Etapa 3
O (a) professor (a) deve distribuir as fontes nº 5 e nº 6 entre os (as) alunos (as). Nesse momento, o (a) professor (a) deverá estimular a reflexão sobre essa intensa cadeia migracional oriunda do Nordeste e como os trabalhadores e trabalhadoras nordestinas migraram entre as décadas de 1930-1970 por todo o país, sobretudo, para São Paulo.
Fonte nº5
“A meu ver, a fome que o Nordeste está atravessando, a miséria aguda, que se exterioriza mais gritante, mais negra e mais trágica nesta época de calamidade, é mais fenômeno de ordem social do que natural. Mais do que a seca, o que acarreta esse estado de coisas é o pauperismo generalizado, a proletarização progressiva do sertanejo, sua produtividade mínima, insuficiente, que não lhe permite possuir nenhuma reserva para enfrentar as épocas difíceis, as épocas das vacas magras, porque já não há lá, nunca, épocas de vacas gordas. Mesmo quando chove, sua produtividade é miserável, sua renda é mínima, de maneira que ele está sujeito a viver na miséria relativa ou na miséria absoluta, segundo haja ou não inverno na região do sertão.
E que causas determinam esse estado social, esse estado de estagnação econômica e de proletarização progressiva da região do sertão? A meu ver, a causa essencial, central, contra a qual temos de lutar todos, é o regime inadequado da estrutura agrária da região, o regime impróprio com o grande latifundiarismo, ao lado do minifundiarismo, reinantes no Nordeste do Brasil. Sendo esta uma região, por excelência agrícola, desde que 75% das populações do Nordeste vivem de atividades rurais, 50% da renda sendo retirados da agricultura, ele só poderia sobreviver e desenvolver-se, se a agricultura fosse compensadora, fosse produtiva. Infelizmente, não o é. Porque o latifúndio é o irmão siamês do arcaísmo técnico. Nessas áreas latifundiárias, se pratica uma agricultura primária, uma proto-agricultura, sem assistência técnica, sem adubação, sem seleção de sementes, sem a mecanização, e pelos processos mais rudimentares, exaurindo a força do pobre sertanejo para produzir menos do que o suficiente para matar sua fome.
O latifúndio nessa região é representado pelo fato estatístico significativo de que, de 1940 a 1950, de acordo com o Recenseamento demográfico e agrícola, longe de diminuir o tamanho médio da propriedade agrícola, no Nordeste, este tamanho aumentou e vem aumentando de tal forma que, hoje, no Nordeste, apenas 20% dos habitantes das regiões rurais possuem terra; 80% trabalham como arrendatários, como parceiros ou como colonos, porque a terra é monopolizada por pequeno grupo.
Para mostrar a que extremo chega esse monopólio, basta referir o fato de que 50% da área total do Nordeste são açambarcados por 3% dos proprietários rurais.
Por outro lado, encontramos mais de 50% das propriedades contendo mais de 500 hectares. Há centenas de propriedades de mais de 100.000 hectares.”
O desequilíbrio econômico nacional e o problema das secas. In: Documentário do Nordeste. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1965.
Fonte nº 6
“Essa é uma história da plantation açucareira no Nordeste do Brasil. A história de um vasto e sofisticado espaço de liberdade contingente. Um espaço no qual o direito de agir segundo o livre arbítrio de quem em seu interior vivia era limitado por uma geografia que congregava- ao mesmo tempo e de forma indissociável- elementos ecológicos (geomorfoclimáticos, climáticos, edáficos, hidrográficos, biológicos…); estruturais (rede viária, sistema de transporte…) e também históricos/simbólicos/culturais (relações de classe, omissão do Estado, violência, coerção, medo, honra, esperança…). Violência, medo, ausência do poder público, esperança e honra, por exemplo, moldavam esse espaço tanto quanto as montanhas, rios, canaviais, engenhos e estradas. Nele, centenas de milhares de indivíduos viveram e trabalharam, toda sua vida, sob condições de miséria extrema, isolados do mundo exterior e sujeitos à violência patronal organizada. Essa parte do Brasil, formada sobretudo por uma ampla rede de engenhos e usinas de cana-de-açúcar, permaneceu por cinco séculos controlada por milícias privadas fortemente armadas. Até o final do século XX, a maior parte dessa área era interligada por estradas de difícil acesso e desconhecidas por boa parte das autoridades públicas. Esses engenhos constituíram um pedaço do território brasileiro situado “fora da ordem jurídica normal”.
A sofisticação desse espaço (de liberdade contingente, repito) não se limitou a sua longa duração (prova de seu eficiente funcionamento), nem à organização da violência física e imposição do medo que mantiveram o trabalho forçado como um de seus elementos indissociáveis e definidores. Sua estrutura labiríntica, longe das forças públicas externas, que facilitava o abuso da autoridade patronal sobre centenas de milhares de indivíduos, tornou-o singular em comparação a outros ambientes do trabalho no Brasil.”
Ferreira Filho, José Marcelo Marques. Arquitetura espacial da plantation açucareira no Nordeste do Brasil (Pernambuco, Século XX). –Recife: Ed. UFPE, 2020. p.17-18
Após a leitura dos textos e os contextos dos anos 1950-1970 sobre a situação econômica-social e representação do Nordeste, os alunos responderão:
1. Quais argumentos que o texto traz podem ser pensados para explicar, de forma mais sistemática, esse processo de “fuga” do Nordeste caracterizado nas migrações para o Sudeste?
2. Muito do imaginário construído sobre a região Nordeste remete à seca como problema exclusivamente natural que causa dor, fome, miséria e expulsa trabalhadores e trabalhadoras dos seus lugares. De acordo com os argumentos usados fonte 5 e 6, os grandes problemas do Nordeste são exclusivamente de ordens naturais? Justifique a sua resposta.
3. Seus argumentos iniciais de o porquê das intensas migrações nordestinas permanecem as mesmas ou foram ressignificadas? E por quê?