Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
“Vozes comunistas” é uma série especial do Vale Mais, podcast do LEHMT/UFRJ. Nessa série homenageamos o centenário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e divulgamos áudios que permitem uma reflexão sobre as fortes e complexas relações entre o partido e os mundos do trabalho ao longo da história do país. A cada quinze dias, um trecho de uma entrevista de antigos sindicalistas, lideranças operárias e camponesas ou mesmo trabalhadores/as de base conta um pouco da história do PCB e sua importância para a história do trabalho no Brasil. Pesquisamos áudios em acervos públicos e particulares de todo o país, que serão apresentados por pesquisadores e historiadores especialistas na trajetória do partido. Em nosso décimo quinto episódio, apresentamos trechos de uma entrevista com a João Louzada. Louzada foi importante militante comunista nos tradicionais bairros operários da Mooca e Belenzinho em São Paulo entre os anos 1930 e 60. Foi operário têxtil e atuou na construção civil tornando-se dirigente do sindicato dos trabalhadores desse setor. Nos anos 1950 foi eleito vereador na cidade de São Paulo pela legenda do PSP, já que o PCB encontrava-se na ilegalidade. No trecho que ouviremos Louzada fala sobre a ação dos comunistas nos bairros paulistanos nos anos 1940 e 50, sobre o associativismo local e sobre a importância das festas e do futebol para a cultura e organização operária naquele período. Essa voz comunista é apresentada pelo historiador Adriano Duarte (UFSC).
Projeto e execução: Ana Clara Tavares, Felipe Ribeiro, Larissa Farias e Paulo Fontes Apoio: Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Agradecemos às instituições e pesquisadores que gentilmente colaboraram com nosso projeto
Referência da entrevista: Entrevista João Louzada. 6 de novembro de 1998. Entrevistador: Adriano Duarte. Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio, Ynaê Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresenta a obra Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, do historiador João José Reis. Publicado em 1986 e reeditado em 2003, o livro trouxe importante inovação para os estudos da escravidão, trazendo para o centro da reflexão a reconstrução das identidades africanas no espaço urbano – no caso, de Salvador (BA) – e as formas de ação e resistência destes trabalhadores escravizados.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
O artigo “Estremeceram as montanhas do atlântico sul: mundos do trabalho no prisma transatlântico” (2022) foi publicado por Thompson Clímaco, mestrando em história social (UFRJ) e pesquisador do LEHMT-UFRJ no dossiê “Liberta tuas raízes, Brasil! reflexões decoloniais no ano do bicentenário da Independência do Brasil e centenário da Semana de Arte Moderna de 1922” da Revista Mosaico – Fundação Getúlio Vargas (FGV).
O texto analisa as possibilidades teóricas e metodológicas na confluência entre História Social do Trabalho e História Atlântica por meio de estudos clássicos sobre o tema, na historiografia brasileira e internacional. Por meio desses trabalhos, são mobilizados os desafios, benesses e especificidades da intersecção dos dois campos historiográficos em questão, para a compreensão de classe trabalhadora e trabalho livre anterior ao século XX.
Além disso, o artigo denota abordagens clássicas e mais recentes referentes aos dois campos, bem como provocações historiográficas sobre tema, com o intuito de demonstrar como as produções brasileiras foram capazes de “estremecer as montanhas do Atlântico Sul ao demarcarem suas peculiaridades e semelhanças na rota – historiográfica – do mundo atlântico como um todo”.
Crédito da Imagem: “Rotas da escravidão” em Só História. Virtuous Tecnologia da Informação, 2009-2022. Consultado em 04/10/2022 às 11:36. Disponível na Internet em http://www.sohistoria.com.br/ef2/culturaafro/p5.php
Professor Fernando, nos últimos anos observamos o aumento de denúncias nas redes sociais de uma suposta doutrinação no trabalho docente da educação básica intensificado após o surgimento do Projeto Escola Sem Partido e a ascensão de governos conservadores com um movimento orquestrado para censurar o trabalho dos professores. Quais os desafios que essa onda conservadora coloca ao trabalho docente? Na crescente onda do avanço do negacionismo na opinião pública e dos ataques à ciência no Brasil, que impactos você acredita que esses movimentos trouxeram nesse contexto dos mundos do trabalho docente?
A Onda Conservadora, que ganhou força no Brasil na década passada, tem a manipulação política do pânico moral como uma das suas principais estratégias. Este pânico se aproveitou do desconhecimento de algumas realidades para atacar categorias profissionais e grupos políticos com base em informações falsas e absurdas: jornalistas, artistas, feministas, movimento negro, etc. A categoria docente foi um dos alvos preferenciais, numa verdadeira campanha de ódios aos professores e às professoras. A sociedade era estimulada a ver os profissionais da educação como abusadores, que estariam tentando “destruir a família tradicional” através da “doutrinação ideológica” (dentre outras fantasias perversas). Movimentos, como o famigerado “Escola sem Partido”, estimulavam abertamente a perseguição jurídica de professores e professoras, por entender que a necessidade de se defender geraria desgaste emocional e financeiro para docentes. A expectativa era que docentes deixassem de trabalhar alguns temas por medo – o que infelizmente se concretizou em muitos casos. Este foi, na minha opinião, um dos impactos mais devastadores que os ataques à docência tiveram no Brasil: a instauração de um clima de medo e insegurança no trabalho de professores e professoras, que muitas vezes deixam de falar sobre temas importantes para a formação dos estudantes. Estes últimos são os maiores prejudicados devido à impossibilidade de terem garantido o seu direito à educação na sua plenitude. O maior desafio para o trabalho docente é a compreensão de que estes ataques, apesar de se direcionarem a alguns professores e professoras específicos, constituem um ataque a toda a nossa categoria profissional e demandam uma resposta coletiva. Os professores e as professoras que resistem à autocensura o fazem por constituírem redes de solidariedade docente das mais variadas naturezas (sindicatos, coletivos, partidos, associações científicas, etc.). Este é um desafio coletivo e que precisa ser enfrentado coletivamente, com a nossa organização.
O trabalho do professor de História é especialmente afetado por essa onda conservadora e pelo negacionismo. Como você avalia o cenário das relações de trabalho específicas de um professor de História nesse contexto? Na sua análise, é possível existir uma neutralidade no ensino de História? Podemos dizer que esses movimentos alteraram o comportamento dos professores e professoras na sala de aula da educação básica?
Qualquer professor ou professora, independente da disciplina que ministre, pode ser alvo de perseguição. Basta trabalhar com um tema ou realizar uma abordagem que seja alvo da sanha persecutória. Neste sentido, não há neutralidade no ensino de nenhuma disciplina. O professor e a professora de história, por exemplo, assumem o compromisso ético de compreender as relações de opressão em perspectiva histórica. Fazer isso é questionar privilégios e relações sociais de dominação (de gênero, raça ou classe) que muitas vezes são naturalizadas na nossa sociedade. Não há neutralidade. Há apenas a opção de fazer o seu trabalho de acordo com os saberes profissionais docentes ou deixar de fazê-lo. Negar que a neutralidade exista não implica de maneira nenhuma em não reconhecer limites éticos para a atuação docente. É necessário fortalecer o diálogo da nossa categoria profissional com a sociedade para pactuar os compromissos éticos da docência em história, para que possamos assumir de maneira cada vez mais transparente a responsabilidade pela nossa atuação profissional.
A pandemia de COVID-19 alterou o trabalho docente profundamente e gerou uma crise escolar sem precedentes. Como você avalia a atuação do Ministério da Educação nesse contexto e o avanço do homeschooling? E quais as consequências do homeschooling para o trabalhodocente?
A atuação do Ministério da Educação do Governo Bolsonaro foi absolutamente desastrosa. O abismo educacional foi brutalmente ampliado graças ao distanciamento social necessário para conter a pandemia. Os estudantes das escolas particulares de elite rapidamente retomaram suas atividades no formato remoto, enquanto os estudantes das escolas públicas permaneceram sem acompanhamento, não por falta de boa vontade de professores e professoras, mas por total falta de infraestrutura e planejamento de política pública. Muitos acreditaram que a experiência traumatizante das mães da classe trabalhadora, tendo que sobreviver a uma pandemia ainda precisando cuidar das crianças afastadas da escola, enterraria a proposta da educação domiciliar (homeschooling). A grande questão é que a experiência real destas mães tendo que lidar com seus filhos em casa é a última das preocupações dos propositores de projetos legislativos para regulamentar o homeschooling. A preocupação é garantir alguma vitória do reacionarismo no campo legislativo, já que o projeto “Escola sem Partido” e iniciativas anti-gênero foram consideradas inconstitucionais pelo STF. A atual defesa do homeschooling no Brasil é feita através do ataque à escola pública e da campanha de ódio aos professores e às professoras.
Esse ano uma denúncia de que alunos imitavam sons de macaco quando uma professora negra se virava de costas para escrever no quadro, no estado do Rio Grande do Sul, evidenciou o quanto o racismo estrutural no Brasil deixou de ser velado e passou a ser mais exposto nas mídias. Episódios como esse sempre aconteceram nas escolas e agora está sendo mais denunciado ou agora estamos vivendo o avanço de manifestações racistas em sala de aula? E como o ensino de História no debate sobre os mundos do trabalho pode auxiliar no debate dessa questão?
Se o racismo for entendido como um fenômeno estrutural e, portanto, de longa duração, episódios como estes sempre aconteceram nas escolas, mas provavelmente eram naturalizados. As práticas racistas atravessam o cotidiano das escolas e estão presentes na sua própria organização institucional. O ensino de história tem muito a contribuir com uma educação antirracista, através da compreensão historicidade do fenômeno do racismo. Compreender esta história no Brasil pode ajudar a desnaturalizar estas práticas e construir novos horizontes. A sala de aula de história precisa ser um espaço para a discussão das relações étnico-raciais no Brasil.
A imagem de crise da educação é constantemente abordada para falar das dificuldades do trabalho docente. Na sua avaliação, os estudantes ainda enxergam os professores como referências no processo educativo? O trabalho docente na educação básica está em crise? Para finalizar, gostaríamos que deixasse uma mensagem final para professores e professoras da educação básica no Brasil.
Uma das estratégias dos reformadores empresariais da educação é empregar uma linguagem da aprendizagem em detrimento de um discurso propriamente educacional. No discurso educacional, estamos sempre falando da relação entre um professor ou uma professora que aprende enquanto ensina e um/a estudante que ensina enquanto aprende. Uma relação de ensino-aprendizagem. A linguagem da aprendizagem coloca o estudante como responsável por sua própria aprendizagem constante, com a figura do professor reduzida à de um mero acompanhante ou mediador. O professor e a professora são responsabilizados pelas metas estabelecidas não serem alcançadas – sem que nunca sejam questionadas a falta de infraestrutura das escolas, a falta da valorização da categoria docente e a falta de política pública para a garantia de permanência estudantil. A mensagem é que a nossa organização e a nossa luta não podem parar. As conquistas conseguidas desde a reabertura política estão em risco e ainda há muitas lutas em defesa da igualdade a serem realizadas. Ser professor ou professora de história é lutar pela escola pública. Seguimos juntos e juntas nesta luta.
Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil. Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.
Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
“Vozes comunistas” é uma série especial do Vale Mais, podcast do LEHMT/UFRJ. Nessa série homenageamos o centenário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e divulgamos áudios que permitem uma reflexão sobre as fortes e complexas relações entre o partido e os mundos do trabalho ao longo da história do país. A cada quinze dias, um trecho de uma entrevista de antigos sindicalistas, lideranças operárias e camponesas ou mesmo trabalhadores/as de base conta um pouco da história do PCB e sua importância para a história do trabalho no Brasil. Pesquisamos áudios em acervos públicos e particulares de todo o país, que serão apresentados por pesquisadores e historiadores especialistas na trajetória do partido. Em nosso décimo quarto episódio, apresentamos trechos de uma entrevista com José Muniz da Paixão. Muniz, como era conhecido, foi um importante articulador e organizador sindical do PCB em Niterói (RJ) entre as décadas de 1940 e 60. No trecho que ouviremos, ele conta detalhes sobre sua atuação política em diferentes sindicatos do município, como os dos trabalhadores da construção civil, da indústria da alimentação, dos rodoviários e dos marítimos. Fala ainda sobre os impactos do golpe de 1964 em sua vida e militância. Essa voz comunista é apresentada pela historiadora Luciana Pucu Wollmann.
Projeto e execução: Ana Clara Tavares, Felipe Ribeiro, Larissa Farias e Paulo Fontes Apoio: Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Agradecemos às instituições e pesquisadores que gentilmente colaboraram com nosso projeto
Referência da entrevista: Entrevista José Muniz da Paixão. 27 de julho de 1994. Entrevistadora: Juliana Carneiro, Andreia Marzano e Carlos Eduardo de Oliveira. Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense.
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio, Roberto Véras, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), apresenta a obra “Quando novos personagens entraram em cena: Experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980)”, de Eder Sader. Publicado em 1988, o livro tornou-se um clássico imediato e uma das principais obras de referência sobre as ações coletivas dos/as trabalhadores/as e os movimentos sociais que emergiram na década de 1970 e que impactaram de maneira decisiva a redemocratização do país.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Marcos Virgílio da Silva Doutor em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP)
Fiquei sem o terreiro da escola Já não posso mais sambar Sambista sem o largo da Banana A Barra Funda vai parar Surgiu um viaduto, é progresso, Eu não posso protestar Adeus, berço do samba, Eu vou-me embora, Vou sambar noutro lugar.
Geraldo Filme. “Vou sambar noutro lugar”
Em janeiro de 2020, o Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo instalou uma placa comemorativa no pilar do viaduto Pacaembu localizado no cruzamento da rua Barra Funda. A placa indica que ali havia existido o largo da Banana, considerado o “berço” do samba paulistano. O desaparecimento desse espaço invizibilizou um lugar de memória relevante dos trabalhadores negros na cidade.
Embora as origens do bairro da Barra Funda sejam antigas, o fator preponderante para sua ocupação foi, de fato, a industrialização, especialmente a partir da década de 1890. Inicialmente, a área abrigava fábricas de pequeno porte (massas, óleos, tinta de escrever e de bebidas), estabelecimentos comerciais e de serviços (sapatarias e mercearias), entremeados de habitações. A estrada de ferro São Paulo Railway foi um elemento estruturador do bairro, a ponto de marcar a divisão entre a “Barra Funda de Baixo”, situada entre a ferrovia e as margens do rio Tietê, e a “Barra Funda de Cima”, da linha férrea até a rua das Palmeiras – atual rua General Olímpio da Silveira.
Ao mesmo tempo que essa paisagem industrial era marcada pela forte presença de imigrantes italianos desde o final do século XIX, a Barra Funda constituiu também um dos principais núcleos da população negra em São Paulo, especialmente na área limítrofe dos trilhos da ferrovia. Essa população se fixou em moradias precárias como cortiços, cômodos ou porões de casas. Trabalhava nos serviços ligados à ferrovia, no emprego doméstico nas moradias de elite do vizinho bairro do Campos Elíseos e no comércio em pequenos estabelecimentos, ou mesmo de maneira informal.
Não sabemos muito como se davam as relações entre os imigrantes italianos e a população negra naquela região. Considerando o contexto do pós-abolição e as disputas pelo mercado de trabalho, é factível supor que disputas, hostilidades e casos de racismo existissem. Mas também havia situações de ajuda mútua e solidariedades. Há registros, por exemplo, do apoio de pequenos donos de estabelecimentos comerciais (vinculados à colônia italiana) aos primeiros desfiles do Grupo Carnavalesco Barra Funda, fundado em 1914 por afrodescendentes.
O Largo, que existiu até meados da década de 1950, situava-se no final da rua Brigadeiro Galvão, na confluência com a alameda Olga. A avenida Pacaembu não havia alcançado o local nas primeiras décadas do século XX. Não tendo sido concluído na primeira gestão Prestes Maia (1938-1945), o projeto de extensão dessa avenida só foi retomado no final da década de 1950, quando o então prefeito Ademar de Barros (1957 – 1961) retoma e conclui a obra, inaugurada ainda inacabada em 1958.
Era ali que essa população negra, se ocupava em trabalhos temporários na estrada de ferro. Um contingente de trabalhadores exercia atividades de carregadores e ensacadores das mercadorias que circulavam pelo pátio ferroviário da São Paulo Railway e estação da E. F. Sorocabana.
Durante as horas livres, principalmente ao final do expediente, transformavam o espaço de trabalho no local do jogo de “tiririca” (espécie de capoeira típica do interior de São Paulo) e das batucadas. Fazendo uso dos próprios instrumentos de trabalho, tais como caixotes, latões, latas e caixas de engraxate para criar seus instrumentos de percussão, esses trabalhadores faziam do Largo da Banana um espaço (e um tempo) que embaralhava e as rotinas do trabalho e do samba.
Tudo indica que se tratava de uma atividade majoritariamente masculina. Os testemunhos de Geraldo Filme sobre sua mãe dão indícios de que as mulheres geralmente acabavam empregadas em serviços domésticos nas casas mais abastadas. Essas mulheres, no entanto, tiveram papel relevante na constituição das primeiras agremiações carnavalescas em São Paulo, e não foi diferente na Barra Funda. Ali destacaram-se as figuras de Tia Olímpia e as demais “tias africanas’, importantes na origem aos primeiros cordões carnavalescos da cidade, além de Benedicta Carvalhaes e D. Sebastiana Barreto, do Cordão Campos Elyseos, e mais tarde “Dona Sinhá”, do G. C. Barra Funda.
Da infância à juventude, o sambista Geraldo Filme frequentou o local, onde se juntava aos outros negros que ali trabalhavam e se divertiam ao final do expediente. O sambista declarou que a reduzida remuneração desses trabalhadores era, ao menos parcialmente, compensada pela oferta de uma parcela da carga movimentada por eles. Esses produtos podiam ser consumidos ou, como ocorria com frequência, revendidos nas imediações. Foi nessa vizinhança do Largo da Banana que, em 1914, Dionísio Barbosa criou o Grupo Carnavalesco Barra Funda, considerada a primeira agremiação carnavalesca de São Paulo. Um ano antes, o bairro já havia sido o local de fundação do pequeno Bloco dos Boêmios, que deu origem ao Grupo Carnavalesco Campos Elyseos, fundado em 1919 por Argentino Celso Wanderlei em sua residência, próxima ao Largo da Banana. Esse grupo deu origem, por sua vez, à Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco, em 1953.
A destruição do Largo para implantação das vias rápidas foi um mote para Filme escrever um de seus sambas mais emblemáticos, cuja letra serve de epígrafe a esse artigo. A homenagem prestada ao samba de São Paulo em 2020 (e, posteriormente, a inauguração de estátua de Geraldo Filme também nas proximidades) procura ao menos mitigar parte do esquecimento imposto à cidade a respeito de um dos lugares mais significativos de sua memória cultural e social. Ainda há, porém, uma lacuna importante nesse reconhecimento, que é afirmar com maior ênfase o fato de que o samba de São Paulo deve ao menos parte de sua existência ao encontro dos estivadores nos fins de tarde de um largo na Barra Funda.
Localização do Largo da Banana, na Barra Funda (São Paulo, SP), antes da construção do Viaduto Pacaembu. Fonte: Mapa Topográfico do Município de São Paulo (SARA – 1930) – excerto. Disponível em:http://geosampa.prefeitura.sp.gov.br/PaginasPublicas/_SBC.aspx. Acesso em 01 de julho de 2022.
Para saber mais:
AZEVEDO, Amailton Magno. São Paulo Negra: Geraldo Filme e a geografia do samba paulista. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), 6(13), jun de 2014.
BRUNELLI, Aideli S. Urbani et al. Barra Funda. São Paulo, Departamento do Patrimônio Histórico, 2006 (Série História dos Bairros – São Paulo; v. 29).
SILVA, Marcos Virgílio da. Debaixo do ‘Pogréssio’: sambistas e urbanização paulistana nas décadas de 1950 e 1960. São Paulo: Alameda/FAPESP, 2018.
SIQUEIRA, Renata Monteiro. Lutas negras no largo da Banana. Tempo social., São Paulo , v. 33, n. 3, Sept. 2021.
SIMSON, Olga R. M. von. Carnaval em branco e negro: Carnaval popular paulistano, 1914-1988. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007.
Crédito da imagem de capa: O Largo da Banana nas primeiras décadas do século XX. Fonte: FAUSTINO, Oswaldo. Largo da Banana. Revista Raça. São Paulo: 28/10/2018. Disponível em: https://revistaraca.com.br/largo-da-banana/. Acesso em 22 de setembro de 2022. Autoria da foto e data original desconhecidos.
MAPA INTERATIVO
Navegue pela geolocalização dos Lugares de Memória dos Trabalhadores e leia os outros artigos:
Lugares de Memória dos Trabalhadores
As marcas das experiências dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros estão espalhadas por inúmeros lugares da cidade e do campo. Muitos desses locais não mais existem, outros estão esquecidos, pouquíssimos são celebrados. Na batalha de memórias, os mundos do trabalho e seus lugares também são negligenciados. Nossa série Lugares de Memória dos Trabalhadores procura justamente dar visibilidade para essa “geografia social do trabalho” procurando estimular uma reflexão sobre os espaços onde vivemos e como sua história e memória são tratadas. Semanalmente, um pequeno artigo com imagens, escrito por um(a) especialista, fará uma “biografia” de espaços relevantes da história dos trabalhadores de todo o Brasil. Nossa perspectiva é ampla. São lugares de atuação política e social, de lazer, de protestos, de repressão, de rituais e de criação de sociabilidades. Estátuas, praças, ruas, cemitérios, locais de trabalho, agências estatais, sedes de organizações, entre muitos outros. Todos eles, espaços que rotineiramente ou em alguns poucos episódios marcaram a história dos trabalhadores no Brasil, em alguma região ou mesmo em uma pequena comunidade.
A seção Lugares de Memória dos Trabalhadores é coordenada por Paulo Fontes.
Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.
“Vozes comunistas” é uma série especial do Vale Mais, podcast do LEHMT/UFRJ. Nessa série homenageamos o centenário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e divulgamos áudios que permitem uma reflexão sobre as fortes e complexas relações entre o partido e os mundos do trabalho ao longo da história do país. A cada quinze dias, um trecho de uma entrevista de antigos sindicalistas, lideranças operárias e camponesas ou mesmo trabalhadores/as de base conta um pouco da história do PCB e sua importância para a história do trabalho no Brasil. Pesquisamos áudios em acervos públicos e particulares de todo o país, que serão apresentados por pesquisadores e historiadores especialistas na trajetória do partido. Em nosso décimo terceiro episódio, apresentamos trechos de uma entrevista com a operária têxtil Inês Augusto. Inês iniciou sua militância cedo na União da Juventude Comunista e foi um quadro importante do PCB no movimento sindical e na Federação de Mulheres do Estado de São Paulo (FMESP). No trecho que ouviremos, ela fala sobre a Greve de 1953, a carestia do custo de vida e sua participação na Campanha pela Paz. Essa voz comunista é apresentada pela historiadora Ana Clara Tavares.
Projeto e execução: Ana Clara Tavares, Felipe Ribeiro, Larissa Farias e Paulo Fontes Apoio: Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Agradecemos às instituições e pesquisadores que gentilmente colaboraram com nosso projeto
Referência da entrevista: Entrevista Inês Augusto. 31 de julho de 2002. Entrevistador: Murilo Leal. Centro de Memória Sindical.
Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci –
Vale Mais
Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ.
Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho.
No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro.
Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios!
Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco
Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias
Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco
Diretor da série: Thompson Clímaco
Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
Neste episódio, Paulo Cruz Terra, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresenta o livro “Trabalhadores do Mundo: ensaios para uma história global do trabalho”, de Marcel Van der Linden. Publicada originalmente em 2008 e traduzida para o português em 2013, a obra é uma das principais referências da história global do trabalho e propõe uma perspectiva que busca transpor o eurocentrismo e o nacionalismo metodológico na historiografia do trabalho.
Livros de Classe
Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.
Telma de Barros Correia Arquiteta, professora aposentada do IAU-USP
Nos anos iniciais do século XX, depois de desentendimentos com o vice-presidente da República, o governador de Pernambuco e o prefeito do Recife, o que inviabilizou seus negócios naquela cidade, o comerciante Delmiro Gouveia se transferiu para o sertão de Alagoas. Entre 1912 e 1917, construiu nas proximidades do rio São Francisco uma fábrica de linhas de costura, o núcleo fabril de Pedra, para abrigar seus operários e gerentes e uma usina de eletricidade junto à cachoeira de Paulo Afonso, além de estradas e outras obras de infraestrutura. O empreendimento logo se tornou objeto de admiração de intelectuais, entre os quais Oliveira Lima, Oliveira Vianna e Assis Chateaubriand, que o interpretaram como um indício das potencialidades econômicas do sertão. Além da técnica e da ousadia da iniciativa, assinalou-se a “ordem” e o “irrepreensível” asseio da fábrica, das ruas e casas Pedra e de seus moradores.
Confinada em um espaço cercado, às margens da Estrada de Ferro Paulo Afonso, Pedra reunia cerca de 250 casas, escola, hotel, prédio destinado a bailes e sessões de cinema, pista de patinação e campo de futebol. Não tinha templo religioso e o comércio era feito em feira semanal e na localidade vizinha de Pedra Velha, separada do núcleo fabril por uma cerca e pela linha de trem.
A quase totalidade dos moradores de Pedra era composta por famílias do seu entorno, atraídas por trabalho e moradia. Essa massa de sertanejos pobres engajada no emprego fabril e vivendo em condições de higiene avaliadas como impecáveis foi vista por Assis Chateaubriand como uma vigorosa resposta à revolta de Canudos às dúvidas acerca das possibilidades de levar o progresso ao sertão. Havia, ainda, famílias de técnicos especializados, gerentes e do proprietário, algumas provenientes do Recife, como a do próprio Delmiro Gouveia.
O ordenamento espacial de Pedra foi o ponto de partida de um amplo esforço realizado no sentido do controle e do recondicionamento físico e mental dos moradores. As baixas densidades, os grandes vazios e a regularidade das construções foram as características definidoras de seu plano. As casas eram de alvenaria, cobertas com telhas de barro do tipo canal e tinham piso de tijolo. As casas-padrão, compunham-se de duas salas, dois quartos e cozinha, além de cômodo para banhos e sanitário na extremidade do quintal. Para os funcionários mais graduados eram destinadas casas maiores. Essas eram providas de água encanada, enquanto as casas-padrão eram abastecidas através de chafariz. As moradias agrupavam-se em compridos blocos percorridos por uma galeria, que se abria para ruas retas e largas, ao mesmo tempo grandiosas e singelas. Para alcançar a dispersão e as condições sanitárias almejadas, também contribuíam vias sanitárias, amplos quintais e vastas extensões de terras desocupadas entre os blocos de moradias.
Pedra também se notabilizou pelo rígido controle imposto sobre os moradores. Regulamentos, vigilância severa, multas, castigos e humilhações eram os instrumentos básicos utilizados na imposição de disciplina no trabalho e de novos padrões de higiene, vestuário e comportamento.
Tratados como problema de ordem pública, os rapazes solteiros sem família moravam fora do núcleo e estavam proibidos de frequentar as casas das famílias operárias. Os acessos eram controlados por fiscais, que chegavam a realizar rondas noturnas para surpreender casais de namorados que conseguissem burlar as rígidas normas do lugar. No cinema, homens e mulheres sentavam-se em locais separados, mesmo que fossem casados. Formas usuais de divertimento, como jogos de azar, caça e jogo do bicho, eram proibidas. Exigia-se a caiação regular das casas, punindo-se com multas os que se descuidavam de sua conservação e limpeza. Aos funcionários graduados, eram reservadas casas situadas nas extremidades dos blocos e a função de “inspetores de quarteirão”.
Esse controle rigoroso parece ter impedido não apenas a ocorrência de greves e movimentos reivindicatórios, quanto de qualquer tipo de organização autônoma dos trabalhadores de Pedra, enquanto o lugar esteve sob a direção de Delmiro Gouveia. Há notícias de operários espancados ou amarrados em um tronco sob a acusação de roubos ou de brincadeiras em serviço, assim como de outro expulso da área cercada em torno do núcleo fabril e obrigado a embarcar no primeiro trem de carga a deixar o lugar.
Em 1917, Delmiro Gouveia foi assassinado, crime atribuído a pistoleiros a serviço de um fazendeiro da região envolvido em disputas de terras com o industrial. Após a morte de Gouveia, a fábrica, seu núcleo fabril e demais anexos foram comprados pela família Menezes, proprietária de indústrias em Pernambuco. Sob os novos donos foi erguida uma igreja em Pedra, mas o conjunto de moradias pouco cresceu. Contudo, fora dos limites das propriedades da fábrica, do lado oposto aos trilhos do trem, a povoação denominada Pedra Velha, ampliou-se continuamente. Em 1952, Pedra foi desmembrada da cidade de Água Branca, convertendo-se em sede de um novo município, batizado de Delmiro Gouveia.
A partir da década de 1960, a fábrica começou a vender as casas aos operários, no âmbito de acordos trabalhistas envolvendo indenizações por tempo de serviço. À venda, seguiu-se um movimento de reformas internas e nas fachadas das casas. A cerca que confinava o conjunto foi retirada e o núcleo operário e a localidade de Pedra Velha se integraram. No final da década de 1990 o prédio do cinema foi inteiramente reformado para abrigar a rádio Delmiro AM e FM, de propriedade dos donos da fábrica. Em março de 2016 a fábrica encerrou suas atividades, após o corte no fornecimento de energia elétrica, devido a débito vultuoso com a empresa de distribuição de eletricidade de Alagoas.
Do núcleo fabril que lhe deu origem, a cidade de Delmiro Gouveia guarda a disposição de algumas ruas e quarteirões e raras casas dotadas do alpendre original, além da igreja dos anos vinte e das instalações industriais, essas muito alteradas. O industrial é homenageado no nome da cidade e sua obra é celebrada em um museu instalado na antiga estação de trem. Ao trabalho, que ergueu e habitou o núcleo fabril e movimentou as máquinas da fábrica, é reservado um papel secundário na narrativa de pioneirismo industrial construída em torno da trajetória de Delmiro Gouveia e da localidade de Pedra.
Rua 13 de Maio, em Pedra. Sem data. Fonte: Museu Regional Delmiro Gouveia, Delmiro Gouveia, Alagoas.
Para saber mais:
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. In: Resposta a Canudos: reportagens e ensaios. Recife: COMUNICARTE; Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1990.
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no Sertão. Campinas: Papirus, 1998.
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Recife: CEPE, 1991.
Crédito da imagem de capa: Pedra em 1929, vendo-se os blocos de casas e, à esquerda, o prédio destinado ao cinema. Fonte: Museu Regional Delmiro Gouveia.
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