnicas, tecnológicas e informacionais.

Duração da atividade:  

Aulas Planejamento
01Debate dialogado sobre o trabalho como tema transversal ma educação.
02Etapa 1
03Etapa 2
04Etapa 3

Conhecimentos prévios:

– Apresentação de um debate dialogado que propõe pensar trabalho como tema transversal na Educação e o significado disso para os(as) estudantes.


Atividade

Atividade e recursos: Textos, fotocópia, datashow e vídeos.

Professor(a), inicie a atividade dialogando com os(as) estudantes sobre o que eles entendem por trabalho. Procure mapear as principais ideias sobre o que significa trabalho na vida dos(as) estudantes. Esse debate servirá para problematizar algumas questões que vamos abordar ao longo dessa atividade. A ideia é registrar o que os(as) estudantes pensam antes da apresentação do tema de forma problematizada e depois quando o tema já estiver elaborado. Após esse registro prévio sobre o que os(as) estudantes pensam sobre trabalho, leia o que diz o texto a seguir sobre temas transversais na BNCC que servirá para você preparar a apresentação do conceito de “trabalho e consumo” na base. Observe o que o texto apresenta como objetivo principal para abordar temas transversais em sala de aula e avalie criticamente como o conceito de trabalho está atrelado ao consumo e a vida contemporânea invisibilizando todo o percurso histórico que o conceito trabalho significa para as mais diversas sociedades em diferentes tempos históricos.

Etapa 1: Trabalho como conceito

Professor(a), nesta etapa, divida a turma em grupos de, no máximo, cinco estudantes para um debate. A proposta é apresentar a cópia de vários textos e verbetes que apresentem o tema Trabalho como conceito e solicitar que todos os grupos leiam o trecho e apresentem suas considerações ressaltando o que mais chamou atenção deles nos trechos abaixo.

Texto I: Definição de trabalho no dicionário da Língua Portuguesa

Aplicação das forças mentais ou físicas na execução de uma obra realizada; lida; fadiga; esforço; ocupação; emprego; obra realizada; ação dos agentes naturais; feitiço; despacho; aflições; cuidados; empreendimentos (LUFT, 1991, p. 606).

Texto II: Trabalho como categoria

À categoria trabalho são atribuídos inúmeros significados, o que faz com que, muitas vezes, seja empregada de forma vaga e imprecisa. Entre os significados, o trabalho é muito pronunciado pelo seu sentido de ausência enquanto mercado de trabalho, confundindo-se com o emprego e a sua falta. (…) Alguns autores, entre eles Suzana Albornoz (1992), apresenta uma síntese dessas significações entre as línguas da cultura europeia. Segundo ela, o grego distingue fabricação de esforço, este como oposto ao ócio. O latim distingue entre laborare, como sendo a ação do labor – dor, sofrimento, fadiga e, operare que corresponde a opus – obra. O italiano distingue entre lavorare e operare e o espanhol entre trabajar e obrar.

Texto III: Trabalho na perspectiva cristã

Na perspectiva cristã, o trabalho humano aparece como uma forma de domar a natureza, lugar do mal e do inacabado, o que acaba por santificar a ação daquele que a transforma, o trabalhador. Na sujeição da natureza, a possibilidade de aproveitá-la para o bem e para o enriquecimento dos homens (BRANDÃO, 1994).
Na tradição judaico-cristã e em muitos dos mitos que referem à origem das sociedades humanas, o trabalho é sinônimo de uma labuta, sempre penosa, para a qual o homem está fadado. O trabalho será então punição (ALBORNOZ, 1992). (…)
Nesta mesma tradição, o trabalho é o castigo pelo pecado original, ou então pela transgressão de alguma proibição. Não é o ócio e o prazer, mas a atividade penosa que aumenta a glória de Deus. (…) É com a Reforma Protestante que se vai dar um novo sentido ao trabalho, que passa a ser a chave da vida. Contudo, o bom trabalho, expressão aristotélica, será reservado a alguns poucos, embora todos devam trabalhar para que o produto do esforço de uns não seja cobiçado por outros.

