Como o historiador e a historiadora do trabalho poderão, no futuro, estudar uma greve totalmente organizada por troca de mensagens por aplicativos? O suporte material das fontes a serem utilizadas não será mais uma ata de reunião sindical ou panfletos. Toda a informação sobre a organização de um evento como este estará criptografada e processada por algoritmos, se existir. Há questões epistemológicas e de prática de pesquisa que a virada digital impôs e precisam ser discutidas. Esse é um exemplo do debate que é proposto pela revista Mundos do Trabalho, que publicou, em seu volume 13 (2021), a seção de debates “Fontes e acervos para a história do trabalho na era digital”.
O artigo que dá nome a seção foi escrito pelo pesquisador LEHMT-UFRJ e professor da PUC-Rio, Deivison Amaral, e pela pesquisadora associada do LEHMT-UFRJ e professora da UFRRJ, Fabiane Popinigis. O texto aborda, de forma geral, as novas questões epistemológicas enfrentadas por historiadores e historiadas após a virada digital e, de forma específica, as implicações disso para o campo da história do trabalho.
Além disso, a seção Debates da revista Mundos do Trabalho traz dois artigos. O primeiro, escrito pelo pesquisador associado do LEHTM-UFRJ e professor da UFRRJ, Alexandre Fortes, analisa a formação de profissionais da história na era digital. O segundo, escrito por Lucas Poy (UBA/CONICET), aborda arquivos e bibliotecas do movimento operário a partir da trajetória da International Association of Labor History Institutions.
José Robson da Silva (Professor na rede pública municipal de Campinas-SP)
Apresentação da atividade
Segmento: 9º ano do Ensino Fundamental, 3º ano do Ensino Médio e EJA.
Unidade temática: Modernização, ditadura civil-militar e redemocratização: o Brasil após 1946.
Objetivos gerais:
– Discutir o tema do populismo, seus múltiplos significados e a apropriação do conceito por diferentes atores políticos, questionando até que ponto o termo pode ser utilizado para deslegitimar estratégias de luta por direitos por parte das classes populares; – Discutir o tema da migração interna como um dos pilares da formação da formação da classe trabalhadora no período em questão; – Conhecer e refletir sobre algumas formas de organização de base dos trabalhadores no período.
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC)
(EF09HI06) Identificar e discutir o papel do trabalhismo como força política, social e cultural no Brasil, em diferentes escalas (nacional, regional, cidade, comunidade). (EF09HI09) Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.
Duração da atividade:
Aulas
Planejamento
01
Etapa 1 e 2
02
Etapa 3
03
Etapa 4 e 5
04
Etapa 6
Conhecimentos prévios:
– Imigração e movimentos sociais, sobretudo grevistas, na Primeira República; – Era Vargas, o Trabalhismo e a CLT; – Partidos políticos e eleições no pós-1945.
Atividade
Recursos: xérox, projetor, cartolina.
Etapa 1
Iniciar a atividade questionando aos alunos se eles já ouviram ou sabem o significado do termo “populismo”. A partir das respostas, explicar que o termo populismo já teve muitos sentidos dependendo da época e do local e que o termo é muito utilizado para designar o período entre 1945 e 1964, que é a primeira experiência democrática da História do Brasil. Através de uma aula expositiva dialogada, apresentarque, por muito tempo, a palavra populismo e populista carregou, e ainda hoje carrega, um sentido pejorativo, estando muito ligada à ideia de que as classes populares, especialmente os trabalhadores, eram vítimas de manipulação por parte de políticos inescrupulosos.
Solicite que os estudantes respondam a questão abaixo:
1. Identifique um político da atualidade que é identificado como populista e explique essa qualificação.
Etapa 2
Debata com os alunos até que ponto este sentido atribuído ao termo pode limitar o exercício da cidadania e a luta por direitos sociais em uma sociedade democrática, uma vez que qualquer política que atenda a anseios das camadas populares e que tenha como consequência apoio político e/ou votos pode ser classificada como populista e, assim, deslegitimada. Após questionar o conceito, para evidenciar que o termo populista poderia ser lido de uma maneira completamente diferente, realizar uma leitura coletiva de um trecho de uma palestra radiofônica de Ademar de Barros em 1949. Como se trata de um texto originalmente falado, seria interessante que ele fosse lido em voz alta.
