Contribuição especial #13: “Filhos de Ogum”: os trotskistas e o movimento sindical nos anos 1930

Contribuição especial de Dainis Karepovs1

Há noventa anos, em 8 de maio de 1930, os seguidores das ideias de Leon Trotsky no Brasil adentraram publicamente a cena política do país com o lançamento do primeiro número de A Luta de Classe, órgão do Grupo Comunista Lênin (GCL). E dentro dela continuam até nossos dias.

Os trotskistas brasileiros sempre atuaram no movimento sindical, em consonância com a tradição da esquerda, que via, como afirmava Marx, os sindicatos como “escolas de socialismo”. Nos anos 1930, os trotskistas tiveram, em que pesem seus reduzidos quadros em São Paulo e no Rio de Janeiro, atuação em diversas categorias: alfaiates, comerciários, construção civil, contadores, ferroviários, garçons, gráficos e jornalistas, motoristas, professores, sapateiros, tecelões e vidraceiros. Em particular, havia uma real influência nos sindicatos dos gráficos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em uma estatística apresentada na primeira conferência nacional dos trotskistas, realizada em maio de 1933, informava–se que até ali haviam sido recrutados 51 militantes, 16 no Rio de Janeiro e 35 em São Paulo, a maioria deles trabalhadores gráficos.

Não por coincidência, a origem dos trotskistas brasileiros teve sua base justamente no campo sindical. Em fevereiro de 1928 os principais responsáveis pela política sindical do Partido Comunista do Brasil (PCB), o alfaiate Joaquim Barboza e o gráfico João Jorge da Costa Pimenta, criticaram o caráter sectário da política sindical do partido e formaram a Oposição Sindical, núcleo da Oposição de Esquerda que formaria o GCL. A isto se acrescentou o processo de radicalização da Internacional Comunista, resultado direto do seu controle pela facção de Stalin e a adoção em 1928 da política chamada de “Terceiro Período”. Seu pressuposto era uma “radicalização das massas”, decorrente de uma crise terminal do capitalismo.  Isto ensejava a tática de “classe contra classe” e estimulou ações sectárias como a recusa de alianças com outras forças de esquerda.

Na aplicação do “Terceiro Período” no Brasil deve-se destacar o episódio que dá origem à influência que os trotskistas teriam entre os gráficos. Trata-se da greve da União dos Trabalhadores Gráficos de São Paulo (UTG), entidade então controlada pelo PCB, que durou 72 dias, entre março e junho de 1929. Apesar da ampla adesão da categoria, a direção do PCB julgou a greve como “clandestina e burocrática”, necessitando de passeatas e comícios de massa, além da solidariedade da população e de outras categorias de trabalhadores para uma eventual expansão do movimento. Para isso interviu e destituiu o comitê de greve e em seu lugar criou um Comitê de Defesa Proletária, integrado por sindicalistas de outras categorias. Poucos dias depois a greve foi encerrada, apenas com parcas conquistas salariais. Apesar de o PCB considerar que a greve havia sido vitoriosa, os gráficos se deram conta que aquela política investia, na verdade, contra a autonomia das entidades sindicais, o que levou a um rompimento com o PCB e à aproximação com os trotskistas.

Em novembro de 1930, logo após o golpe de estado que levou Getulio Vargas ao poder criou-se em São Paulo o Comitê Operário de Organização Sindical (COOS), composto por militantes anarquistas, pelo PCB e pelo GCL. No entanto, logo os militantes comunistas se afastaram da organização, deixando os anarquistas em maioria. Um dos resultados disso foi a transformação  do COOS em Federação Operária de São Paulo (FOSP) no final de dezembro de 1930. Ressurgia assim a antiga organização historicamente vinculada aos anarquistas. Mesmo assim, no final de janeiro de 1931, os trotskistas – que então deixaram de ser o GCL, passando a denominar-se Liga Comunista do Brasil (LC) – conseguiram a convocação de uma Conferência Operária Estadual pela FOSP, aberta a todas as entidades sindicais do Estado de São Paulo, que se realizaria em março de 1931.

Conferência Operária Estadual. Mesa Diretoria – Mesa diretora da Conferência Operária Estadual de São Paulo, março de 1931. Entre eles estão Edgar Leuenroth e Victor de Azevedo (1º e 2º da direita para a esquerda). (Acervo Dainis Karepovs)

A Conferência Operária Estadual realizou seus trabalhos entre 13 e 15 de março de 1931, com a participação de 22 entidades sindicais. Ao longo da Conferência ficaria nítida a divisão entre os trotskistas – que ali tinham delegados na UTG, na União Gráfica de Bauru e na Minoria da Associação dos Empregados no Comércio e cujas figuras de destaque eram os gráficos João Jorge da Costa Pimenta, Manoel Carreira Medeiros, Plinio Gomes de Mello e Victor de Azevedo e o comerciário Aristides da Silveira Lobo – e os anarquistas. Dada sua predominância numérica, os anarquistas venceram todas as votações dos temas em disputa e impuseram seus pontos de vista, em especial a reconstrução de sua antiga central sindical, a Confederação Operária Brasileira.

O líder comerciário e trotskista Aristides Lobo (Fundo Livio Xavier- CEDEM-UNESP).
O líder trotskista Plinio Mello (acervo CEMAP)

Mesmo derrotados, os trotskistas demarcaram terreno, ressaltando questões que punham os anarquistas em contrapé de demandas dos trabalhadores naquele momento, como o direito de voto a mulheres e estrangeiros ou a luta pela instituição de auxílio a desempregados. Além disso, enfrentaram abertamente a tese do “apoliticismo” dos anarquistas e também propuseram, e foram derrotados, que a FOSP apoiasse o movimento de reorganização da comunista Confederação Geral do Trabalho do Brasil e se batesse pelo reconhecimento da União Soviética.

Encerrada a Conferência Operária Estadual, que mais tarde foi renominada pelos anarquistas como 3ª Conferência Operária da FOSP, as relações entre trotskistas e anarquistas rapidamente se deterioram. Pouco tempo depois, em uma reunião plenária da FOSP, ocorrida em agosto de 1931, a UTG foi expulsa, encerrando a atuação dos trotskistas naquela organização.

Naquela conturbada conjuntura, vale destacar a posição dos trotskistas frente à chamada “lei de sindicalização”. Embora advogassem intransigentemente a defesa da autonomia dos sindicatos frente ao Estado, os trotskistas rapidamente se deram conta que as leis do trabalho instituídas pelo governo de Getulio Vargas traziam em si uma insolúvel contradição ao Estado brasileiro. Esta legislação que fora feita para atenuar os conflitos de classe por meio de subordinação das entidades sindicais ao aparelho de Estado poderia tornar esses conflitos ainda mais extensos e profundos. Os sindicatos criados sob a égide da nova legislação, em lugar de serem os instrumentos servis da vontade da classe dirigente, voltavam-se contra ela transformando-se num catalisador de descontentamentos de classe.

Com essa percepção, os trotskistas inicialmente adotaram a postura de lutar contra a “lei de sindicalização” em São Paulo, por perceberem que havia uma grande resistência a ela por parte da maioria dos trabalhadores e dos sindicatos mais significativos. Porém, ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro não houve essa mesma postura, permitindo-se eles a atuarem nos sindicatos oficializados de acordo com as novas regras. E tal postura bifronte permaneceu até 1934, quando os trotskistas, por meio do pedido de registro sindical da União dos Trabalhadores Gráficos de São Paulo junto ao Ministério do Trabalho – e que seria deferido somente em outubro de 1935 – decidiram, por conta da percepção de que no movimento sindical paulista apenas possuíam consistência os sindicatos formados sob a égide da lei, apoiar a atuação nos sindicatos oficializados perante o Ministério do Trabalho.

Carteira de sócio de Mario Pedrosa no Departamento de Imprensa da União dos Trabalhadores Gráficos de São Paulo (Acervo CEMAP – UNESP).

Em 1933 uma importante mudança na Liga Comunista do Brasil afetou toda a política dos trotskistas. Em 25 de junho de 1933 a Liga impulsionou a criação da Frente Única Antifascista em São Paulo (FUA), integrada por praticamente todas as organizações políticas e sindicais de São Paulo, exceto o PCB. A FUA permitiu que a Liga encabeçasse uma série de iniciativas que deram base a uma ampliação da influência das ideias trotskistas no Brasil. A criação da FUA e o quadro internacional de luta antifascista do início dos anos 1930 também acentuaram um dilema que perpassara a vida da Liga até então: ser a facção de um partido ou ser efetivamente um partido. A manutenção das posições da Internacional Comunista em defender a política que permitiu a chegada de Hitler convenceram Leon Trotsky que era impossível regenerá-la e que era necessário preparar o caminho para uma nova organização revolucionária, a IV Internacional. Assim, após a realização da Segunda Conferência Nacional (Extraordinária) da Liga – ocorrida em São Paulo, em 1º de outubro de 1933, a nova Liga Comunista Internacionalista (LCI) se considerou um partido e não mais uma fração do PCB.

Essa ação também prosseguiu no campo sindical com a formação da Coligação dos Sindicatos Proletários de São Paulo. Esta era uma federação sindical equivalente à FUA, formada em outubro de 1933, e que agrupava, sob a impulsão do Sindicato dos Bancários e da União dos Trabalhadores Gráficos, as entidades sindicais que tinham mais proximidade com as ideias antifascistas e não estavam nas esferas de influência do PCB ou do anarquismo, nem do Ministério do Trabalho. A Coligação dos Sindicatos Proletários de São Paulo possuía um programa voltado à melhoria das condições de trabalho, reivindicando aposentadorias e pensões; jornada de 8 horas; descanso semanal; cumprimento da lei de férias; salário mínimo; estabilidade; defesa das leis sociais. A Coligação chegou a agrupar cerca de 30 sindicatos e participou da maioria das greves no Estado de São Paulo em 1933 e 1934. Também teve papel importante na contramanifestação antifascista de São Paulo em 7 de outubro de 1934, a famosa “Batalha da Praça da Sé”..

O número de militantes e a ampliação da influência dos trotskistas nos sindicatos crescia. O incremento da LCI nos meios sindicais foi facilitado por uma deliberação de janeiro de 1934 referendada na Terceira Conferência Nacional da LCI, a qual permitiu que seus militantes atuassem nos sindicatos oficiais a fim de garantir a unidade sindical, ameaçada com a aprovação da “pluralidade sindical” na Constituição de 1934.

No entanto, no final de 1934, a LCI sofreu uma grave cisão em suas fileiras que dividiu a organização, paralisando praticamente suas diminutas fileiras, as quais, além disso, não foram capazes de fazer frente ao surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma organização de massas impulsionada pelo PCB e que se regia pelos princípios da “Frente Popular”, que substituiu a linha do “Terceiro Período” no âmbito da Internacional Comunista. A Frente Popular propunha amplas frentes que iam além do movimento operário e buscavam alianças com a burguesia disposta a se opor ao expansionismo de Hitler e ao fascismo. Com as revolta militares de Natal, Recife e Rio de Janeiro, de novembro de 1935, os trotskistas, como toda a esquerda e os inimigos de Vargas, se viram perseguidos e jogados na mais estrita clandestinidade, quadro que se agravou com a implantação da ditadura do “Estado Novo” em novembro de 1937. Somente com o fim dessa ditadura, em 1945, os trotskistas, com novas propostas e uma nova geração de militantes, puderam voltar a atuar abertamente.

Por fim, um esclarecimento sobre o título deste artigo. Ogum era a forma pela qual os trotskistas brasileiros dos anos 1930 referiam-se, de forma cifrada, a Trotsky. Era uma alusão a uma clássica transposição de uma tradicional imagem religiosa e de sua utilização pela propaganda dos comunistas soviéticos empregada em um cartaz da época da Guerra Civil russa, nos anos 1920, em que Trotsky aparecia como um São Jorge enfrentando o dragão da contrarrevolução. Esta divindade masculina ioruba, arquétipo do guerreiro, como se sabe, foi sincretizada no Brasil com São Jorge, tradicional combatente dos mitos católicos.

1 Doutor em História pela USP

Referências:
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2ª ed. São Paulo: Veneta, 2014.
ABRAMO, Fulvio e KAREPOVS, Dainis (Orgs.). Na contracorrente da história: Documentos do trotskismo brasileiro, 1930-1940. São Paulo: Sundermann, 2015.ARAÚJO, Angela Maria Carneiro. A construção do consentimento: Corporativismo e trabalhadores nos anos trinta. São Paulo: Scritta, 1998.
AZEVEDO, Raquel de. A resistência anarquista. Uma questão de identidade (1927-1937). São Paulo: Arquivo do Estado; Imprensa Oficial do Estado, 2002.
BASBAUM, Leôncio. Uma vida em seis tempos (Memórias). 2ª ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1978.
BLASS, Leila Maria da Silva. Imprimindo a própria história: O movimento dos trabalhadores gráficos de São Paulo no final dos anos 20. São Paulo: Loyola, 1986.
CANÊDO, Letícia Bicalho. O sindicalismo bancário em São Paulo. São Paulo: Símbolo, 1978.
FERREIRA, Maria Nazareth. A imprensa operária no Brasil, 1880-1920. Petrópolis: Vozes, 1978.
HADLER, Maria Sílvia Duarte. Sindicato do Estado e legislação social: O caso dos gráficos paulistas nos anos 1930. Campinas, 1982. Mimeogr. (Dissertação, UNICAMP – Departamento de Ciências Sociais, IFCH).
KAREPOVS, Dainis. Pas de politique Mariô! Mario Pedrosa e a política. Cotia; São Paulo: Ateliê Editorial; Fundação Perseu Abramo, 2017.
KAREPOVS, Dainis; MARQUES Neto, José Castilho; e LÖWY, Michael. Trotsky e o Brasil. In: MORAES, João Quartim de (Org.). História do Marxismo no Brasil. Volume 2: Os influxos teóricos. Campinas: Ed. Unicamp, 2007, p. 229-254.
KAREPOVS, Dainis e MARQUES Neto, José Castilho. Os trotskistas brasileiros e suas organizações política (1930-1966). In: RIDENTI, Marcelo e REIS, Daniel Aarão (Orgs.). História do Marxismo no Brasil. Volume 5: Partidos e organizações dos anos 1920 aos 1960. Campinas: Ed. Unicamp, 2007, p. 109-165.
KAREPOVS, Dainis e LEAL, Murilo. Os trotskismos no Brasil, 1966-2000. In: RIDENTI, Marcelo e REIS, Daniel Aarão (Orgs.). História do Marxismo no Brasil. Volume 6: Partidos e movimentos após os anos 1960. Campinas: Ed. Unicamp, 2007, p. 153-237.
PAULA, Amir El Hakim de. A relação entre o Estado e os sindicatos sob uma perspectiva territorial. São Paulo, 2011. Mimeogr. (Tese, USP – Departamento de Geografia, FFLCH).
PEDROSA, Mario. Um modelo de tenacidade revolucionária. Vanguarda Socialista. Rio de Janeiro, Ano III, nº 112, p. 1-2.
RIBEIRO, Paulo César Azevedo. Os trabalhadores gráficos do Rio de Janeiro: Luta e organização (1926-1945). Niterói, 1989. Mimeogr. (Dissertação, UFF – ICHF).
RODRIGUES, Edgar. Novos rumos: História do movimento operário e das lutas sociais no Brasil, 1922-1946. Rio de Janeiro : Mundo Livre, 1976. SILVA, Rodrigo Rosa da. Imprimindo a resistência: A imprensa anarquista e a repressão política em São Paulo (1930-1945). Campinas, 2005. Mimeogr. (Dissertação, UNICAMP – Departamento de História, IFCH).

Crédito da imagem de capa: Leon Trotsky matando o dragão da contrarrevolução. Cartaz de Viktor Deni (1919) (Acervo Dainis Karepovs).

Chão de Escola #06: Renata Moraes (UERJ) fala sobre o curso de extensão “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dos negros e negras no Ensino de História” oferecido para professores da Educação Básica

Luciana Pucu e Claudiane Torres entrevistam Renata Moraes

O curso de extensão “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dos negros e negras no Ensino de História”, ministrado pela professora Renata Moraes, buscou refletir sobre os obstáculos enfrentados pelos docentes para aplicação das leis n.º 10.639 (2003) e n.º 11.645 (2008), que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. A historiadora falou sobre a importância de se abordar a questão racial nas escolas para além de datas comemorativas e enfatizou que o protagonismo dos homens e mulheres negras na configuração dos mundos do trabalho e na experiência dos trabalhadores e trabalhadoras antes e após a Abolição. Renata enfatizou ainda a importância de se combater o racismo estrutural através de um educação antirracista que deve ser construída coletivamente entre escolas, universidades, Estado e sociedade como um todo.


Nos fale um pouco sobre o curso de sete semanas que você ofereceu pela plataforma Google Meets: “Reflexões e novas abordagens sobre o lugar dos negros e negras no Ensino de História”.

Desde 2017 eu coordeno um projeto de extensão no Departamento de História da UERJ onde investigamos a aplicação das leis 10639 (2003) e 11645 (2008) no ensino de história, tanto na parte didática quanto nos conteúdos dos livros utilizados na rede pública do Rio de Janeiro. Com a pandemia, tivemos que adaptar a ideia de promover um curso para os professores da rede básica de ensino. Ao mesmo tempo, a possibilidade do remoto nos permitiu ampliar o alcance das aulas fazendo com que tivéssemos alunos de diferentes partes do Brasil. Nossa preocupação era o público que alcançaríamos. Desejávamos que fossem professores da rede pública e com um tempo de atividade na educação, por entendermos que poderiam ser os mais carentes em determinados conteúdos. Ao se inscrever, o professor deveria preencher um formulário explicando seus interesses no curso. Tivemos mais de 300 inscritos e selecionar 200 foi uma tarefa árdua e complexa e que contou com os bolsistas de Iniciação à docência (Jonatas) e a bolsista de extensão (Marina). Ao final, cerca de 115 pessoas concluíram o curso que foi ministrado por mim e por outros 5 professores convidados, que trataram de temáticas que relacionaram a história do homem negro e da mulher negra na história do Brasil. Esse curso terá como grande produto um material com planos de aula elaborado pelos alunos cursistas, e que será disponibilizado a todos que fizeram o curso.

Qual o balanço que você faz da obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afro-Brasileira nas escolas, obtida com a aprovação da Lei 10.639 de 2003?

Através desse curso pude perceber que há uma forte demanda por parte dos professores em acessar conteúdos relacionado à obrigatoriedade da lei. Por outro lado, percebi que muitas escolas ainda reservam o mês de novembro como momento para refletir sobre consciência negra, por conta do dia 20 de novembro, dia da morte de zumbi. No entanto, é importante ressaltar que estudar o homem negro e a mulher negra deve ser em todo o conteúdo da disciplina história (as demais disciplinas também tem obrigação em administrar esse conteúdo) e não apenas em temáticas ligadas à escravidão e resistência. Nesse caso, vejo que muitos professores ainda colocam a questão racial em alguns períodos da história, como por exemplo no que consideramos o período colonial e imperial. Porém, esses conteúdos desaparecem da história da república. Além disso, se discute pouco sobre os egressos da escravidão no mundo do trabalho no Brasil República. Quando se trata da história dos trabalhadores e da sua resistência, muitos esquecem que esses trabalhadores são homens e mulheres negros e negras que ou resistiram à escravidão ou são descendentes daqueles que foram escravizados. Logo, a experiência da escravidão influenciou a resistência dos trabalhadores e suas formas de luta. Desta forma, precisamos inserir essa reflexão quando pensamos nos conteúdos obrigatórios da lei. É preciso ver a história republicana brasileira como crucial para a construção de cidadania e um campo de luta de homens e mulheres negros e negras. Deste modo, avançamos muito desde 2003 e agora é ampliar e avançar nas abordagens, dando protagonismo e voz a homens e mulheres negros e negras que fizeram a história do Brasil.   

O debate em torno da interseccionalidade, ou seja, das interfaces existentes entre o racismo, o patriarcado e o capitalismo, vêm ganhando destaque nos debates acadêmicos nos últimos anos. Você poderia falar um pouco mais sobre esse conceito e sobre quais desafios esses novos debates colocam para o Ensino de História?

Há muito tempo tratamos fatos da história, principalmente a do Brasil, como uma ação feita por homens, principalmente homens brancos. A história do Brasil tem uma origem e ela é branca e masculina. No entanto, é preciso ver essa história por outro olhar, que não exclui homens brancos mas que agrega às suas ações a mobilização de homens negros, mulheres, brancas e negras. O olhar interseccional é fundamental para enxergarmos as inúmeras possibilidades de entender fatos históricos e pensar na indeterminação dos sujeitos, uma vez que suas ações políticas podem ser influenciadas por sua origem social, seu passado e o momento histórico. Um exemplo que gosto de citar é sobre a resistência escrava, que é tratada também como uma ação mais masculina do que feita por mulheres. O estudo dessa resistência tem que ver nas mulheres um ponto crucial de planejamento de ações contra a escravidão e de luta pelas suas vidas e dos seus filhos. Durante muito tempo focamos nossa análise na ideia de um escravizado guerreiro e em fuga, num estilo zumbi dos Palmares, mas quantas mulheres escravizadas não tiveram que promover estratégias de fugas e de sobrevivência sem a ajuda de homens? As cidades escravizadas eram o local de trabalho de muitas dessas mulheres, que viveram a escravidão e resistiram a ela no cotidiano das ruas e do trabalho. Deste modo, ao ensinarmos a história do Brasil temos que pensar nas inúmeras possibilidades que esses sujeitos históricos tiveram a partir da sua origem, classe, gênero e outros fatores.

Como as recentes manifestações antirracistas em todo o mundo e as polêmicas sobre a derrubadas de estátuas de escravocratas e colonialistas podem ser utilizadas em sala de aula em tempos em de negacionismo histórico?

Mais importante que derrubar estátuas é entender o porquê elas estão ali. Sem dúvida que 2020 nos deixará muitas lições e uma delas é a urgência em combatermos o negacionismo, tanto na história quanto na ciência. Os movimentos antirracistas ocorridos em todo mundo precisam provocar mudanças estruturais. Derrubar estátuas é simbólico, nos alerta sobre a quantidade de homenagens feitas a escravocratas, mas essas estátuas precisam ser derrubadas também no nosso cotidiano. O racismo tem uma estrutura que também precisa ser derrubada, tal como uma grande estátua. Os movimentos antirracistas precisam chegar na educação e na política. A respeito da educação, a obrigatoriedade de ensinar determinados conteúdos não é suficiente. As secretarias de educação e as universidades precisam trabalhar juntas para fazer uma educação antirracista e não deixar apenas essa obrigação para iniciativas pontuais de alguns professores. É preciso uma política de estado. A mídia também tem um papel crucial e precisa se ver como racista a fim de que possa fazer uma virada. De nada vai adiantar tratarmos de diversidade e ensinarmos um Brasil negro se a criança e o jovem ligarem a TV e ver em novelas e filmes apenas um Brasil branco, elitizado e longe da sua realidade. Desta forma, a história pública também se torna fundamental para pensarmos nesses conteúdos que tratam da história do Brasil e que estão ao alcance de todos. No campo da política, em 2020 temos uma incrível oportunidade de elegermos candidaturas comprometidas com o combate ao racismo e a desigualdade social e que neguem o avanço das pautas conservadoras. Ou seja, só a ação de alguns professores e a derrubada de estátuas não muda a estrutura de séculos.


Renata Moraes é professora de História do Brasil da UERJ, do Mestrado Profissional em Ensino de História (Profhistória) e pesquisadora do LEHMT. Dentre os temas de pesquisa, destaca os trabalhadores no século XIX, movimentos grevistas e associativismo. No campo do ensino, tem pesquisado o impacto das leis de 2003 e 2008 através de projetos de extensão e pesquisa em livros didáticos.


Crédito da imagem de capa: Foto de Juca Martins/Olhar Imagem. “Manifestação durante a reunião da SBPC, Salvador, BA, 1981”. Arquivo Edgard Leurenroth/Unicamp. Notação: vu_esc_pasta_080_foto_02390.


Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Pesquisador do LEHMT-UFRJ sobre divulgação da história em evento da UFU

O pesquisador do LEHMT-UFRJ e professor da PUC-Rio, Deivison Amaral, fará palestra para os estudantes do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia, durante as Jornadas de Pesquisa em História, organizada por Ana Flávia Ramos. A exposição objetiva demarcar a importância de intensificar a participação de historiadores e historiadoras profissionais em projetos de divulgação do conhecimento histórico e no debate público sobre a história.

Durante a exposição, as atividades desenvolvidas pelo LEHMT-UFRJ serão apresentadas. Desde o início de 2019, o Laboratório tem promovido atividades de divulgação da história dos trabalhadores e trabalhadoras e, especialmente, participando de debates públicos sempre que o tema for relativo a este campo de estudos.

Contribuição especial #12: Clodesmidt Riani faz cem anos: esboços de sua trajetória

Contribuição especial de Cláudia Viscardi¹

“ Quando eu falava, todos sabiam que era um sindicalista que estava falando. ”

Clodesmidt Riani, 2005

Com o que sonhava um filho de trabalhador nascido no interior de Minas na década de 1920? Talvez sobreviver, ter um emprego que lhe proporcionasse uma vida digna, casar-se e ter filhos… Riani atendeu a todas essas expectativas, mas foi mais além. Tornou-se um dos mais importantes líderes sindicais de sua geração.

Nascido na pequena cidade do leste mineiro, Rio Casca, Clodesmidt cedo mudou-se para Juiz de Fora. Sua inserção no mundo do trabalho foi precoce, como era comum entre seus pares. Para ajudar nas despesas da família vendia doces caseiros. Filho de operário, logo seu pai lhe incentivou a aprender alguns ofícios, como o de açougueiro, tipógrafo e sapateiro. Aos 13 anos conseguiu seu primeiro emprego formal em uma fábrica de tecidos, na qual estudou, jogou futebol e ficou conhecido como o Sr. Garoto, por ser um dos mais novos trabalhadores da Cia de Tecelagem Moraes Sarmento.

Por indicação do irmão mais velho, migrou para uma empresa maior e tornou-se eletricitário da Companhia Mineira de Eletricidade, responsável pelo fornecimento de energia e gestão dos bondes elétricos do município. Lá trabalhou até a sua aposentadoria, jornada interrompida apenas pelas prisões e pelos mandatos políticos que exerceu.

Casou-se aos 20 anos e teve dez filhos: cinco meninas e cinco meninos. Seus depoimentos revelam preocupações com os períodos em que esteve afastado de casa e com as dificuldades vividas pela família enquanto estava em Ilha Grande como uma das vítimas da ditadura civil-militar de 1964.