Texto IV: Trabalho como vocação

Max Weber, na obra “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1980, p. 186), ressalta o ethos em torno do qual se organiza o espírito do capitalismo e as alterações no conceito de trabalho: “…Ganhar dinheiro dentro da ordem econômica moderna é, enquanto for feito legalmente, o resultado e a expressão de virtude e de eficiência em uma vocação …”. Em verdade, é a ideia de um dever profissional que está colocado, com vistas à organização racional do trabalho, em torno da empresa, a qual o trabalhador deverá se adaptar. O trabalho ganha, então, o sentido de vocação, com um fim em si mesmo, como um valor com qualidades éticas voltadas ao bem comum condizentes com o capitalismo, onde a influência da educação religiosa, que estimula a concentração mental e o sentimento de obrigação, torna-se essencial na combinação do trabalho com a produção econômica. Rompe-se, desta forma, com os conceitos de trabalho tradicional, especialmente o trabalho artesanal, manual e o labor doméstico, em suas formas de quantidade e relações, círculo de fregueses, modo de vida, etc. Atribui-se, assim, um novo sentido ao trabalho, que ganha força com o desenvolvimento do capitalismo ocidental moderno, demonstrando a inversão de valores que a sociedade burguesa teve de promover para justificar o culto ao trabalho como atividade livre que enobrece, que gera riqueza, ao contrário da tradição que reservava o trabalho ao escravo e ao artesão.

Texto V: Trabalho na antiguidade

Na Antigüidade, o desprezo pelo labor era porque este não deixava grandes obras, representava especialmente o interesse da esfera privada e, por isto, era considerado de menor valor. “Laborar significava ser escravizado pela necessidade, escravidão esta inerente às condições da vida humana” (Arendt, 1995, p. 94). Camponeses eram considerados como escravos, fazedores de labor, porque produziam o necessário para a vida. Na Grécia, a divisão entre o trabalho braçal e intelectual distinguia os lugares dos homens e das mulheres na vida pública e privada. Na Renascença, o trabalho manual passou a ser visto como estímulo para o desenvolvimento do homem. Com o surgimento da ciência moderna, a transformação da natureza não recai mais sobre os escravos, mas sobre os homens livres. A contemplação dos filósofos ainda é o mais importante, mas o trabalho manual passa a ter mais prestígio.

Texto VI: Trabalho como valor

O trabalho como valor retoma, de certa forma, a questão da centralidade do trabalho difundida ao extremo na sociedade moderna –, que refere especialmente à capacidade do trabalho em constituir-se num centro organizador de atividades e de atitudes humanas, de referências sociais e de orientações morais – agora problematizando o direito ao trabalho – o direito de trabalhar no sentido do emprego – como uma forma de inclusão social, como sugere Olivier Mongin (1996, p. 74): “… Não conhecemos outro tipo de integração, nas nossas democracias atuais, que não seja a que passa pelo trabalho”. Ainda na perspectiva dos valores, Leonardo Boff (2000, p. 92), na sua discussão sobre o ser no mundo, a partir de Heidegger, afirma que o trabalho constitui-se numa das duas formas de o ente humano existir e coexistir. Segundo ele, “fundamentalmente, há duas formas de ser-no-mundo: o trabalho e o cuidado. Aí emerge o processo de construção da realidade humana”.

Fonte dos textos: ZUCCHETTI, Dinora Tereza. O trabalho como conceito, valor e formação. Prâksis – Revista do Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes, p. 09 – 13, acessada no site file:///C:/Users/claud/Downloads/O_trabalho_como_conceito_valor_e_formaca.pdf

Após a leitura, debate e apresentação dos trechos pelos(as) estudantes, peça que registrem no caderno as seguintes questões:

  1. O conceito de trabalho sempre foi o mesmo ao longo da História e nas sociedades? Justifique sua afirmação.
  2. Em que períodos históricos foi percebido uma alteração significativa do conceito de trabalho? Apresente dois períodos segundo os trechos apresentados.

Etapa 2: O trabalho como conceito histórico e sociológico: os desafios

Professor(a), nesta etapa, apresente os vídeos 1 e 2 para reforçar a ideia de trabalho como conceito histórico e sociológico. Pare o vídeo em alguns momentos e registre tópicos no quadro que oriente o debate do conceito de trabalho ao longo da História.
Para instrumentalizar o debate com os alunos sobre o trabalho como conceito histórico e sociológico, inicie um debate com os(as) estudantes sobre as condições de trabalho no século XXI atualmente, o papel da escola em abordar esse tema e como ele deve ser objeto de reflexão dos futuros e atuais trabalhadores e trabalhadoras. Para tal, convido o(a) professor(a) a ouvir e assistir a palestra “Os desafios do Trabalho no século XXI” do Professor Ricardo Antunes (Unicamp) no link https://www.youtube.com/watch?v=MngrxshE5XY 

Vídeo I: Os sentidos do trabalho ao longo da história (Canal Professor Ricardo Normanha)

O trabalho é uma categoria central para a Sociologia. E o sentido do trabalho sofreu grandes transformações ao longo da história da humanidade.

Tempo: 8´16´´

Vídeo II: História do Trabalho no Brasil (Canal Professor Ricardo Normanha)

Nesse vídeo abordaremos de forma panorâmica a história do trabalho e da classe trabalhadora no Brasil.

Tempo: 24´26´´

Após a exibição dos vídeos e o debate sobre os principais desafios sobre o trabalho no século XXI, faça as seguintes indagações aos estudantes:

  1. Por que os desafios da compreender o trabalho requer estudar História e Sociologia? Que contribuições essas disciplinas poderiam oferecer ao conceito de trabalho?
  2. Quais os pontos mais importantes do vídeo História do Trabalho no Brasil e como você vê a classe trabalhadora no Brasil atualmente?

Etapa 3: Precarização do trabalho no século XXI

Professor(a), apresente o documentário Autogerencimento subordinado: curta-metragem sobre precarização e uberização do trabalho.

O curta Autogerenciamento Subordinado trata sobre as condições de vida dos trabalhadores que prestam serviços para empresas de aplicativos. Essa modalidade de trabalho flexível que ficou conhecida como “uberização” ou autogerenciamento subordinado é uma consequência do desemprego e do neoliberalismo que ajuda a elevar os níveis de informalidade. Direção: Gabriel Coutinho, Thaís Gildo, Marcos Paulo Carvalho e João Pedro de Castro.

Nesta etapa, estimule o debate sobre os mundos do trabalho no Brasil atualmente e distribua a cópia da matéria do jornal Nexo a seguir.

Peça para os estudantes pesquisarem matérias de jornais sobre a reforma trabalhista de 2017 e os impactos dela na vida do trabalhador. Em seguida, solicite que os grupos produzam cartazes com os avanços e retrocessos no mundo do trabalho e a importância de compreender o trabalho como um conceito e um objeto da História.



Bibliografia e Material de apoio:

ALBORNOZ, Suzana. O que é o trabalho. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.

ZUCCHETTI, Dinora Tereza. O trabalho como conceito, valor e formação. Prâksis – Revista do Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes, p. 09 – 13.

Temas contemporâneos transversais na BNCC. Contexto histórico e pressupostos pedagógicos. Ministério da Educação, 2019. Acessado no site http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/implementacao/contextualizacao_temas_contemporaneos.pdf

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2000. 

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Somos as águas puras. Campinas: Papirus, 1994.

FRIGOTTO, Gaudêncio (org). Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis: Vozes, 1998.

LUFT, Celso Pedro. Minidicionário. 3. ed., São Paulo: Ática. 1991.

MONGIN, Olivier. O desencantamento democrático. In: MORIN, Edgar et al. A sociedade em busca de valores: para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo. Lisboa: Instituto Piaget, 1996. 

WEBER, Max. Os pensadores. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980.


Créditos da imagem de capa: https://congressoipufrj.wordpress.com acessado em 20 de fevereiro de 2022.



Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Contribuição Especial #22: Qual é a verdadeira origem do Dia Internacional das Mulheres?



Gabriela Mitidieri
Historiadora feminista da Universidade de Buenos Aires e
Integrante da Associação Argentina para a Pesquisa sobre a História das Mulheres e Estudos de Gênero (AAHIMEG)


Um incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York? Tudo começou assim? Nesse pequeno artigo procuramos não apenas revisar o mito fundacional do Dia Internacional das Mulheres como também analisar as disputas para que fosse esse e não outro o acontecimento que terminou sendo recordado. Quais foram os motivos, os interesses políticos? Que sujeitos e que lutas ficaram nos bastidores quando se definiram os contornos precisos de uma efeméride? Bem vindos e bem vindas a uma história global conectada em que se entrelaçam as andanças de costureiras e sufragistas norte-americanas, rebeldes russas, socialistas reunidas na Dinamarca e muito mais.

Cada 8 de Março ativa um sentimento de irmandade feminista internacional que, além de nos conectar com lutas contemporâneas ao redor do mundo, nos torna herdeiras de uma rica história de pioneiras que nos precederam. Sem dúvida, na hora de responder à pergunta sobre a origem da efeméride, até a mais aguerrida e embasada militante começa a balbuciar.

É difícil entender o que tem a ver um incêndio em uma fábrica têxtil, uma greve de operárias, a luta pelo sufrágio feminino, as andanças da socialista alemã Clara Zetkin e até a Revolução Russa com as origens do 8 de Março. Vamos examinar as costuras da fabricação de um mito e as disputas que levaram a que um relato histórico em particular saia vitorioso quando nos perguntam o que aconteceu no 8 de março. Comecemos.

O incêndio da Triangle Shirtwaist Company

Esta é uma das origens favoritas: o 8 de março de 1857. Logo após uma poderosa greve por melhores condições de trabalho, centenas de operárias teriam sido brutalmente assassinadas em um incêndio provocado pelos próprios donos da fábrica em que trabalhavam. As historiadoras que reconstituíram esse episódio chegaram a conclusão que a) o incêndio aconteceu e b) a greve ocorreu. Mas não ocorreram juntos em 1857 e nem em um 8 de março.  O incêndio foi no dia 25 de março de 1911 e ceifou a vida de 146 trabalhadorxs, em sua maioria mulheres. A greve foi anterior, em setembro de 1909. Começou na Triangle Shirtwaist e contou com a adesão de cerca de 40 mil trabalhadorxs do setor de confecção de Nova York durante 13 semanas. Não foi uma greve vitoriosa, mas mostrou a capacidade de coordenação e perseverança das operárias da cidade.

Quais significados dessa origem sobreviveram? Nem sempre nesse mito se menciona a greve que precedeu ao incêndio. Talvez haja aí uma disputa conhecida: como conseguir que não seja o status de vítima o único que se diga de nós. E também e exercício de recordar que, juntas, é possível sustentar uma greve de quase 100 dias.

Um Woman’s Day sufragista

Contar a história desse outro marco do dia das mulheres requer conectar alguns pontos do hemisfério norte que mostram a existência de sólidas redes internacionalistas no começo do século XX. Em agosto de 1907 ocorreu em Stuttgart a I Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. Ali, Clara Zetkin argumentou sobre a importância de apoiar a luta pelo sufrágio feminino em todo o mundo. Em maio do ano seguinte, militantes socialistas dos Estados Unidos adotaram a iniciativa de Zetkin e definiram o último domingo de fevereiro para realizar manifestações para difundir a causa das sufragistas socialistas num grande Woman’s Day. O sucesso foi tanto que a iniciativa se repetiu em 1909. Repercutindo o sucesso, Zetkin redobrou a aposta. Em 1910, na II Conferência Internacional, desta vez em Copenhague, ela apresentou uma moção para organizar a celebração de um Dia Internacional da Mulher com a intenção de amplificar a luta pelo direito ao sufrágio feminino. Um 8 de Março? Bem, ainda não. Naquele ano e nos seguintes a data foi variando de país a país entre o 19, o 12 e o 2 de março.

Um 8 de Março que desembocou em Revolução

Um dia internacional da Mulher que caiu em um 8 de março foi o que ocorreu em 1917, em Petrogrado. Claro que o calendário juliano vigente na Rússia czarista marcava para aquelas mulheres o dia 23 de fevereiro, de modo que até o primeiro 8 de Março de que temos notícia documentada poderia ser questionado por quem estiver em busca de efemérides precisas. Aqui se combinaram dois processos históricos simultâneos: as reuniões anuais de mulheres socialistas da Rússia, que desde 1913 ocorriam a fins de fevereiro, e o mal estar generalizado causado pela carestia de alimentos e pela participação russa na Primeira Guerra Mundial.

Protestos massivos protagonizados por mulheres naquele 8 de março (ou 23 de fevereiro?) levaram à queda do Czar, à Revolução de Fevereiro, e depois à mais famosa Revolução de Outubro. A participação de uma das mais destacadas líderes da insurreição popular, a bolchevique Alexandra Kollontai no Zhenotdel – uma espécie de ministério de gênero daquele momento – foi prova do engajamento feminista nos inícios da revolução. 