A partir deste pequeno trecho da palestra, solicitar que os estudantes respondam as questões abaixo:
1. Pesquise quem foi Ademar de Barros e escreva um pequeno perfil do político. 2. Analise o discurso e responda as questões abaixo: a) A quem o discurso de Ademar de Barros era dirigido? b) Como ele caracteriza “ser populista”? c) Para Ademar, quem são aqueles que rejeitam o populismo?
Etapa 3
A partir das discussões chamar a atenção dos alunos para o processo de industrialização iniciado nos anos 1930 que se acelera nos anos 1940 e 1950, levando a um forte processo de migração para as cidades e à formação de uma numerosa classe trabalhadora urbana. A depender da localização da escola, fazer paralelos entre os bairros periféricos da época e as atuais regiões periféricas das nossas grandes cidades. Informar que, além das palestras radiofônicas, havia um partido político vinculado a Adhemar (o PSP), bem como uma grande participação de adhemaristas em associações de bairro, como as chamadas Sociedades de Amigos de Bairro (SABs), clubes de futebol e outras associações. Enfatizar que a relação entre Adhemar e seus eleitores não se baseava apenas na manipulação, mas tinha como pano de fundo demandas efetivas desta população. Para isto, apresente o texto abaixo, que deve ser lido coletivamente, e proponha as questões que o seguem, que devem ser respondidas por escrito e depois socializadas.
1. Os autores concordam ou discordam da ideia de que a relação das classes populares com políticos populistas seria baseada na manipulação? Justifique sua resposta. 2. Ainda segundo os autores, quais eram as questões centrais nas relações das classes populares com o poder público? 3. Para as classes populares, de que maneira o governo poderia agir para garantir a qualidade de vida? 4. O texto aponta duas características fundamentais do sistema populista. Quais seriam elas? 5. De que maneira as classes populares relacionavam-se com o voto no contexto analisado pelos autores? 6. Segundo os autores, em que se baseava o sucesso de Adhemar e Jânio? Isso confirma ou desmente a ideia de que o sucesso desses políticos se devia apenas ao seu carisma e poder de manipulação?
Etapa 4
Retomar a ideia de populismo discutida na etapa anterior, mostrando que ela se aplicava também à relação do Estado com os trabalhadores, vistos como passivos e manipulados pelo aparato estatal e sindicatos pelegos. Discutir rapidamente os aspectos principais da estrutura sindical criada pós 1930 e da legislação trabalhista. Enfatizar o contraste existente entre a memória do movimento operário pré e pós 1930, na medida em que, na memória do período pré-1930, enfatiza-se um sindicalismo de cunho anarco-sindicalista e esquece-se outras correntes, enquanto no período pós-1930 é enfatizado apenas um sindicalismo do tipo pelego. Pedir que os alunos levantem hipóteses sobre o que leva a esta diferença na memória relativa aos dois períodos. À medida que as hipóteses forem sendo levantadas, introduzir informações que permitam comparar os dois contextos, como o peso da população urbana e operária nos dois períodos; os tipos de indústria existentes em cada contexto; a forte imigração europeia no pré-1930 e o predomínio da migração interna no pós-1930. Questionar se uma certa visão estereotipada sobre os imigrantes europeus em oposição aos migrantes nacionais, sobretudo da região nordeste do país, não tem alguma influência nesta memória.
Etapa 5
Nesta etapa, os alunos, em pequenos grupos, devem realizar no caderno a análise das fontes que discutem a migração por meio da resolução das atividades propostas.
MIGRAÇÃO – Os relatos abaixo mostram distintas experiências de trabalhadores e trabalhadores migrantes entre os anos 1940 e 1960.
1. A FONTE 1 é um documento oficial produzido pelo estado de São Paulo. Como este documento descreve os migrantes? 2. A FONTE 2 descreve o processo de migração para a cidade de Ipatinga, no interior de Minas Gerais, no início dos anos 1960. Quais aspectos da situação dos trabalhadores migrantes descritos nesta fontesão comuns aos que são descritos na FONTE 1? 3. Quais os elementos indicados na FONTE 3 que podiam influenciar na decisão de um trabalhador em iniciar o processo de migração? 4. Leia com atenção as fontes nº 3 e n° 4 e indique as principais estratégias adotadas pelos trabalhadores migrantes do período. 5. Por que podemos dizer que o processo de migração não significava o fim dos laços sociais e de solidariedade forjados por esses trabalhadores nos seus locais de origem?