Ao final da década de 1940, envolveu-se na política municipal, apoiando candidaturas trabalhistas. Filiou-se ao PTB em 1950, tornando-se protagonista no sindicato de sua categoria e, embora não tenha sido eleito vereador em razão das regras do coeficiente eleitoral, foi muito bem votado. Logo em seguida, alçaria voos mais altos ao representar os trabalhadores mineiros no Conselho Deliberativo da Caixa de Aposentadoria e Pensões. E quatro anos mais tarde conseguiu não só que os trabalhadores de Juiz de Fora fossem representados na comissão do salário mínimo – já que o município reunia 18 sindicatos fortemente organizados – como se orgulha de ter lutado e obtido o salário de 100% para os trabalhadores que representava.

Tal protagonismo lhe propiciou apoio político para eleger-se deputado estadual por dois mandatos, em 1954 e 1958, ocasiões em que os governadores de Minas eram do PSD e da UDN, respectivamente, partidos sempre mais fortes que o PTB no estado.

Na condição de deputado, representou os trabalhadores de Minas na Conferência da OIT em Genebra, em 1958. Um ano depois, apoiaria a candidatura de Tancredo Neves ao governo de Minas pelo PSD. A derrota para Magalhães Pinto fora um revés para os trabalhadores do estado. No mesmo ano, iniciou sua trajetória na Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI), na condição de vice-presidente da agremiação, cargo ocupado até 1961. Com o apoio de João Goulart, tornou-se presidente da CNTI em 1962.

Riani lidera a comissão de líderes sindicais de Minas Gerais em audiência com o vice-presidente João Goulart em 1958. Acervo pessoal de Clodesmidt Riani.

Em um contexto de ascenso das lutas dos trabalhadores e de forte presença do movimento sindical no espaço público, foi fundado, em 1962, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), uma articulação de sindicatos e federações de diversas categorias, ligados aos comunistas, nacionalistas de esquerda vinculados ao PTB, socialistas e outros grupos menores. Na conjuntura que antecedeu ao golpe de 1964, o CGT teve grande visibilidade e influência, chegando a ser denominado pejorativamente pelos setores conservadores de “quarto poder”.

Na condição de presidente da CNTI Riani assumiu a vice-presidência do CGT. Em maio de 1963 tornou-se presidente da entidade. O apoio do CGT às reformas de base não implicava, no entanto, em adesão imediata a Goulart. A autonomia da agremiação permitiu com que se opusesse aos cortes orçamentários derivados do Plano Trienal e se manifestasse contrária ao estado de sítio proposto pelo Presidente em outubro de 1963.

De qualquer forma as relações com o Presidente eram muito próximas, ao ponto de Riani afirmar que o golpe de 1964 havia interrompido uma importante participação do CGT no governo, já que ele próprio discutia com o Presidente temas fundamentais de interesse dos trabalhadores como o salário mínimo, a previdência e demais direitos. Riani faz referências também a sua intervenção contra a indicação por Goulart de seu ministro do trabalho, Hugo de Faria, que teria obrigado Jango a voltar atrás na escolha. Riani também fez parte de algumas comitivas presidenciais acompanhando Jango em viagens aos Estados Unidos, México, Berlim e Chile. Riani continuava a sua trajetória ascendente. Assumiu a presidência do PTB de Juiz de Fora. Acumulando postos importantes na hierarquia organizacional dos trabalhadores, reelegeu-se presidente da CNTI em 1964.

Como visto, nas décadas de 1950 e 1960 Riani ampliara significativamente a sua inserção no trabalhismo nacional, por meio de sua proximidade a lideranças sindicais e políticas. Nas inúmeras funções de liderança por ele exercidas, participou de conselhos e comissões, representou as associações internacionalmente e esteve próximo aos projetos reformistas em curso.

O golpe de 64 interromperia a sua militância sindical e partidária. Teve seus direitos políticos cassados pelo novo regime, e por ter perdido sua imunidade parlamentar (havia sido reeleito deputado estadual em 1962), foi preso e condenado a cumprir pena de 17 anos, reduzida posteriormente para dez anos. Em razão de mobilizações a seu favor e da ação de advogados, saiu após cumprir quatro anos e dois meses, mas retornaria ao cárcere.

Ressalte-se que a prisão de Riani esteve relacionada a dois fatos imediatos que revelam traços marcantes de sua atuação política. O primeiro diz respeito ao seu envolvimento com a organização de uma greve geral, em que pesem os esforços de Jango em demovê-lo deste objetivo. O segundo em sua recusa em assinar um documento que atestava ser Jango comunista. O primeiro é revelador de sua autonomia como líder sindical em relação ao quadro político-partidário; o segundo, o de sua lealdade ao PTB e aos demais parceiros de luta.

Em 1968, ao ser solto, voltou à antiga Companhia Mineira, embora não tivesse sido fácil obter seu antigo posto de volta. Na ocasião, sua família vivia intensas dificuldades, muito em razão da discriminação que sofria por vizinhos e demais conhecidos. Mas sua liberdade duraria pouco. Riani voltou a ser preso e cumpriu mais três anos, desta feita em Ilha Grande.

Libertado em 1971, voltou ao seu antigo emprego na Cia Mineira de Eletricidade e também ao movimento sindical, mas com moderação, em razão da contínua vigilância exercida sobre a sua vida privada. Aproveitou a ocasião para estudar e se formar em Direito.

Após a anistia e tendo início o processo de redemocratização, Riani se filiou ao PMDB e foi eleito deputado estadual em 1982, quando Tancredo assumira o governo de Minas. Tentou sem êxito a reeleição. Atuou fortemente nas disputas locais, valendo-se de sua liderança para indicar cargos e interferir sobre os rumos políticos do município.

De seu antigo emprego Riani se aposentou em 1983, quando a Cia Mineira de Eletricidade já havia sido agregada à CEMIG. A partir daí sua atuação política e sindical foi reconhecidamente mais discreta. Eram novos tempos. O “Novo Sindicalismo” assumia o protagonismo das lutas sindicais, tendo o eixo paulista se sobressaído sobre os demais estados da federação. As críticas ao sindicalismo trabalhista fechavam espaços para antigas lideranças como a dele. Para além disso, o adoecimento e morte de sua esposa o aproximava mais da vida privada.

Fotografia recente de Riani (sem data). Acervo Pessoal de Clodesmidt Riani.

Nas décadas recentes, Riani preocupou-se em construir uma memória sobre si, concedendo inúmeros depoimentos e entrevistas e organizando um pequeno museu em sua própria residência. Na escrita de si fazem-se claros alguns valores: a humildade de quem reconhece os limites impostos por uma sociedade desigual; a defesa da honra como se dela dependesse a sua imagem; a crença no trabalhismo como o regime que foi capaz de atender a maior parte dos interesses dos trabalhadores brasileiros; a rejeição ao udenismo, que só lhes prejudicou e contribuiu para seu injusto encarceramento; o orgulho de ter tido uma vida digna e voltada para a família e para a sociedade. No último dia 20 de outubro, após ter vencido o Covid, Riani comemorou junto aos seus, seu centenário. Sua trajetória nos fala muito sobre o Brasil do século XX, sobre as lutas por direitos e sobre as interrupções e retomadas democráticas.

Documentário produzido pelo Laboratório de História Política e Social (LAHPS) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) por ocasião do aniversário dos 100 anos de Riani.

¹ Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora

Referências:
HELENO, Alexandre Peixoto . Trabalhismo e história: um percurso nas memórias de Clodesmidt Riani. Perseu: História, Memória e Política , v. 1, p. 11-39, 2011.
PAULA, Hilda R. e CAMPOS, Nilo de A. (orgs.) Clodesmidt Riani: trajetória. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2005.
SILVA, Fernanda R. Abreu. Memórias sindicais da anistia Estudos de caso de operários sindicalistas no contexto da Justiça de Transição pós-ditadura civil-militar. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2015, cap. 2.
Clodesmidt Riani faz 100 anos! Biografia e homenagens: https://youtu.be/KrRgj68uqcc

Crédito da imagem de capa: Riani em uma passeata durante a greve dos 700 mil de São Paulo (outubro/novembro de 1963). Acervo pessoal de Clodemisdt Riani.

Chão de Escola #05: A revolta escrava do Haiti e o movimento dos trabalhadores e negros pelo mundo

AUTORES: SAMUEL SILVA RODRIGUES DE OLIVEIRA (CEFET/RJ) E RENATA MORAES (UERJ)

Apresentação da Atividade

Segmento: 2º Ano ou 3º Ano do Ensino Médio

Unidade temática: Revolução do Haiti e memória afro-diaspórica

Objeto de conhecimento:

– Revolução do Haiti.

– Mundo do trabalho e escravidão no atlântico negro

Objetivos gerais:

– Abordar a Revolução do Haiti na história das independências e revoluções liberais atlânticas;

– Enfatizar o medo do haitianismo no Brasil e nas américas no século XIX.

– Apresentar a discussão sobre a escravização dos trabalhadores na diáspora africana.

– Debater o trabalho escravo contemporâneo

Duração da atividade:

Aulas Planejamento
01 Etapa 1
02Etapa 2
03Etapa 3
04Etapa 4
05 Etapa 5

Conhecimento prévio: O estudante precisa ter conhecimento de três conceitos históricos: revoluções burguesas, Revolução Francesa e escravismo moderno.

Atividade

Etapa 1: Utilize a seguinte questão mobilizadora: “Vocês conhecem a revolução feita pelos escravos que transformou uma antiga colônia num país independente na América?”.
Levante os conhecimentos dos alunos sobre o Haiti e quais as impressões que têm do país. Sempre que possível faça uma inflexão no debate, mostrando que esquecer e lembrar não são gestos naturais; indique as possíveis forças sociais que condicionam a imagem que se tem sobre o Haiti e sua independência no Brasil, um país de formação histórica escravista.
E questione: “Quais os efeitos da revolução dos escravos feita no Haiti tiveram para a abolição da escravidão no Brasil?”
Após esse breve trabalho de recuperação dos conhecimentos, apresente os demais textos que tratam do Haiti e de seu processo de independência.
O objetivo dessa etapa é situar a Revolução do Haiti no quadro das revoluções liberais, indicando as diferenças da revolta escrava. A atividade pode ser realizada em dupla, ou individualmente.

Leia o texto e responda as questões abaixo

Texto 1

A partir de 1775, uma onda de revoluções envolveu o mundo atlântico. Teve início na América do Norte, com a Revolução Americana (1776-1783), e disseminou-se na Europa com a Revolução Francesa (1791-1804), retornando às Américas com a Revolução Escrava no Haiti (1791-1804). (…)
O conhecimento da experiência haitiana foi amplamente difundido em toda a América, entre as elites, as camadas populares e os escravos. Essa experiência tornou clara as forças explosivas encerradas na estrutura das sociedades fundamentadas no trabalho forçado, racialmente demarcado e os enormes riscos de tentar derrubar a autoridade central nessas sociedades. A revolução teve início quando vários integrantes da população livre da colônia – as elites “grands blancs” de fazendeiros que buscavam maior autonomia em relação à França; os artesãos e trabalhadores “petit blancs” que reivindicavam a igualdade democrática com as elites; e os negros e mulatos livres que objetivavam a igualdade racial com os brancos – pegaram em armas uns contra os outros e partiram para a guerra. O caos e a desordem resultantes e a falência dos controles coercitivos nos engenhos de açúcar da ilha proporcionaram aos escravos – 90% da população total da colônia – a oportunidade de se rebelarem e partir para a guerra em seus próprios benefícios.
Para as classes dominantes de todo o hemisfério, as lições a serem extraídas do Haiti eram óbvias: em qualquer lugar em que populações de não brancos viviam em condições de trabalho forçado, a revolução política podia se transformar muito facilmente em revolução social. As elites das mais ricas economias mineiras e de plantation foram cautelosas ao cortar seus laços coma a Europa.

Fonte: ANDREWS, George. Um raio exterminador: as guerras pela liberdade, 1810-90. In: HISTÓRIAS AFRO-ATLÂNTICAS, Vol.2. São Paulo: Masp, 2018. p.176-177.

  1. Conceitue o que é uma revolução política e social.
  2. Por que a Revolução Americana, a Revolução Francesa e a Revolução do Haiti são identificadas como revoluções?
  3. Pesquise a história dessas três revoluções, principalmente no que se refere aos seus sujeitos e objetivos sociais e políticos.
  • Qual o impacto da Revolução do Haiti para a história do trabalho nas Américas?
  • Quais seriam as lições que as elites e os trabalhadores que eram escravizados tiveram com a Revolução do Haiti? Pesquise e conceitue o que foi o haitianismo no Brasil.

Etapa 2: Vamos problematizar as várias referências para a revolta de escravos do Haiti. Os estudantes devem ser separados em grupos pequenos, no máximo quatro estudantes. E a leitura pode ocorrer de forma coletiva, antes de serem realizadas individualmente.

Leia e analise os documentos abaixo.

Texto 2

O bom Deus fez o sol
que nos ilumina lá do alto
que levanta o mar
e faz rugir o trovão
Escutem bem vocês
O Bom Deus escondido numa nuvem nos olha
Ele vê o que fazem os Brancos
O Deus dos Brancos pede o crime
O vosso quer o Bem.
Mas se o Deus que está tão longe
lhes ordena a vingança
Ele dirigirá nossos passos
Ele nos assistirá
Desprezem a imagem do Deus dos Brancos
que tem sede de nossas lagrimas
Escutem a liberdade que fala a nosso coração

Fonte: Sacerdote Buckman, cativo jamaicano, sacerdote vodu e marron*,na noite de 22 de agosto de 1891, no momento em que antecedeu a revolta escrava. Apud MOREL, Marco. A Revolução do Haiti e o Brasil escravista – o que não deve ser dito. SP: Pacco, 2017. p.89
*Marron: Equivalente a quilombola ou cativo que foge para viver em uma comunidade afastada das cidades e espaços de trabalho e controle dos senhores. O termo derivado da expressão marronage – nome da experiência de rebelião escrava no Haiti, formando comunidades que resistiam a escravização.

Texto 3

As primeiras lideranças dos escravos que se libertavam, como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe, eram abertamente adeptas da forma de governo monárquica. Sob esse ângulo, a Revolução Francesa era percebida como adversária dos escravizados que iniciavam a luta revolucionária (…)
Dechaussée (Descalço), detido e interrogado pelo colono Leclerc em agosto de 1791, após falar em defesa do rei Luís XVI, afirmou que o projeto de insurreição era conhecido por todos os negros da colônia: queimar as plantações, degolar os brancos e se apropriarem do país.
Durante o ano de 1792, continua intensa – dramaticamente intensa e violenta – a guerra entre negros e brancos, entre brancos e mulatos (…) Em setembro, chegaram a São Domingos três comissários enviados pela Convenção Nacional para implantar o direito de igualdade entre brancos, mulatos e negros livres, decretados em abril. Ou seja, mantinha-se o escravismo. (…)
O acompanhamento dos episódios reitera a afirmação de que foi a Revolução do Haiti que efetivou e empurrou a Revolução francesa para a abolição da escravidão – dissipando a ideia de que as ideias francesas iluminaram a colônia unilateralmente. O conflito irrompe entre as tropas colônias: o general Galbaud, colono, tenta destituir os comissários enviados pela Convenção e, malsucedido abandona a Ilha com numerosos soldados e outros colonos, em 20 de junho de 1793.  No dia seguinte, Sonthonax decreta a anistia para todos os escravos revoltados: medida, na verdade, inócua, pois os antigos escravizados já se assenhoram do território (…)
Entre 29 de agosto e 27 de setembro de 1793, o mesmo Sonthomax, na condição de representante do governo francês e premido pela avalanche de acontecimentos, proclama a abolição da escravidão. No que recebe o imediato apoio de Toussaint Louverture. As mudanças se precipitam. Ao receber a notícia da abolição da escravatura na colônia, a Convenção Nacional, em Paris, decreta a mesma abolição em todas as colônias, em 4 de fevereiro de 1794.

Fonte: MOREL, Marco. A Revolução do Haiti e o Brasil escravista – o que não deve ser dito. SP: Pacco, 2017. p.104-106.

Texto 4

“Irmãos e amigos. Eu sou Toussaint Louverture; meu nome talvez seja conhecido de vocês. Eu realizo a vingança de minha raça. Quero que a liberdade e a igualdade reinem a São Domingos. Eu trabalho para faze-la existir. Uni-vos, irmãos, e combatam comigo pela mesma causa. Arranquem comigo as raízes da árvore da escravidão”.

Fonte: Falaatribuída à Toussaint Louverture, escravo liberto que se tornou principal líder revolucionário, em 1793 ApudMOREL, Marco. A Revolução do Haiti e o Brasil escravista – o que não deve ser dito. SP: Pacco, 2017. p.39.

  1. Marco Morel é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) escreveu o livro A Revolução do Haiti e o Brasil escravista (2017). Ele é enfático em argumentar que a Revolução do Haiti não constituiu uma mera reprodução de ideias iluministas. As ideias dos filósofos no século XVIII criticavam o antigo regime (absolutismo), apregoavam a razão contra os preconceitos e dogmas religiosos cristãos, e defendiam a liberdade individual, igualdade civil e propriedade privada. Muitos filósofos e liberais não viam contradição entre a defesa da liberdade individual e a manutenção escravidão. Analise os documentos e descreva como cada documento ajuda a compreender as motivações da Revolução do Haiti.
  1. Escreva uma narrativa explicando a argumentação de Marco Morel: “a Revolução do Haiti empurrou e efetivou a abolição da escravatura”.
  2. “Em 1802, Napoleão reabilitou a escravidão nas colônias francesas, proibiu a entrada de negros e mulatos na França e prendeu as lideranças da revolução haitiana…”. Pesquise como os atos da frase anterior levaram a retomada dos protestos e a proclamação da Independência do Haiti em 1804. Após realizar a pesquisa, escreva dois parágrafos narrando a Independência do Haiti, dando continuidade ao texto acima.

Etapa 3: Nessa etapa, vamos relacionar o trabalho escravo no Brasil e a resistência dos escravizados. Recupere os conhecimentos sobre o que foi o trabalho dos escravizados no Brasil e o medo do haitianismo no século XIX, relacionando o tema com as etapas anteriores.

Leia o trecho do livro Os ganhadores, escrito pelo historiador João Reis e responda as questões abaixo.

O trabalho escravo no Brasil envolveu homens, mulheres, crianças e por mais de 300 anos predominou em todas as atividades, tanto no campo como na cidade. Quem visitou o Brasil durante esse período caracterizou o que eram essas atividades. Spix e Martius tratam de Salvador em 1818: “é tristíssima a condição dos que são obrigados a ganhar diariamente uma certa quantia (uns 240 réis) para os seus senhores; são considerados como capital vivo em ação e, como os seus senhores querem recuperar dentro de certo prazo o capital e juros empregados, não os poupam”. (REIS, 2019, p. 42)
O trabalho escravo nas cidades poderia ser feito “ao ganho”, quando o escravo exercia uma atividade remunerada e esse valor deveria ser dado ao seu senhor. Por exemplo, segundo João Reis, em 1847 em Salvador, um carregador de cadeiras e um sapateiro devia 400 réis por dia ao seu senhor; um ganhador de cesto, 320 réis, uma lavadeira, 240 réis; Em 1872 as diárias variavam entre 428 (valor devido por um africano de 50 anos) e 571 réis (o mais novo) (REIS, 2019, p. 42).
Em 1857, muitos escravos que faziam o ganho em Salvador se revoltaram e promoveram uma greve, que paralisou todas as atividades que exerciam por alguns dias, até ter suas reivindicações atendidas. Segundo Reis:
“A paralisação de 1857 foi um capítulo da resistência dos africanos ao crescente controle e vigilância a que eram submetidos sistematicamente em Salvador. Mas não foi um episódio qualquer. Os ganhadores suspenderam o transporte na cidade durante mais de uma semana, num movimento que parece ter sido a primeira greve geral de um setor importante da economia urbana no Brasil” (REIS, 2019, p. 35)

Fonte: REIS, João José. Os Ganhadores. A greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo, Companhia das Letras, 2018. p.35-42. Adaptado.

Responda:

  1. Qual relação que podemos fazer entre essa greve em Salvador e a Revolta no Haiti?
  2. Seria possível que esse movimento em Salvador se espalhasse por outras cidades?
  3. Quais os riscos de uma greve de escravos poderia oferecer a manutenção da escravidão?

Etapa 4: No Brasil, a escravidão acabou por meio de uma lei, em 1888, e desde então não existem mais trabalhadores escravizados no país. No entanto, sabemos como são precárias as condições de trabalho de grande parte da população.
A partir da questão mobilizadora “O que foi a escravização dos trabalhadores na diáspora africana? E quais os efeitos da abolição de 1888?”, faça uma síntese apresentando o significado da escravidão na formação da sociedade brasileira.
Na sequência, solicite aos estudantes a leitura dos textos 5 e 6, reportagens em que a expressão “trabalho escravo” é utilizada na atualidade, e que respondam as perguntas para cada texto.

Texto 5

Leia a notícia abaixo

(…) João é parte dos números que, para especialistas, comprovam a marginalização das populações negras. A cada cinco trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão entre 2016 e 2018, quatro são negros. Pretos e pardos representam 82% dos 2.400 trabalhadores que receberam seguro-desemprego após resgate. (…)
Entre 2016 e 2018, de 2.570 trabalhadores resgatados, 2.481 receberam auxílio (96%), sendo que 343 se autodeclararam brancos e 2.043 negros (soma de pretos e pardos). Os demais se autodeclararam amarelos (18), indígenas (66) ou não fizeram declaração de raça. (…)
“Ser negro é igual a estar sujeito a situações diversas em que sua vida é desvalorizada, você é um ser desqualificado socialmente e sua cultura é deslegitimada”, afirma Sérgio Luiz de Souza, professor da Universidade Federal de Rondônia e pesquisador de História Afro-brasileira e Africana, mostrando como os números são sintomas da realidade vivida pelos negros ainda hoje. (…)

Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/reporter-brasil/2019/11/20/a-cada-cinco-resgatados-em-trabalho-escravo-no-brasil-quatro-sao-negros.amp.htm. Acesso em 28/10/2020.

A partir da imagem e do texto, responda as questões:

  1. Por que ainda temos trabalhadores considerados “escravos” no Brasil?
  2. Quais são as possíveis causas para a continuidade dessa “escravidão”?
  3. Aponte uma causa para que os negros ainda sejam a maioria entre os resgatados entre os que viviam em situação de trabalho análoga à escravidão.

Texto 6

Leia a notícia abaixo:

“Somos trabalhadores que estamos desesperados por melhores condições para nós e para a nossa classe. A gente está cansado.” O depoimento é de Simões, 37 anos, motoboy que opera na cidade de Niterói (RJ).
Com condições precárias de trabalho, as dificuldades dos entregadores de serviços de delivery têm sido ainda mais intensas neste período de pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2). (…)
“Em um dia trabalhando muito, eu conseguia fazer R$ 100. Pelo tempo de trabalho é muito pouco, principalmente se você tirar a gasolina, manutenção da moto, alimentação. É uma semi-escravidão”, denuncia Galo (…).

Fonte: Portal IG. Disponível em: https://economia.ig.com.br/2020-06-29/greve-dos-entregadores-nesta-quarta-feira-e-uma-semi-escravidao.html. Acesso em 28/10/2020.

Esse é um caso de uma mobilização dos trabalhadores autônomos realizada no dia 1 de julho de 2020. Responda as seguintes questões:

  1. Quais efeitos que essa mobilização dos trabalhadores autônomos podem gerar em seu benefício?
  2. Qual a relação que você poderia fazer entre essa mobilização e a feita no Haiti?
  3. Por que outros trabalhadores em condições análogas à escravidão não conseguem se mobilizar?
  4. Por que o entregador Galo chama seu trabalho de “semi-escravidão”?

Etapa 5: Retome os conceitos de Revolução do Haiti e as relações entre liberdade e escravidão.
Solicite aos estudantes uma pesquisa de imagens relativas à Revolução do Haiti na internet e imagens relacionadas ao “trabalho escravo” na contemporaneidade.
Peça que escolham seis imagens sobre cada tema que comporiam um mural desses eventos.
A atividade pode ser feita também em grupo. Essa etapa constitui uma etapa de síntese e também avaliativa de todo módulo.

A partir das imagens, o(s) estudante(s) devem realizar três ações:

  1. Montar um painel que instrua os espectadores sobre a história da Revolução do Haiti e o trabalho escravo na contemporaneidade.
  2. Escrever uma placa que acompanharia o mural, explicando e contextualizando as imagens e a história da Revolução Haitiana e do “trabalho escravo” contemporâneo.
  3. Apresentar na forma de vídeo ou texto escrito um discurso de um ativista contra a escravidão (deve se identificar a data, local e circunstância social e política da liderança).

Bibliografia e material de apoio:

  • ANDREWS, George. Um raio exterminador: as guerras pela liberdade, 1810-90. In: HISTÓRIAS AFRO-ATLÂNTICAS, Vol.2. São Paulo: Masp, 2018.
  • MOREL, Marco. A Revolução do Haiti e o Brasil escravista – o que não deve ser dito. SP: Pacco, 2017
  • REIS, João José. Os Ganhadores. A greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo, Companhia das Letras, 2018.


Crédito da imagem de capa: Incendie de la Plaine du Cap. – Massacre des Blancs par les Noirs. Autor: Martinet (del.) – Masson (Sculp.) – 1833

Chão de Escola

Nos últimos anos, novos estudos acadêmicos têm ampliado significativamente o escopo e interesses da História Social do Trabalho. De um lado, temas clássicos desse campo de estudos como sindicatos, greves e a relação dos trabalhadores com a política e o Estado ganharam novos olhares e perspectivas. De outro, os novos estudos alargaram as temáticas, a cronologia e a geografia da história do trabalho, incorporando questões de gênero, raça, trabalho não remunerado, trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e até mesmo desempregados no centro da análise e discussão sobre a trajetória dos mundos do trabalho no Brasil.
Esses avanços de pesquisa, no entanto, raramente têm sido incorporados aos livros didáticos e à rotina das professoras e professores em sala de aula. A proposta da seção Chão de Escola é justamente aproximar as pesquisas acadêmicas do campo da história social do trabalho com as práticas e discussões do ensino de História. A cada nova edição, publicaremos uma proposta de atividade didática tendo como eixo norteador algum tema relacionado às novas pesquisas da História Social do Trabalho para ser desenvolvida com estudantes da educação básica. Junto a cada atividade, indicaremos textos, vídeos, imagens e links que aprofundem o tema e auxiliem ao docente a programar a sua aula. Além disso, a seção trará divulgação de artigos, entrevistas, teses e outros materiais que dialoguem com o ensino de história e mundos do trabalho.

A seção Chão de Escola é coordenada por Claudiane Torres da Silva, Luciana Pucu Wollmann do Amaral e Samuel Oliveira.

Artigo “‘Pacatos trabalhadores’ e ‘micróbios moscovitas’: reflexões sobre o uso de fontes da polícia política em pesquisas históricas” – Felipe Ribeiro

O acesso aos documentos da polícia política se apresenta como uma interessante iniciativa na pesquisa histórica, sobretudo por se tratar de uma fonte inédita para estudo. Porém, lançar mão desse tipo de acervo, exige de pesquisadoras e pesquisadores a devida precaução metodológica, onde a crítica e o cruzamento documental tornam-se fundamentais. Foi com este intuito que o pesquisador do LEHMT-UFRJ e Professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Felipe Ribeiro, acabou de publicar o artigo “‘Pacatos trabalhadores’ e ‘micróbios moscovitas’: reflexões sobre o uso de fontes da polícia política em pesquisas históricas”.    

O texto compõe o livro “Caleidoscópio de histórias: cultura, gênero, política e cidades”, que acabou de ser lançado pela Editora da Universidade Federal do Piauí (EdUFPI), em coletânea organizada pelos professores Francisco Alcides do Nascimento, Fábio Leonardo Castelo Branco Brito e Julio Eduardo Soares de Sá Alvarenga.

A obra reúne dezenove artigos, de variadas temáticas, grande parte como resultado de pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da UFPI entre os anos de 2018 e 2020, além demais autores convidados.

A versão e-book encontra-se disponível gratuitamente através do link: https://doi.org/10.29327/518955

Crédito da imagem de capa: Detalhe do Prontuário de Irun Sant’Anna, com o carimbo da DOPS e selo do PCB. Acervo: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ).

Contribuição especial #11: Os mundos do trabalho da informalidade urbana: contribuições de Luiz Antonio Machado da Silva – Marcella Araujo

Marcella Araujo¹

No último dia 21 de setembro, aos 79 anos, Luiz Antonio Machado da Silva nos deixou. Professor do Departamento de Sociologia da UFRJ (1986-2011) e do Iesp/Uerj (antigo IUPERJ, 1974-2020), Machado foi um dos grandes nomes dos estudos urbanos brasileiros. Na sua particular condição de “sociopólogo”, como preferia se definir, ele se dedicou aos estudos do trabalho, das condições de vida e da política das camadas populares urbanas. Escreveu sobre o significado do botequim, a política na favela, os movimentos sociais urbanos, a criminalidade violenta e a informalidade do trabalho. Seus textos sobre este último tema foram recentemente compilados no livro O mundo popular: trabalho e condições de vida.

Luiz Antonio Machado da Silva se formou em Sociologia e Política na PUC- Rio, em 1964, tendo feito especialização em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, sob orientação da Professora Maria Azevedo Brandão. Ingressou na segunda turma do Mestrado em Antropologia Social do Museu Nacional, em 1968, e três anos mais tarde defendeu a dissertação intitulada Mercados metropolitanos de trabalho manual e marginalidade. Doutorou-se em Sociologia na Rutgers University nos Estados Unidos, com a tese Lower Class Life Strategies: A Case Study of Working Families in Recife’s (Brazil) Metropolitan Area, em 1979, sob orientação do Professor Irving Horowitz.

 Sua dissertação de mestrado foi inovadora à época da sua defesa. O original se perdeu no incêndio do Museu Nacional, ocorrido em setembro de 2018, e só veio a público de maneira integral em O mundo popular. Como Machado mesmo disse em uma das reuniões de seleção dos textos que comporiam o livro, ele “desde sempre e para sempre, falou da marginália urbana”. O processo de marginalização dos trabalhadores migrantes que chegavam às grandes cidades brasileiras, nos anos 1960, e não conseguiam postos de trabalho assalariados nas fábricas foi o tema da sua primeira pesquisa sistemática. Como ele escreveria mais tarde, “analisar as dificuldades e distorções da incorporação dos trabalhadores ao processo produtivo em contextos onde o assalariamento era pouco generalizado” era a grande preocupação da sociologia latino-americana, quando ele cursava o mestrado.

Ao contrário de expoentes da sociologia do desenvolvimento, Machado adotou “como perspectiva, a posição dos próprios trabalhadores”, para, a partir das condições do mercado de trabalho, discutir os modos diferenciados de inserção no sistema capitalista. Essa estratégia metodológica pretendia reparar a “falta de vivência da realidade estudada” dos tantos modelos teóricos sobre o capitalismo periférico. Como membro de equipes de programas de “promoção de melhorias habitacionais”, Machado percorreu dezenas de favelas, “o coração ecológico da marginalidade”, no Rio de Janeiro e em outros estados, realizando as entrevistas e observações participantes que lhe permitiriam refutar teses em voga naquele momento.

Favela da Catacumba nos anos 1960. Fotografia de Anthony Leeds.
Acervo da FIOCRUZ, Rio de Janeiro.

Na dissertação, Machado agrupou diferentes autores da literatura sobre a marginalidade urbana em três modelos. O primeiro, marxista mais clássico, faria suas análises a nível do modo de produção e buscaria criticar como as relações de produção determinariam a estrutura social. O segundo modelo partiria da organização técnica da produção e setorizaria as atividades econômicas em modernas e tradicionais. O terceiro e último modelo, por sua vez, se situaria ao nível do processo de modernização e enfatizaria a carência de integração dos trabalhadores não assalariados. Os segmentos de trabalhadores marginais seriam, então, ora residuais, parte do exército de reserva que se reduziria conforme a industrialização avançasse, ora disfuncionais, improdutivos ou não integrados ao assalariamento e ao estilo de vida urbano.

Visto da perspectiva do trabalhador e de seus esforços para obter e manter empregos, o mercado de trabalho se diferenciaria em torno de dois tipos de empregadores: as firmas e os clientes. Com as primeiras, a subordinação se daria pelo controle das jornadas de trabalho e, com os segundos, pela necessidade de cultivo das relações. Problematizando categorias de classificação das estatísticas oficiais, o conceito de valor-trabalho e os enquadramentos jurídicos então existentes, Machado denominou os dois segmentos de mercado por oposição: mercado formalizado (MF) e mercado não formalizado (MNF). De maneira inovadora, reconheceu a institucionalização de ambos os segmentos, mas os diferenciou pelo grau de flexibilidade nas relações de trabalho: no MF, o controle do tempo e o valor do trabalho estavam regulados por contratos, ao passo que, no MNF, clientes, preços e tempo eram administrados pelo próprio trabalhador.

Deslocando, então, seu olhar para a racionalidade dos trabalhadores na manipulação de suas chances de mercado, Machado lançou atenção à experiência cotidiana e ao uso do tempo. Esse ângulo lhe permitiu “enfocar uma série de relacionamentos de cunho econômico, que ficariam obscurecidos por uma abordagem mais formal do tempo útil do trabalho”. Muitas relações sociais, como as ajudas, as amizades e as relações de vizinhança, assumiam, no cotidiano dos trabalhadores, significado econômico. E não raro a separação do tempo de trabalho e do tempo livre encobria prolongamentos de jornadas. Na “conta corrente de favores” cotidiana, o indivíduo que vendia sua força de trabalho aparecia integrado a uma unidade social maior, que alocava pessoas, tempos e dinheiros segundo estratégias próprias. Como Machado descreve, aposentadorias e férias eram, muitas vezes, empregadas na criação de pequenos negócios ou na compra de instrumentos de trabalho para prestação de serviços por conta própria que ficavam sob o encargo de parentes. Por seu papel de administradora do ganho da vida, Machado tomou então a família como uma “unidade econômica básica”. Em seu seio, estariam conciliadas atividades e rendimentos oriundos do MF e do MNF.

Se, por um lado, as dinâmicas de cada um desses segmentos de mercado eram distintas nos anos 1960, por outro lado, existia um “continuum de empregos”, com três importantes articulações entre eles. Não só a entrada no mercado de trabalho se dava massivamente pelo mercado não formalizado, como havia transferência frequente entre o assalariamento e o trabalho por conta própria, além de conciliação das duas situações de trabalho dentro da família. Além da inovação da estratégia metodológica, esse argumento fez importante contribuição na época. No campo da sociologia brasileira, a tese do “continuum de empregos” criticou a oposição entre assalariamento e trabalho por conta própria. O “desejo de independência”, suposta reminiscência cultural dos migrantes rurais que chegavam às grandes cidades, seria, se analisadas as experiências cotidianas dos trabalhadores, uma forma de obtenção de renda complementar e subordinada ao assalariamento. Se a dissertação tivesse circulado internacionalmente, Machado antecederia em dois anos a discussão levantada pelo antropólogo Keith Hart em seu famoso artigo “Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana”.

Após a defesa da dissertação, Machado continuou estudando condições de trabalho e estratégias de vida das camadas populares urbanas, no Rio e em outras cidades. Foi membro da equipe da pesquisa Mudança Social no Nordeste, coordenada pelo antropólogo Moacir Palmeira, e escreveu sobre pequenos negócios e as formas de subordinação nas relações não assalariadas. Em 1978, organizou a coletânea Estratos ocupacionais de baixa renda, com artigos sobre o cotidiano de trabalho de empregadas domésticas, costureiras, pedreiros, balconistas e ambulantes, os cinco segmentos que concentravam o maior número de trabalhadores com renda igual ou inferior a dois salários mínimos. Em 1984, organizou a publicação Condições de vida das camadas populares (série Debates Urbanos do Iuperj), tomando as famílias trabalhadoras como unidades de análise das escolhas feitas pelos indivíduos no mercado de trabalho.

Após um período dedicado ao tema da violência urbana, Machado voltou a discutir a informalidade em seu artigo “Da informalidade à empregabilidade (reorganizando a dominação no mundo do trabalho)”, publicado originalmente em 2002 e republicado em O mundo popular. Preocupado com o desmanche do assalariamento como regime de integração social (mais do que como contrato de trabalho), Machado fez uma importante revisão teórica da discussão acumulada sobre o problema do desenvolvimento. De categoria residual que abarcava todas as formas não assalariadas, quando escreveu sua dissertação, a informalidade teria se tornado uma categoria vazia, que, no início do século XXI, englobava realidades tão diversas como o bom e velho trabalho por conta própria, o empreendedor de classe média e novas formas de terceirização.

A perspectiva teórica que enfatiza as experiências e as culturas de trabalho, caras aos historiadores, não forneceu elementos fundamentais apenas para a compreensão da industrialização e urbanização no período nacional-desenvolvimentista.  Frente a tantas transformações recentes no mundo do trabalho, cabe repensar a atualidade da discussão sobre a marginalização feita por Machado. Ainda que a informalidade tenha encontrado certa inércia, nas últimas décadas, com gerações de trabalhadores entrando, se capacitando e se mantendo ao longo da vida no mercado não formalizado, como apontou o sociólogo Adalberto Cardoso, o modelo de análise de Machado continua válido cinquenta anos depois. A atenção ao cotidiano e o recorte da família como unidade econômica são pilares de uma perspectiva analítica profícua para a compreensão das condições de trabalho contemporâneas. Hoje, em meio a tantas transformações, com o empresariamento e a pejotização dos trabalhadores, voltar a investigar os usos do tempo e a “conta corrente de favores” das famílias trabalhadoras talvez seja um caminho para os estudos contemporâneos sobre os mundos do trabalho da informalidade urbana.

¹ Professora do Departamento de Sociologia da UFRJ

Referências bibliográficas

CARDOSO, Adalberto, 2013. Ensaios de sociologia do mercado de trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV.

HART, Keith. Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana. The Journal of Modern African Studies, Vol. 11, No. 1 (Mar., 1973), pp. 61-89.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio (org.), 1978. Estratos ocupacionais de baixa renda. Rio de Janeiro:Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, EdUCAM.

_______, 1984. Introdução. Em: Condições de Vida das Camadas Populares. Rio de Janeiro: Zahar Editora.

________, 2002. Da Informalidade à Empregabilidade: Reorganizando a Dominação no Mundo do Trabalho. Cadernos do CRH, 37(37), pp. 81-109.

________, 2018; CAVALCANTI, M., MOTTA, E. e ARAUJO, M. (org.). O mundo popular: trabalho e condições de vida. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens.

PALMEIRA, Moacir (org.), 1979. Mudança social no Nordeste: reprodução da subordinação (estudo de trabalhadores urbanos). Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Crédito da foto de capa: Luiz Antonio Machado da Silva, em 2011. Fotografia de Alexandre Werneck.

Artigo “Favelas e a história urbana do Rio de Janeiro e Belo Horizonte” – Samuel Oliveira

O artigo, publicado por Samuel Oliveira na Revista de História Comparada (volume 14, número 1), analisa a formação das favelas no Rio de Janeiro e Belo Horizonte entre as décadas de 1890 e 1920.

A análise compara o surgimento do topônimo “favela” para nomear a pobreza urbana nas duas cidades, compreendendo como as reformas urbanas e as transformações sociais do início do século XX afetaram as relações de classe e raça no cotidiano das duas cidades. A palavra “favela” designava um estigma social imputado aos trabalhadores que enfrentavam condições adversas para estabelecer suas moradias no espaço urbano.

Fonte: BACKHAUSER, Everaldo. “Onde moram os pobres?”. Renascença. Rio de Janeiro, 13/03/1905. p. 90- 91.

Samuel Oliveira é pesquisador do LEHMT-UFRJ e professor no CEFET-RJ e possuí vários trabalhos enfocando a história social das favelas e a política urbana ao longo do século XX.

Link do artigo disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/RevistaHistoriaComparada/article/view/34572

Crédito da imagem de capa: MELLO, Thiz G. Antiga “Favella” de 1897, [1896-1897], Fotografia em Gelatina, 16,6 x 23 cm. Museu Histórico Abílio Barreto. Fundo Comissão Construtora da Nova Capital. CCFot1896010.             

Pesquisadores publicam dossiê sobre trabalho têxtil no Brasil

Um dos setores pioneiros na industrialização brasileira se tornou tema de um dossiê na Revista Tempo & Argumento em sua mais nova edição (volume 12, número 30, 2020). Traçando conexões com a atualidade, como o setor têxtil de vestuário jeans no agreste pernambucano – retratado no filme “Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar” – mas mergulhando no passado das fábricas de tecido pelo país afora, o dossiê convida leitoras e leitores a visitarem instigantes histórias do trabalho têxtil no afã de estimular reflexões sobre as precárias relações de trabalho que se anunciam no presente.

Organizado pelos professores Murilo Leal Pereira Neto (da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP e pesquisador associado do LEHMT-UFRJ), Lucas Porto Marchesini Torres (Visiting Scholar na Duke University) e Felipe Ribeiro (da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e pesquisador do LEHMT-UFRJ), o dossiê “Estudos recentes sobre os mundos do trabalho têxtil no Brasil” reúne seis artigos que oferecem uma visão ampla e rica dos mundos do trabalho no país ao longo do século XX, seja pela variedade de regiões estudadas, pela amplitude das fontes pesquisadas, como também pelas temáticas abordadas, como trabalho infantil e feminino, sociabilidades e festividades, condições de trabalho e tensões entre operários e administração fabril, além de processos de desindustrialização. Além dos seis artigos, o dossiê também traz importante entrevista com o antropólogo José Sérgio Leite Lopes (UFRJ), autor de obras que inspiram muitas das pesquisas que abastecem o dossiê, além de outras tantas. Vale a pena conhecer a “tecelagem” desse antropólogo do trabalho.

Para conferir o novo número da Revista Tempo & Argumento, basta acessar: https://doi.org/10.5965/2175180312302020

Crédito da imagem de capa: Capa da Revista Tempo & Argumento v.12 n.30 (2020)

História do trabalho é destaque em reportagem do Globo Esporte sobre jogador operário

Está em pauta o debate sobre posicionamento político de atletas, em variadas modalidades esportivas. O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, por exemplo, tem ocupado um papel de destaque na luta contra o racismo a cada corrida aos domingos, enfrentando várias tentativas de proibição às suas manifestações. Já a jogadora de vôlei Carol Solberg será julgada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ter se posicionado de forma crítica ao presidente da República durante o circuito brasileiro da modalidade. Antenado a essas questões do presente e inspirado na instigante trajetória de um jogador de futebol que também foi líder operário, o repórter do Globo Esporte Brenno Costa apresentou a saga de Eugenio Chemp, um goleador russo que se destacou no São Paulo, Botafogo e Náutico, também como metalúrgico, dirigente sindical e militante comunista, sendo perseguido pela ditadura militar brasileira.

Para a elaboração dessa reportagem especial, publicada em texto no site do GE e em podcast no programa Embolada, Brenno Costa contou com a colaboração de historiadoras e historiadores sociais do trabalho que se depararam com a trajetória de Eugenio Chemp em suas pesquisas, além de reunir inúmeros documentos importantes sobre ele. Assim, o repórter conseguiu articular histórias marcantes do esporte e da política na vida desse atleta operário.  

O professor Felipe Ribeiro (da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e pesquisador do LEHMT-UFRJ) relatou sobre uma entrevista concedida por um antigo tecelão e jogador do Andorinhas Futebol Clube, que mencionou a passagem de Eugenio Chemp como operário de uma fábrica de tecidos em Magé/RJ, quando também atuou no time dos trabalhadores locais, em meados da década de 1940, logo após sua saída do futebol profissional por conta de polêmicas sobre seu registro de estrangeiro no Brasil.  

Já Murilo Leal Pereira Neto (professor da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP e pesquisador associado do LEHMT-UFRJ) ressaltou a atuação de Chemp no sindicato dos metalúrgicos de São Paulo nas décadas de 1950 e 60, quando tornou-se dirigente da entidade e líder da categoria, com presença marcante em assembleias, greves e artigos publicados em jornais operários da época.

Larissa Rosa Correa (professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e pesquisadora associada do LEHMT-UFRJ) destacou a participação de Eugenio Chemp na “Greve dos 700 mil”, ocorrida em 1963 e que foi decisiva para o fortalecimento do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), organização intersindical bastante atuante em diversas lutas trabalhistas no período. Com o golpe de 1964, porém, a vida de Chemp e seus companheiros sofreu um duro revés, contexto que também foi abordado pela reportagem em uma entrevista inédita com Rosana Maria Chemp, filha de Eugenio.

Para conferir a reportagem publicada no site do Globo Esporte:

A versão podcast está disponível na plataforma Spotify:

Crédito da imagem de capa: Reprodução – montagem da equipe do Globo Esporte (Recife/PE)