Contribuição especial #09: Florestan Fernandes e o ângulo “plebeu” da história.

Contribuição especial de Antonio Brasil Jr¹

“Em sentido literal, a análise desenvolvida é um estudo de como o Povo emerge na História, trata-se de assunto inexplorado ou mal explorado pelos cientistas sociais brasileiros”. Assim Florestan Fernandes justifica a densa e volumosa pesquisa que resultou em A integração do negro na sociedade de classes, tese por ele defendida em 1964 para assumir como professor catedrático na Universidade de São Paulo. Naquele momento decisivo da história brasileira, Florestan buscava consolidar um programa coletivo de pesquisa voltado à formação da sociedade capitalista no Brasil, chamando a atenção para os modos como aqui o capitalismo combinou simultaneamente um considerável dinamismo econômico e um tenaz compromisso com as estruturas sociais de origem colonial.

Esse assunto “mal explorado” não se refere à ausência de estudos sobre os grupos sociais subalternos que foram se articulando de modo mais ou menos direto à expansão do capitalismo no Brasil. Como assinalou Antonio Candido em texto conhecido sobre o significado das ciências sociais no Brasil, essas disciplinas não apenas aclimataram um universo de teorias, métodos e técnicas de pesquisa, mas igualmente implicaram uma rotação ética e cognitiva ao colocarem em primeiro plano as classes populares – o trabalhador rural, o caiçara, o negro, o operário – no centro da agenda sociológica.

O que Florestan pretendia trazer de novo, naquele livro, era a análise sistemática do sentido do processo de constituição do capitalismo entre nós desde um ângulo “plebeu”, isto é, visto a partir daqueles que foram colocados à margem da sociedade urbano-industrial em gestação. Daí a escolha da população negra como foco do estudo, que se justifica “porque foi esse contingente da população nacional que teve o pior ponto de partida para a integração ao regime social que se formou ao longo da desagregação da ordem social escravocrata e senhorial e do desenvolvimento posterior do capitalismo no Brasil”. É a partir das margens, e não do centro, que o sentido da formação da ordem capitalista se revelaria com maior nitidez – e esse sentido é o da reiteração da exclusão social. Florestan buscou, portanto, observar o capitalismo a partir dos grupos que, em larga medida, ficaram à margem inclusive da proletarização, ou que puderam apenas tardiamente ter acesso a formas de assalariamento regulares e com o mínimo de garantias sociais e jurídicas. Como sabemos, o título do livro, A integração do negro, é uma pista falsa pois trata justamente de seu oposto.

Por essa razão, o interesse do livro ultrapassa a análise da questão racial, uma vez que os padrões de relação entre brancos e negros em São Paulo – matéria imediata da pesquisa – só podem ser entendidos à luz de uma compreensão mais ampla de como a própria sociedade de classes, em vez de corrigir, reproduzia e ampliava formas herdadas de desigualdade e discriminação. Para usar um termo frequente na escrita de Florestan, o ponto central de A integração do negro era entender por que o “Antigo Regime” se recriava, com outras facetas e com outras roupagens, no “epicentro da revolução burguesa no Brasil”. Esse aspecto não é trivial. Na cidade em que a urbanização parecia literalmente derrubar um passado até pouco tempo praticamente rural, em que a industrialização avançava com um vigor inédito no país, em que a imigração europeia – e depois a migração interna – redesenhou profundamente sua demografia, em que tudo parecia novo, Florestan e sua equipe de pesquisadores e de interlocutores anotava metodicamente as formas pelas quais o “moderno” se articulava estruturalmente com os modos de pensar, sentir e agir que pareciam típicos de uma ordem escravista e senhorial.

Ao mesmo tempo em que Florestan concluía essa etapa da pesquisa que liderou sobre as relações raciais no sul do país, ele organizava a partir de 1962 o Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (CESIT), no qual pesquisas sobre empresários, Estado, trabalhadores industriais e desigualdades regionais, dentre outras, foram conduzidas por professores e alunos da Cadeira de Sociologia I. Quer dizer, os agentes sociais constitutivos do moderno capitalismo  foram investigados e suas conexões com esse processo de mudança que se combina com o passado foram devidamente perseguidas nas monografias defendidas pelos pesquisadores do CESIT. O próprio Florestan passaria a se dedicar então à teorização sociológica do processo de expansão do capitalismo na periferia, cuja contribuição mais conhecida se encontra em A revolução burguesa no Brasil, de 1975, e que, àquela altura, trazia uma visão muito própria – ainda que coletivamente amadurecida no trabalho em equipe que ele sempre fomentou – sobre os temas da dependência e do desenvolvimento da sociedade brasileira.

É certo que o livro de Florestan de maior alcance teórico é A revolução burguesa no Brasil, mas suas teses fundamentais só se iluminam se lidas conjuntamente com o riquíssimo material empírico analisado em A integração do negro. Pois é na pesquisa sobre a população negra da capital paulistana que são descortinados os mecanismos – os mais explícitos e os mais sutis – que permitem entender a reprodução e a naturalização de desigualdades tão pronunciadas no nível das interações concretas dos agentes sociais. Se os trabalhadores em geral, a despeito de sua cor e de sua origem, tiveram (e ainda têm) que lutar permanentemente para que recebessem um mínimo de dignidade e direitos fundamentais, os trabalhadores negros tiveram (e ainda têm) que lutar por algo ainda mais básico e fundamental, que é o reconhecimento de sua própria condição de humanidade. “Ser gente”, como insistiam vários de seus interlocutores na pesquisa, era uma aspiração mínima e compartilhada pela população negra que encontrava barreiras sistemáticas na interação com os brancos.

Florestan descreve, por diferentes ângulos, os efeitos devastadores, seja para a subjetividade dos sujeitos negros, seja para as suas formas de ação coletiva, de uma sociedade em que a ideia de igualdade parece não fazer sentido nas relações sociais mais básicas. Vale lembrar que, embora identificando os limites estruturais à ação imposta por uma sociedade que racializa seus sujeitos, Florestan dedicou parte significativa do livro aos movimentos sociais negros – que levaram adiante a façanha de defender a igualdade e questionar o mito da democracia racial – e às agruras da ascensão social num contexto em que o “negro que sobe” é visto como a exceção que confirma a regra (racista).

Pesquisas no âmbito da historiografia assinalaram que a interpretação de Florestan não está isenta de problemas, posto que, entre outros temas, teria desconsiderado inúmeras formas de ação e de contestação à ordem racial que surgiram ao longo do processo. De qualquer forma, apesar de seu limites, a obra de Florestan captura o sentido de um processo de formação da sociedade de classes que se volta estruturalmente contra a democratização de suas relações fundamentais. Ou seja: houve luta, resistência (subjetiva e objetiva) e mobilização por parte da população negra durante todo esse processo, mas o circuito fechado (termo caro a Florestan) da dominação racial não se reverteu no plano estrutural. Isso  também explicaria o que ele chama de “omissão” da população branca, inclusive um grande contingente da classe trabalhadora, composta de imigrantes brancos na primeira metade do século XX, que teria se mostrado indiferente ao protesto negro.

Florestan Fernandes participa de debate no Sindicato dos Bancários de São Paulo, ao lado de Luis Carlos Prestes, Flavio Abramo e Luis Gushiken, 1985. Acervo do Sindicato dos Bancários de São Paulo

Nunca mais saiu do horizonte de Florestan as imbricações entre classe e raça na formação histórica dos trabalhadores no Brasil. Os movimentos sociais e políticos que emergiram no país no final dos anos 1970 abriam uma possibilidade inédita nesse sentido. Isso, em grande medida, explica o engajamento político de Florestan e sua eleição em 1986 como deputado federal constituinte pelo PT. Em uma publicação do partido, no centenário da Abolição, em maio de 1988, ele escrevia: “Os trabalhadores brancos, estrangeiros e nacionais, incumbiram-se da tarefa essencial de passar a limpo a noção de trabalho livre como categoria histórica. Agora, ela precisa abranger o negro, em todos os seus pressupostos ou determinações. Socialismo proletário, entre nós, implica raça e classe indissociavelmente associadas de modo recíproco e dialético”.

O programa de pesquisa de Florestan, ver a sociedade brasileira a partir de suas margens, como chamou nossa atenção Elide Rugai Bastos, comunicava (e ainda comunica) ao mesmo tempo dimensões teóricas, éticas e políticas. Em termos teóricos, a margem não é só um lugar (ou pior, um mero objeto), mas uma forma de ver melhor como se articulam centros e periferias, ou seja, o conjunto da sociedade. Do ponto de vista ético, Florestan, que atravessou as duas pontas da sociedade brasileira – em sua dura travessia das margens aos centros (do poder acadêmico e político) –, representou como poucos o compromisso intelectual com a efetiva democratização da sociedade brasileira. E político porque seu programa sociológico exige da sociedade brasileira aquilo que ela estruturalmente recusa: sua transformação no sentido da igualdade substantiva entre todos os grupos sociais que a compõem.

Não à toa, Florestan foi assumido não apenas como um clássico da sociologia brasileira, mas também como um símbolo de luta política. É reiteradamente lembrado e celebrado por diversas correntes do movimento negro, dá nome à principal escola do MST e continua a ser estudado e homenageado em cursos de formação sindical e política por todo o país. O ângulo “plebeu” da história sabe bem que a obra e atuação de Florestan Fernandes continuam a ser referências fundamentais para entender o Brasil a partir das margens.

¹ Professor de Sociologia do IFCS/UFRJ.

Referências bibliográficas
Bastos, Elide Rugai. “Pensamento social da escola sociológica paulista”. In: Miceli, Sergio (org.). O que ler na ciência social brasileira: 1970-2002. São Paulo/Brasília: Sumaré/Anpocs, 2002.
Bastos, Elide Rugai. “Sessenta anos da publicação de um relatório exemplar”. Sinais sociais 10.28 (2015): 29-54.
Botelho, André; Antonio Brasil Jr., Maurício Hoelz. “Florestan Fernandes entre dois mundos: entrevista com Elide Rugai Bastos, Gabriel Cohn e Mariza Peirano.” Sociologia & Antropologia 8.1 (2018): 15-43.
Brasil Jr., Antonio. Passagens para a teoria sociológica: Florestan Fernandes e Gino Germani. São Paulo/Buenos Aires: Hucitec/Clacso, 2013.
Brasil Jr., Antonio & Botelho, André. “Florestan Fernandes para dimensionar a força do presente”. In: Botelho, André & Starling, Heloísa (orgs.). República e democracia: impasses do Brasil contemporâneo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2017.
Candido, Antonio. A faculdade no Centenário da Abolição. In , Vários escritos (p. 227-240). São Paulo/Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul. Cohn, Gabriel. “Florestan Fernandes e o radicalismo plebeu em Sociologia.” Estudos Avançados 19.55 (2005): 245-250. Fernandes, Florestan. “O centenário da antiabolição”. In: ; David, Antônio (org.). O Brasil de Florestan (p. 223-229). Autêntica, 2018.
Fernandes, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes (2 vols.). São Paulo: Globo, 2008.
Feranandes, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Contracorrente; 2020 (6a edição).
Romão, Wagner. Sociologia e política acadêmica nos anos 1960: a experiência do CESIT. Editora Humanitas, 2006.

Crédito da imagem de capa: Florestan Fernandes participa de manifestação a favor da educação pública em São Paulo,  1988 . Acervo da família.

Artigo “O desenvolvimento urbano-industrial e as imagens fotográficas das favelas cariocas” – Samuel Oliveira

Samuel Oliveira, professor do CEFET- RJ e pesquisador do LEHMT, publicou o artigo “A revista O Observador Econômico e Financeiro e as favelas cariocas: fotografia documental e os regimes de representação da pobreza urbana (1942-1953)” no dossiê “A cidade e suas imagens” da Revista Maracanan.

O Observador Econômico e Financeiro, Rio de Janeiro, n.139, , p.50-62, ago.1947. p.52. Impressão rotogravura.

O artigo analisa o fotojornalismo da revista O Observador Econômico e Financeiro, compreendendo como os estigmas da pobreza urbana e a questão racial eram articulados à imaginação do desenvolvimento urbano-industrial do Rio de Janeiro.

Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/maracanan/article/view/47923/33868

Crédito da imagem de capa: O Observador Econômico e Financeiro, n. 146, p.71-83 , mar.1948. p.75. Impressão rotogravura.

LEHMT atinge 1000 seguidores no Instagram e sorteará livros no dia 22/07

É com grande satisfação que chegamos aos 1100 seguidores em nosso Instagram!

Nós estamos presentes nas principais mídias sociais divulgando conteúdos produzidos semanalmente em nosso site, Lehmt.org, visando atingir públicos diversos. É prazeroso poder compartilhar com vocês variadas produções acerca da história social do trabalho.

Como forma de agradecimento a toda comunidade que nos acompanha, realizaremos o sorteio dos livros: “O sindicato que a ditadura queria: o Ministerio do Trabalho no governo Castelo Branco (1964-1967)”, de Heliene Nagasava, e “Catolicismo e Trabalho: a cultura militante católica dos trabalhadores de Belo Horizonte (1909-1941)”, de Deivison Amaral.

O resultado será divulgado no dia 22/07.

Para participar do sorteio você deve:

  • Seguir @lehmt_ufrj no Instagram;
  • Marcar (quantas vezes quiser) um amigo(a) nos comentários. Não vale perfil repetido, fakes ou perfil de famosos.

Observações:

  • É necessário possuir endereço de recebimento no Brasil;
  • Os livros serão enviados quando as condições sanitárias permitirem.

Vale Mais #07 – Estátuas, memórias e mundos do trabalho.


Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ. O objetivo é discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #07 do Vale Mais é sobre Estátuas, memórias e mundos do trabalho.

Desde maio de 2020, protestos antirracistas iniciados nos Estados Unidos têm sacudido o mundo e levantado debates não apenas sobre as desigualdades sociais e raciais e a violência policial, mas também sobre o papel da história e da memória em sociedades marcadas pelo colonialismo e pelo racismo estrutural. Em particular, a derrubada de estátuas de escravocratas e o ataque a outros símbolos públicos que remetem ao racismo e à dominação colonial surpreendeu a muitos e tem gerado intensos debates na imprensa e redes sociais. 

Para refletir sobre esse debate à luz das relações entre memória, patrimônio e história do trabalho, conversamos com a antropóloga e historiadora Luciana Heymann, professora do Programa de Pós-Graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz).

Produção: Deivison Amaral, Julia Chequer, Heliene Nagasava e Paulo Fontes.
Roteiro: Julia Chequer, Heliene Nagasava, Deivison Amaral e Paulo Fontes.
Apresentação: Julia Chequer.

Referências indicadas para quem quer saber mais ou citadas no episódio:

Alois Riegl. O Culto Moderno dos Monumentos.

Andreas Huyssen. Culturas de um passado presente.

Boaventura de Souza Santos. As estátuas do nosso descontentamento. (Acesse no site da Mídia Ninja).

Elizabeth Jelin. La lucha por el pasado: Cómo construimos la memoria social.

Françoise Choay. A alegoria do patrimônio.

Jacques Le Goff. História e Memória.

Memory Studies (periódico acadêmico).

Créditos da Imagem de Capa: Estátua de Edward Colston é jogada no rio Avon, em Bristol – Giulia Spadafora – 7.jun.20. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/06/londres-reabre-debate-sobre-politicamente-correto-ao-revisar-estatuas-de-racistas.shtml

Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci Vale Mais

Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ. Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro. Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  2. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  3. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  4. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga
  5. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz

Chão de Escola #01: O trabalho das profissionais da área de saúde nas pandemias de 1918 e 2020

Autora: Claudiane Torres (SME-RJ)

Apresentação da atividade

Segmento: Ensino Fundamental II – 9ºano

Unidade temática: O nascimento da República no Brasil e os processos históricos até a metade do século XX

Objeto de conhecimento: Primeira República e suas características

Objetivos gerais:

– Contextualizar o período da pandemia de 1918 na Primeira República.

– Caracterizar o trabalho das profissionais de saúde na pandemia de 1918 em perspectiva comparada com a pandemia de 2020.

– Relacionar as conquistas de direitos políticos, sociais e civis à atuação de movimentos sociais.

Duração da atividade: 03 aulas de 50 min

AulasPlanejamento
01Execução das etapas 1, 2 e 3
02Atividade da etapa 4
03Etapa 5

Conhecimento prévio:

– Contextualização do período da Primeira República: aspectos políticos e sociais.

Atividade

Atividade e recursos:
A partir das características políticas e sociais da Primeira República no Brasil, previamente abordadas em sala de aula, a proposta desta atividade é iniciar um debate sobre os impactos no trabalho das profissionais de saúde na pandemia de 1918 e, então, discutir as condições sociais e os direitos das mulheres nesse contexto. Utilização de cópias e projetor com som.

Etapa 1: Divisão da turma em grupos de até quatro estudantes.

Etapa 2: Problematização
– Em 13 de maio de 2020, a pesquisadora Viviane Tavares publicou no site da Fiocruz um boletim sobre as condições dos trabalhadores e trabalhadoras da área de saúde durante o combate ao Covid-19 no Brasil. Esse boletim ressaltou que somente no país, cerca de 3,5 milhões de trabalhadores atuam no Sistema Único de Saúde (SUS). Aponta, também, que entre os principais desafios enfrentados por trabalhadores no enfrentamento da pandemia mundial provocada pelo Covid-19, estão a falta de equipamentos de proteção individual, sobrecarga de trabalho e impactos na saúde mental. Relatos, imagens e vídeos de trabalhadores da saúde, como médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde que estão atuando sem os equipamentos adequados como viseira, máscara e avental – no atendimento em geral – e máscaras N95, gorros e macacão impermeável – nas unidades de terapia intensiva e enfermarias. Além desses equipamentos de proteção individual, faltam ainda os mais básicos como luvas, álcool em gel e sabão líquido. Viviane Tavares chama atenção para o número de trabalhadores infectados que até a data da publicação da matéria chegava a cerca de 600 trabalhadores e trabalhadoras contaminados e afastados do trabalho. Sabemos que no contexto de uma pandemia é decretado o Estado de emergência no país e que as condições de trabalho estarão relacionadas às políticas públicas que o Estado já estabelecia previamente e passa a estabelecer a partir de então. Como você imagina ser o trabalho desses profissionais em plena pandemia? Agora imagine viver uma pandemia no início do século XX. Quais conhecimentos a medicina adquiria naquele momento? Como deve ter sido trabalhar como uma profissional da área de saúde em 1918 durante a pandemia da Gripe Espanhola?

Etapa 3: Contextualize e caracterize a Gripe Espanhola de 1918. Em seguida, ouça o podcast Vale Mais #04 – A Pandemia de 1918 e os mundos do trabalho

Imagem retirada da Infomatéria do Senado

Etapa 4: Distribuição cópias das duas matérias a seguir para os estudantes, estabelecendo um tempo para a leitura e orientando um pequeno debate sobre o que eles leram das condições de trabalho em plena pandemia a partir das questões abaixo.
– Qual assunto principal das duas matérias jornalísticas?
– Quem são as trabalhadoras que aparecem nas matérias?
– Como podemos caracterizá-las?
– Quais são as condições de trabalho dessas profissionais?
– Que semelhanças de condições de trabalho podemos verificar nos dois contextos de pandemia?

Matéria 1

Profissionais falam sobre falta de equipamentos, jornadas exaustivas e a dificuldade de dar conta da vida pessoal na categoria em que as mulheres são mais de 80% da força de trabalho

Matéria 2

Mulheres negras romperam o paradigma da enfermeira padrão no início do século 20, revela pesquisa

Etapa 5: Estimule os estudantes a produzirem um texto sobre os aspectos sociais e políticos comuns que aparecem nos dois contextos de pandemia.

Bibliografia e material de apoio:


Crédito da imagem de capa: Doação de sangue por ex combatentes à Cruz Vermelha Brasileira. Fundo Agência Nacional. Arquivo Nacional. Notação: BR_RJANRIO_EH_0_FOT_FEB_00114_10.


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

#Live Labuta: Racismo e História do Trabalho com Ynaê Lopes dos Santos e Antonio Sérgio A. Guimarães

O LEHMT-UFRJ convidou a historiadora Ynaê Lopes dos Santos (UFF) e cientista social Antonio Sérgio A. Guimarães (USP) para discutir o racismo nos mundos do trabalho. O debate aconteceu no dia 02 de julho de 2020 e foi mediado por Paulo Fontes, coordenador do Laboratório.

A íntegra da transmissão está disponível no Labuta, o canal de vídeos do LEHMT-UFRJ no Youtube.

Produção: Deivison Amaral, Heliene Nagasava, Julia Chequer, Paulo Fontes e Yasmin Getirana.

Roteiro: produzido coletivamente pelos pesquisadores do LEHMT, além de contribuições de perguntas da audiência durante a transmissão.

Labuta é um canal de vídeos do LEHMT sobre história, trabalho e sociedade.

Lançamento da coletânea “A História sob Múltiplos Ângulos”

A Editora da Universidade Estadual do Piauí (EdUESPI) acabou de lançar sua primeira publicação oficial: uma coletânea intitulada A História sob Múltiplos Ângulos: trajetórias de pesquisa e escrita. Em dois volumes, a obra reúne dezenove artigos de docentes e discentes da UESPI e da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com temáticas variadas, como a Balaiada, a Revolta dos Cabos, o varguismo no Piauí, a mortalidade infantil, a saúde pública, a cultura juvenil, o patrimônio cultural, os sujeitos de Direito, a construção de identidades de gênero, o heroísmo e a virilidade em Parnaíba e o trabalho feminino.

Um dos artigos da coletânea é de autoria do professor Felipe Ribeiro, que é da UESPI e também integrante do LEHMT. No texto intitulado  “Uma grande organização fabril do Piauí”: a Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense no contexto da Segunda Guerra Mundial,o autor apresenta os primeiros resultados de sua pesquisa sobre essa unidade têxtil, localizada em Teresina-PI. Utilizando basicamente fontes da imprensa entre o contexto da guerra e o fechamento da fábrica, na década de 1950, o artigo visa contribuir com a historiografia do trabalho no Piauí justamente em um período ainda pouco estudado sobre a referida fábrica.

Organizada pelos professores Marcelo de Sousa Neto, Antonia Valtéria Melo Alvarenga e Pedro Pio Fontineles Filho, a coletânea foi publicada na versão impressa e eletrônica (e-book). Entretanto, por conta pandemia de Covid-19 (coronavírus), o lançamento dos livros físicos teve que ser suspenso, até que a situação permita eventos com aglomerações. Já a versão e-book encontra-se disponível para download gratuito no Portal da EdUESPI, nos seguintes links:

            A História sob Múltiplos Ângulos: trajetórias de pesquisa e escrita

            Vol. I : https://editora.uespi.br/index.php/editora/catalog/book/3

            Vol II: https://editora.uespi.br/index.php/editora/catalog/book/4

Curso de Extensão “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dxs negrxs no ensino de história” – Renata Moraes

Apesar da lei n.º 10.639 prever como obrigatório o ensino da história e da cultura da África e dos afrodescendentes no Brasil em todo o currículo da educação básica, essa temática fica restrita aos professores de história e a alguns períodos específicos apenas.

A proposta do curso de extensão é refletir sobre a construção da história do Brasil e o lugar que historiadores reservaram aos negros nessa abordagem, desde o período colonial até o republicano. Através dessa reflexão, a ideia é apontar outros caminhos para pensar a história do Brasil a partir da perspectiva do homem negro e da mulher negra, vistos como sujeitos e protagonistas.

Ao final do curso, cada aluno fará um plano de aula abordando algum ponto da história do Brasil (ou de outra disciplina). Os planos serão compartilhados entre os alunos do curso, tornando-se um novo recurso didático para sua atividade em sala de aula.

As aulas serão ministradas por Renata Moraes, professora da UERJ e pesquisadora do LEHMT-UFRJ, com início no dia 2 de julho, no horário das 18-20h, através da plataforma google meet. Inscrições pelo email curso.historia.extensao@gmail.com

Programação do curso:

Vale Mais #06 – Epidemias e trabalhadores do Norte e do Nordeste


Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ. O objetivo é discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #06 é sobre Epidemias e trabalhadores do Norte e do Nordeste.

A história da região Amazônica foi marcada por surtos epidêmicos de doenças tropicais. Esses episódios foram agravados pela pobreza, por condições sanitárias precárias e sobretudo pela demora de uma resposta de assistência por parte do Estado. Na caatinga nordestina as epidemias e doenças assolaram as obras emergenciais para combater as secas, especialmente na década 1950. Dando continuidade à nossa série que traz os temas da saúde pública e das epidemias sob a ótica dos mundos do trabalho, o foco de hoje são os trabalhadores das regiões norte e nordeste do país.

Conversamos com a historiadora Lara de Castro, professora da Universidade Federal do Amapá e presidenta da Seção Amapá da Associação Nacional de História (Anpuh).

Produção: Deivison Amaral, Julia Chequer, Heliene Nagasava e Paulo Fontes.
Roteiro: Julia Chequer, Heliene Nagasava e Paulo Fontes.
Apresentação: Julia Chequer e Yasmin Getirana.

Artigo É “gente que só o diabo”: “trabalhadores-cassacos” no lavor das obras contras as secas no Ceará (1950) de autoria de Lara de Castro.

Créditos da Imagem de Capa: Durante a seca, frente de trabalho desloca-se no leito seco de um rio na região Nordeste. Nordestinos fogem da seca e da fome. 1958. Acervo Memorial da Democracia. Disponível em: http://memorialdademocracia.com.br/card/retirantes-fogem-da-seca-e-da-fome#card-102

Contribuição especial #08: Sociologia e História do Trabalho: uma homenagem a Maria Célia Paoli

Contribuição especial de Leonardo Mello e Silva¹

Maria Célia Paoli nos deixou há pouco mais de um ano. Professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da USP, Maria Célia foi uma figura importante em vários sentidos: 1) como professora e formadora de gerações de pesquisadores em Ciências Sociais; 2) como intelectual pública, entre outras razões, por sua presença na equipe da Secretaria Municipal de Cultura da gestão de Luiza Erundina na cidade de São Paulo; 3) como fundadora e organizadora do Cenedic – Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania, na USP, e 4) como incansável acadêmica preocupada em abrir – mas não de caso pensado – um campo de reflexão plural e criativo sobre as classes populares e o mundo do trabalho no Brasil.

Para esse último intento, mobilizou referências múltiplas na historiografia, na literatura, na filosofia política, mas também por entre as diversas “especialidades” da sociologia. Um caleidoscópico campo de interesses, espalhados por suas publicações e por suas reflexões, partilhadas e cultivadas por todos aqueles que tinham o privilégio de privar de sua proximidade pessoal, espécie de “círculo interno” composto por alunos, colegas, intelectuais, militantes e amigos. Como arendtiana de alma que era, Maria Célia certamente não estranharia tal caracterização, nem tal termo, no fundo a consequência mais fiel do preceito célebre daquela filósofa de que a riqueza do espaço privado depende de um espaço público pujante e diverso. Por todas essas razões, estamos diante de uma interlocutora – uma “pessoa extraordinária”, parafraseando seu mestre e orientador, Eric Hobsbawm – que fala por meio de sua obra e de sua memória.

O arco de suas reflexões é vasto, cobrindo diferentes tópicos. O primeiro deles é o enquadramento das lutas sociais na passagem para um Brasil moderno. Sua tese de doutorado, “Labour Law and the State in Brazil 1930-1950”, é um diálogo crítico com a literatura sobre a formação da classe trabalhadora na sociologia brasileira, seja a uspiana, seja a isebiana-pecebista. O vasto emprego de depoimentos de trabalhadores, para o período investigado, confirma, em termos metodológicos, a inclinação para – se fosse o caso de encaixar o tipo de sociologia praticada por Maria Célia em algum ajuste disciplinar – uma sociologia histórica; adicionalmente, denuncia a preferência axiológica pelo ponto de vista dos “de baixo”. Temos aqui a presença da sugestão marcante contida na obra do historiador Edward Palmer Thompson, de quem Maria Célia era leitora apaixonada.

Não por acaso, sua participação nas bancas de pós-graduação e como referência bibliográfica obrigatória nos trabalhos acadêmicos de uma coorte de historiadores sociais da Unicamp, conhecidos por sua reavaliação crítica do populismo, é digna de nota. Teses e dissertações saídas entre a primeira metade dos anos 1990 e a primeira metade dos anos 2000 – sobretudo aquelas orientadas por Michael Hall – confirmam aquela influência. Nomes hoje reconhecidos no campo da história social do trabalho – Alexandre Fortes, Antonio Luigi Negro, Fernando Teixeira da Silva, Hélio da Costa e Paulo Fontes, membros autonomeados de uma imaginária e irônica Central Única de Historiadores (CUH) – discutiram ativamente com seu esforço de reinterpretação sociológica sobre o significado dos direitos sociais, da Justiça do Trabalho, do Estado Corporativo, e da experiência de classe. Maria Célia surgia como uma espécie de “mãe de todos” no que concerne à recepção de Thompson, contemporânea que era da apropriação criativa do historiador inglês da classe operária por estudiosos brasileiros de sua geração, muitos deles seus amigos e parceiros intelectuais, como Michael Hall, Paulo Sérgio Pinheiro, Marco Aurélio Garcia, Elizabeth Lobo, Eder Sader, Vera da Silva Telles, José Ricardo Ramalho e José Sérgio Leite Lopes, entre outros.

Seminário do Instituto Cajamar, promovido no Sindicato dos Químicos de São Paulo, 1992. Primeira fila (da direita para esquerda): Marco Aurélio Garcia, Antonio Luigi Negro, Eric Hobsbawm, Maria Celia Paoli e Alexandre Fortes. Segunda fila (da direita para a esquerda): Fernando Teixeira da Silva, Paulo Fontes, Hélio da Costa e José Sérgio Leite Lopes. Acervo Alexandre Fortes.

A cidade (veja-se o belo artigo escrito em parceria com Adriano Duarte sobre o bairro da Mooca) e a cultura, outros tópicos do interesse intelectual de Maria Célia, eram lidos principalmente a partir do motivo principal de sua obra, os mundos do trabalho. Os exemplos de lutas sociais remetem em boa medida às condições de vida do operariado urbano, as quais ensejavam reivindicações por justiça que, hoje, seriam lidas pela ótica da “luta por reconhecimento” (mas não era essa a noção empregada na época).

Uma luta eminentemente moderna em seu conteúdo – luta por justiça -, e por uma confirmação da igualdade de condições – cidadania – que estava na base do discurso formal das elites. O papel do operariado na República foi justamente o de tematizar praticamente os motivos da cidadania. As lutas saídas daquelas reivindicações falam em quebra-quebra, saques, depredações, assaltos a presídios, apedrejamentos ou empastelamento de jornais, mas também de greves e revoltas que querem comunicar algo: não apenas a persistência de uma enorme carência material, mas sobretudo a existência de um déficit de reciprocidade no suposto “contrato social” que abarca igualmente as condições econômicas de vida e de sobrevivência. Maria Célia vai coletando aqui e ali os exemplares da revolta e da inquietação popular e seus motivos, suas razões, para então interpretá-los como indícios de uma atividade política com toda a sua legitimidade.

Argumentos econômicos e argumentos políticos se misturam em um amálgama que procura entender os conflitos e as reivindicações populares. Um direito – outro termo da gramática da modernidade – existente até então apenas no papel (pensado pelas elites para o povo) é apropriado, vivido e experimentado pelas classes populares, seu destinatário ideal. A justiça do papel encontra o seu ator na prática. Aqui, um outro tema caro à autora: a desproteção e o sentimento de abandono e desamparo, coletivamente vividos. Nesse sentido, a Justiça do Trabalho encerra ao mesmo tempo um pilar estrutural da desmobilização da auto-organização operária, por um lado, e simultaneamente um horizonte de proteção contra o arbítrio patronal e estatal, por outro lado, para quem acorrem aqueles que vão “buscar os seus direitos”, como ela gostava de lembrar. Um papel, portanto, dúbio, ambíguo dessa instituição. Tal ideia perseguiu muitas das formulações da autora, afastando-a de um tratamento esquemático em termos de oposição entre Estado versus Sociedade Civil, com uma abordagem sociológica centrada no conflito de classes que se faz e refaz nos próprios termos do conflito.

Estreitamente ligados aos tópicos acima pincelados estão os famosos balanços bibliográficos da produção acadêmica sobre a classe operária brasileira (escritos em parceria com Eder Sader e Vera Telles), datados dos meados dos anos 1980, passagem obrigatória por todos aqueles que iniciavam seus estudos sobre o tema. Essas resenhas, assim como outros artigos da mesma época, são o resultado da maturação da tese doutoral, cuja intuição de base persiste como uma linha diretriz. Essa última pode ser sintetizada na questão seguinte: como é possível, diante de tanta violência acumulada das classes dominantes e do Estado, a constituição, no Brasil, de uma esfera pública verdadeiramente moderna? Daí o fascínio das lutas sociais da Primeira República, quando os anarquistas, socialistas e comunistas de primeira hora se comportavam como os pedagogos da diferenciação moderna que os “de cima” eram incapazes de oferecer. Esse papel pedagógico do operariado teria continuado mesmo depois de 1930, com a existência do aparato controlador do Estado. Afinal, a história da classe trabalhadora (dos “de baixo”) não coincide necessariamente com a história das classes dominantes sobre a classe trabalhadora (a “fala dos outros”). Eram indicações de uma história muito mais mitigada e rica do que as versões oriundas de documentos ou resoluções das lideranças. Mas havia também, do outro lado, ação, que é a base, a seiva vital da política – e por aí encontramos o fio que ata a inspiração da filosofia política de Hannah Arendt com a versão das classes sociais de Edward Thompson (a classe é aquilo que ela faz, e essa é a sua única definição).

Anos mais tarde, quando da fundação do Núcleo (depois Centro) de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) em 1995, deu-se o momento do confronto com a produção de Francisco de Oliveira. Ali está a chave de como se complementam a reflexão sobre a classe trabalhadora na formação do espaço público democrático e o papel do assalariamento na constituição de uma contratualidade de tipo “socialdemocrata”, tal como concebida, à época, por aquele autor. A terminologia, polêmica, é menos importante do que o significado que ele queria designar na ocasião: o sentido da contratação coletiva como índice da tendência estrutural do capitalismo avançado em socializar a riqueza na forma do chamado “fundo público”. Por conseguinte, ficava claro que os direitos de cidadania no Brasil, então perseguidos pelos movimentos sociais e pelo movimento operário em particular (a referência histórica era o “novo sindicalismo”), correspondiam ao que Chico de Oliveira chamava de “direitos do anti-valor”. Ora, uns e outros (os direitos de cidadania e os direitos do anti-valor) tinham de fazer a prova dos nove, isto é, de como se processariam em um contexto não mais posto pela teoria da modernização, mas pelo desenvolvimento desigual que a globalização e o neoliberalismo só pareciam agudizar. Esse episódio vai nutrir a trajetória intelectual do Cenedic a partir de então, com a problemática do “desmanche” do ideal de desenvolvimento nacional e de uma “completude” do “incompleto”.

Essa nova agenda incluía, por exemplo, as questões da reestruturação produtiva, do mercado de trabalho (a terceirização, por exemplo), da violência familiar como produto de uma vida precarizada, dos bairros e da sociabilidade comunitária num ambiente de desemprego, dos sentidos de justiça e reciprocidade nos movimentos sociais, até chegar, por fim, na temática da responsabilidade social do empresariado, um assunto de que ela não chegou a tratar de forma sistemática.

Juízos como esses só são possíveis por aqueles que leram – e admiraram – os escritos de Maria Célia; aqueles que aprenderam que sua forma de pensar, sendo mais difícil, tinha também um acabamento menos óbvio e mais duradouro.

Já no final, na última vez em que nos encontramos, suas palavras e sentidos ziguezagueavam bem livres em piruetas no ar. Sabe o que foi que ela me disse antes de nos despedirmos? Ela cantarolou um sambinha de Noel.

Maria Célia Paoli, pessoa extraordinária.

Maria Célia Paoli. Acervo Folha de São Paulo.

¹ Professor do Departamento de Sociologia da USP.

Artigos e livros selecionados de Maria Célia Paoli
Desenvolvimento e Marginalidade: um Estudo de caso. São Paulo: Pioneira, 1974.
“Labour Law and the State in Brazil 1930-1950”. PhD University of London, 1988.
(com Eder Sader e Vera da Silva Telles) “Pensando a Classe Operária: os Trabalhadores Sujeitos ao Imaginário Acadêmico (Notas de uma Pesquisa)”. Revista Brasileira de História 6, 1984, p. 129-149.
(com Eder Sader) “Sobre as Classes Populares no Pensamento Sociológico Brasileiro” in Ruth Cardoso, A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
“Os Trabalhadores Urbanos na Fala dos Outros. Tempo, Espaço e Classe na História Operária Brasileira” in José S. Leite Lopes (coord.) Cultura & Identidade Operária. Aspectos da Cultura da Classe Trabalhadora. Rio de Janeiro: Marco Zero/Editora UFRJ, 1987.
“Trabalhadores e Cidadania: a Experiência do Mundo Público na História do Brasil Moderno”. Estudos Avançados 3 (7), 1989, p. 40-66.
“São Paulo Operária e suas Imagens (1900-1940)”. Espaço & Debates 33: Temporalidade: Memória e Cotidiano da Cidade. São Paulo, 1991, p. 27-41.
“Citizenship, Inequalities, Democracy and Rights: The Making of a Public Space in Brazil”. Social and Legal Studies 1 (2), June 1992, p. 131-142.
“Os Direitos do Trabalho e sua Justiça: em busca das referências democráticas”, São Paulo: Revista da USP, 1994, p. 100-115.
(com Vera da Silva Telles) “Social Rights: Conflicts and Negotiations in Contemporary Brazil” in Sonia E. Alvarez, Evelina Danigno and Arturo Escobar (eds.) Cultures of Politics, Politics of Cultures: Re‑visioning Latin American Social Movements. Boulder, CO.: Westview Press, 1998.
(com Adriano Duarte) “São Paulo no Plural: Espaço Público e Redes de Sociabilidade” in Paula Porta (ed.) História da Cidade de São Paulo. A Cidade na Primeira Metade do Século XX (1890-1954). Volume 3, São Paulo: Paz e Terra, 2004.
“O Mundo do Indistinto: Sobre Gestão, Violência e Política” in Francisco de Oliveira e Cibele Rizek (orgs.) A Era da Indeterminação. São Paulo: Boitempo, 2007.

Crédito da imagem de capa: Maria Célia Paoli (entre Vera da Silva Telles e Marilena Chauí) no seminário A Construção Democrática em Questão na USP, final dos anos 1990.