Etapa 6
Como atividade de finalização da sequência didática, realize uma roda de conversa com os estudantes, apresentando as fontes e discutindo as questões. Cada grupo deve apresentar as análises sobre cada documento. Discuta em que medida a imagem da migração nacional como algo desorganizado fazia sentido ou não para explicar a consciência de classe dos trabalhadores. Explique que ao contrário da imagem de passividade e irracionalidade política, os migrantes realizaram várias lutas para reivindicar direitos sociais para os trabalhadores e a sociedade de amigos de bairro e outras organizações políticas e sociais nas periferias urbanas evidenciam a construção da consciência de classe dos trabalhadores nas cidades.
Bibliografia e Material de apoio:
COSTA, Hélio da. Em busca da memória – Comissão de fábrica, partido e sindicato no pós-guerra. São Paulo, Scrita, 1995.
DUARTE, Adriano Luiz; FONTES, Paulo. O Populismo Visto da Periferia: Adhemarismo e Janismo nos Bairros da Mooca e São Miguel Paulista, 1947-1953. Cadernos AEL: populismo e Trabalhismo n.20/21. Campinas, 2004. pp. 83-121.
FONTES, Paulo. Um Nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista (1945-1966). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.
FONTES, Paulo; MACEDO, Francisco. Piquetes como repertório: organização operária e redes sociais nas greves de 1957 e 1980. Topoi,Rio de Janeiro , v. 18,n. 34, p. 23-47, Jan. 2017 .
GOMES, Angela Castro. A invenção do trabalhismo. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: FGV, 2005.
LEAL, Murilo. A reinvenção da classe trabalhadora (1953-1964).Campinas, Editora da Unicamp, 2012.
NEGRO, Antonio Luigi; SILVA, Fernando Teixeira da. Trabalhadores, sindicatos e política (1945-1964). In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. (org.). O Brasil republicano. O tempo da experiência democrática: Da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
SILVA, Fernando Teixeira e COSTA, Hélio. Trabalhadores urbanos e populismo: um balanço dos estudos recentes. In: FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
Créditos da imagem de capa: Fotografia de Marcel Gautherot. Trabalhadores construindo o Congresso Nacional, 1958. Fonte: CPDOC/FGV.
Chão de Escola
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Neste vídeo da série Livros de Classe, Benito Schmidt, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresenta a obra O retorno de Martin Guerre, de Natalie Davis. Publicado originalmente em 1982 e traduzido para o português em 1987, o livro traz importantes reflexões acerca da imaginação histórica, da metodologia e do uso de fontes para a história social do trabalho.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
O artigo foi escrito por Samuel Oliveira, pesquisador do Laboratório de Estudos do Mundo do Trabalho (LEHMT-UFRJ), e Marina Camisasca, doutoranda em História na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A partir do diálogo com a série Lugares de Memória dos Trabalhadores (coordenada por Paulo Fontes), e de pesquisa no acervo da polícia política e em jornais da Hemeroteca do Estado de Minas Gerais, os pesquisadores analisaram o auditório da Secretaria de Saúde e Assistência (atual, Minascentro), como espaço de construção da luta dos trabalhadores, enfocando a realização do Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas e do Congresso de Trabalhadores Favelados de Belo Horizonte. O artigo enfatiza a intersecção entre a luta social no campo e nas favelas na construção da agenda das reformas de base, durante governo Goulart (1961-1964), e apresenta a capital mineira como uma das centralidades políticas do ciclo de protestos dos trabalhadores nos anos 1960.
Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
O episódio #17 do Vale Mais é sobre “Novo trabalhismo”.
Neste nono episódio da segunda temporada do Vale Mais, conversamos com Heliene Nagasava. Heliene é servidora do Arquivo Nacional, pesquisadora do LEHMT/UFRJ e doutora em História, Política e Bens Culturais (2021), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), sob a orientação de Paulo Fontes. Ela defendeu recentemente a tese “O Ministério do Trabalho e as políticas públicas na ditadura militar: sindicatos, assistencialismo e repressão (1964-1974)” e, seguindo a série de conversas do Vale Mais com jovens doutores/as no campo da História Social do Trabalho, abordou sobre as implicações do Golpe de 1964 no Ministério do Trabalho, bem com as políticas públicas desenvolvidas pela pasta durante os primeiros dez anos da ditadura militar. Heliene Nagasava discute sobre a noção de “novo trabalhismo”, originalmente concebida pelo então Ministro do Planejamento Roberto Campos, revelando tensões interministeriais no governo, combinadas à repressão aos trabalhadores, aos processos de intervenção sindical e ao reforço de projetos assistencialistas, que buscavam esvaziar debates políticos nos sindicatos.
Produção: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias Roteiro: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias Apresentação: Larissa Farias
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste vídeo da série Livros de Classe, João Christovão, professor da Rede Municipal de Cabo Frio, apresenta a obra Dialética da Colonização, de Alfredo Bosi. Publicado em 1992, o livro é uma coletânea de textos do autor, nos quais analisa-se a formação política, social e cultural do Brasil e traz importantes contribuições à história social do trabalho.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
O artigo publicado na Revista de Estudos Íbero-americanos por Samuel Oliveira, pesquisador do LEHMT-UFRJ, e Diogo Melo, professor e pesquisador da UFPA, é resultado de uma parceria realizada através do Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-Raciais do CEFET-RJ. O texto aborda, a partir da metodologia de História Oral e dos debates sobre biografia e análise histórica, a trajetória e os projetos de negritude articulados por Lygia Santos, “filha de Donga”. Ela foi uma das fundadoras do Clube Renascença nos anos 1950, e de projetos que articulavam a negritude à cultura popular do samba nos anos 1960 e 1970. Lygia Santos foi professora formada pelo Instituto de Educação, advogada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e museóloga pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, identificando-se como uma intelectual negra. E a “Casa de Lygia Santos” cruzava as referências da cultura erudita e popular no Rio de Janeiro, constituindo experiências que se contrapunham aos sistemas de dominação de classe e raça na cidade.
Professor Maciel Henrique Silva (IFPE) e Professor Márcio Romerito da Silva Arcoverde (CODAI-UFRPE)
Apresentação da atividade
Segmento: 2º e 3º ano do Ensino Médio
Unidade temática: Espaços de trabalhadores(as) na sociedade brasileira
Objetivos gerais:
– Compreender a dinâmica, os espaços dos(as) trabalhadores(as) escravizados(as) e do pós-abolição no Brasil; – Discutir os lugares de memórias e seus significados na luta pelo direito da população negra e indígena à terra e à vida; – Estimular a discussão sobre memórias, migrações e identidades quilombolas no pós-abolição; – Desenvolver uma leitura das cidades brasileiras que problematize memórias e patrimônios alusivos à população trabalhadora negra;
Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC)
(EM13CHS104) Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço. (EM13CHS201) Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos diversos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles. (EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas. (EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos.
Duração da atividade:
Aulas
Planejamento
01
Etapa 1
02
Etapa 1
03
Etapa 2
04
Etapa 2
Conhecimentos prévios:]
-Comércio transatlântico de escravos; -Trabalho escravo no Brasil; -Abolição da escravidão; Lei de Terras; -Lei áurea; -Industrialização e migração rural-urbano na Primeira República; -Migrações nacionais na República anos 1940-1970.
Etapa 1: Os portos do Rio de Janeiro e Salvador como espaços de memória dos trabalhadores escravizados.
Professor(a), nessa etapa é importante esclarecer para os estudantes que espaços ou lugares de memória é um termo utilizado também no campo dos direitos humanos que se refere às diferentes referências das memórias de vítimas submetidas a graves violações e/ou supressões de direitos. A partir dessa problematização, distribua os textos para os discentes, divididos em duplas, que farão a leitura atenta com tempo determinado. Aqui é importante sinalizar que os estudantes precisam articular imagens, textos e mapas para construírem uma visão totalizante do tema. Os textos serão entregues aos discentes, em dupla, deverão ler.
Após a leitura dos textos pelos estudantes o(a) professor(a) irá propor a problematização sobre o seguinte ponto: Escravidão transatlântica e os fluxos das migrações forçadas de escravizados para as Américas; o professor(a) deverá projetar os mapas a seguir que devem ser contextualizados com as informações contidas na fonte.
Mapa 9: Volume e direção do tráfico de escravos transatlântico, de todas as regiões africanas a todas as regiões americanas. Disponível em https://www.slavevoyages.org/voyage/maps#introductory-. Acesso em: 19 de out. 2021.
Depois de leitura dos textos e mapas, o(a) professor(a) deverá propor que os estudantes respondam em dupla:
1. Qual a importância de se criar políticas públicas para a sociedade compreender esses portos como espaços de memória dos trabalhadores? 2. Por que é importante a patrimonialização do Cais do Valongo para a memória dos trabalhadores? 3. Seria o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e o Cais do Porto, em Salvador, lugares de memória para todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros? Justifique sua resposta.
Etapa 2: Trabalhadores livres pobres no pós- Abolição e a questão da terra
“A reordenação das formas de trabalho, em seguida à Abolição, afetou a situação dos negros, já nascidos livres ou recém-libertos”. (GORENDER,1990, p.190)
“O trabalhador nacional era depreciado pelos fazendeiros. Estes não esperavam extrair do negro livre o mesmo rendimento que extraíam do negro escravo. Predominava a expectativa de que os escravos abandonariam as fazendas ou fariam exigências exorbitantes para continuar nelas”. (GORENDER, 1990, p. 192).
Professor(a), os textos a seguir são trechos do livro “Torto arado” (2018). A leitura, que deve ser transdisciplinar, abrange pelo menos conteúdos de História, de Literatura e de Geografia.
Os textos deverão ser entregues aos discentes, em dupla, para a leitura atenta.
Documento 1
Em troca, poderia se construir uma tapera de barro e taboa, que se desfizesse com o tempo, com a chuva e com o sol forte. Que essa morada nunca fosse um bem durável que atraísse a cobiça dos herdeiros. Que essa casa fosse desfeita de forma fácil se necessário. Podem trabalhar – contavam nas suas romarias pelo chão de Caxangá –, podem trabalhar, mas a terra é dessa família por direito. Os donos da terra eram conhecidos desde a lei de terras do Império, não havia o que contestar. Quem chegasse era forasteiro, poderia ocupar, plantar e fazer da terra sua morada. Poderia cercar seu quintal e fazer roça na várzea nas horas vagas. Poderia comer e viver da terra, mas deveria obediência e gratidão aos senhores.
(JUNIOR, Itamar Vieira. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2021, p. 183)
Documento 2
Além da dívida de trabalho para com os senhores da fazenda, não havia nada para deixar para os filhos e netos. O que era transmitido de um para outro era a casa, quase sempre em estado ruim e que logo teria que ser refeita. Os pioneiros não pensavam assim, ou seus pensamentos eram abafados pela urgência de se manter a paz entre os trabalhadores e seus senhores. Ou porque havia uma gratidão pela acolhida que as gerações seguintes já não tinham, talvez por terem nascido e crescido neste lugar. Os mais jovens começavam a se considerar mais donos da terra do que qualquer um daqueles que tinham seus nomes transcritos no documento, que tinha sua cópia disputada e negociada pelos gerentes de forma desvantajosa para eles. Meu irmão insistiu no assunto, apesar de evitar falar na frente de nosso pai. Vivia com Severo para cima e para baixo, entre um trabalho e outro, para ganhar a atenção dos moradores. “Não podemos mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas.” Era um desejo de liberdade que crescia e ocupava quase tudo o que fazíamos. Com o passar dos anos esse desejo começou a colocar em oposição pais e filhos numa mesma casa. Alguns jovens já não queriam permanecer na fazenda. Desejavam a vida na cidade. Os deslocamentos se tornaram mais intensos que no passado, quando nos transportávamos em animais para outros lugares, cidades e os povoados vizinhos. A vida na cidade, entre viajantes e comerciantes, era atraente. Pesava na decisão justamente o trabalho para os fazendeiros, que foi mantido entre nós e atravessou gerações. Zezé queria dizer ao nosso pai que não nos interessava apenas a morada. Que não havia ingratidão. “Eles que não nos foram gratos, correm boato que querem vender a fazenda sem se preocupar com a gente”, dizia para mim e Domingas. “Queremos ser donos de nosso próprio trabalho, queremos decidir sobre o que plantar e colher além de nossos quintais. Queremos cuidar da terra onde nascemos, da terra que cresceu com o trabalho de nossas famílias”, completou Severo, numa roda de prosa debaixo da jaqueira na beira da estrada.