Escrever e re-escrever a história

A história do 8 de Março é um exemplo perfeito de como o passado é um território em disputa e de como os apagamentos e apropriações nunca são inocentes. A historiadora espanhola Isabel Álvarez González nos conta que pouco restou dessa marca de origem insurgente, em parte por obra do stalinismo que buscou enaltecer as russas só como mães, e em parte porque depois da Segunda Guerra Mundial, por iniciativa da recém criada ONU, o 8 de Março se impôs como o dia para lembrar o trabalho das mulheres pela conquista da paz mundial. Também pode ser que, em tempos de Guerra Fria, fosse mais palatável nos Estados Unidos a comemoração de um incêndio numa fábrica têxtil  do que as gigantescas manifestações das socialistas no começo do século XX. De qualquer forma, a parte linda de uma lembrança é como ela brilha em um instante de perigo. Anos depois, o feminismo da Segunda Onda dos anos 1960 e 70 ia tomar em suas próprias mãos a data para transformá-la, de novo, em dia de luta.  Mas essa é uma outra história….


Tradução de Cristiana Schettini e Paulo Fontes.
Publicado originalmente em Diario com vos, 8/3/2022.


Crédito da imagem de capa: O crédito da imagem é: Festa do Dia do Trabalho no Clube de Regatas Vasco da Gama, Rio de Janeiro, RJ. 01/05/1942. Fundo Agência Nacional. Arquivo Nacional. Notação: BR_RJANRIO_EH_0_FOT_EVE_02721_d0025de0030

Artigo “A Revolução de 1930 e os sindicatos. História e historiografia do trabalho” – Paulo Fontes e Isabelle Pires

Paulo Fontes, professor do IH/UFRJ e coordenador do LEHMT/UFRJ e Isabelle Pires, doutoranda do PPGHIS/UFRJ e pesquisadora do LEHMT/UFRJ, publicaram o artigo “A Revolução de 1930 e os sindicatos. História e historiografia do trabalho” na recém lançada coletânea A Era Vargas (1930-1954) organizada por Marco Aurélio Vannucchi e Luciano Aronne de Abreu e publicada pela editora da PUC-RS. 

Dividida em 2 volumes que totalizam cerca de 900 páginas, a coletânea reúne 25 artigos de diversos especialistas que abordam variados aspectos da história daquele período, procurando dar uma visão abrangente do período, tratando de forma inovadora temas considerados clássicos (como a reorganização do Estado, o integralismo, as relações de trabalho, a economia e as Forças Armadas), mas, igualmente, de temas novos (como o movimento negro, o movimento feminista, o futebol e a questão ambiental). Dessa forma, ela se diferencia de outras iniciativas editoriais do gênero pelo mergulho profundo em um período específico da história brasileira. A motivação dos organizadores da coletânea foi oferecer textos de alta qualidade, redigidos de acordo com os padrões do trabalho científico, porém com uma linguagem acessível. Assim, ela destina-se a qualquer leitor interessado. Os capítulos foram encomendados a reconhecidos especialistas nos assuntos tratados, que incorporaram tanto as obras mais antigas que continuam influentes quanto a literatura mais recente.  

Paulo Fontes e Isabelle Pires, em seu artigo, realizam um abrangente estado da arte da historiografia sobre o sindicalismo nesse período tão fundamental para a história do trabalho no Brasil.  O artigo percorre a produção acadêmica e política sobre os sindicatos nos anos 1930 desde os estudos realizados naquele período até os temas e discussões da historiografia mais recente, num amplo balanço sobre o tema.

Acesse o sumário do volume 1 e 2 da publicação A Era Vargas.

Vale Mais #18: Trabalhadores negros e a política social





Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #18 do Vale Mais é sobre as origens da política social brasileira e os trabalhadores negros.

Neste décimo oitavo episódio do Vale Mais, conversamos com Gracyelle Costa, professora do Departamento de Política Social e Serviço Social Aplicado, na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela fez seu doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que se intitula “Raça e nação na origem da política social brasileira: união e resistência dos trabalhadores negros” com orientação de Carla Cristina Lima de Almeida. Seu trabalho foi contemplado com o Prêmio Capes de Teses – Edição 2021, promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).  Gracyelle tem como temas o trabalho, as políticas sociais e a raça. Nesse episódio conversamos sobre as intercessões do campo do serviço social com a história social do trabalho no que envolve os dilemas da formação da classe trabalhadora no Brasil. Aqui Gracyelle abordou as percepções sobre a Lei Eloy Chaves de 1923 e marcou a importância dos trabalhadores e trabalhadoras negras na formação da classe trabalhadora em um país marcado pela escravidão e silenciamento dessas pessoas.

Produção: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias
Roteiro: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias 
Apresentação: Larissa Farias 

Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci Vale Mais

Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ. Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro. Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  2. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  3. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  4. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga
  5. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz