Livros de Classe #04: Trabalho, lar e botequim, de Sidney Chalhoub, por Fabiane Popinigis

No quarto vídeo da série, Fabiane Popinigis, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) apresenta Trabalho, lar e botequim, de Sidney Chalhoub. Publicada em 1986, a obra inovou conceitualmente e metodologicamente ao trazer para o centro da narrativa o cotidiano de homens e mulheres comuns.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Livros de Classe #03: Costumes em comum, de E. P. Thompson, por Sidney Chalhoub

No terceiro vídeo da série, Sidney Chalhoub, professor titular colaborador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor do Departamento de História de Harvard, apresenta Costumes em comum, de E. P. Thompson. A celebrada coletânea de artigos do historiador inglês contribuiu para uma reflexão sobre a atuação política dos trabalhadores para além do movimento operário organizado.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Vale Mais #13 – Trabalhadores, repressão e transição democrática



Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #13 do Vale Mais é sobre Trabalhadores, repressão e transição democrática.

Este é o quinto episódio da segunda temporada de Vale Mais, o podcast do site do LEHMT-UFRJ. Nesta temporada, conversamos com recém doutores/as no campo da História Social do Trabalho sobre seus temas de pesquisa e processos de elaboração de suas teses. Neste episódio, entrevistamos Richard de Oliveira Martins, doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em dezembro de 2020, Richard defendeu a tese “Lutas vigiadas: militância operária, retaliação patronal e repressão no Vale do Paraíba (1979-1994)”, sob orientação do professor Claudio Batalha. A pesquisa analisou os trabalhadores da região do Vale do Rio Paraíba do Sul (Paulista e Fluminense), com ênfase sobre o operariado metalúrgico dos municípios de São José dos Campos/SP e Volta Redonda/RJ, abordando suas experiências de trabalho, organização sindical e luta política. Richard enfatiza as formas e as consequências da repressão com que se depararam estes trabalhadores, refletindo sobre o envolvimento de organizações sindicais nas recentes batalhas em torno da memória social da ditadura.

Dica da entrevistadaMichel Foucault

Produção: Heliene Nagasava e Larissa Farias 
Roteiro: Heliene Nagasava e Larissa Farias 
Apresentação: Larissa Farias 

Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci Vale Mais

Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ. Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro. Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  2. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  3. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  4. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga
  5. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz

Chão de Escola #15: Futebol Operário – lazer, profissão e cultura dos trabalhadores, por Raphael Rajão Ribeiro.



Raphael Rajão Ribeiro (CPDOC-FGV e Museu Histórico Abílio Barreto)


Apresentação da atividade

Segmento: 2º e 3º anos do Ensino Médio

Unidade temática: Brasil Republicano e cultura operária

Objetivos gerais:

Identificar, a partir do caso do futebol, a relação entre construção da cultura operária e as práticas de lazer;
– Reconhecer o estabelecimento de redes de sociabilidade a partir dos locais de trabalho;
– Examinar o papel desempenhado pelas fábricas e por seus operários na popularização do futebol no Brasil;
– Observar medidas de controle sobre o lazer operário a partir das direções das fábricas;
– Identificar as diferentes percepções do movimento operário organizado sobre o lazer dos trabalhadores;
– Perceber as interações entre mundo do trabalho e lazer, bem como os limites entre profissão e atividades do tempo livre;

Habilidades a serem desenvolvidas (de acordo com a BNCC)

(EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos e classes sociais diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços e contextos.(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana (estilos de vida, valores, condutas etc.), desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade e preconceito, e propor ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às escolhas individuais.

Duração da atividade:  5 aulas de 50 min

Aulas Planejamento
01Etapa 1
02Etapa 2 e 3
03Etapa 4
04Etapa 5 e 6
05Etapa 7 e 8

Conhecimentos prévios:

– Primeira República no Brasil
– Industrialização e movimentos operários no Brasil
– Regulamentação das leis trabalhistas no Estado Novo


Atividade

Recursos: Projetor multimídia; impressora

Etapa 1: Futebol nas fábricas e a popularização do esporte

Leitura anterior à aula e levantamento de informações prévias sobre o texto abaixo.

Leia o Documento 1, o extrato do capítulo de abertura da 2ª edição da obra “O Negro no Futebol Brasileiro”, do jornalista Mário Filho, de 1964.

O trecho transcrito compõe a obra “O Negro no Futebol Brasileiro”, publicada originalmente em 1947 e reeditada com acréscimos em 1964. Seu autor foi o jornalista Mário Filho, que atuou na crônica esportiva por cerca de quatro décadas. O livro dialoga com diversos estudos ensaísticos, realizados entre os anos 1930 e 1940, que propunham debater a formação da identidade nacional, com destaque para a produção do sociólogo Gilberto Freyre. Seu objeto principal é narrar a ascensão do negro no futebol brasileiro, da condição de excluído ao protagonismo da modalidade esportiva mais popular do país.

A partir da leitura, desenvolva as seguintes questões:

  1. Faça uma pesquisa e trace uma breve biografia de Mario Filho. Informe suas origens, sua atuação profissional, sua produção literária e sua inserção na meio cultural brasileiro, com as principais iniciativas de que participou.
  2. O autor cita diversos termos em inglês, referentes à prática do futebol naquele período. Identifique os termos e produza um glossário com os seus significados.
  3. Como indicado, a obra escrita nos anos 1940, tinha como foco as relações raciais em torno do futebol. Observe as expressões utilizadas pelo autor para descrever os personagens e escreva um texto dissertativo respondendo as seguintes questões: 
  • Como os termos usados por ele soam atualmente? 
  • Em que medida eles podem ser classificados como preconceituosos?
  • Como o autor identifica as distinções entre nacionalidades? Havia uma hierarquia entre elas?
  1. Explique a relação entre trabalho e lazer, observando de que maneira as condições da Companhia Progresso Industrial do Brasil influenciaram a formação da equipe do Bangu.


Etapa 2: Futebol na fábrica do Bangu

Na segunda aula, faça uma correção da atividade de leitura do texto de Mário Filho.

Debata o texto do Documento 1, a partir de questões iniciais e de problemas indicados pelos estudantes. Nesse momento, de acordo com os pontos levantados pelos alunos, podem ser desenvolvidas questões sobre a sociabilidade em zonas fabris, a introdução do futebol no Brasil e sua relação com a presença estrangeira, as tensões nacionais e raciais no meio operário etc.


Etapa 3: Futebol na fábrica do Bangu

Façauma leitura coletiva do Documento 2, um texto histórico informativo intitulado “Bangu e fábrica: um casamento (in)feliz?”, de Nei Jorge Santos Júnior:

A partir da leitura, debata a importância da fábrica para o desenvolvimento do futebol na região de Bangu e para a manutenção do time, comparando com o texto de Mário Filho.

Solicite a resolução da questão abaixo:

1 – Em seu texto, Mário Filho faz uma extensa descrição da fotografia do primeiro time organizado pelo Bangu, em 1905. Observe a foto a que ele faz referência (projete a imagem):

Bangu, 1905. Imagem reprodução.

Com a imagem projetada, retome a leitura coletiva da descrição da fotografia presente no texto de Mario Filho, buscando identificar os elementos apontados por ele. 

Responda as seguintes questões:

  • De que forma o autor pontua a cultura masculina do período em sua descrição? Quais códigos essa cultura mobiliza e o que eles são capazes de comunicar aos demais? É possível identificar códigos semelhantes nos dias de hoje? É possível observar códigos no cotidiano escolar e na vida dos estudantes?
  • Mario Filho aponta uma relação entre as formas de se vestir e a busca de uma distinção social e de uma aceitação pelo grupo. De que forma esses esforços apontam para uma diferenciação racial e social entre os integrantes da equipe?
  • Um dos objetivos das regras nos esportes é a garantia de uma situação de igualdade entre todos os participantes de uma competição. Segundo a avaliação do autor, esse pressuposto que vigorava no momento de duração da partida se estendia para o convívio cotidiano entre os integrantes do time do Bangu? Quais tipos de diferenças existiam entre eles? Enumerem as diferenças.

Etapa 4: Futebol de fábrica, controle e organização operária

Na terceira aula, é indicada a leitura do artigo “Anarquistas e comunistas no Futebol em São Paulo”, de Fátima Martin Antunes:

Deve-se estabelecer um tempo para os estudantes lerem o texto em sala. Os alunos devem identificar os termos e referências espaciais desconhecidas e o professor deve esclarecer as dúvidas, de modo a garantir a melhor compreensão do texto.

A partir da leitura, propõe-se uma aula expositiva dialogada, com a montagem de um quadro, em duas colunas, com argumentos utilizados pelos integrantes do movimento operário contra e a favor da prática do futebol entre os trabalhadores. 

Observem argumentos relativos à utilização do tempo livre pelo trabalhador, o sentido atribuído ao lazer (esportes, bailes, encontros sociais), o significado da prática esportiva, as possibilidades de convivência entre formação intelectual e desenvolvimento físico, as possibilidades de mobilização pelo esporte etc.

Considerando os pontos de vista adotados naquele período, solicite aos estudantes a preparação de argumentos para um debate em defesa e em contraposição à prática do futebol a ser realizar na próxima aula.


Etapa 5: Debate sobre fábrica, controle e organização operária

Na aula 4, debata sobre controle e autonomia no futebol dos trabalhadores.

Prepare uma breve exposição retomando questões dos movimentos operários na Primeira República, em suas tendências anarquistas e comunistas, e debata sobre o controle exercido por empresários em contextos fabris e iniciativas de resistência pelos trabalhadores.

Em vista da preparação para o debate feito na aula anterior, escolha estudantes (de acordo com a organização e possibilidade que o(a) professor(a) encontrar na  sala), para realizar o debate a favor e contra a prática de esportes, em vista dos argumentos comunistas e anarquistas. Os estudantes devem ser orientados a assumir um lado na discussão.


Etapa 6: Debate sobre fábrica, controle e organização operária

Após o debate, leia coletivamente em sala o texto sobre a prática esportiva em Porto Alegre, e discuta as questões que segue.

Considerem que vocês sejam associados do Grêmio Esportivo Renner. Com base no debate realizado a partir dos argumentos do movimento operário a favor e contrário à condução de clubes de futebol pelas fábricas, avaliem o mascote proposto pelo Departamento de Propaganda da empresa:

  1. Quais as opiniões da turma sobre a mascote proposta? Ela é representativa do que os operários esperam de um time de futebol? Esse é o tipo de imagem que gostariam de utilizar para simbolizar a equipe? Argumentem a favor e contra o modelo proposto. 
  2. Ao final do debate, considerando sua condição de associado, a turma deve votar pela adoção ou não da mascote.

Etapa 7: As relações empregatícias no futebol profissional e na várzea

Na aula 5, a turma deve ser dividida em grupos para analisar as relações de trabalho no futebol operário, considerando a profissionalização e a prática na várzea.

Organize a classe em cinco grupos (ou em grupos múltiplos de cinco) para analisar os seguintes excertos sobre as relações de trabalho no futebol:

Selecionado e distribuídos os excertos pelos grupos, eles devem proceder a leitura do trecho indicado. E responder as questões abaixo:

  1. Que tipo de texto foi analisado pelo grupo? Quando foi escrito?
  2. Grifar os termos desconhecidos e buscar seu significado, com vistas à melhor compreensão do texto.
  3. Identificar o clube tratado e qual a sua inserção no circuito competitivo do futebol. De que campeonatos participava? Era classificado como amador ou profissional?
  4. Delimitar qual era o regime de contratação dos jogadores citados. Como eles se vinculavam ao clube e de que forma eram mantidos? De onde originavam os seus rendimentos?
  5. Os casos tratados nos trechos referem-se aos anos 1940, 1950 e 1960, momento em que já havia uma distinção no futebol entre clubes profissionais e amadores. Com base na relação empregatícia dos jogadores tratados, é possível afirmar se o clube ao qual eles pertenciam era completamente profissional ou amador?
  6. E do ponto de vista das relações de trabalho estabelecidas pelos jogadores com seus clubes, ela se configura em um vínculo empregatício?

Após analisarem os trechos e responderem às questões, os grupos devem apresentar os resultados à classe. 

Feitas as apresentações é possível ao professor estabelecer uma roda de conversa sobre as fronteiras entre relações formais e informais de emprego, pensando na multiplicidade de vínculos existentes não apenas no universo esportivo, mas nas relações cotidianas das comunidades onde os alunos estão inseridos.


Etapa 8: As relações empregatícias no futebol profissional e na várzea

Para finalizar a última aula, o professor deve realizar uma breve recapitulação de pontos chave sobre a regulamentação das relações trabalhistas e da edição da CLT no Estado Novo e abordar, de maneira panorâmica, o processo de institucionalização do profissionalismo no futebol brasileiro, considerando a prática não regulada do “amadorismo marrom” nas décadas iniciais do século XX e o processo de profissionalização entre 1933 e 1938.


Bibliografia e Material de apoio:

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Futebol de fábrica em São Paulo. 1992. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.

Cadernos AEL. Dossiê esportes e trabalhadores. Campinas/SP, v. 16, n. 28, primeiro semestre de 2010.

CIOCCARI, Marta Regina. Do gosto da mina, do jogo e da revolta: Um estudo antropológico sobre a construção da honra em uma comunidade de mineiros de carvão. 2010. Tese (Doutorado em Antropologia) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

FONTES, Paulo; HOLLANDA, Bernardo Buarque de (Org.). The Country of Football: Politics, Popular Culture, and the Beautiful Game in Brazil. Londres: Hurst Publishers, 2014.

LOPES, José Sérgio Leite. Da usina de açúcar ao topo do mundo do futebol nacional: trajetória de um jogador de origem operária. Cadernos AEL, Campinas, v. 16, n. 28, p. 13-40, 2010.

PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: Uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RODRIGUES FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

SANTOS JUNIOR, Nei Jorge dos. A construção do sentimento local: o futebol nos arrabaldes de Bangu e Andaraí. Rio de Janeiro, Multifoco, 2014.

SILVA, Daniela Alves da. Cultura operária: um estudo de caso do Villa Nova Atlético Clube. 2007. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007.

STÉDILE, Miguel Enrique. Da fábrica à várzea: clubes de futebol operário em Porto Alegre. 2011. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.


Créditos da imagem de capa: Alured Bell, The Beautiful Rio de Janeiro, Londres: W. Heinemann, 1914, p. 182


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira

Livros de Classe #02: Em defesa da honra, de Sueann Caulfield, por Cristiana Schettini

No segundo vídeo da série Livros de Classe, Cristiana Schettini, professora da Universidad Nacional de San Martin (UNSAM), apresenta a obra Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940), de Sueann Caulfield. Combinando uma prática de história social e uma perspectiva de gênero, o livro é resultado de uma rigorosa investigação sobre a moral sexual nos anos 1920 e 1930, no Rio de Janeiro.

Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Artigo “Zózimo Bulbul: prática de história oral no Centenário da Abolição (1988) e a história de vida de um artista negro” – Samuel Oliveira



Samuel Oliveira, pesquisador do LEHMT-UFRJ e professor do Programa de Pós-graduação em Relações Étnico-Raciais, publicou o artigo “Zózimo Bulbul: prática de história oral no Centenário da Abolição (1988) e a história de vida de um artista negro” na revista História Oral.

O artigo analisa o projeto de história oral liderado por Maria Beatriz Nascimento no Centenário da Abolição e a trajetória de vida de Zózimo Bulbul entre os anos 1930 e 1940, apresentando sua formação social e as experiências de classe e raça vivenciados no espaço urbano do Rio de Janeiro.

Link: https://revista.historiaoral.org.br/index.php/rho/article/view/1102/106106106274


Crédito da imagem de capa: Zózimo Bulbul. Disponível em: http://jornalismojunior.com.br/zozimo-bulbul-o-pioneiro-do-cinema-negro-brasileiro/

Chão de Escola #14: Flavia Fernandes (UFF) fala sobre o trabalho doméstico e suas reflexões para professores da Educação Básica



Nos últimos anos, nós assistimos a um crescimento das pesquisas que enfatizam as trabalhadoras e trabalhadores domésticos no Brasil. Como você avalia esse crescimento?

Primeiramente, agradeço ao convite do LEHMT-UFRJ, em especial aos coordenadores(as) da seção “Chão de Escola”, pelo convite para esta entrevista.
Respondendo à pergunta, avalio que esse crescimento é muito positivo e necessário, pois nas duas últimas décadas a história do trabalho/serviço doméstico definitivamente passou a ser reconhecida como um tema de relevância para o campo da História Social do Trabalho no Brasil. Se até o final do século XX eram raros os estudos históricos acadêmicos desenvolvidos em torno dessa temática, nas primeiras décadas do século XXI observamos o surgimento de várias dissertações e teses produzidas em diferentes programas de pós-graduação em história do país – muitas das quais já viraram livros –, além da publicação de inúmeros artigos científicos e papers sobre o assunto. E no meu entendimento esse processo se deve a um conjunto de fatores, entre os quais se encontram elementos de ordem acadêmica e social. 
Do ponto vista acadêmico, vimos que a partir da virada para este século, o campo da história do trabalho passou por um processo que envolveu uma ampliação de temas, abordagens e enfoques. Nesse sentido, um dos aspectos dessas mudanças foram as problematizações em torno da composição da classe trabalhadora brasileira, sobretudo em sua formação histórica. Durante muito tempo esse processo foi entendido como limitado às esferas produtivas, principalmente no que diz respeito à constituição do operariado fabril – o qual foi tradicionalmente estudado como sendo restrito a trabalhadores homens, adultos, de ascendência europeia, em sua maioria organizados em sindicatos. Com o reconhecimento de outras relações sociais que atravessam e integram as relações de classe, como as que envolvem as dimensões de gênero, raça e origens étnicas e nacionais, os(as) estudiosos(as) passaram, cada vez mais, a recuperar as experiências de outros sujeitos da história do trabalho no Brasil, como foi o caso das mulheres trabalhadoras brasileiras, jovens e crianças, negros e mestiços, que poderiam ou não estar engajados politicamente. Tal dinâmica necessariamente direcionou o interesse dos historiadores para esferas de trabalho como as que envolvem os domínios da domesticidade e da reprodução social. 
Além disso, é importante lembrar que alterações no perfil dos(as) alunos(as) que frequentaram as universidades públicas do país entre os anos 2000 e os primeiros anos da década de 2010 – muitos dos quais filhos de trabalhadores e que acessaram o ensino superior por meio de políticas de ações afirmativas – trouxeram também novos temas de interesse para a pauta dos estudos acadêmicos. Sendo esse um fator que se associa a própria dinâmica social. Nas últimas décadas ocorreu uma intensa mobilização, resultante de uma trajetória de lutas das(os) trabalhadoras(es) domésticas(os) organizadas(os), para construção de um instrumento legal que definitivamente garantisse à categoria os mesmos direitos trabalhistas dos demais trabalhadores assalariados brasileiros – o que aconteceu com a Emenda Constitucional de n.º 72, de abril de 2013, e com a sua regulamentação em 2015. Vale lembrar que internacionalmente a temática também ganhou relevância com a atuação da própria Organização Internacional do Trabalho (OIT), que fez do trabalho doméstico remunerado o tema central de suas conferências, em 2010 e 2011.

A sua tese de doutorado defendida pelo Programa de Pós-Graduação da UFF no ano de 2017 e que foi recentemente publicada pelo Arquivo Nacional, com o título “Criados, escravos e empregados: o serviço doméstico e seus trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro (1850-1920), procurou pensar o trabalho doméstico dentro de um processo de expansão do trabalho livre e assalariado, de estímulo à imigração (sobretudo europeia) e de declínio e fim da escravidão no Brasil. De acordo com os dados coletados pela sua pesquisa, “quem” era esse trabalhador doméstico e qual foi o seu papel na construção da modernidade brasileira?

Um dos objetivos que orientaram a minha pesquisa de doutorado foi recuperar o perfil dos trabalhadores domésticos da cidade do Rio de Janeiro entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. A ideia era compreender como, em diferentes conjunturas históricas, presentes naquele longo recorte temporal, ocorreu uma série de mudanças na composição da força de trabalho empregada na prestação de serviços domésticos nos domicílios urbanos – que não era homogênea como comumente se entende o assunto do ponto vista histórico, ao se associar as criadas e os criados domésticos unicamente aos escravos. 
Assim, observei que se em meados do Oitocentos havia uma tendência para a predominância de trabalhadores escravizados no setor (de ambos os sexos, já que eram numerosos os homens escravizados como serviçais), pouco a pouco, no decorrer das décadas de 1860 a 1870, o serviço doméstico passou a ser exercido também por trabalhadores livres, muitos dos quais libertos e estrangeiros, e com relativo equilíbrio numérico entre mulheres e homens. Entre os estrangeiros se destacavam, naquele período, indivíduos oriundos do território insular português (arquipélagos de Açores e Madeira), que vinham para o Brasil por meio de redes de translado de imigrantes que começaram a operar após o término do tráfico de africanos. Já na conjuntura abolicionista e de imediata pós-abolição, dos anos 1880 e 1890, o número de libertos atuando no setor foi enorme, embora os estrangeiros tivessem participação ativa nessa parcela do mercado de trabalho, com o desenvolvimento de políticas de imigração para a vinda de europeus. Todavia, desde então, se desenvolveu o fenômeno da chamada feminilização do serviço doméstico, pois se antes as mulheres constituíam – às vezes por pouca diferença em relação aos homens – a maioria da criadagem doméstica na cidade do Rio de Janeiro, a partir daquele momento esse setor foi sendo ocupado exclusivamente por mulheres. Além disso, no decorrer da primeira metade do século XX, observamos um crescente número de mulheres classificadas racialmente nos censos como “pretas” e “pardas” atuando como trabalhadoras domésticas. 
Esse rápido panorama já traz alguns elementos para pensarmos em “quem” eram os(as) trabalhadores(as) domésticos(as) no recorte temporal estudado. A pesquisa revelou que a força de trabalho empregada no serviço doméstico era bastante diversificada e se modificou ao longo do tempo e esse fato fornece pistas sobre o papel daqueles sujeitos na construção da chamada modernidade. Como sabemos, o período que caracteriza o final do Império e o início da Primeira República foi marcado pela disputa de diferentes projetos sociais, fruto de muitas expectativas, tensões e conflitos entre as classes e grupos sociais então existentes. No caso da esfera laboral composta pelo chamado serviço doméstico aquele foi um momento marcado por uma crise, que era, inclusive, constantemente noticiada na imprensa e debatida entre intelectuais e autoridades públicas. Patrões e patroas, muitos dos quais antigos senhores de escravos, por meio de seus porta-vozes, lamentavam a escassez de “bons criados”, afirmando que a criadagem disponível não seria mais como a antiga. Enquanto, de outra parte, as(os) trabalhadoras(es) domésticas(os) e seus aliados procuravam, fosse por meio vias institucionais e públicas ou em resistências privadas e cotidianas, estabelecer limites para as interdições sociais que lhes eram impostas, de modo a conquistar garantias e direitos em seus contratos e relações de trabalho, bem como liberdade em seus modos de vida.

Muitos livros didáticos de História, quando lançam luz à questão dos negros no pós-Abolição, o fazem sob ótica da marginalidade, passividade e exclusão social, não levando em conta os estudos acadêmicos mais recentes que trazem novas perspectivas sobre esse tema. Qual é a importância de trabalhos como o seu para pensar as relações sociais e de trabalho dos negros no pós-Abolição?

A pesquisa que desenvolvi sobre a história dos trabalhadores domésticos na cidade do Rio de Janeiro dialogou com uma já consolidada e relevante tradição historiográfica voltada para a investigação da pós-emancipação no Brasil. Tratam-se de estudos fundamentais que, em linhas gerais, buscaram resgatar a formação de uma sociedade pós-escravista e, sobretudo, a agência de sujeitos históricos subalternizados, como era o caso da população negra, em grande parte ligada ao passado escravista. 
Todavia, a pesquisa procurou também, em consonância, pensar nas dinâmicas estruturais que orientaram as ações dos diferentes sujeitos históricos naquele contexto. Isso porque acredito, como defendido há muitos anos pela historiadora Emília Viotti da Costa, que para um maior entendimento e uma análise mais aprofundada de qualquer tema é preciso articular as dimensões de agência e de estrutura no estudo dos processos históricos, pois as ações humanas tendem a se encontrar constantemente na tensão existente entre a liberdade e a necessidade.
Tendo em vista isso, considero que ambas as perspectivas são complementares na ampliação e na complexificação da forma como a situação dos negros na pós-abolição pode ser abordada em livros didáticos de História voltados para a Educação Básica. Isso porque, ao meu ver, se por um lado é preciso recuperar e compreender lógicas sistêmicas que produzem e reproduzem vulnerabilidades, divisões, hierarquias, discriminações, exclusões e desigualdades, presentes especialmente nas relações sociais dos mundos do trabalho, principalmente no período posterior ao fim da escravidão; por outro lado, não se pode perder de vista a ação, coletiva e individual, dos sujeitos oprimidos frente a tais estruturas perversas, seja na resistência e/ou na construção de outros caminhos para o futuro em liberdade. 
No caso da história do serviço doméstico, no período estudado, esse pressuposto auxilia, por exemplo, no entendimento do processo de estigmatização e de criminalização que esteve em curso na virada do século XIX para o século XX em relação às(aos) trabalhadoras(es), quando das primeiras tentativas de regulamentação, de caráter municipal e policial. Esse foi um processo voltado para o controle social daquele segmento profissional – e não para garantir direitos no âmbito do trabalho –, e que era orientado por mecanismos de coerção de liberdade, assentados em princípios de suspeição baseados em critérios patriarcais e raciais. Porém, o desenrolar desse processo não significou que as mulheres e os homens que trabalhavam como criados domésticos naquele contexto não tenham se colocado, em várias situações e por meio de diferentes vias, na resistência e na defesa de seus interesses.

Quando – por iniciativa docente – o debate em torno do trabalho doméstico alcança a sala de aula, é comum fazermos correlações entre o serviço doméstico e a escravidão, sugerindo que o primeiro ainda carrega fortes “marcas” do segundo. Você considera esse ponto de partida para refletir sobre o tema? Em que medida narrativas como “pessoa da família” e “mãe preta” (que remontam ao período da escravidão e estão presentes até hoje) impactam nessa discussão?

Acredito que não é possível estudar a história do serviço doméstico no Brasil sem se recuperar aspectos da história da escravidão, em especial em sua modalidade doméstica. Então, sem dúvidas, estudar esse tema por meio das “marcas” deixadas pela escravidão é fundamental, pois para além de narrativas como essas apontadas, o que essa discussão envolve, na verdade, é a permanência de valores e de práticas de cunho escravistas nas relações de trabalho estabelecidas entre amos e criados, em contextos como os do final do século XIX, e entre patrões e empregados no decorrer do século XX e no início do século XXI.
Não por acaso, quando estudamos períodos como os das décadas imediatamente posteriores à Abolição notamos, claramente, como esse era um elemento de conflito entre as partes envolvidas nas relações de trabalho e nos discursos elaborados sobre o serviço doméstico. As fontes documentais disponíveis dão indícios de que grande foi a luta de trabalhadoras(es) ex-escravizadas(os) que atuavam como criadas(os) domésticas(os) para negociar novas condições de trabalho, como no caso da escolha do domicílio em que iriam trabalhar, o valor dos salários ou os horários de entrada e saída nos empregos, por exemplo. Isso ocorria, em grande medida, porque permanecia entre a classe patronal uma ideologia escravista, que sentia nostalgia do passado, e que desejava que as relações de trabalho, em especial no âmbito privado, continuassem a ser orientadas pelas tradicionais políticas de dominação senhorial, como era o caso do paternalismo.
No entanto, ao meu ver, embora seja muito importante identificar as relações de continuidades/permanências entre o passado e o presente em torno desse tema – como essa que envolve as “marcas” da escravidão existentes no trabalho doméstico remunerado contemporâneo –, esse tipo de análise não deve apagar outros elementos igualmente presentes na história do trabalho/serviço doméstico no Brasil. Até porque em outras sociedades, que não tiveram escravidão ou onde a escravidão possuía características diferentes da brasileira, as relações de trabalho doméstico na história e na atualidade também se colocaram ou se colocam em termos de invisibilidade, desvalorização, dependência, subordinação, feminilização, racialização etc.
Geralmente, o esforço para a identificação das “marcas” da escravidão passa por noções de “herança”, “legado”, “resquício” e acredito que esse tipo de explicação, por vezes, pode levar a um entendimento simplista se não for realizado com cuidado e crítica. Primeiro porque se pensamos o trabalho doméstico remunerado exclusivamente nesses termos, ficamos com a falsa impressão de justificativa para os problemas existentes, bem como de ausência de transformações. Segundo porque perdemos de vista os movimentos históricos que levaram as coisas a serem como são. Por essa razão, entendo que tão importante quanto recuperar os elos que ligam o presente ao passado, é fundamental, também, historicizar os processos. 
Isso significa pensar em coisas como: por que o trabalho doméstico remunerado continua existindo em nossa sociedade, com a magnitude que tem no mercado de trabalho? Por que no decorrer do século XX grande parte das mulheres trabalhadoras, e principalmente das mulheres negras, foram direcionadas, sem outras alternativas, para esse tipo de trabalho em espaços urbanos? Por que até o início deste século as empregadas domésticas ficaram sem o amparo completo de uma legislação trabalhista? E por que toda vez que a questão dos direitos dessa categoria profissional foi discutida houve inúmeras resistências? Analisar e refletir sobre questões desse tipo unicamente em termos de um passado que sobrevive no presente limita a compreensão, pois desconsidera as formas como mecanismos de exploração e de opressão operam historicamente e conformam as relações sociais no mundo em que vivemos.

Laudelina de Campos Melo e Nair Jane de Castro Lima foram trabalhadoras domésticas negras e lideranças sindicais fundamentais para compreendermos a história de luta dessa categoria. Qual é a importância para um estudante da Educação Básica conhecer um pouco da trajetória dessas e de outras mulheres que configuram uma das maiores categorias de trabalhadores do país?

Sabemos que a maior parte dos alunos e alunas das escolas públicas brasileiras pertencem a famílias de baixa renda, sendo filhos e filhas de trabalhadores. Certamente boa parte desses estudantes são descendentes de mulheres que exercem essa profissão ou já a exerceram em algum momento de suas trajetórias. Trazer, portanto, ao conhecimento desses estudantes a história daquelas personagens, e outras ainda pouco conhecidas, dialoga diretamente com experiências de vida do público estudantil. E esse é um elemento essencial para a realização do processo de ensino-aprendizagem.
Porém, mais do que se aproximar da história pessoal de muitos alunos e alunas da Educação Básica, o conhecimento da trajetória de mulheres como Laudelina de Campos Melo e Nair Jane de Castro Lima é fundamental para um entendimento mais amplo e crítico da nossa história, da história “vista a partir dos de baixo”, da história dos trabalhadores e subalternos, em especial da maioria das mulheres trabalhadoras brasileiras. Uma história que, para além da dominação, da exploração ou das opressões, foi marcada também por experiências de resistências e lutas constantes, por meio de organizações e mobilizações pela conquista de direitos e que traz exemplos ricos sobre o papel de lideranças e de agentes participativos e construtores exercidos por mulheres negras na história do Brasil. Até porque, durante muito tempo, na própria historiografia brasileira, por vários motivos, não houve muitos investimentos para que esse tipo de memória fosse resgatada e essas histórias fossem recuperadas. Então, é necessário que tais trajetórias de vida sejam conhecidas e valorizadas nos diferentes espaços de construção do saber.
Além disso, as histórias de figuras como Laudelina e Nair Jane possibilitam o trabalho com alunos e alunas da Educação Básica em torno da compreensão da integração ou do cruzamento das dimensões de classe, gênero e raça nas experiências históricas de homens e mulheres, em especial nas sociedades contemporâneas. Afinal, ao conhecermos histórias de mulheres negras, trabalhadoras domésticas, que estiveram engajadas em lutas políticas e sociais que envolviam causas sindicais, feministas e antirracistas, podemos não só compreender um pouco mais da complexidade das relações sociais em que estamos envolvidos, da forma como se estruturam as desigualdades, e da história de movimentos sociais, como também podemos buscar inspirações para os enfrentamentos do presente. E tudo isso é importante se quisermos construir uma educação realmente transformadora.


Flavia Fernandes de Souza é doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, desenvolve estágio pós-doutoral na mesma universidade, junto ao Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), por meio de bolsa PNPD-Capes; sendo também pesquisadora do Observatório da História da Classe Trabalhadora (UFF). É autora do livro “Criados, escravos e empregados: o serviço doméstico e seus trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro (1850-1920)”, publicado em 2019, como parte da coleção Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa. Desenvolve pesquisas no campo da História Social do Trabalho, em relação à história do trabalho doméstico, atuando também como docente no ensino superior de História do Brasil, especialmente em áreas como história do trabalho, história da escravidão e da pós-abolição e história social urbana.


Crédito da imagem de capa: Uma família brasileira e sua escravas domésticas, c 1860. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escravid%C3%A3o_no_Brasil#/media/Ficheiro:Family_and_slave_house_servants_by_Klumb_1860.png


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Livros de Classe #01: A Formação da Classe Operária Inglesa, de E. P. Thompson, por Alexandre Fortes

No primeiro vídeo da série Livros de Classe, Alexandre Fortes, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), apresenta o clássico A formação da Classe Operária Inglesa, de Edward P. Thompson. Dividida em três volumes, a obra foi publicada em 1963. A primeira edição brasileira, lançada em 1987, foi fundamental para a renovação, em forma e conteúdo, das análises sobre as classes trabalhadoras no Brasil.


Livros de Classe

Os estudantes de graduação são desafiados constantemente a elaborar uma percepção analítica sobre os diversos campos da história. Nossa série Livros de Classe procura refletir justamente sobre esse processo de formação, trazendo obras que são emblemáticas para professores/as, pesquisadores/as e atores sociais ligados à história do trabalho. Em cada episódio, um/a especialista apresenta um livro de impacto em sua trajetória, assim como a importância da obra para a história social do trabalho. Em um formato dinâmico, com vídeos de curtíssima duração, procuramos conectar estudantes a pessoas que hoje são referências nos mais diversos temas, períodos e locais nos mundos do trabalho, construindo, junto com os convidados, um mosaico de clássicos do campo.

A seção Livros de Classe é coordenada por Ana Clara Tavares.

Artigo “Trajetória Híbrida: as contribuições de Oduvaldo Vianna para a inserção brasileira no circuito do mercado de entretenimento Latino-Americano (1923 – 1946)” – Flavia Veras


O trabalho artístico de Oduvaldo Vianna no teatro, no cinema e no rádio foi fundamental para a inserção do Brasil nos circuitos artísticos comerciais da América Latina. Suas produções são carregadas de uma profunda noção de brasilidade em um estilo que antecipa em muito as produções consideradas modernas. Contudo, o trabalho de Oduvaldo Vianna é marcadamente popular e comercial. Ele tinha como objetivo agradar o público de maneira instrutiva e, com os ganhos de suas produções, sustentava sua família. Oduvaldo se reconhecia como um escritor de profissão e circulava nos meios intelectuais, políticos e populares. Flavia Veras, pesquisadora do LEHMT-UFRJ, no artigo “Trajetória Híbrida: as contribuições de Oduvaldo Vianna para a inserção brasileira no circuito do mercado de entretenimento Latino-Americano (1923 – 1946)” procura desvendar os caminhos profissionais trilhados por Oduvaldo Vianna e sua contribuição para a produção artística brasileira com enfoque transnacional.

 O link para acesso ao artigo é https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/169176/171933


Crédito da imagem de capa: Almoço de despedida para Oduvaldo Vianna, 1936. Estavam presentes Jayme Costa, Vicente Celestino e Gilda Abreu, entre outros. Fotógrafo não identificado. Cedoc-Funarte. Disponível em: http://portais.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/familia-vianna/oduvaldo-vianna-um-inovador-no-teatro-no-radio-e-no-cinema-brasileiros/

Vale Mais #12 – Trabalhadores e Favela





Vale Mais é o podcast do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, que tem como objetivo discutir história, trabalho e sociedade, refletindo sobre temas contemporâneos a partir da história social do trabalho.

O episódio #12 do Vale Mais é sobre Trabalhadores e Favela. 

Este é o quarto episódio da segunda temporada de Vale Mais, o podcast do site do LEHMT-UFRJ. Nesta temporada, conversamos com recém doutores/as no campo da História Social do Trabalho sobre seus temas de pesquisa e processos de elaboração de suas teses. Neste episódio, entrevistamos Mariana Barbosa Carvalho da Costa, doutora em História Social da Cultura pela PUC-Rio e pesquisadora do LEHMT-UFRJ. Em outubro de 2019, Mariana defendeu a tese “A Rocinha em construção: a história social de uma favela na primeira metade do século XX”, sob orientação de Leonardo Pereira. A pesquisa analisou o processo histórico de formação da Rocinha, uma das favelas de maior visibilidade do Rio de Janeiro, abordando as experiências dos moradores daquela região com base nas discussões em torno do diálogo entre a história urbana e a história social do trabalho. Mariana enfatiza como esses moradores são sujeitos ativos do processo de formação da Rocinha, que se inicia nos primeiros anos do século XX e se encerra no final da década de 1950, quando é consolidada a concepção de favela carioca para a localidade em questão.

Dica da entrevistada: Museu Sankofa Rocinha – Memória e História

Produção: Heliene Nagasava e Larissa Farias 
Roteiro: Heliene Nagasava e Larissa Farias 
Apresentação: Larissa Farias 

Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci Vale Mais

Está no ar o sétimo episódio da nova temporada do Vale Mais, o podcast do LEHMT-UFRJ. Nessa temporada, convidamos pesquisadores para discutir livros e teses recentes que aprofundam debates interdisciplinares sobre os mundos do trabalho. No sétimo episódio, conversamos com Aldrin Armstrong Silva Castellucci, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e autor do livro Entre o socialismo e o corporativismo: trajetórias de quatro líderes do movimento operário no Brasil (1871–1963). A obra reconstrói as trajetórias de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth, Joaquim Pimenta e Maurício de Lacerda, importantes líderes socialistas do país, protagonistas das lutas do movimento operário e sindical brasileiro. Não deixe também de compartilhar e acompanhar os próximos episódios! Entrevistadores: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Josemberg Araújo, Larissa Farias e Thompson Clímaco Roteiro: Ana Clara Tavares, Isabelle Pires, Larissa Farias e Thompson Clímaco Produção: Ana Clara Tavares e Larissa Farias Edição: Josemberg Araújo e Thompson Clímaco Diretor da série: Thompson Clímaco Coordenadora geral do Vale Mais: Larissa Farias
  1. Vale mais #35: Entre o socialismo e o corporativismo, por Aldrin Castellucci
  2. Vale Mais #34: À frente dos negócios: a atuação das viúvas na direção de comércios de secos e molhados na cidade do Rio de Janeiro, por Jéssica Santanna
  3. Vale Mais #33: Jogo, logo existo: Futebol, conflito social e sociabilidade na formação da classe trabalhadora em Rio Grande, por Felipe Bresolin
  4. Vale Mais #32: Breve dicionário analítico sobre a obra de Edward Palmer Thompson, por César Queirós e Marcos Braga
  5. Vale Mais #31: Saraiva, Dantas e Cotegipe: baianismo, escravidão e os planos para o pós-abolição no Brasil, por Itan Cruz