(JUNIOR, Itamar Vieira. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2021, p. 186-187).
Depois de leitura dos textos o(a) professor(a) deverá propor que os estudantes respondam em dupla:
1.Quais as possibilidades de sobrevivências que os textos 1 e 2 apontam para as situações na pós-abolição? 2. A permanência da estrutura de posse de terra nas mãos da elite senhorial afetou a autonomia de trabalhadores e trabalhadoras negras no meio agrário? Aponte exemplos ou situações relativas ao tema. 3. Discuta com sua dupla, a partir das imagens e textos propostos, quais os sentidos de liberdade e de trabalho para trabalhadores e trabalhadoras no Brasil após o 13 de Maio de 1888. 4. Propor aos estudantes uma pesquisa sobre a chamada escravidão contemporânea ou trabalho análogo à escravidão.
Bibliografia e Material de apoio:
ABREU, Martha; PEREIRA, Matheus Serva (orgs.). Caminhos da liberdade: histórias da abolição e do pós-abolição no Brasil. Niterói: PPGHistória – UFF, 2011.
CARVALHO DA ROCHA, Ana Luiza; JUNIOR, Norberto Kuhn; MAGALHÃES, Magna Lima e NUNES, Margarete Fagundes. “Era um hino de fábrica apitando”: a memória do trabalho negro na cidade de Novo Hamburgo (RS), Brasil. Etnográfica. Revista do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, vol. 17 (2), 2013, p. 269-291.
DABAT, Christine Rufino. Moradores de Engenho: relações de trabalho e condições de vida dos trabalhadores rurais na zona canavieira de Pernambuco, segundo a literatura, a academia e os próprios atores sociais. 2ª ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2012.
FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas, Sp: Editora da Unicamp, 2006.
GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1990.
HERNANDEZ, Julianna do Nascimento; MIRAGLIA, Lívia Mendes Moreira; OLIVEIRA, Rayhanna Fernandes de Souza (organizadoras). Trabalho escravo contemporâneo: conceituação, desafiose perspectivas. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2018.
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Neste vídeo da série Livros de Classe, Álvaro Nascimento, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), apresenta a obra Visões da Liberdade, de Sidney Chalhoub. Publicado pela primeira vez em 1990, o livro reconstrói as ações cotidianas utilizadas por trabalhadores escravizados e livres a partir de processos judiciais da época.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
O episódio #16 do Vale Mais é sobre Futebol Operário.
Este é oitavo episódio da segunda temporada do podcast Vale Mais. Nesta temporada realizamos uma série de conversas com jovens doutores/as no campo da História Social do Trabalho. Eles/as explicam seus temas de pesquisa e processos de elaboração de suas teses. Neste episódio, conversamos com Raphael Rajão Ribeiro, doutor em História, Política e Bens Culturais (2021), pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Raphael defendeu a tese “A Várzea e a Metrópole: Futebol amador, transformação urbana e política local em Belo Horizonte (1947-1989)”, sob orientação de Bernardo Borges Buarque de Hollanda. Em nossa conversa, Raphael aborda a trajetória do futebol amador investigando a prática social e cultural atrelada aos grupos populares. Enfatiza a intersecção entre o futebol e a cidade pois articula-se com as dinâmicas locais, permitindo o debate sobre as configurações urbanas e relações políticas no cotidiano dos trabalhadores.
Várzea: a bola rolada na beira do coração (documentário)
Produção: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias Roteiro: Felipe Ribeiro, Flávia Veras, João Christovão e Larissa Farias Apresentação: Larissa Farias
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias